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O realismo otimista dos empresários

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O debate na Alfândega 
do Porto prendeu a atenção 
da plateia, repleta de gestores 
e personalidades

Rui Duarte Silva

O sentimento dominante entre os gestores é de entusiasmo na expansão das empresas e confiança no futuro do país

É com confiança, otimismo e entusiasmo que os empresários que participaram na Conferência SIC Notícias & Caixa Geral de Depósitos que esta semana se realizou no Edifício da Alfândega, no Porto, encaram os desafios do Portugal 2016. Na síntese feliz de Francisco Pinto Balsemão, fundador da Impresa, o sentimento geral das intervenções oscilou entre “o otimismo realista e o realismo otimista” para antecipar o futuro do país e das empresas.

A nova realidade política não assusta o empresariado, confiante de que o incentivo à procura interna impulsionará os negócios e o investimento. Como referia num dos painéis, Pedro Tinoco Fraga, administrador da F3M Information Systems, um dos emblemas de Braga nas tecnologias de informação que exporta para 90 países, “os verdadeiros empresários não estão preocupados com ciclos políticos”. Traçam um rumo de longo prazo e “alheiam-se das quezílias do dia a dia”. Mas, o desígnio do “crescimento sustentável” terá sempre de assentar nos mercados externos e no reforço da inovação.

As empresas “não se podem distrair com fatores episódicos e concentrar toda a sua energia no sonho e visão que comanda o negócio”, refere Eugénio Santos (Colunex), um industrial da velha economia que se orgulha de ter a sua marca à venda no selecto Harrods, de Londres, e já destina mais de metade da produção de colchões e almofadas aos mercados externos. Ainda do universo PME, ficou o apelo da Ana Ambrósio (Tintas 2000) para que, depois de campanhas sucessivas, em 2016 se registe “uma preferente crescente dos consumidores pelos produtos made in Portugal”.

A tecnológica Think Pink (mobilidade digital) tem crescido as vendas a três dígitos e não admira que antecipe um exercício de 2016 muito cor-de-rosa. A queixa que o diretor Paulo Almeida partilhou com a plateia foi a de que as suas soluções são mais valorizadas e reconhecidas nos mercados externos do que em Portugal. O mercado doméstico “não paga o mesmo do que, por exemplo, o mercado britânico”.

Esta é um exemplo de uma empresa criado em plena época de austeridade e, como dizia o secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos “quem aguentou a última crise, aguenta tudo”. As empresas de fundação recente representam metade do novo emprego criado.

O fator digitalização
Carlos Melo Ribeiro, o presidente do universo Siemens há mais tempo em funções, contou um episódio que demonstra que o entusiasmo doméstico poderá esbarrar no ceticismo internacional. Numa reunião recente de quadros na Alemanha, o representante de uma seguradora europeia advertia que nos primeiros meses de 2016 “os investimentos em Portugal ficariam suspensos” a ver o rumo que o país seguirá.

O senhor Siemens em Portugal “acha ótimo” que se baixem os impostos e não fica assustado com a nova agenda política. “É preciso adotar uma estratégia de futuro e unir esforços para que ela dê certo”, defende o gestor, sem, todavia, “entrar em euforias, nem aventuras”. Empresas e famílias “ não podem gastar tudo, e precisam de guardar sempre dinheiro para investir”.

António Portela (Bial) partilha o otimismo de Melo Ribeiro e lembra que a sua empresa já paga salários acima da média nacional. As empresas que gerem mais fluxo financeiro e mais valor acrescentado “podem remunerar melhor e lançar novos projetos”. A Bial estará focada “em obter ganhos de produtividade e reforçar a expansão, combinando o lançamento de novos produtos com a entrada em novos mercados”, diz António Portela.

Melo Ribeiro aponta um novo fator favorável à economia portuguesa. O país está bem posicionado na “capacidade de digitalização” e pode beneficiar desse mérito para “atrair investimentos estrangeiro, tornando irrelevante o seu caráter periférico” e para se destacar “na economia de partilha”.

E se a atual solução governativa falhar, Melo Ribeiro acredita que será retomada a grande aliança entre PS e a coligação PSD/CDS e “se forme uma maioria sólida de 80% do eleitorado”, assente num pacto para duas legislaturas.

Soluções de capital
Em 2016, o mundo empresarial falará menos de financiamento bancário e mais de soluções de capital. O Governo prepara fundos de capital de risco com dinheiro comunitário para criar um ambiente mais favorável ao empreendedorismo e ao lançamento de novos projetos.

Nas empresas em atividade, as soluções de capital nem sempre funcionam. José Cabral dos Santos, administrador da CGD, verifica que “quando as empresas estão bem os empresários não querem partilhar o capital e só quando estão aflitos procuram novos acionistas para salvar a empresa”.

