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Portugal Moçambique - Ligações Fortes

CGD e BPI procuram novo parceiro para o BCI

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Os últimos anos ficaram marcados por um ciclo 
de investimento 
da banca, 
na expansão 
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Acelerar: BIM e BCI, liderados por capital português, controlam mais de metade da banca moçambicana

Lázaro Mabunda

Lázaro Mabunda

Jornalista, correspondente em Maputo

O sector financeiro é, desde há vários anos, um dos mais dinâmicos da economia moçambicana e os bancos portugueses, aliados a parceiros locais, têm tido um papel relevante na modernização do sector. Aliás, são eles que o lideram. É inequívoco, a banca tem sido uma das áreas a puxar pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de Moçambique que, em 2014, manteve-se acima dos 7%, tal como acontece desde 2011. Sinal desta dinâmica, os depósitos bancários no país, uma economia ainda pouco bancarizada, atingiram 45,3% do PIB em 2013, o que compara com apenas 22,5% em 2004.

É o Millennium bim que, desde a privatização do sector, lidera a banca em Moçambique, um lugar que está a ser disputado pelo BCI, banco que resulta de uma parceria entre a Caixa Geral de Depósitos (CGD), BPI e o grupo moçambicano Insitec.
A agitação é grande no sector, não só porque o BCI está a morder os calcanhares ao banco controlado pelo BCP, como também se preparam mudanças de fundo na estrutura acionista deste banco moçambicano, liderado pela Caixa (51%). É que, ao que o Expresso sabe, o grupo privado Insitec está a preparar a venda da sua participação de 18,12% no BCI, onde entrou em 2007, na altura em que o Estado português saiu da Hidroelétrica de Cahora Bassa (HCB).

A saída do grupo Insitec está em curso há algum tempo por razões que poderão estar relacionadas com o facto de o seu presidente, Celso Correia, se ter tornado o poderoso ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural do governo de Filipe Nyusi. A retirada da Insitec do BCI, que no passado equacionou comprar a participação de 51% da CGD, está a ser estudada há meses e tem até já candidatos, cujo nome não foi possível apurar.

A Caixa não está aparentemente interessada em reforçar a sua posição de 51%. E o BPI também dificilmente alterará a participação de 30% que detém no capital do BCI, até porque, sem saber se a fusão BCP/BPI avança, o banco está num impasse nesta matéria e não vai reforçar a posição num país onde o BCP tem já um banco, por sinal o maior. Sobre a venda da participação da Insitec, a Caixa e o BPI nada dizem.
Perspetivas positivas

“As perspetivas para a economia e para o sistema financeiro de Moçambique são boas. A economia vai crescer e o sistema financeiro vai crescer com ela”, afirma Gonçalo Quintino, sócio da Deloitte. Para este ano, a projeção é de um crescimento da economia também em torno dos 7%. Especialista no mercado moçambicano, Quintino nota, contudo, que o ritmo deste crescimento não é tão alto como se previa há dois anos, porque “a redução do preço do gás, de que Moçambique é produtor, refreou vários investimentos”.

A aposta tem gerado resultados para os grupos portugueses. O Millennium bim contava com 168 agências em junho deste ano (mais nove do que há um ano) e alcançou €47,9 milhões de resultados líquidos no primeiro semestre, mais 5,5% do que no mesmo período de 2014. Mais, a rentabilidade do capital, medida pelo Return on Equity, atingiu os 21%. Os recursos de clientes subiram 22,1% e o crédito a clientes cresceu 11,4%. O banco tem uma “história de sucesso”, com 20 anos, assente no que o diz ser uma “parceria exemplar”, entre o Millennium BCP e o Estado moçambicano (que tem 17,1% do capital). “É nossa convicção continuar a registar um crescimento em torno dos dois dígitos, o que nos deverá permitir manter uma rentabilidade dos capitais próprios em torno de 20%”, diz fonte do banco.

