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Entrepreneur Of The Year

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Prémio para o construtor de casas num país sem chão

O Mónaco virou uma cidade EY: nas ruas, nos hotéis, nos debates, na gala internacional do Empreendedor do Ano

D.R.

Vencedor. Com o plano “Casa para Todos”, Rubens Menin foi o primeiro empreendedor da América do Sul a entrar para a lista de vencedores do World Entrepreneur of the Year, um marco que o júri fez questão de salientar na noite de entrega do prémio, no Mónaco. António Rios de Amorim, presidente da Corticeira Amorim, foi o representante de Portugal, entre 46 países, depois de ter vencido a edição nacional do galardão, atribuído pela consultora EY, a 13 de abril. A EY tem premiado, todos os anos, empreendedores que se destacam pela sua liderança, pela inovação, pela visão e também pelo impacto social da sua atividade. Menin sucede ao canadiano Murad Al-Katib, que utilizou o seu império de proteína vegetal para alimentar refugiados através do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas

Rute Barbedo e Leonardo Monteiro

Brasil, dezembro de 2017. Quase um quarto da população vive na pobreza, 13,3 milhões dos quais em situação extrema, com 133,72 reais (€31) por mês, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Quem pode ter casa neste país? Esta era a pergunta que, já em 1979, ressoava na cabeça de Rubens Menin, então um jovem de 23 anos, acabado de sair da Universidade Federal de Minas Gerais.
Com a desigualdade social como pano de fundo, o engenheiro, filho de engenheiros, decidiu montar com dois sócios uma empresa focada no segmento da habitação de baixo custo. Quanto mais apostavam numa estratégia para aumentar o acesso à habitação mais se gritava à sua volta que iam pelo “caminho errado”. Pelo menos é esta a versão contada pelo empresário brasileiro, presidente executivo da MRV Engenharia, a maior construtora da América Latina, e, desde 16 de junho, vencedor do World Entrepreneur of the Year (Empreendedor Mundial do Ano) 2018, o prémio atribuído pela consultora EY — e ao qual o Expresso se associa este ano — desde 1986 para distinguir a inovação, o impacto social e a capacidade de gestão e liderança no mundo das empresas. Com poucas palavras para agradecer a distinção quando subiu ao palco em Monte Carlo, no Mónaco, Menin deu à assistência tempo para perceber, 39 anos depois da fundação da MRV, que o que estava errado em tudo isto eram os avisos.
“O meu trabalho é fazer casas para as pessoas. A casa é a coisa mais importante que se pode ter”, afirmou o brasileiro na noite em que arrecadou pela primeira vez para a América do Sul o prémio de empreendedorismo. Focado neste propósito, Rubens Menin investiu na tecnologia para acelerar processos e tornar mais acessível o produto final. “Conseguimos pegar na construção civil, que é artesanal, e aos poucos ir industrializando, até ela ficar cada vez mais affordable [acessível]”, explicou o empreendedor. Nos últimos cinco anos, apresentaram ao mercado preços 25% mais baixos, e o objetivo é “fazer muito mais”, garante o empresário.


Leve na grua, leve no bolso
Se um metro quadrado de um apartamento pesava duas toneladas há alguns anos, a MRV conseguiu reduzir o peso em 500 quilogramas. “Estamos a planear chegar a uma tonelada por metro quadrado”, destacou o presidente da MRV, que já entrou no mercado norte-americano e tem planos para expandir o negócio para outros continentes. Uma das marcas da inovação da empresa está presente no chamado método “parede de betão”, através do qual é possível construir um edifício de quatro andares com 16 unidades habitacionais em 10 dias.
Com mais de 300 mil propriedades no seu portefólio e o impacto de ter construído a casa de um em cada 200 brasileiros, a MRV registou em 2017 uma receita líquida de 1,4 mil milhões de dólares (€1,2 mil milhões) e um lucro de 197 milhões de dólares (€170 milhões). Os números também pesaram na balança do júri que nomeou o brasileiro Empreendedor do Ano, mas perante o painel que compunha a final do Mónaco (estavam representadas organizações de 46 países) falar de milhões não terá sido particularmente impressionante.
Foi a capacidade de tornar a habitação acessível a algumas das comunidades mais pobres do Brasil, bem como a história de “persistência para ser bem-sucedido contra um cenário de desafios económicos nacionais e anos turbulentos”, como frisou Mark Weinberger, presidente executivo da EY, que mais contribuiu para a decisão do júri, presidido por Jim Nixon, da Nixon Energy Investments. “O painel de jurados ficou impressionado com o seu espírito inovador e empreendedor e com o seu propósito de contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária”, declarou Nixon.


