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Expresso

Mês do Ambiente 2015

Obama quer acordo antes que seja tarde

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O degelo da Gronelândia 
pode provocar uma subida do nível do mar de oito metros. 
O que farão os líderes mundiais reunidos em Paris para impedir uma potencial catástrofe?

Michelle Valberg

Clima: EUA impõem três condições para acordo na Conferência sobre Alterações Climáticas de Paris e revelam que 150 países, de um total de 190 participantes, estão ao seu lado

Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA

Brandon Overstreet é uma mistura de cientista excêntrico com desportista radical, cujo escritório preferido são as margens íngremes dos rios do Oeste americano, onde passa horas pendurado em pequenas cordas, concentrado em medições e análises.

A fama de destemido deste mestre em Geologia e doutorando em Geografia chegou aos ouvidos de Lawrence Smith e Vena Shu, professores na Universidade da Califórnia, que preparam uma missão à Gronelândia para calcular a velocidade do degelo. A ajuda de Brandon será decisiva.

Os últimos dados indicam que a multiplicação de rios e lagos na superfície da maior ilha do mundo é significativa, o que pode indiciar uma injeção de água no oceano superior à prevista. Caso tal se confirme, teme-se uma subida do nível do mar.
No dia da partida, há quatro meses, foram despachados milhares de quilos de equipamento eletrónico, com destaque para os dois drones que ajudariam a mapear o terreno.

“Quando chegámos, nem queríamos acreditar no que víamos”, recorda Brandon ao Expresso. “Rios e rios jorrando torrentes em direção aos moulins, quedas de água que terminam em buracos sem fundo. O azul da água era único e contrastava nitidamente com o gelo. Ficámos com uma dúvida: toda aquela água segue para o mar ou parte dela volta a congelar?”

A equipa terá uma resposta nos próximos meses, assim que finalizar todos os cálculos, resultado de mais de quatro anos de trabalho na ilha inóspita.

“O degelo na Gronelândia é um dos maiores exemplos de mudanças observáveis no sistema climático. Há outros, como o aumento das ondas de calor no Médio Oriente, que podem tornar cidades como Meca inabitáveis, e o reforço da intensidade das tempestades”, explica-nos o professor da Universidade de Stanford Chris Field, um dos maiores especialistas americanos sobre alterações climáticas.
Em julho passado, esteve em Paris e liderou os trabalhos de uma reunião que juntou dois mil peritos internacionais e que serviu de preparação para a Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que ocorrerá entre 30 de novembro e 11 de dezembro, na capital francesa.

Segundo ele, o encontro do final do mês “será uma janela de oportunidade para lidar com as alterações climáticas a um custo sustentável. Se nada for feito, o preço de um plano de emergência aumenta a cada dia”.
Certezas e lacunas

A pouco mais de três semanas da conferência da ONU, o Expresso entrevistou vários peritos americanos, pedindo-lhes que avaliassem o estado do conhecimento na área das alterações climáticas.

O professor Field, por exemplo, destaca três factos consolidados: “O impacto é geral e consequente, pessoas, economias e ecossistemas tornaram-se vulneráveis e há a garantia de que, se as temperaturas continuarem a aumentar, o processo será irreversível.

Apesar das múltiplas investigações — só o Governo americano gasta mil milhões de dólares anuais para financiar expedições como a de Brandon Overstreet —, a comunidade científica reconhece que existem lacunas.

“Por exemplo, desconhecemos a rapidez da mudança e em que altura atingiremos um ponto de não retorno. Também não sabemos ao certo os efeitos localizados da destruição”, afirma Sheila Jasanoff, investigadora e professora na Universidade de Harvard.

Chris Fields aponta para outro vazio: “O fenómeno é real, mas ainda não nos começámos a preparar para as consequências. Como é que vamos lidar com a falta de água para irrigação? Como é que vamos fazer uma justa distribuição dos direitos de acesso à água? Fruto da falta de água, surgirão vagas migratórias. Como é que vamos lidar com essa pressão e adaptar as nossas políticas de migração? E em caso de conflitos, o que fazer?”.

Casa Branca revela linha vermelha
Mesmo perante estes desafios, os Estados Unidos, que, entre as principais economias mundiais, permanecem como o maior emissor de gases com efeito de estufa (GEE) per capita, acreditam num acordo entre a maioria dos países representados na Conferência de Paris. Segundo documentos do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, a que o Expresso teve acesso, 150 dos 190 países convidados, responsáveis por mais de 90% das emissões globais, já aceitaram submeter-se ao processo liderado pela ONU.

