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Indústria quer condições para exportar mais

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John Labbe

Prioridades: O próximo governo tem de assegurar medidas concretas que permitam aumentar as vendas para o exterior e criar mais emprego

O que a indústria cerâmica precisa, “com a máxima urgência, é o mesmo que pedem outros sectores tradicionais, como o calçado e os têxteis: investimento para o desenvolvimento tecnológico e qualificação da mão de obra industrial. Isto é vital para nós”. No Vale de Ourém, perto da Batalha, Marcelo Sousa, diretor-geral da maior empresa industrial cerâmica da Península Ibérica — a Matcerâmica — sintetiza desta forma o que considera serem as prioridades que o próximo governo deveria seguir para apoiar o crescimento industrial, criar postos de trabalho e promover o crescimento da economia.

“As nossas prioridades são muito concretas: a primeira é a necessidade de contratar mão de obra, porque não encontrarmos trabalhadores para os nossos projetos”, diz Marcelo Sousa. “É estranho que Portugal tenha um nível de desemprego elevado e que, mesmo assim, a nossa empresa não consiga contratar os trabalhadores que precisa”, comenta o ainda vice-presidente da Associação Portuguesa da Indústria de Cerâmica (APICER). Devido ao forte crescimento da atividade da Matcerâmica, Marcelo Sousa não terá disponibilidade para voltar a recandidatar-se.

“Estamos a crescer 20% nas exportações — em 2014 vendemos para fora do país €14,5 milhões e este ano vamos exportar €18 milhões —, mas não conseguimos crescer mais porque precisamos de contratar trabalhadores e há escassez de especialistas, tal como precisamos de mais tecnologia, mas infelizmente existem muitas debilidades nos centros tecnológicos do nosso sector”, comenta o gestor.

Além disso, diz que o próximo governo deveria estar atento aos dossiês da União Europeia que poderiam beneficiar a indústria nacional. E dá um exemplo concreto: Marcelo Sousa ganhou um processo antidumping movido a nível europeu contra as importações de cerâmicas chinesas, que não pagavam direitos pelos produtos colocados no Mercado Europeu. “São cerca de €140 milhões por ano cobrados pela entrada da cerâmica chinesa, o que corresponde a cerca de €700 milhões no período em que os direitos são cobrados, mas acontece que a indústria portuguesa do sector não beneficia de um cêntimo desses direitos alfandegários cobrados”. “Se essas verbas revertessem para o sector, os centros de tecnologia já teriam dinheiro para investir”, comenta o gestor.

No concelho de Castelo Branco, a Dielmar, gerida por Ana Paula Rafael, tem a responsabilidade social de ser o maior empregador local. “Exportamos cerca de 60% da nossa produção porque não sobrevivíamos com o mercado nacional”, refere a gestora. “Para fazer crescer a nossa empresa e mantermos os nossos 450 postos de trabalho precisamos de estabilidade legislativa e isso tem de ser conseguido para além dos quatro anos de uma legislatura”.

“Quem investe na indústria e emprega meio milhar de pessoas numa zona do interior precisa de grande estabilidade para poder desenvolver os mercados de exportação com produtos de qualidade e a preços competitivos”, diz, considerando fundamental “recapitalizar as empresas, ter dinheiro para investir e ter acesso a financiamentos com custos competitivos a nível europeu”.

“É imprescindível conquistar a confiança de investidores estrangeiros, que podem reforçar o tecido empresarial português, mas parece-me que perante um cenário de instabilidade qualquer investidor estrangeiro altera os seus projetos, evita riscos e vai para zonas geográficas que lhe dão garantias de estabilidade”, comenta Ana Paula Rafael.
“Neste momento, a indústria portuguesa precisa de crescer, para aumentar o número de postos de trabalho, melhorar o valor acrescentado nacional e subir na cadeia de valor, e se isso não acontecer será impossível manter empregos”, comenta a responsável da Dielmar. “Não gosto de ser pessimista, mas neste momento estou”, diz.

Andrade Tavares, dirigente associativo da indústria — e administrador da Renova —, diz que “qualquer Governo deve dar prioridade a fomentar a confiança dos mercados, para garantir o acesso normal das empresas ao financiamento”. Relativamente aos níveis salariais, Andrade Tavares refere que “um aumento salarial irrealista terá um efeito nefasto para a economia”.

