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Entrepreneur Of The Year

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Não bastam boas ideias para pisar o tapete vermelho

Entre os vencedores dos últimos dez anos do prémio Empreendedor do Ano encontram-se algumas histórias mirabolantes. Mohed Altrad tem um estádio com o seu nome em Montpellier e escreve ensaios e novelas

Pascal Guyot

O que leva empresários à final do prémio Empreendedor do Ano? Distinção da EY regressa em 2018

Rute Barbedo

Pedro Sinogas era um investigador entre livros, atrás de fórmulas e referências para o doutoramento, quando de uma página em branco saltou a ideia do negócio que lhe transformaria a vida. A dele e a de milhares de pessoas. A plataforma tecnológica MORE — Model Once Run Everywhere, que resultou do início da sua tese e foi o arranque da empresa Tekever, permitia que o comum utilizador fosse capaz de criar e desenvolver aplicações para qualquer dispositivo, em qualquer rede, possibilitando a comunicação entre diferentes canais.

Desde então, a Tekever já ajudou a desviar a rota de um asteroide e inventou drones prontos a patrulhar migrações no Mediterrâneo. Resultado? Pedro não terminou o doutoramento, mas tornou-se, com Ricardo Mendes, um dos empresários mais bem-sucedidos do momento. Confirmou-o a distinção na categoria Inovação 2016 do prémio Empreendedor do Ano, programa da EY que voltará para o ano com novos vencedores e cujo período de candidaturas está aberto até 31 de dezembro (ler “Da candidatura ao prémio”). No radar da consultora acendem características como a inovação, a visão, a resiliência, o investimento pessoal num projeto e, claro, o sucesso a nível global. Foi isto que, no ano passado, fez chegar à final os gestores da Tekever, da WIT Software, da Sacoor, da Aquinos, do grupo Sugal e da Vision-Box.

A última foi a grande vencedora. Todos os percursos têm um denominador comum: o zero, o ponto em que começa uma história. No caso da Tekever, a partida deu-se três casas acima. “Nasceu de três pessoas do Instituto Superior Técnico e continuou nesta vida das startups”, introduz Pedro Sinogas, explicando que quem inicia um negócio numa universidade tem o ADN carregado de vontade de inovar. “Não somos uma empresa de serviços, mas de produtos, o que implica um investimento significativo em inovação e desenvolvimento, de forma a poder ‘produtivizar’ a nossa propriedade intelectual”, continua. Hoje, a Tekever tem um braço em Óbidos e outro em Ponte de Sor, onde investe no sector aeronáutico; as pernas no Porto, onde aplica o conhecimento em tecnologia espacial; e a cabeça em Lisboa, onde desenvolve software. E esta geografia em aranha é muito a alma do negócio. “Dependemos de pessoas muito boas em termos técnicos e elas não existem só em Lisboa e no Porto, mas onde têm as suas vidas, as suas casas, as suas namoradas”, afirma de forma pragmática o engenheiro, admitindo que “é cada vez mais difícil” encontrar os recursos certos. É a crise das STEM (ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas, traduzindo e decifrando a sigla a partir do inglês), com que muitas economias se veem a braços.
Mas enquanto a Tekever acredita que consegue colocar Portugal no mapa-mundo tecnológico, a posição da WIT Software, outra finalista do prémio da EY, é bem diferente.

“Tenho alguma vergonha de dizer isto, mas Portugal está muito mal visto lá fora, desde a crise de 2011, e foi muito complicado gerir isso”, sublinha Luís Moura e Silva, presidente executivo, que considera, ainda, que não somos vistos como “um país tecnológico”.

Afinal, o tamanho importa
Mas o cenário “foi melhorando”, o que permitiu à WIT afirmar-se no plano internacional, funcionando também num modelo em rede — a empresa tem sede em Lisboa e centros de desenvolvimento em Coimbra, Porto e Leiria — e com uma estrutura “pequena”, que a torna mais ágil e flexível do que a concorrência. “Somos 300 engenheiros. Um dos meus concorrentes tem 200 mil”, compara o gestor. Apesar da dimensão, a WIT fornece mais de 40 países (95% do negócio baseia-se na exportação). Tem crescido a dois dígitos ao ano, focada num ritmo “sustentável, mas não galopante”, explica Luís Moura e Silva.