A meta do Millennium bim é crescer com a economia moçambicana. Para isso, “temos captado vários projetos de investimento para Moçambique — em conjunto com a banca de investimento do Millennium BCP —, somos líderes no segmento empresarial e temos o maior número de clientes (1,22 milhões), suportados pela grande presença em todas as províncias do país”, salienta.

Correr pela liderança
O BCI também está empenhado em crescer em Moçambique e a Caixa fez questão de o sublinhar na apresentação dos resultados do primeiro semestre, onde avançou que este ano já abriu 30 balcões e contratou 490 pessoas e assumiu estar a disputar a liderança com o bim.

“A Caixa está muito satisfeita com a evolução e o desempenho do BCI, que disputa a liderança do sector em Moçambique. O BCI tem vindo a crescer de forma sustentável e a alargar a sua presença, sendo o banco com maior cobertura geográfica e contribuindo para a bancarização do país. É também fundamental para a Caixa, e naturalmente para o BCI, a cada vez maior interação com os mercados subsarianos, nomeadamente com Angola e África do Sul, através do banco Mercantile, detido integralmente pela Caixa e o Banco Caixa Angola”, sublinha Nuno Fernandes Thomaz, vice-presidente da CGD e responsável pela área internacional do banco.

O BCI contava com uma rede de agências com 168 balcões no final de 2014, mais de um milhão de clientes. O BCI, com uma quota de mercado de cerca de 30% , contribuiu para os resultados da Caixa com €8,6 milhões no primeiro semestre deste ano. O banco tinha 2456 trabalhadores no final de 2014 e teve um crescimento dos depósitos de dois dígitos nos primeiros seis meses deste ano.

Estes dois bancos “disputam a liderança do mercado moçambicano e vão continuar a fazê-lo, com o BCI a aproximar-se do Bim nos últimos anos”, refereGonçalo Quintino. Até porque contam com uma grande estrutura comercial, que lhes permite concentrar a maioria da liquidez do mercado, em termos de recursos de clientes, colocando-os numa posição privilegiada para a concessão de crédito, lembra o sócio da Deloitte, salientando que as duas instituições mantêm, contudo, “uma política de crédito cuidadosa”. Juntas controlam cerca de 60% do sistema financeiro moçambicano.

Moza também quer crescer
O Moza Banco, onde o Novo Banco tem 49%, tem uma quota de mercado acima dos 6,5%. Contando com uma rede de cerca de meia centena de unidades de negócio espalhadas pelo país, o banco “tem vindo a crescer”, frisa Gonçalo Quintino. E pretende continuar nessa rota. Para isso, tem vindo a reforçar a sua presença nas principais cidades, desenvolvendo uma rede de agências locais. Em 2014, por exemplo, foram inaugurados oito balcões e a evolução da atividade ficou marcada “por fortes níveis de crescimento, com um aumento de 59% do ativo líquido, para €594 milhões, sendo já o quarto maior banco em Moçambique em total de ativos”, destacou o Novo Banco na apresentação de contas relativas a 2014.

Para o Novo Banco, “a participação no Moza Banco reforça a presença do grupo em África e posiciona o Novo Banco para participar ativamente no crescimento de Moçambique”. Contudo, há uma grande interrogação em torno do Moza: a sua estrutura acionista, já que o Novo Banco está em processo de venda.
Certo é que os bancos com capital português “continuam a ser os mais preponderantes em termos de banca comercial em Moçambique e prevê-se que continuem assim”, remata Gonçalo Quintino.

Ligações fortes: Portugal investe em Moçambique (3)

Nos últimos dois anos (2013 e 2014), o Millennium bim foi considerado pelas revistas “African Banker”, “Banker’s Almanac” e “The Banker Database” um dos 100 melhores bancos africanos e o “Banco Mais Inovador em África” pelo seu desempenho no “desenvolvimento de processos, produtos e serviços com maior inovação no sector bancário ao nível do continente africano”.

O Millennium bim constitui a face mais visíveis do domínio português no sector em Moçambique. Anteriormente designada Banco Comercial de Moçambique (BCM), há 20 anos foi privatizada pelo Millennium BCP de Portugal. Na altura não se imaginava que se pudesse tornar um dos bancos de referência em África.

