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Energia de Portugal 2015

O país startup e o mercado-teste

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Conferência: o evento no Parque Ibirapuera, em São Paulo, originou vários momentos de entusiasmo. No centro da foto, em cima à direita, Paulo Lourenço, cônsul de Portugal naquela cidade brasileira, que discursou no Energia

Caio Kenji/Divulgação

Empreendedorismo: Energia de Portugal foi lançada no Brasil, onde 34% da população está ligada a novos negócios, 52% das mulheres são empreendedoras e 72% dos jovens gostavam de ser. Portugal pode ser a porta de entrada na Europa

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Cinquenta por cento das candidaturas em 2014. O número de propostas brasileiras no primeiro ano em que o Energia de Portugal foi alargado ao Brasil surpreendeu. Pelo número e pela qualidade, porque o vencedor deste projeto de empreendedorismo saiu do lote de propostas brasileiras. Mas a grande surpresa residiu na vontade de startups que nascem num país com 200 milhões de habitantes atravessarem o Atlântico e aterraram num de 10 milhões, mais pequeno, com menos mercado e oportunidades.

Foi exatamente para fazer o trajeto ao contrário que, este ano, o lançamento do Energia de Portugal — um projeto do Expresso e da EDP, em parceria com a Fábrica de Startups, que entra no quarto ano — ocorreu em São Paulo. A quantidade de candidaturas brasileiras do ano passado não surpreendeu Miguel Setas, presidente da EDP Brasil, e que conhece muito bem os dois países: “O Brasil aparece nos rankings como o país do mundo com a maior parte da população envolvida em empreendedorismo, 34% da população entre os 18 e os 64 anos está ligada a novos negócios”. São números incríveis, embora nem sempre percecionados pela própria população brasileira. Marina Sierra de Camargo, coordenadora no SENAC — uma importante escola comercial de São Paulo —, explica bem o fenómeno: “A palavra empreendedorismo está na genética brasileira, mas o brasileiro muitas vezes nem sequer conhece a palavra, só a descobre quando vai fazer algum curso”.

A diferença entre os dois países é enorme nas estatísticas. Dois exemplos, primeiro por Thomas Zanotto, da Federação das Indústrias de São Paulo: “As sondagens, que mostram que 72% dos jovens brasileiros gostavam de ser empreendedores”. Segundo exemplo, por Marina Camargo: “Os números mostram que o Brasil é o primeiro ou o segundo país do mundo, com mais mulheres empreendedoras, 52 por cento. E isso decorre do facto de muitas famílias brasileiras estarem dependentes das mulheres, do dinheiro que trazem para casa”.

O mercado-teste
A conclusão, realista, vem de Giacinto Cataldo, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo: “O brasileiro sonha em ter a sua empresa, mas infelizmente não se prepara para isso. Os índices de mortalidade são de 90% nos primeiros cinco anos”. Mas, concede, numa frase que resume tudo. “O Brasil é uma enorme startup”.Se, no Brasil, a ideia de empreender está no ADN, em Portugal o verbo foi acelerado pela crise. Nos últimos anos é muito raro ouvir-se um discurso de um governante onde o verbo empreender não surja, declinado de várias formas. Mas se isso explica as muitas candidaturas com que os portugueses acorrem ao Energia de Portugal desde 2012, não justifica a procura brasileira. Karina Costa, COO da Fábrica de Startups — responsável pela escolha, aceleração e teste das candidaturas —, tem uma explicação clara:“Portugal é um excelente país para se lançar um novo negócio, um bom mercado de teste para validar uma solução rapidamente. Os custos de desenvolvimento são baixos, existe um acesso ao talento muito fácil e as startups precisam de boas universidades por perto”.

Para Karina Costa, a ligação à Europa faz com que as empresas brasileiras percebam que Portugal é um mercado bom para se lançarem. “As startups brasileiras olharam para o programa como uma boa plataforma para desenvolvimento de projetos num novo mercado e num bom ambiente empresarial, com um ecossistema maduro”.

