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Expresso

EDP Open Innovation

A luz azul da inovação já passa por eles

Com a luz azul que tem iluminado 
o Largo Camões, em Lisboa, como pano de fundo, os membros 
dos vencedores Rated Power 
(os primeiros quatro a contar 
da esquerda) e da Invoice Capture 
(3º lugar) viveram com intensidade estes dias de Web Summit 
e EDP Open Innovation

José Caria

No evento que marca o calendário do empreendedorismo, as melhores equipas do EDP Open Innovation deram-se a conhecer a uma audiência global. Dia e noite

"É de loucos, não temos tido tempo nem para comer nem para ir ao WC”, confessa Pedro Mendes, CEO da Invoice Capture, enquanto olha para o movimento que se adensa à sua volta. Pequena informação de contexto: não estará a exagerar. Encontramo-nos no pavilhão 2, de quatro (sem contar com o palco principal da Altice Arena) que funcionam como o maciço centro nevrálgico de um evento que pelo segundo ano consecutivo concentra as atenções do mundo empresarial em Portugal durante quatro dias de novembro. A Web Summit está aqui para ficar, a acreditar nas palavras do fundador Paddy Cosgrave, e no entusiasmado demonstrado pelos cerca de 60 mil participantes que se deslocaram até Lisboa para conhecer as grandes tendências de um vasto conjunto de sectores.

Uma montra como poucas que funciona como oportunidade para as startups que ocupam os muitos stands espalhados ao longo do complexo. Que o digam os participantes do EDP Open Innovation que aproveitaram para colocar as suas ideias de negócio neste escaparate único à boleia do projeto de empreendedorismo do Expresso e da EDP. “O impacto do primeiro dia foi impressionante”, atira Andrea Barber. A espanhola, que fala português com sotaque do Brasil por ter passado uns anos do outro lado do atlântico, é a CEO da empresa que se sagrou grande vencedora — a Rated Power — entre os 14 finalistas da 6ª edição da competição com o respetivo prémio final de €50 mil euros.

Estratégia de navegação
Acelerar a implementação de centrais fotovoltaicas no meio industrial com recurso a um software que automatiza e otimiza o seu planeamento é a ideia que tem valido o reconhecimento à empresa que, em seis meses de atividade, já funciona em mais de 20 países. E que tem de explicar vezes sem conta ao longo do certame perante as solicitações que naturalmente aparecem, sem hora precisa de chegar ou acabar. “Está muito movimentado”, conta, ao mesmo tempo que revela que em dois dias já tinham realizado “10/15 reuniões”, jantado com um cliente na Baixa lisboeta e tido outros encontros com potenciais investidores ou parceiros.

A reação tem sido de “espanto” perante as capacidades do software (“tenho sempre de explicar que não há engenheiros por trás, é só mesmo o programa”) e de consequente interesse em perceber como funciona. Apesar de conceder que o evento não é “o mais virado para a energia”, é uma plataforma muito importante para “divulgar a ideia” e “tomar o pulso ao que as pessoas querem” ao mesmo tempo que se percebe melhor o que ainda falta para atingir o próximo nível. E fica o segundo aviso, porque desengane-se quem pense o contrário: o público aqui é de exigência máxima e um microcosmos do que espera estas startups.

Pede-se uma estratégia, algo que ajude a navegar nos terrenos traiçoeiros e complexos da Web Summit. É pelo menos o que aponta Pedro Mendes, ao mesmo tempo que explica porque nunca se pode estar desatento e ser capaz de agir consoante a ocasião. Caso contrário não tinham visto uma diretora da José de Mello e decidido impulsivamente ir falar com ela.

Proatividade que lhes valeu uma reunião e um contacto que pode ser importante. Gestos e decisões que acredita fazerem a diferença, assim como formas diferentes de chamar a atenção das pessoas que passam. No caso da sua equipa — os terceiros classificados do EDP Open Innovation desenvolveram uma ferramenta digital de gestão financeira que trata automaticamente de todos os processos ligados a pagamentos enquanto providencia análise em tempo real e previsão de fluxos de dinheiro — trata-se de um vídeo que mostra de forma animada o valor acrescentado que o programa oferece e de uma série de personagens que têm criado no seu blogue para exemplificar diferentes géneros de devedores. Dá pelo nome de “debt persona saga” e já teve, por exemplo, o Wally, para mostrar alguém que “se está sempre a esconder”, diz entre risos.

