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Empreendedores brasileiros em Portugal

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André Jordan na Quinta do Lago, empreendimento pioneiro que criou em 1971. Na altura tratava-se de um resort de luxo sem igual na Europa

Nuno Botelho

Vieram à procura de novas perspetivas de negócio e sucesso. Por cá ficaram e construíram as suas carreiras e vidas. Quatro casos de persistência

"Quando vim para cá não havia brasileiros em Portugal, era uma curiosidade. Parecia que falava outra língua!” Diz André Jordan, o decano dos empresários brasileiros neste recanto da Europa. O que antes era uma raridade está a dar lugar a uma comunidade cada vez mais dinâmica com empreendedores como Andréa, Tereza e Zeno. Eles acreditam que as condições para atrair mais empreendedores nunca foram tão favoráveis.

Nada que se compare a 1940, quando André Jordan passou pela primeira vez por Portugal. Então com seis anos, fugia dos horrores da guerra que assolava a Polónia. Foi um ponto de passagem para o Brasil onde cresceria. Após a morte do pai, visitou de novo Portugal para tratar de negócios pendentes e apaixonou-se imediatamente: “Uma viagem pela estrada nacional, as pessoas, a comida, tudo ajudou.” Vendeu as empresas e foi trabalhar para o sector imobiliário nos EUA, experiência que lhe deu a ideia de, em 1971, regressar para criar a Quinta do Lago, um resort de luxo “como ainda não existia na Europa” e que foi “de imediato um sucesso junto das elites”.

O espaço sofreu uma intervenção governamental após o 25 de de Abril, mas o empresário não desistiu e recuperou o complexo em 1981. Acabaria por vendê-lo “valorizado“ como um dos mais emblemáticos projetos residenciais em solo português. Entre 1995 e 2006 esteve também envolvido na gestão e expansão da Lusotur a empresa que controla Vilamoura como “o maior complexo residencial e de lazer” do velho continente. Hoje, com 82 anos, encontra-se prestes a relançar mais um empreendimento, o Belas Clube de Campo. “Sempre a olhar para a frente.”

André Jordan não tem dúvidas: “Hoje Portugal é um país muito atrativo para os brasileiros” e acredita que há mais interesse “em vir para cá”. É por isso que, inclusive, esta edição do Energia de Portugal, projeto de apoio ao empreendedorismo do Expresso e da EDP, reforça a ligação ao Brasil (após a participação de equipas brasileiras em 2014). Jordan deixa só um conselho a quem quer criar aqui o seu negócio: “Trabalhar sempre com portugueses. É muito mais eficaz.”

“Brasileiros descobriram Portugal”
A “literatura portuguesa e o desejo de conhecer as pessoas, os costumes, as geografias” foram as razões que levaram Andréa Zamorano a instalar-se por cá há 23 anos. Trabalhou em multinacionais ligadas à tecnologia médica e só mais tarde surgiu-lhe a “vontade de empreender” que começou a ganhar forma com um desejo antigo do marido. Começaram por um pequeno restaurante no Parque das Nações e, em 2008, abriram o Café do Rio: Hamburgueria Gourmet, que Andréa diz ser o “primeiro espaço do género da cidade.”

O sucesso levou-a a abrir mais dois espaços no Casino de Lisboa enquanto pensa “na internacionalização e na criação de um produto com base na notoriedade da marca ”. Entretanto, rendeu-se de novo à primeira paixão — a literatura — e editou um livro, “A Casa das Rosas”. “Portugal não tem nada de monótono. É dinâmico, empreendedor, aberto a experimentar.” Mas para atrair mais brasileiros é essencial “comunicar melhor.”

Dinamismo é também a imagem de marca de Tereza Cavalcant. Trabalhou em “tudo o que possa imaginar.” Há 20 anos a viver em Portugal sempre teve ambição “de ter um negócio” e é agora dona da rede de espaços Rosa Chá Spa. Começou por investir, em 2010, “todo o dinheiro que tinha” para alugar e desenvolver um balcão de manicure, pedicure e outros cuidados. O êxito levou-a a expandir para cinco locais. O último é mais do que um mero balcão. “Já é mesmo mais spa”. A meta é continuar a evolução. Tereza defende que aqui “existem muitas oportunidades” para quem vier “com determinação”. Hoje identifica-se como “mais uma portuguesa” que quer dar o seu “contributo para o crescimento do país.

Quando Zeno Cunha decidiu fazer a travessia atlântica, sentia que “enquanto imigrante tinha que fazer mais.” Foi há 23 anos. Por intermédio de “uns amigos do norte” empregou-se numa fábrica têxtil e aos fins de semana cozinhava picanha e fazia caipirinhas que deliciavam os seus convivas. Cedo começaram a desafiá-lo para ter um espaço próprio. Contra todas as expectativas, avançou com a ideia: “Não estava previsto. Mas como na altura praticamente não havia restaurantes brasileiros e a nossa cultura estava muito na moda por causa das telenovelas, achei que podia ser a altura certa. E tive sorte.” Tornou-se um dos responsáveis por introduzir as duas iguarias no panorama culinário português.

A notoriedade chegou com a abertura de um espaço nas docas, em Lisboa, em 1995, onde uma reportagem da “Globo Repórter” o popularizou como o homem que “transformou seis mil dólares num milhão de dólares. Era o único Zeno da lista e o telefone não parava de tocar com pessoas a perguntar como tinha conseguido”, conta. Chegaram a dizer-lhe que aumentaram as consultas no consulado para vir para Portugal. Teve oito estabelecimentos mas a crise obrigou-o a encerrar metade e a centrar-se no Zeno Lounge no casino do Estoril. O objetivo passa agora por abrir de novo um restaurante em Lisboa sem esquecer a crescimento da comunidade empresarial brasileira: “Parece que descobriram Portugal. Vão aparecer ainda mais pessoas, de certeza.” Para terem sucesso é preciso “vir cá antes e conhecer o país. Como diz o português, apalpar.”

Três perguntas a: Murteira Nabo, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira

Há boas condições para empresas e empreendedores brasileiros se instalarem em Portugal?
Existem enormes incentivos e medidas de apoio, quer para as exportações quer para o Investimento Direto Estrangeiro. É necessário fazer chegar aos investidores brasileiros informações sobre as medidas existentes para fomento das relações bilaterais. Se há países onde o apoio às startups é grande é em Portugal!

O empreendedorismo em Portugal está a atrair mais pessoas?
Num país com uma juventude com boa qualificação média, e com uma elevada taxa de desemprego jovem, as condições para se optar por projetos empreendedores são as melhores. E já existem casos de sucesso significativos, nomeadamente de uma mais acentuada ligação das universidades às empresas e uma maior concentração de recursos na investigação aplicada. Os prémios de excelência internacionais recentemente atribuídos a jovens portugueses são um bom exemplo disso.

Está otimista quanto ao futuro das relações bilaterais entre os dois países?
Se o Brasil reduzir o protecionismo e a sua dependência das matérias-primas — aumentando a industrialização, a Europa e Portugal voltarem ao projeto europeu inicialmente pensado, e o espaço da CPLP se integrar mais economicamente, estou confiante que quer Portugal quer o Brasil têm interesse em estreitar ainda mais as relações económicas.

Artigos originalmente publicados no Expresso Economia de 1 de agosto de 2015