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José Dionísio, co-CEO da Primavera BSS

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"Este contexto mais exigente não deve fazer vacilar qualquer empreendedor porque mais difícil do que lidar com um sonho fracassado, será lidar com a frustração de nunca se ter tentado a sua concretização"

Quando hoje, vinte e dois anos decorridos sobre a sua criação, me perguntam como e porque aconteceu a PRIMAVERA, como se justifica afinal o seu sucesso, só consigo encontrar três justificações: I) tínhamos sete anos de experiência no setor do software de gestão empresarial quando decidimos empreender; II) quisemos fazer algo de diferente (o primeiro software português para Windows); III) o mercado que tínhamos para conquistar era o português, já que no início da década de noventa não se falava de internacionalização nem de globalização.

Vale a pena aqui referir que a PRIMAVERA teve no seu primeiro ano de atividade um volume de negócio, convertido em euros, de cem mil euros. Algo muito raro de se ver nas startups de hoje. Fomos nessa altura uma startup (adjetivo que só muitos anos mais tarde me lembro de conhecer) criada por duas pessoas com sete anos de experiência. Desenvolvemos nos últimos quatro meses de 1993, sublinho, quatro meses, o produto que durante os primeiros doze meses de 1994 viria a vender o número referido.

Hoje, tendo a oportunidade de acompanhar com alguma proximidade um conjunto de startups, em alguns casos como investidor, muitas vezes como jurado avaliador do potencial das mesmas, tento descobrir entre as mesmas aquelas que conseguem ou conseguirão no ou nos primeiros anos realizar algum negócio. Infelizmente, raramente as encontro.

O que não mapeia afinal com a história que tive a oportunidade de viver na primeira pessoa e que tanto gostaria de ver nos atuais e novos projetos empresariais ligados às tecnologias?

Comecemos pelo mercado. Há vinte anos o desafio cingia-se ao mercado português. Era sem dúvida mais fácil encontrarmos uma ideia diferenciadora para um produto. Hoje, uma ideia original, constitui-se como um Santo Graal. O mercado é global (é o mundo) e tudo parece inventado.

Continuemos pela experiência profissional. Praticamente todos os casos de empreendedorismo sustentado no desenvolvimento de produtos (software) são liderados por jovens pós-universitários, sem experiência profissional. Jovens que sem dificuldade resolvem problemas de caris técnico, mas que não resolvem os desafios de caráter comercial. Na verdade, vender é algo que a universidade não ensina. E de nada serve desenvolver-se um bom produto se não se sabe como de seguida o vender.

Por outro lado, se desenvolver um produto de software continua a poder não exigir elevado financiamento (hoje como ontem quem empreende tem uma enorme capacidade de trabalho alimentada pelo sonho), para se ter algum sucesso comercial a uma escala global é necessário contar com pesados investimentos. Se em 1994 para vendermos cem mil euros de caixas de software, a sessenta euros cada uma, não precisámos de mais do que vinte mil euros de investimento, hoje estou certo de que para atingir esse volume de vendas teríamos que investir N vezes mais. E teríamos que ter uma outra habilidade comercial que não dependesse em exclusivo do networking nacional.

É mais difícil, por isso, responder a uma outra pergunta que raramente me é colocada: conseguiriam hoje fazer uma outra PRIMAVERA? Seria mais difícil, apesar de podermos contar com muito mais anos de experiência. Ainda assim, este contexto mais exigente não deve fazer vacilar qualquer empreendedor porque mais difícil do que lidar com um sonho fracassado, será lidar com a frustração de nunca se ter tentado a sua concretização.