A Caixa Capital promoveu novas empresas ”em que se encontram investidores de todo o mundo”. Com “a depuração dos sectores” forçada pela crise, o ambiente empresarial tornou-se mais saudável e competitivo.

Na abertura da conferência, já o presidente da CGD, José de Matos, deixara boas notícias aos empresários. A CGD tem a ambição reforçar de 17,5% para 20% a sua quota no mercado de crédito, tem uma taxa média em operações ativas que é a mais baixa do mercado e beneficia “de uma situação de liquidez robusta” que lhe permite continuar “a apoiar a internacionalização e a lançar produtos desenhados para o comércio externo”.

A vontade da CGD de desviar financiamento de grandes empresas para o tecido PME é visível nas novas operações realizadas até ao fim de setembro. As 3956 operações com PME representam uma subida homóloga de 29% face a 2014. Na carteira do banco, a fileira da construção e imobiliário foi a mais fustigado, perdendo peso e relevo, mas José de Matos refere que na CGD “não há sectores proibidos” nem ostracizados. A avaliação depende sempre do mérito do projeto e da empresa envolvida.

O painel do Inteligência

Carlos Melo Ribeiro, presidente da Siemens
“Este mundo está a construir-se em torno 2028do primado da ideia. 2028O que falta neste país para aumentar o nível competitivo são ainda mais startups. São elas que podem gerar 2028novo emprego neste mundo e ajudar 2028o sistema económico 2028a reinventar-se”

2028António Lobo Xavier, advogado
“Interrogo-me se o país aguenta uma governação deste tipo. Existem bloqueios muito importantes ao desenvolvimento e todos os governos prometem enfrentar as grandes corporações e fazer as reformas necessárias. Com grande esforço matinal, recordo-me mesmo do ímpeto reformista inicial do governo do eng. José Sócrates”2028

Pedro Tinoco Fraga, CEO da F3M 2028Information Systems
“É-nos totalmente indiferente quem está à frente dos destinos governativos ou qual é o ciclo político. Nunca podemos estar dependentes disso. Os desafios para o futuro são sempre constantes. É o que costumo dizer aos estudantes da universidade”2028

Francisco Pinto Balsemão, chairman da Impresa
“Tivemos aqui muitas respostas. Mas, como disse Paul Valéry, o problema com o presente é que o futuro já não é o que era. Por isso é preciso haver metas a longo prazo. Também ajuda termos, como aqui se pode ver, uma quantidade grande de empresários com provas dadas”2028

José de Matos, 2028CEO da CGD
“Estamos perante um projeto muito importante [Inteligência Coletiva]. Vem na sequência do 2028“O que as Empresas Querem”, que já desenvolvemos o ano passado com o Expresso. 2028É bom colocarmos as empresas a falarem e a exprimirem os seus pontos de vista. Mais do que, por vezes, ter pessoas a falar em nome delas”

Rui Rio, político
“A oposição tem sempre muita dificuldade em ganhar eleições. Quem está no governo é que as perde. Acho que o exercício económico vai cumprir-se em 2016 porque não é muito complicado. O máximo que pode acontecer no orçamento para 2017 é alguns indicadores estarem a piorar. E isso para a sociedade tem zero de influência no imediato”2028

Eugénio Santos, 2028CEO da Colunex
“Olhamos demasiado para as modas de gestão. O mais importante é conseguirmos alhear-nos das quezílias do mundo político-partidário. 2028Mas não se pode negar que acabamos sempre por dar importância ao que se passa no nosso bairro. Estamos a trabalhar uma imagem sólida para um futuro. 2028É isso que deve ser feito”2028

Jorge Coelho, deputado
“Estamos a viver um tempo novo com uma opção política em Portugal que nunca foi feita. O grande desafio governativo tem dois pilares: a manutenção 2028das contas públicas e ter uma nova estratégia 2028de desenvolvimento que crie melhores condições de vida para os cidadãos. O êxito vai depender sempre do sucesso 2028nestes campos”2028

José Cabral dos Santos, administrador 2028da CGD
“É preciso que as empresas tenham capacidade para perder dinheiro. A minha dúvida é se as ajudas que as empresas precisam passam por mais dívida. Temos de olhar com atenção para as soluções de capital e colocar a questão: é melhor uma empresa má com boa gestão ou vice-versa?”

António Portela, 2028CEO da Bial
“A saúde tem conseguido desenvolver uma série de produtos que têm competido à escala mundial. O pior para as empresas é haver instabilidade. Tem de haver reformas bem definidas. Porque se as regras do jogo mudarem a meio, temos de ter capacidade de fazer as coisas internamente”

Textos publicados no Expresso de 19 de Dezembro de 2015