Outro trunfo para não perder vantagem global é não cair na tentação de dormir sob a fama, como indicam os fundadores da Vision-Box, que em 2016 arrecadaram o galardão da EY. “Todos os anos foram decisivos” desde a criação da empresa, em 2001, admitem Miguel Leitmann e Bento Correia. Presente em mais de 80 aeroportos em 150 países e com filiais do Reino Unido a Hong Kong, a Vision-Box não para. Soube agarrar um mundo em crescimento — o das viagens —, oferecendo ao mercado uma tecnologia que permite identificar de forma rápida e fiável a identidade dos passageiros aéreos. E continua a apostar na inovação. Lançaram agora “a primeira solução de sempre em todo o mundo para reconhecimento facial de passageiros em movimento, em que estes não têm sequer de parar ou mostrar documentos para serem identificados”. Para Leitmann e Bento Correia, o empreendedorismo “revela-se diariamente na procura de oportunidades, na coragem para correr riscos, na capacidade de planeamento, no crescimento pronunciado mas sempre sustentado e na perseverança em vingar num mercado global e competitivo”. Mas reconhecem: “É mais fácil empreender-se hoje. O empreendedorismo está na moda, é mais reconhecido, há mais incentivos.”

Ainda dormimos em colchões
Mesmo perante um espírito mais aberto, mais de 70% dos negócios continuam a afundar nos primeiros anos de vida. Os fundadores da Vision-Box expõem as diferenças: “Os meros aventureiros têm uma ideia e lançam-se nela confiando na sorte.

Os empreendedores de sucesso têm as ideias e, acima de tudo, uma visão. Partilham-na, encontram adeptos que a discutem, refutam, aperfeiçoam, reforçam, implementam-na, não raras vezes a muito custo e esforço.” Mas não é só de máquinas e tecnologias sofisticadas que vive o homem. Enquanto não formos robôs, não deixaremos de dormir, de nos vestir ou de comer. Foi nestes sectores basilares que apostaram a Aquinos, a Sacoor e a Sugal. A última foi distinguida na categoria Internacional do prémio pela sua afirmação como segundo maior produtor de derivados de tomate do mundo. Este ano, o grupo superou os €265 milhões em volume de faturação, mas as primeiras quatro décadas de atividade cingiram-se ao perímetro da Azambuja. Aqui entra a capacidade de resiliência.

Também a Aquinos, que começou em 1985 com seis trabalhadores e hoje emprega 2800 pessoas, tem uma história de expansão. “Produzimos sofás desde o início e colchões a partir de 2002”, simplifica Carlos Aquino, presidente da empresa. O que no início era uma visão centrada em Portugal teve de se alargar ao exterior, que hoje ocupa mais de 90% da atenção da empresa. “A nossa produção é verticalizada, o que ajuda a sermos uma empresa competitiva. A nossa preocupação é colocar no mercado produtos de grande rotação, que vão ao encontro das necessidades dos clientes”, explica. O grupo sediado em Tábua inaugurou há sete meses um Centro de Inovação e Desenvolvimento que afirma ser “o primeiro da Europa no sector”. Investiu nele €7 milhões porque nem todas as boas ideias nascem do sofá.

James Mwangi, dono do Equity Bank Limited, aprendeu a desenvencilhar-se nas montanhas de Aberdare, no Quénia, para sobreviver num clima de luta diária

James Mwangi, dono do Equity Bank Limited, aprendeu a desenvencilhar-se nas montanhas de Aberdare, no Quénia, para sobreviver num clima de luta diária

Bloomberg

Vertentes económica e social “não podem estar desligadas”

“Acredito que quando os projetos olham para o impacto social que podem ter, tornam-se negócios com viabilidade económica. As duas vertentes não podem estar desligadas”, acredita Inês Caldeira, diretora-geral da L’Oréal e membro do júri que elegerá o Empreendedor do Ano. Tanto no quadro português como a nível global, a diferença que uma empresa gera na vida das pessoas pesa cada vez mais para que um empreendedor se destaque da rede. E até para atrair capital, o impacto social de um negócio é relevante.