Esta perceção existe hoje, aliás, em muitas jovens empresas internacionais. “A vantagem de Portugal não é a ligação a grandes clientes, mas o país é uma boa escolha para muitas empresas terem parte da sua operação montada”. É por isso que há empresas que têm a sede perto dos seus clientes, como em Londres, EUA, etc., mas que estão em Lisboa ou noutra cidade portuguesa com boa parte da operação.

Os custos são mais baixos, a tecnologia existe, há mão de obra qualificada, entre muitas outras coisas. “Portugal não tem de ser só um país onde se criam empreendedores, pode ser um local onde empresas criadas noutros locais podem montar parte da sua operação. A Farfetch é um exemplo disso, a sede é em Londres mas a maior parte da operação está no norte de Portugal”, explica a responsável pela Fábrica de Startups.

Um país, muitas velocidades
Thomaz Zanotto está pouco otimista com o Brasil de hoje, mas crente no que aí vem. “O Brasil tem um ambiente difícil para novas tecnologias e novas empresas. Estamos no fim de um ciclo político e económico e muita coisa tem de mudar”. Relação universidade/empresa, legislação laboral, custo de capital, fiscalidade... “Acredito que o Brasil, daqui por 10 anos, vai ter uma história diferente. Muitos dos obstáculos vão ter de ser levantados, a bem ou a mal”, diz enquanto lembra que “entre os acionistas do Facebook havia um brasileiro, no Instagram também, mas que os bons acabam por preferir empreender nos EUA onde estão a estudar”. Giacinto Cataldo é mais otimista: “Trazer a tecnologia e o conhecimento das startups europeias para o Brasil é o mais importante”.

Saber apanhar as melhores ideias é o que une todos. É por isso que este ano a EDP lançou um novo prémio, dentro do Energia de Portugal, só para startups da área da energia. “Temos plena consciência de que o sector elétrico está num momento de grande transformação e uma grande empresa como a EDP nem sempre tem dentro de casa toda a capacidade de inovação”, explica Miguel Setas. “Estes projetos são fundamentais, é onde normalmente aparecem as disrupcões que, de um momento para o outro, podem alterar todo o modelo de negócio”, explica. Para o ano tiramos todas as dúvidas, porque ideias não vão faltar.


Além das lideranças políticas
Vinho, azeite, cultura, turismo. A receita não é nova, mas a forma sim. No “Experimenta Portugal”, que decorreu no passado fim de semana em São Paulo, não se viu um político português. E se isso pode mostrar alguma indiferença, revela, sobretudo, que as coisas já andam muito para lá da política. Numa mostra que aproveitou muito bem o evento Virada Cultural, que tomou conta do Parque Ibirapuera, em São Paulo, o que Portugal tinha na mesa era “uma síntese de introdução à experiência portuguesa, uma síntese do que está a acontecer”. As palavras são de Paulo Lourenço, cônsul-geral de Portugal na maior cidade da América do Sul, 20 milhões de habitantes na cidade, mais 24 no Estado que a rodeia. Há um novo ciclo de relacionamento, uma “revolução silenciosa” no turismo e é por isso que “hoje, os dois países já não precisam da química entre as lideranças políticas. Já não depende disso”, explica. Com a venda da TAP e de parte da Brisa têm sido fortes a mostrar investimento em Portugal, que nas palavras de Paulo Lourenço é muito superior ao das estatísticas. É que há muita coisa a acontecer. E nós? “A nossa experiência é de muitos sectores. Alguns com restrições aduaneiras e fiscais muito altas, em que mais vale vir para cá produzir e competir”, explica Paulo Nunes de Almeida, líder da Associação Empresarial de Portugal. Mas depois há que saber escolher as áreas onde fazemos toda a diferença: “Nos vinhos ou nos azeites, por exemplo, temos de exportar e as coisas correm muito bem”. Há armas, que nunca mudam na diplomacia portuguesa e que têm sempre sucesso garantido.

Artigo originalmente publicado no primeiro caderno do Expresso de 27 de julho de 2015

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