“Ele está no auge”
No décimo país mais desigual do mundo (segundo dados de 2017 divulgados pela Organização das Nações Unidas), “ser a maior construtora do país tinha tudo para ser má notícia”, escrevia a revista brasileira “Encontro”, em 2015, num artigo sobre Rubens Menin intitulado “Ele está no auge”. “O mercado está metido numa séria crise, e a venda de imóveis despencou nos últimos anos. As construtoras estão com estoques [stocks] abarrotados. Mas Menin não tem do que reclamar. Ele está, afinal, colado numa marca que parece pertencer a um outro Brasil: a MRV. Só na última década, a empresa cresceu quatro mil vezes — pulou de 120 milhões de reais (€27 milhões) para 5 mil milhões de reais (€1151 milhões) de receita líquida —, e o seu valor patrimonial cresceu mais de seis mil vezes”, destacavam os redatores.
A história deste empreendedor é, no entanto, bem diferente das que conferiram a Jeff Bezos e Reid Hoffman, fundadores da Amazon, ou Sergey Brin e Larry Page, da Google, vitórias entre empreendedores de todo o mundo distinguidos pela EY. Ainda assim, acredita Menin, há um aspeto comum a todos: “O poder de um empreendedor é o de mudar o mundo. Todos os empreendedores que encontrei aqui não estão a pensar em negócios mas em mudar o mundo. E eu espero fazer a minha parte.”
Foi também esta atmosfera de proximidade e o contacto permanente entre grandes empresários — inclusive António Rios de Amorim, presidente da Corticeira Amorim e representante português na final do prémio (ler “A cortiça vai continuar a ganhar mercado”) — que marcou o evento da consultora com sede no Reino Unido entre os dias 13 e 16 de junho.
Com uma série de painéis de discussão e apresentações sobre as economias do futuro, Monte Carlo foi o lugar da “fina-flor do empreendedorismo mundial” durante quatro dias, nas palavras de João Alves, presidente da EY Portugal. Mesmo quem não pisou o palco da vitória levou alguma coisa para casa. “O evento está muito virado para a partilha de informação entre participantes e guest speakers [oradores convidados] e, portanto, são dias muito produtivos”, declarou o responsável.

“Todos diziam que íamos no caminho errado”

Passaram 39 anos desde que Rubens Menin fundou a MRV Engenharia e viu o seu trabalho reconhecido internacionalmente. Reduzir o custo da habitação sem perder qualidade tem sido o propósito que o move. Desde 2013, conseguiu baixar os preços em 25% no segmento do baixo custo. Além de liderar a MRV Engenharia, o empresário de 62 anos é também presidente do Bancointer, da LOG Commercial Properties, da Urbamais, da ahs Residential e da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias. Já teve um blogue e agora elege o Twitter como um dos meios preferenciais de comunicação. Seguem-no 259 mil pessoas.
Por que razão entrou neste sector?
O meu pai e a minha mãe eram engenheiros, cresci com a engenharia no meu ADN. Quando começámos a empresa não foi fácil. Todos diziam que íamos no caminho errado e no sector da construção chamavam-nos de patinho feio. Mas decidimos continuar em frente. Entretanto, dei muito emprego e cresci muito, mas não é suficiente criar emprego, tem de haver um grande propósito por detrás.
O que significa este prémio?
É um momento ímpar na vida da gente, muito bacana. A casa própria é um problema muito importante no Brasil, mas também no mundo. Então, acho que isso aumenta a força de a gente mudar esse momento de fazer mais casas próprias para a população de baixa renda [rendimento]. Não sei o que o júri pensou, mas o que eu vejo é que [ter] casa própria é muito caro, então você tem que baixar o custo sem perder a qualidade. Qual é a forma de fazer isso? Tecnologia. Hoje, o nosso custo está 25% mais barato do que há cinco anos. Mas não podemos parar por aí, temos de baixar mais ainda. O grande desafio é esse.
Vencer o prémio é uma oportunidade para expandir o negócio?
Não acredito que, hoje, uma empresa de alto impacto possa ser uma empresa nacional; ela tem de ser globalizada. A MRV é a maior empresa [de construção de habitação] da América Latina, mas não é a maior do mundo. Queremos ser um grande player no mundo. Já estamos nos Estados Unidos... Mas para isso precisamos de ter tecnologia e capacidade para poder expandir.

“A cortiça vai continuar a ganhar mercado"

Nem sempre o presidente da Corticeira Amorim esteve convicto de que a cortiça teria lugar certo no mundo. Na altura em que passou a liderar o negócio em 2011, esta matéria-prima natural perdia terreno para produtos alternativos, como o plástico. Os resultados do grupo em 2017 — fechou com €73 milhões e viu subir as vendas em 9,2% — mostram que António Rios de Amorim soube dar a volta à situação, através da diversificação do negócio, aposta no design e na inovação.
Como foi defender a candidatura frente ao júri?
Tudo isto é muito estruturado. Recebemos um conjunto de indicações acerca dos tópicos sobre os quais o júri pode fazer perguntas e temos uma sessão de preparação com vencedores de edições anteriores, que já passaram por estas entrevistas e exames aos candidatos. Quando se está na entrevista, é um momento de stresse muito grande, porque, em dois minutos, temos de contar a razão pela qual estamos aqui. Depois, seguem-se 18 minutos de perguntas, desafios, provocações, que claramente tentam ver a reação e o contributo do candidato.
Qual foi a pergunta mais difícil que lhe fizeram?
Sobre a valorização do indivíduo... Nós, na Corticeira Amorim, valorizamos a equipa. O que faz diferença é um espírito, uma cultura. Portanto, converter isso tudo para falar em nome pessoal é algo a que não estou minimamente habituado.
Qual é o foco da corticeira para os próximos anos?
A Corticeira Amorim é ambiciosa e empresa que não cresce não tem grande futuro. O crescimento é um dado fundamental. Acreditamos que na área das rolhas a cortiça vai continuar a ganhar quota de mercado contra os produtos alternativos — já no início deste ano, temos conquistado mercados e clientes importantes —; e achamos que a cortiça, como material natural e renovável, vai ganhar com o aumento de fiabilidade que a tecnologia permitiu atingir. O mercado do vinho continua em crescimento e a cortiça também ajuda o vinho a valorizar-se. E esta é a área que representa 70% do negócio da empresa.

Artigos publicados originalmente no Expresso de 23 de junho de 2018