É o maior grupo financeiro moçambicano, é líder do mercado bancário moçambicano com maiores ativos totais, depósitos e crédito; e conta com a maior rede de balcões, ATM e POS. Depois das instituições financeiras sul-africanas e angolanas é considerado o maior banco ao nível da região austral de África (SADC). No ano passado, O Millennium bim foi considerado pela “Global Finance”, pela quinta vez consecutiva, o “Melhor Banco de Moçambique”.

O relatório e contas do Millennium bim de 2014 revela que apesar da forte envolvente concorrencial, este banco “atingiu em 2014 um resultado líquido consolidado de 3,68 mil milhões de meticais, um aumento de 7% face ao período homólogo, permitindo uma rendibilidade dos capitais próprios (ROE) de 22,3% e um rácio de eficiência nos 44,3%.” No mesmo exercício económico, o crédito a clientes registou um crescimento de 18% face a 2013, tendo atingido os 59,9 mil milhões de meticais (€1,5 mil milhões), enquanto os recursos de clientes aumentaram 19%, cifrando-se nos 78,2 mil milhões de meticais (€1,96 mil milhões).

A margem financeira aumentou 16% impulsionada pelo efeito positivo do volume dos ativos geradores de juros, em particular do crédito concedido e dos ativos financeiros disponíveis para venda, “não obstante o efeito da taxa de juro desfavorável decorrente da descida da taxa de juro de mercado”, considera o relatório. O crescimento também foi registado nos investimentos em novos balcões. Entre 2011 e o primeiro semestre de 2015, o número de balcões passou dos anteriores 138 para 168. Nesse período, o número de clientes subiu de 1.024.000 para 1.306.000. Igualmente cresceu o número de colaboradores dos anteriores 2230, em 2011, para os atuais 2367, em 2014.

O Millennium bim nasceu de uma parceria estratégica entre o Banco Comercial Português, atualmente Millennium bcp, e o Estado moçambicano. Na sequência das alterações ao nível da estrutura acionista do Banco Comercial de Moçambique (BCM), o principal acionista do BIM-Banco Internacional de Moçambique, o Banco Comercial Português (BCP), viria a tornar-se o acionista de referência do BCM e do Banco Internacional de Moçambique. Esta evolução determinou a necessidade de se proceder à reorganização das estruturas na vertente operacional e comercial das respetivas instituições.
Nesse âmbito, deu-se início a projetos de racionalização e unificação de estruturas. Em 2001 foi concluído o processo de fusão entre os dois bancos. Já em 2006, o Banco Comercial Português assume a marca Millennium em todas as geografias onde estava presente. Em alinhamento, o Banco Internacional de Moçambique passa a ser Millennium bim como marca comercial.

Outros exemplos no país

BCI a crescer
Fundado em 1996 como um pequeno banco de Investimentos, o BCI é detido maioritariamente pela Caixa Geral de Depósitos com 51% e pelo Grupo BPI com 30 por cento. Segue-se o grupo moçambicano INSITEC, com 18,12% das ações. O relatório e contas do BCI revela que os ativos deste banco cresceram quase o dobro em quatro anos (2011-2014).

Moza premiada
O Moza Banco iniciou a sua atividade em 2008. Em 2012 foi classificado pela revista “The Banker” como o quinto banco em África que mais cresceu em termos de ativos. Mais recentemente foi galardoado pela publicação de especialidade na área financeira, “Global Banking and Finance Review”, como o b﷯anco comercial moçambicano com o mais rápido crescimento em 2014. O Moza Banco ocupa a quarta posição no ranking bancário nacional, com uma quota de mercado de 5,4. De 10,626 clientes em 2012, o Moza Banco possuía 35,368 clientes até dezembro de 2014, um crescimento médio de 82,5% ao ano. O Moza Banco é detido maioritariamente por capitais moçambicanos e pelo BES África, com capitais portugueses.