Além disso, as promessas de compensação financeira aos países em vias de desenvolvimento serão cumpridas. “Dos 100 mil milhões prometidos, 64 mil milhões já foram distribuídos. Tudo será entregue até 2020, até porque o número de doadores está a aumentar”, lê-se.

Nesses mesmos documentos, Washington elogia a atitude da China, cujo Presidente, Hu Jintao, aceitou em setembro, durante uma visita oficial aos EUA, disponibilizar mais três mil milhões em ajuda às economias necessitadas. “Antigamente, China e Estados Unidos eram capitães de equipas diferentes. Isso mudou”, constatam as autoridades americanas.

Ao Expresso, Mark Stroh, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional (CSN), confirma o bom espírito na preparação para a conferência de Paris, mas coloca três condições para a assinatura de um acordo. “Cada país deve comprometer-se em agir individualmente, sem precisar de esperar pela comunidade internacional. O entendimento terá de ser universal, evitando colocar países ricos e pobres em níveis diferentes. E, por fim, os relatórios sobre progressos devem ser transparentes”.

Caso tal não aconteça, o CSN alerta para uma linha vermelha, “onde teremos, se nada for feito, um aumento das temperaturas entre 4,1% a 4,7% até final do século”. Vena Shu recusa falar de tal cenário. “O degelo completo na Gronelândia provocará um aumento de oito metros do nível do mar. Aquilo é uma relíquia da idade do gelo. Uma vez desaparecida, nunca mais voltará.”

O professor Field não hesita em tornar este cenário ainda mais assustador. “Temos de somar cinco metros a esses oito. Se estivermos a falar de um aumento das temperaturas na ordem dos cinco graus, então temos de somar o degelo na Gronelândia ao degelo na Antártida ocidental. A subida será de 13 metros!”

TRÊS PERGUNTAS A:

John Elkington, Presidente executivo da Volans (Reino Unido)

O que pretende ilustrar com o seu livro mais recente, após dezenas de trabalhos e publicações?

A obra, que se chama “The Breakthrough Challenge”, é sobre os desafios mais importantes do futuro que as empresas devem considerar. Começou como uma série de conversas entre mim e Jochen Zeitz, que já foi presidente e CEO da Puma e é o coautor deste trabalho. Conhecemo-nos na Suíça através do fundador da Virgin, Richard Branson. Construímos o livro à volta de dez grandes prioridades que foram discutidas com algumas grandes figuras do mundo dos negócios como Paul Polman, da Unilever, ou Arianna Huffington, do “Huffington Post”. A principal mensagem é que nos devemos focar nas soluções mais inovadoras e disruptivas para enfrentar os grandes problemas ambientais, sociais e de governação a nível mundial.

Como olha para o panorama global das soluções empresariais sustentáveis?

Fizemos bons progressos ao longo das duas últimas décadas, mas a maioria das mudanças foi meramente marginal, passo a passo, quando o que é cada vez mais necessário são alterações exponenciais — se o nosso objetivo é acompanhar a natureza e escala dos desafios que nos esperam. 2015 pode ser um ano marcante, com o lançamento das metas de desenvolvimento sustentável da ONU e a cimeira climática COP 21, mas nada aqui é automático: temos de acelerar os nossos esforços e olhar para outras direções.

Quais são os grandes desafios que vamos enfrentar nos próximos dez anos?

As três prioridades mais urgentes são as migrações forçadas, a pobreza extrema, e o aceleramento das alterações climáticas, mas outras áreas que requerem uma ação concertada, sustentada e efetiva incluem tudo o que está ligado à energia, saúde, nutrição, educação, segurança social e o estado das florestas e oceanos. Só o facto de existirem não menos do que 17 metas de desenvolvimento sustentável da ONU ilustra a escala das mudanças sistémicas que enfrentamos. Estou confiante de que podemos estar à altura desta realidade, mas eu sou um otimista incurável. Nada no nosso mundo se move em linhas rígidas, pelo que a próxima década vai ser muito interessante. Tudo somado, não temos outra escolha senão fazer o máximo para que tudo funcione pelo melhor — a bem dos nossos filhos e de todas as espécies da Terra.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 7 de novembro de 2015