Ideias que vieram diretamente da componente prática do EDP Open Innovation (composta por oito bootcamps realizados a 9 e 29 de outubro e organizados pela Fábrica de Startups) e que têm sido um sucesso entre os visitantes “dos quatro cantos do mundo” da Web Summit. Não têm tido “mãos a medir” perante a “curiosidade explícita” de quem os visita, seja um “contabilista russo”, representantes de um fundo de “capital de risco da Nigéria” ou o “CEO do BNP Paribas.” Tudo contribuiu para que as expectativas fossem “superadas” num sítio onde é percetível “uma grande vibe inovadora.” Outra coisa que destaca é a preparação dos participantes, que muitas vezes “tentam estar informados” e já saber “um pouco da empresa”, o que resulta num aproveitamento mais eficaz do tempo: as perguntas saem sem rodeios, diretas “ao problema que resolvemos ou não.” Não tem dúvidas de que é algo que “não se vê noutras conferências do género.”

O balanço não podia ser, por isso, mais positivo, não só pela recetividade do produto como também pelos muitos contactos e diversidade de sectores presentes. Mesmo quando as opiniões não foram completamente elogiosas — não foram desdenhadas, mas antes tratadas como valiosas para a equipa da Invoice Capture perceber onde pode melhorar. Como faz questão de dizer Pedro, “mais vale feedback positivo do que nenhum feedback.” Princípio que podia ecoar como banda sonora da azáfama e visões de inovação para o futuro que já são imagem de marca da Web Summit e a tornam uma experiência que, sem pensar duas vezes, repetiam.” Mesmo com “pouco ou quase nenhum tempo para ver outras coisas” e mais cansaço do que o devido para experienciar a animação da night summit. Mas nada que impeça conhecer algumas das festas.

Na conclusão de quase cinco semanas de ligação ao EDP Open Innovation, ambas as equipas falam de um período marcante para as suas empresas. Para Andrea, “ficam amizades, experiências e contactos” e uma entreajuda constante para que todos “atingissem os seus propósitos.” Já Pedro leva consigo “os colegas de programa” e as experiências que ajudaram a crescer e a estar mais preparado e com mais hipóteses de singrar no mercado. No cenário imponente da Web Summit, acreditar no futuro ainda não paga imposto.

Empreender é isto: trabalhar. E é uma maratona

Dustin Moskovitz esteve cinco anos na rede social e falou de uma experiência que o ajudou a moldar expectativas

Dustin Moskovitz esteve cinco anos na rede social e falou de uma experiência que o ajudou a moldar expectativas

JC

Um dos cofundadores do Facebook, Dustin Moskovitz, visitou a Web Summit para falar de boas e más razões para começar uma empresa

No palco entra uma mulher, um homem e um adereço estranho. Parece o início de uma anedota de mau gosto, mas não, foi mesmo o que aconteceu no espaço Startup University da Web Summit quando Dustin Moskovitz entrou em cena com um objeto que considera essencial para o equilíbrio da vida de empreendedor para falar com Kara Swisher, editora executiva da Recode. Tópico? O que deve ou não levar alguém a ser empreendedor. Tema sempre em voga e que ganha outra dimensão na boca de um dos fundadores da rede social mais omnipresente do mundo, o Facebook (“no filme [“Rede Social”] era o que estava sempre a teclar”). E que muito aprendeu com a experiência de estar na origem de um gigante tecnológico.

Cinco anos na companhia de Zuckerberg foram o prelúdio para em 2008 fundar e dirigir a Asana, startup baseada num software de organização de trabalho e tarefas dentro de empresas. Foi o problema que sentiu que podia resolver com as lições que aprendeu, orgulhoso de poder dizer que “ajuda as equipas a colaborarem de forma mais eficiente”. É uma de muitas coisas que devem estar na mente de quem tem ideias de arrancar com uma empresa, sobretudo quando a imagem mais romantizada do empreendedorismo ainda é tão prevalecente, com o filme que deu fama aos seus parceiros a ser utilizado como um “bom exemplo de liberdade criativa.” Como Dustin faz questão de apontar, “não havia muito champanhe, era mais sentado a uma secretária a trabalhar.” Daí parte a lição que todos devem ter a mente: antes de tudo o resto, “empreender é trabalhar.”