João Vieira Lopes, responsável da CCP, distingue três tipos de prioridades que o próximo governo deverá seguir para apoiar as empresas. Na primeira linha das prioridades coloca a carga fiscal sobre as empresas, a burocracia, a agilização do licenciamento da atividade comercial e a urgente melhoria do funcionamento da Justiça. “Não podemos esquecer os custos de contexto da atividade empresarial, ou seja, o elevado custo que pagamos pela energia”. Na segunda linha de prioridades coloca o financiamento da atividade e a recapitalização das empresas.

O presidente da CIP-Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, refere que as prioridades do próximo governo terão três pilares: o fiscal, o legislativo e o laboral. A primeira prioridade terá de aligeirar a carga fiscal. Ao nível legislativo, será necessário resolver de vez a agilização do licenciamento industrial, os problemas relacionados com o funcionamento da Justiça, a celeridade dos tribunais do comércio e ainda a redução de burocracia. A nível laboral, António Saraiva diz que Portugal não pode regredir na competitividade laboral. Finalmente, a CIP considera urgente adotar mecanismos eficientes para recapitalizar as empresas e promover a fusão e concentração de empresas para criar grupos com dimensão.

O que queriam os empresários em 2014

Recorde os resultados do estudo “O que as empresas querem” e perceba os caminhos e as preocupações das 93 mil empresas questionadas

O que preocupava os empresários? Que medidas beneficiaram ou prejudicaram? O que era preciso mudar? Foram algumas das questões que tentamos esclarecer junto de 93 mil empresários de todo o país. Realizado em 2014, “O que as empresas querem” foi um projeto do Expresso e da CGD que pretendeu traçar um retrato do tecido empresarial sobre os mais diversos tópicos. Antecessor do “Inteligência Coletiva”, permitiu chegar a conclusões que ajudam a orientar o debate alargado que é a base deste projeto. Um dos dados mais relevantes do estudo foi os 49% que considerou haver falta de incentivos à criação de empresas. Apesar de 2013 ter sido o ano em que se registou o maior número de nascimentos de novas empresas desde 2007, foi notória a preocupação em estabelecerem-se mais apoios ao empreendedorismo.

A mesma percentagem declarou ainda que o mercado interno é pouco recetivo a novos projetos. Mas a receita para inverter esta tendência não merece consenso. 37% disse, por exemplo, que o estado deveria, dependendo dos casos, forçar os bancos a alocarem uma percentagem do seu capital para financiarem novas ideias.

Tema que mereceu igualmente atenção foi a capacidade de competir das empresas. Quando questionadas sobre que medidas devem ser implementadas para desenvolver e aumentar a competitividade das empresas em Portugal, 56% considerou que a redução da carga fiscal deve ser um dos caminhos a seguir. 60% também vincou que os custos são um forte entrave para quem quer manter um negócio.

Menos burocracia
Não é de admirar, por isso que uma descida na TSU e no IRC seja a segunda opção mais escolhida como potencial catalisadora de criação de mais postos de trabalho. 28% manifestaram esta preferência, contra os 31% que consideram necessário facilitar os despedimentos para atingir o objetivo de haver mais emprego. 43% admitem mesmo que seria a medida que tomariam já para aumentar a competitividade, enquanto 50% vê horários de trabalho mais flexíveis como chave para a produtividade. Ao mesmo passo que 30% acredita na existência de talento laboral a mais para a capacidade de absorção das empresas, 26% sustenta que os recursos disponíveis estão desajustados. A reputação das empresas portuguesas como incumpridoras (com um prazo duas vezes superior ao da média europeia para pagarem a terceiros, segundo a Informa D&B) apareceu com destaque no estudo, com 59% a garantir que para que o sistema de pagamentos funcionasse, todas as empresas deviam estar obrigadas a pagar as suas encomendas até 30 dias.

A burocracia também prejudica. Por exemplo, para 40% dos empresários declarar a falência de uma organização ainda se apresenta demasiado confuso e as regras de propriedade intelectual também precisam de ajustes, até para estimularem a investigação e o desenvolvimento no setor privado. Já o processo de criação de uma empresa merece a reprovação de 44% dos empresários ligados às start-ups, que consideram que é demasiado caro e lento. A mesma percentagem que quer rever os termos de regulação, pois algumas das regras burocráticas no seu estado atual, representam, a seu ver, uma perda de tempo e dinheiro.

Com custos de financiamento que 35% afirmam ser muito elevados, tudo contribui para que mais de metade dos empresários (54%) tenha garantido que não planeia investimentos relevantes.