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EDP Open Innovation

Que Portugal saiu da primeira Web Summit?

Em primeiro plano, Miguel Santo Amaro (CEO daUniplaces), João Vasconcelos (ex-secretário de estado daIndústria), Jaime Jorge (CEO da Codacy) e Paddy Cosgrave (CEO da Web Summit) no arranque da primeira edição domegaevento de empreendedorismo que se instalou em Portugal

José Caria

A caminho da 2ª edição já se percebe o impacto do maior certame de empreendedorismo do mundo no ecossistema do país

São estas as estrelas de rock do meu país” disse o então secretário de estado da Indústria, João Vasconcelos, enquanto estava no palco do MEO Arena rodeado de alguns dos principais nomes do empreendedorismo em Portugal e ao lado do primeiro-ministro, António Costa. O evento? A abertura da primeira edição da Web Summit em Portugal, o megacertame que prometia funcionar como montra das startups nacionais, com possibilidades de contactos únicos e uma exposição mediática maciça.

Celso Guedes de Carvalho, por exemplo, não tem dúvidas quanto ao impacto, uma vez que se potenciou “a uma escala sem precedentes, novas oportunidades de investimento para os fundos geridos pela Portugal Ventures.” O CEO da entidade governamental responsável por gerir o capital de risco público acredita que “a edição do ano passado foi um contributo decisivo para reforçar a credibilização do trabalho que está a ser feito pelas startups e pelos investidores nacionais.” Mas deixa logo um aviso à navegação: “Convém que o ecossistema esteja ciente de que este trabalho só produz resultados a médio e longo prazo.”

Foi um teste de fogo para aferir a preparação do ecossistema português, como atestam os números de participação de 53.056 participantes oriundos de 166 países, 1490 startups, cerca de 1300 investidores, 677 oradores e mais de 2000 jornalistas. Um campo global de tamanho único onde também marcaram presença as três melhores equipas da edição do ano passado do EDP Open Innovation, o projeto de aceleração de empresas realizado juntamente com o Expresso e que resulta da união entre o Energia de Portugal e o Prémio EDP Inova- ção. A caminhar este ano para a sexta edição, o programa tem candidaturas abertas até 23 de agosto (ler caixas) e, além dos €50 mil para a equipa com melhor ideia de negócio, volta a oferecer a oportunidade às três que mais se destacarem de fazerem parte do Web Summit deste ano. Com tudo o que isso acarreta.

Quantidade astronómica

Tiago Sá guarda boas memórias dos três dias que têm tudo para ser um marco no empreendedorismo em Portugal. Demos um salto de maturidade”, garante o CEO da WiseCrop, empresa que desenvolve sistemas distribuídos de monitorização e controlo remoto agrícola. “Somos muito jovens neste tema, e o WebSummit veio ajudar a um crescimento mais acelerado, potenciado pelo know-how de quem percebe da coisa a sério.” A maior abertura ao capital internacional seria sempre uma das principais métricas da mudança que o ecossistema atravessa em Portugal e, no exemplo da WiseCrop, a experiência de participação foi positiva. Seja nos contactos que continuam a dar fruto com investidores que conheceram, nas parcerias para darem “o primeiro passo na internacionalização” ou nas portas abertas “do ponto de vista de clientes.” Sem esquecer a Night Summit, que ofereceu alguns dos “momentos mais memoráveis devido à quantidade astronómica de gente que se reúne nas ruas, onde se despem as patentes”.

As recordações das conversas nas ruas da capital pelas horas mais tardias também são das primeiras coisas que surgem na cabeça de Álvaro Gomez, CEO da Tradiio, startup que junta uma plataforma de divulgação para novos músicos com rendimentos mensais para os mesmos. Foi aí que “conhecemos algumas das pessoas que vieram a ser os nossos investidores e conselheiros nos EUA”, conta. “Lembro-me de acabar uma das noites com um deles no Musicbox e ele comentar-me que hoje estava ali reunido mais capital que todo o PIB do país.” Foram três dias que colocaram “Lisboa no radar mundial do empreendedorismo e inovação” e que representam “o início de um novo ciclo no centro do mundo empreendedor, atraindo diretamente investidores e talento” e um panorama em que “tudo isto é possível sem ter que ir para fora.”

