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Portugal Moçambique - Ligações Fortes

Uma maratona de energia e capital

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A REN detém 7,5% da Hidroelétrica de Cahora Bassa, projeto de referência na rede energética moçambicana

António Pedro Ferreira

Infraestruturas: desafios de Moçambique são oportunidades para várias empresas portuguesas

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Lázaro Mabunda

Lázaro Mabunda

Jornalista, correspondente em Maputo

O investimento em energia e infraestruturas é uma corrida de fundo. Exige músculo financeiro, resistência e capacidade de planear a longo prazo. A abundância de recursos naturais em Moçambique dá ao país uma promessa de desenvolvimento, mas a concretização desse potencial dependerá, em larga medida, da resposta do país na maratona da infraestruturação. Uma corrida que já atraiu várias empresas portuguesas.
O Governo moçambicano identificou duas dezenas de oportunidades na área das infraestruturas e energia, que implicarão investimentos de 10 mil milhões de dólares (cerca de €9 mil milhões). Este leque de empreendimentos inclui, entre outros, um porto em Maputo, um aeroporto em Cabo Delgado, barragens em Sofala, Manica e Niassa, e centrais termoelétricas a carvão na província de Tete.

A lista de oportunidades do Governo tem ainda um ambicioso projeto, conhecido como a “espinha dorsal” da rede elétrica moçambicana. Trata-se da construção de uma rede de muito alta tensão de mais de 1300 quilómetros que está avaliada em quase 1,9 mil milhões de dólares (€1,7 mil milhões). E na qual a portuguesa REN — Redes Energéticas Nacionais quer estar.
O projeto da “espinha dorsal” da eletrificação de Moçambique, contudo, ainda não saiu do papel. A REN tem 14% do consórcio promotor, a chinesa State Grid tem 46%, a sul-africana Eskom 20% e a moçambicana EDM outros 20%. “Os timings do projeto não dependem do consórcio, e a REN continua fortemente empenhada no apoio ao desenvolvimento das infraestruturas de transporte de eletricidade em Moçambique”, sublinhou fonte da empresa ao Expresso.

A ligação da REN a Moçambique resultou de um processo que envolveu os mais altos responsáveis governamentais dos dois países. Em 2012, a REN comprou metade da participação do Estado português na HCB — Hidroelétrica de Cahora Bassa, sendo a outra metade adquirida pela Companhia Elétrica do Zambeze. Os 7,5% da HCB custaram à REN €38,5 milhões e são hoje uma participação financeira que rende dividendos. Mas o cheque pago pela empresa portuguesa funciona também como garantia do interesse luso em participar no desenvolvimento futuro da rede.

A REN, aliás, tem trabalhado na formação de quadros moçambicanos e no desenvolvimento de competências locais, além de ter contribuído para o Código da Rede Elétrica Nacional, que estipula as regras de gestão da rede moçambicana.

A “espinha dorsal” será essencial para levar a todo o país e à África do Sul a energia produzida nas futuras centrais a carvão de Moatize e Benga e na barragem de Cahora Bassa Norte. Empreendimentos que, pela sua dimensão, poderão gerar importantes oportunidades de negócio para empresas de construção e de equipamentos de energia. E Portugal tem vários grupos com interesses nessas áreas.

Moçambique a todo o gás
Outro foco promissor de desenvolvimento em Moçambique vem no Norte do país. Na bacia de Rovuma foi feita em 2011 uma das maiores descobertas mundiais de gás natural. O consórcio que explora a Área 4 dessa bacia é liderado pela italiana Eni e conta com a participação, a 10%, da Galp Energia.

Esta semana, na apresentação dos resultados do primeiro semestre, o presidente-executivo da Galp, Carlos Gomes da Silva, reiterou a esperança que a companhia portuguesa deposita em Moçambique. A falta de infraestruturas na região significa que a exploração de gás implicará avultados investimentos de raiz. E com isso deverão ser criadas novas atividades económicas. E postos de trabalho. “O onshore da Área 4 é uma zona remota, onde não há infraestruturas e tudo terá de ser levado para lá”, comentou o gestor.

Assim, o consórcio da Galp está a trabalhar com a perspetiva de na bacia de Rovuma começar por instalar uma plataforma flutuante para a extração e liquefação de gás natural, que deverá levar cerca de quatro anos até estar operacional. Será através dessa plataforma, a instalar no mar, que a Galp produzirá e exportará os seus primeiros volumes de gás em Moçambique.

Posteriormente, o consórcio deverá instalar em terra um terminal de receção e liquefação de gás, com capacidade para movimentar anualmente 13 mil milhões de metros cúbicos, cerca de três vezes o consumo anual de gás natural em Portugal. O agrupamento participado pela Galp terá ainda de avaliar o custo da execução destas infraestruturas. “A nossa decisão será tomada no primeiro semestre do próximo ano”, declarou na passada segunda-feira Carlos Gomes da Silva.