A visão da sociedade sobre os empresários também terá mudado, admite António Gomes da Mota, presidente não-executivo do conselho de administração dos CTT e presidente do júri. “Há alguns anos, o estereótipo de sucesso seria ser CEO ou gestor de topo de uma empresa do PSI-20. Hoje, o conceito de empresário, de gestor do seu próprio negócio, afirmou-se e valorizou-se socialmente, podendo ser visto como um sinal de capacidade criadora, de iniciativa, de perseverança e de maturidade.”

A ação sobre os modelos de consumo de Belmiro de Azevedo, o primeiro Empreendedor do Ano em Portugal, não mudou a vida dos portugueses? A tecnologia da Vision-Box (vencedora em 2016), que abriu uma “via verde” nos aeroportos através da avaliação biométrica dos passageiros, não alterou o padrão do viajante em todo o mundo? Um exemplo ainda mais extremo é o de Murad Al-Katib, que venceu a distinção da consultora EY a nível global este ano. O canadiano de origem turca sabia que era preciso responder ao aumento da procura mundial por proteína mas também acreditava que deveria manter em mente os seus ideais e um plano ecologicamente sustentável, o que retirava a indústria da carne da equação. “A água é um dos nossos recursos mais escassos”, assinalou Al-Katib quando recebeu o prémio da EY, sublinhando que a produção de carne requer um consumo de água substancialmente superior.

O canadiano começou a inventar o negócio na garagem de casa e, 16 anos depois, era um dos maiores fornecedores de leguminosas do mundo. O nível económico permitiu-lhe distribuir alimentos por milhões de refugiados afetados pela crise da Síria, razão pela qual foi galardoado com o Prémio de Negócios para a Paz de Oslo. Gere 48 fábricas e 2000 trabalhadores em todo o mundo.

Michael Spencer começou a construir um império da sua cadeira de estudante

Michael Spencer começou a construir um império da sua cadeira de estudante

Bloomberg

Os dez vencedores mundiais

2007

Guy Laliberté 

Cirque du Soleil

Laliberté andava a brincar com 
o fogo e a tocar acordeão quando, em 1984, captou a atenção do público canadiano com um espetáculo chamado Cirque du Soleil. 
Até 2007, ano em que foi premiado, 
o circo tinha viajado por mais de 100 cidades e gerava receitas anuais superiores a 600 milhões de dólares.

2008

Jean-Paul Clozel
Actelion Pharmaceuticals

Fundada em 1997 pelo cardiologista suíço Jean-Paul Clozel, a Actelion tornou-se líder no desenvolvimento de fármacos para o tratamento 
de doenças pulmonares. A inovação e os resultados científicos valeram-lhe reconhecimento mundial.

2009

Cho Tak Wong
Fuyao Glass Industry Group

Cho Tak Wong cresceu numa família humilde da China para se tornar um grande empresário. Começou 
nos negócios aos 16 anos, 
foi agricultor, cozinheiro e vendeu fruta. Em 1987, fundou o Fuyao Group, especializando-se em 
vidros para automóveis de elevada segurança. Emprega dez mil pessoas.

2010

Michael Spencer
ICAP plc

A história deste intermediário 
de taxas de juros começou 
há 31 anos com três amigos. Desde então, a britânica ICAP cresceu para 4500 trabalhadores e serve cerca 
de 50 países, sendo considerada 
uma das empresas mais inovadoras do mundo em serviços financeiros.

2011

Olivia Lum
Hyflux Limited

Olivia Lum, a primeira mulher 
a ganhar o prémio Empreendedor 
do Ano, fundou a Hyflux em 1989, 
em Singapura, sob um capital
 inicial de 15 nil dólares. Hoje, 
detém um gigante especializado 
em dessalinização, que chega a receitas de 450 milhões de dólares.

2012

James Mwangi
Equity Bank Limited

O queniano James Mwangi cometeu a proeza de fundar aquela que viria a tornar-se uma das maiores empresas africanas, o Equity Bank, que tinha sete milhões de contas em 2012, representando metade do sector.

2013

Hamdi Ulukaya
Chobani, Inc.