Reter talento

O grande desafio da atualidade é que não seja efémero este desenvolvimento, para o qual a Web Summit contribuiu. Clara Gonçalves, diretora da UPTEC (Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto), é dessa opinião. “Estamos numa fase de mudança que exige parar para contemplar e refletir”, defende, sobretudo quando estamos confrontados com “a questão do talento e como ele se está a esgotar” por ser atraído pelas grandes empresas “que cá se instalam”, o que já se começa a refletir nas startups. Se, com a crise, “de repente nos tornámos um país empreendedor” temos que substituir uma série “de iniciativas pouco estruturadas” para uma de maior alcance, “bem pensada, que permita que todas as instituições de ensino superior se possam reposicionar para colmatar esta falha.” Por outro, ainda se registam deficiências quando falamos de “investimento na fase inicial” e de “uma transferência de tecnologia mais eficaz.”

Tudo somado, que Portugal saiu então da primeira Web Summit? Parece reunir consenso entre os diferentes agentes que, oito meses depois, aprofundamos seriamente o caminho (que já tinha começado antes) rumo a um “ecossistema mais maduro e, sobretudo, mais internacional, com a presença regular de investidores em Portugal à procura de oportunidades de investimento em startups”, como diz Celso Guedes de Carvalho. Um fator essencial, quando a evolução do empreendedorismo está umbilicalmente ligada “à nossa capacidade em captar investimento internacional” para colmatar as limitações, que ainda são uma realidade. Há muito para trilhar ainda e num evento com “tanta gente, tanta coisa”, nas palavras de Clara Gon- çalves, o melhor ainda está para vir. “Se a primeira edição foi um sucesso, porque é que esta não será um ainda maior”, pergunta?

Três perguntas a: José Tribolet, Presidente da Comissão Executiva do INESC

Esteve na fundação do INESC (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores). Como olha para esses primórdios?
Nos anos 70 estive no MIT e regressei com ideias de criar condições para desenvolver atividades de investigação científica que criassem valor acrescentado à sociedade. Era uma forma de empreender. Eu e os dois colegas a quem me juntei queríamos criar um círculo virtuoso que pudesse alimentar a economia. Fomos a primeira instituição de investigação sem fins lucrativos no país, o que foi uma grande inovação. Informatizámos na década de 80 o serviço dos correios em Portugal, por exemplo. Entretanto regressei aos EUA e tive uma série de cursos sobre empreendedorismo e startups, mas sem esse nome, já não me lembro como se chamavam então. Mas eram o mesmo. E assim aparece um instrumento específico, o AITEC, uma incubadora pioneira de onde surgiram grandes empresas como a Link, a Octal ou a Novabase.

Como lidaram as instâncias superiores perante esses novos conceitos. Tem boas memórias?
Normalmente não olho para o passado, só quando estou nestas reflexões. Posso dizer-lhe que o que nós fizemos prima por não ter nada original. Importámos políticas que adaptámos a Portugal. Conseguimos criar um ecossistema que se espalhou pelo país inteiro. Fizemos a primeira empresa de internet no país. Tudo foi feito com cobertura académica mas sem que esse mundo se deixasse contaminar. Os reitores não viam isto com bons olhos. Há boas recordações. Quando regressei dos EUA, já tinha acontecido o 25 de Abril, não passei por nada disso. Em virtude do clima da altura, achavam que eu era da CIA! Mas como os meus dois colegas eram do PCP e da UDP, tudo acabava por estar equilibrado, cada um ficava com o seu sector. E em certas situações no IST, sempre lidei bem, sabe que sou ribatejano e aprendi a tourear. Durante os primeiros anos passávamos muito tempo em viagens de comboio pelo país. Íamos sempre na galhofa. A conversar e a rir havíamos de mudar o mundo (risos). Às vezes íamos a pensar “como damos a volta àquele gajo” e víamos muitas vezes que um almoço bem regado ajudava... Claro que a situação geral hoje mudou radicalmente.

A partir da sua experiência, como olha para o panorama atual?
Não encontro referência a nada, mas mudámos a educação em Portugal nestas áreas. A inovação faz-se em pequenos ecossistemas. As empresas antes eram antiempreendedorismo mas agora está na moda, se bem que falta mais participação privada e isso intriga-me. Se não tivermos isto, não temos futuro. Hoje, os jovens querem criar quase sempre a sua empresa, é uma grande diferença. É um facto mais generalizado e que me deixa muito otimista. A internacionalização tem tido avanços muito bons. Temos que gerar talento para alimentar este círculo e fazer com que haja mais retorno, que agora é nulo. Queria enfatizar isso, é zero. Em muitos casos, a malta só está a receber, não está a dar. Ainda assim, há muita coisa boa e isso dá gosto ver.