O presidente da Galp não tem dúvidas de que este terminal de gás a instalar na província de Cabo Delgado será crucial para Moçambique. “O projeto onshore é a âncora. É ele que vai condicionar o desenvolvimento de infraestruturas em Moçambique na próxima década”, declarou Gomes da Silva. A capacidade do terminal projetado pelo consórcio da Galp será replicada, também em Cabo Delgado, por um outro consórcio, liderado pela norte-americana Anadarko (que explora a Área 1 da bacia de Rovuma). No total, a infraestrutura de gás em Moçambique deverá implicar investimentos de 30 mil milhões de dólares, ou 27 mil milhões de euros.

Ligações fortes: Portugal investe em Moçambique (2)

A Soares da Costa é das empresas portuguesas mais cotadas na construção civil em Moçambique, numa primeira linha em que se encontram também a Teixeira Duarte e a Mota-Engil (ver caixa). No final do exercício de 2013, a carteira de encomendas da sociedade ascendia a €646,6, dos quais 89,4% dizem respeito a obras que a construtora portuguesa executa no mercado externo.

Moçambique representou 20% dessa carteira, com encomendas avaliadas em €128,6 milhões (19,9%), contra os €119,9 milhões (13,4%) de 2012. Moçambique apenas foi superado por Angola — registou €368,1 milhões (56,9%). Portugal ocupou a terceira posição na carteira de encomendas com €68,2 milhões (10,6%).
A Soares da Costa é também a empresa com maior volume de negócios das construtoras portuguesas: registou, em 2013, um volume de €76,9 milhões euros, o correspondente a 15,5% do total registado por todo o grupo. No volume de negócio a Soares da Costa em Moçambique só é superado por Angola (€230 milhões, equivalente a 46,3%) e Estados Unidos (84 milhões, correspondente a 16,9%).

E pode crescer mais. O relatório e contas da empresa portuguesa relativo ao primeiro semestre de 2014 refere que a atividade da participada Soares da Costa Moçambique, assinala um bom desenvolvimento no volume de negócios (+24%) e na carteira de encomendas, o que sugere a sustentabilidade de um patamar elevado dos negócios num horizonte próximo.

Um grupo em crescimento
Mas a Soares da Costa considera que Moçambique é, também, um mercado de intervenção de longa data e que nos anos mais recentes “tem vindo a assumir uma importância crescente não só pelo significado no volume de negócios e rentabilidade que passou a representar, mas também pela relevância, qualidade e importância das obras e projetos que têm sido desenvolvidas ou que se encontram em desenvolvimento.”

A atividade diretamente desenvolvida pela ‘casa-mãe’, a Soares da Costa, SA, está mais direcionada para os projetos internacionais, deixando as questões relacionadas com o país governado por Filipe Nyusi para a subsidiária de Soares da Costa Moçambique, SARL, detida pela Soares da Costa Construção, em 80%, estando a participação remanescente na titularidade do Estado de Moçambique.

Recentemente, a construtora portuguesa constituiu a Clear Moçambique, Instalações Eletromecânicas, Lda., uma sociedade de direito moçambicano, detida pelo grupo em 100%, tendo por objeto a exploração da indústria de construção civil, obras públicas e particulares, engenharia, instalações elétricas, eletrónicas, comunicações, climatização, hidráulicas, gás, mecânicas e eletromecânicas.

A Soares da Costa é uma empresa com perfil multinacional, operando simultaneamente em vários mercados, fruto de três décadas de experiência de atividade fora do mercado português. O processo de diversificação geográfica foi iniciado em 1979, começando na Venezuela, Angola e Guiné-Bissau e continuando depois para outros mercados.

Atualmente a construtora está focada em mercados de elevado potencial — Angola, Moçambique e Brasil — e opera “seletivamente” noutros países como São Tomé e Príncipe, Roménia, Omã, Suazilândia, entre outros. A empresa portuguesa emprega 3785 colaboradores, dos quais quase 60% desenvolvem a sua atividade em Angola e quase 20% em Moçambique.

Outros exemplos no país

Mota-Engil múltiplo
Está em Moçambique desde 1991. Através da sucursal da Mota-Engil Engenharia opera no segmento das obras públicas. Por intermédio da sua participada moçambicana, Emocil, atua igualmente no sector da construção civil. O grupo português tem ainda interesses na gestão de resíduos sólidos, logística, concessões ferroviárias e prospeção de mineração.

Teixeira Duarte há 33 anos
Em 1982, o grupo iniciou a atividade no país com a reparação da ponte sobre o rio Zambeze, em Tete. Desde aí tem vindo a manter uma posição de destaque nas obras públicas, que tem permitido o desenvolvimento de Moçambique, como o parque escolar e as vias de comunicação e pontes. E diversificou para outras áreas como concessões e serviços, imobiliária e hotelaria.

Betar está a ganhar espaço
Presente em Moçambique desde 2000, a MZ Betar tem vindo a assumir um papel importante na elaboração de projetos, estudos, consultoria e fiscalização nas áreas da Engenharia, Gestão e Ambiente. É participada pelo grupo português Betar. Está envolvido no projeto da Ponte Maputo-Katembe avaliado em pouco mais de €630 milhões.

Artigos originalmente publicados no Expresso Economia de 1 de agosto