Hamdi Ulukaya nasceu na Turquia, 
o país do ayran, e emigrou para 
os Estados Unidos, onde, em 2007, criou a Chobani Greek Yogurt numa fábrica abandonada. Rapidamente 
se tornou a marca de iogurte mais consumida no país, gerando vendas anuais de 1000 milhões de dólares.

2014

Uday Kotak
Kotak Mahindra Bank

Uday tinha 26 anos em 1985 
quando começou a montar 
o que viria a tornar-se o Kotak Mahindra Finance, uma novidade 
no sistema indiano. Em 2003, o Kotak tornou-se a primeira empresa financeira da Índia a ser convertida num banco. Onze anos depois, empregava 30 mil pessoas.

2015

Mohed Altrad
Altrad

Viveu como um beduíno 
no deserto sírio, não frequentou 
a escola mas aprendeu a ler sozinho. Em 1985, Mohed Altrad comprou 
um negócio quase falido 
em França, para onde havia emigrado, e transformou-o num 
líder de misturadores de cimento, andaimes e carrinhos de mão. As noites são dedicadas à escrita, tendo colocado a sua novela, “Badawi”, 
no programa de ensino francês.

2016

Manny Stul
Moose Enterprise Holdings 
& Controlled Entities

Filho de refugiados da Polónia 
a viver na Austrália, Manny Stul trabalhou na construção para juntar dinheiro para um primeiro negócio. Ligou-se à indústria dos brinquedos, com a Moose Toys, colocando-a 
na sexta posição da lista de vendas nos Estados Unidos. Esteve quase para falir, mas a resiliência fê-lo manter-se de pé.

2017

Murad Al-Katib
AGT Food and Ingredients Inc.

Filho de imigrantes turcos no Canadá rural, Murad Al-Katib viu na procura crescente por proteína uma oportunidade de negócio. Investiu no mundo vegetal, processando feijões e lentilhas de forma sustentável. Em pouco mais de uma década, a AGT chegou aos cinco continentes com receitas superiores a 2000 milhões de dólares.

Guy Laliberté, criador do Cirque du Soleil, em 2009, apresentou ao mundo um espetáculo a partir da Estação Espacial Internacional

Guy Laliberté, criador do Cirque du Soleil, em 2009, apresentou ao mundo um espetáculo a partir da Estação Espacial Internacional

YURI KOCHETKOV

Da candidatura ao prémio

Até 31 de dezembro, empreendedores ou cidadãos que queiram sugerir empresários de sucesso para fazerem parte da corrida ao prémio Empreendedor do Ano poderão candidatar-se através do formulário disponível em geoy.ey.com. Mas há uma série de critérios e passos a cumprir. Além de se demarcar nos planos na inovação e impacto social, para a consultora EY, é obrigatório que cada candidato tenha uma participação de pelo menos 10% do capital social da empresa e um papel ativo na sua gestão. Por outro lado, o envolvimento com as pessoas e o país é perentório — a organização deve ser constituída por um mínimo de dez trabalhadores, estar estabelecida em Portugal há três anos e com capital maioritariamente nacional. Também a saúde financeira pesará na decisão do júri, estando definido que o volume anual de negócios deverá ser superior a €2,5 milhões. Durante as primeiras semanas de 2018, uma equipa da EY conduzirá entrevistas aos empreendedores para traçar um perfil de cada candidato e da história da empresa. Será então a vez de um júri independente passar à avaliação. De António Gomes da Mota, presidente não-executivo do Conselho de Administração dos CTT, a Inês Oom de Sousa, do Conselho de Administração do Santander Totta, figuras com provas dadas no mundo dos negócios usarão o seu “olho clínico” para apurar os finalistas, cujos nomes serão conhecidos em fevereiro. Em março, na gala final em Lisboa, será conhecido o novo Empreendedor do Ano e os melhores empresários nas categorias Internacional e Inovação. O vencedor representará o país na final mundial do prémio em junho, em Monte Carlo. Portugal partilhará o palco com os concorrentes de mais de 50 países. Candidate-se e acompanhe as notícias AQUI.

Textos originalmente publicados no Expresso de 8 de dezembro de 2017