Como patos
Com esse pensamento bem presente, importa perceber o que deve levar alguém (ou não) a enveredar por esse caminho e o que manter e procurar fazer quando a escolha está feita. “Devemos olhar para nós”, diz, para explicar como não se deve achar à partida que o que funcionou noutras startups vai funcionar em cópia de papel vegetal noutra. Cada caso é um caso e “não temos de seguir cegamente o exemplo dos outros.”

Um erro frequente que aponta, são as pessoas que pensam primeiro no empreendedorismo e só depois na ideia, algo que tem de ser ao contrário. “A ideia de ser o seu próprio chefe é enganadora”, garante, porque no final de contas “temos sempre de responder perante muitas pessoas”, sejam clientes ou investidores. Só com noção dos riscos é que se pode esperar ter uma transição com mais hipóteses de sucesso, num mundo onde a taxa de morte de empresas ainda é muito elevada. Quem só vai pelo dinheiro também pode desde já desenganar-se, “pode desiludir-se muito rapidamente.”

Ter uma “visão de futuro perfeitamente definida” e integrada verticalmente no ADN da empresa é essencial para que todos remem para o mesmo lado. Estar em sintonia com os valores da empresa deve ser fomentado e é um dos grandes sinais de mudança no que significa ser empreendedor” assim como promover a inovação “que vá atrás dos grandes problemas, que crie efetivamente valor acrescentado.” São apenas alguns ingredientes que podem funcionar como razões válidas para lançar uma startup.

Os passos têm de ser cuidadosos e não colocar em causa “o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.” Algo que Dustin confessa ter descurado quando estava no Facebook, fase em que “não comia bem, não descansava, não fazia exercício” e desenvolveu “problemas de costas.” Experiência que o converteu num “advogado do descanso” porque caso contrário, as pessoas podem parecer patos, “com tudo bem na superfície mas os pés sem parar de mexer para se manterem à tona.” Por isso utiliza “uma das suas coisas favoritas”, um objeto multifunções que serve de massajador eficiente e de apoio para exercício e posições de ioga e que trouxe para mostrar como um adereço simples representa muitas das coisas que um empreendedor gosta, como “apoio e coisas que ajudem a mudar o jogo.” Tudo passa por fazer uma corrida controlada, porque quem ambiciona singrar neste mundo tem de perceber que o caminho não é mais do que “uma maratona.”

Vencedores do Open dixit

A Rated Power, 1º lugar do EDP Open Innovation 2017, num pitch diferente: fazem quatro perguntas a eles próprios e respondem

Quem são eles 
e o que fazem?


São três sócios fundadores — Andrea Barber, Juan Romero e Miguel Ángel Torrero — com experiência extensiva no sector das energias renováveis.

Como e quando 
surgiu a Rated Power?


A ideia surgiu trabalhando do lado da engenharia, realizando plantas de energias renováveis em vários países do mundo. Vimos uma grande necessidade de ter uma ferramenta que ajudasse na hora de realizar o projeto e engenharia de plantas solares fotovoltaicas; de modo que um processo árduo e longo pudesse ser realizado de forma mais ágil e eficaz. Daí surgiu a ideia de automatizar o processo.

Como Funciona 
o PvDesign?


PvDesign é um aplicativo web que conta com uma base tecnológica, uma série de algoritmos proprietários desenvolvidos internamente. Aproveitando a potência da nuvem, o pvDesign faz milhões de interações em segundos com o objetivo de encontrar o projeto ótimo das usinas solares em tempo real. Isso possibilita a eliminação de bottlenecks e a deteção de possíveis obstáculos, permitindo que os nossos clientes tomem melhores decisões e, consequentemente, diminuam os riscos e melhorem a rentabilidade dos seus projetos.

Participação 
na competição: 
como foi a experiência, como vos ajudou, 
qual a importância 
de competições 
deste género?


O EDP Open Innovation ajudou-nos enormemente, fornecendo-nos uma área comum de trabalho e conhecimento. Trabalhando neste espaço, as sinergias entre nós e outras startups foram fortalecidas e a transferência de know-how entre nós e outros empresários foi facilitada. Isso ajudou-nos a absorver novas ideias e deu-nos mais ferramentas que poderemos aplicar na nossa empresa.
Da mesma forma, foi muito positivo ter contacto com especialistas e mentores, ter acesso direto a um dos principais líderes do sector e entender melhor as suas necessidades e as dos nossos clientes. Por último, a difusão e exposição nos media ajudou-nos a divulgar e consolidar a nossa imagem frente a instituições e outras empresas, potenciais clientes.

Textos originalmente publicados no Expresso de 11 de novembro de 2017