Opinião Por Simon Schaefer, presidente da Startup Portugal

É isso que devemos aos nossos filhos

Pediram-me para escrever sobre o que aconteceu desde a edição do ano passado do Web Summit e, com tudo o que se tem passado no ecossistema, sinto-me inclinado a responder a uma colega. Uma empreendedora, Filipa Larangeira, escreveu um artigo a reagir ao pedido de demissão de João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria, com o título “Ar’rebenta a bolha” do empreendedorismo em Portugal. Ela refere como são irrelevantes os programas do Governo, como a bolha finalmente rebentou. Bem, não podia discordar mais.

Em primeiro lugar, eu sou um empreendedor e investidor. Investi em muitas empresas, construí muitas startups e falhei na maior parte delas. Não sou de uma família de empreendedores. Era tão provável tornar-me empreendedor como padre. Mas a internet, em 1997, em Berlim, onde comecei, criou uma enorme oportunidade para aqueles que se atreviam a tentar, a construir negócios sustentáveis com muito poucos recursos. Até se pode argumentar que a cultura das startups é a base do processo de democratização do capitalismo. Se aprendi algo em Berlim, onde a cidade e o ecossistema tiveram mais hype na imprensa do que os resultados que mostrou até agora, foi que sem o hype é muito menos provável que se ganhe tra- ção. Precisamos de ter atenção, de ter consciência das diferenças do empreendedorismo moderno face à forma tradicional de construir um negócio.

É isso que está a mudar em Portugal. A consciencialização do Governo, da sociedade, o potencial para inspirar e elevar uma grande quantidade de pessoas, de apoiar empreendedores de ambientes instáveis (e, por vezes, socialmente desfavorecidos) é uma oportunidade que só surge uma vez na vida. Hoje isso é possível. Ainda nem há 30 anos era preciso um MBA, um banco e muito dinheiro para criar um negócio que se espalhasse pelo mundo. Isso acabou. E a forma como o entusiasmo em torno do empreendedorismo se dissemina é através da atenção, dos media e do apoio do Governo. É isso que devemos aos nossos filhos e à nossa economia futura — reduzir o mais possível as barreiras de entrada ao empreendedorismo. Filipa, minha colega empreendedora: foi isso que o João se atreveu a fazer, foi isso que o Web Summit contribuiu para mudar. A consciência de que o empreendedorismo é uma solução para os problemas sociais de todos, não só para os que nasceram ricos, não só para os que usam fato, não só para a elite do mundo. Se consegues programar a tua Xbox então é muito provável que consigas começar o teu próprio negócio.

Não nos deixemos enganar. Se o Governo não fornecer enquadramento para apoiar os empreendedores de todas as cores da sociedade, então não temos hipótese. E há muitos países onde o Governo tem uma abordagem monopolística manifestada através da elite. Graças a todos os empreendedores em Portugal, graças ao Web Summit e, em concreto, graças ao João Vasconcelos e ao seu esforço incansável em prol do empreendedorismo, há sustentabilidade no horizonte. Para todos nós e, agora mais do que nunca, em Portugal.

Saiba como candidatar-se

É muito simples. Vá ao seu computador (o jornal não sai do sítio, não se preocupe) e digite no browser o endereço edpopeninnovation.edp.pt. A partir daí só tem que seguir os passos do formulário de inscrição. Tenha em mente que é obrigatório ter uma equipa no mínimo com duas pessoas e no máximo com quatro, em que ninguém pode ter menos de 18 anos. O sector energético é o foco, com áreas como eficiência, mobilidade, internet das coisas, inteligência artificial ou tecnologias de informação, entre outras, em destaque. Querem-se ideias que respondam a necessidades de mercado, com planos sólidos e estruturados. Para se inscrever, tem de responder a perguntas como descrever o projeto numa frase, qual a inovação tecnológica que se oferece ou explicar a estratégia de aquisição de clientes, por exemplo. Se não se tiver esquecido de nada (é aconselhável ler o regulamento no site), resta esperar pelo final do prazo de candidaturas (ver datas em baixo) para saber se é um dos pré- selecionados. Desse lote vão sair os 15 finalistas, cinco de Portugal, cinco do Brasil e outros tantos de Espanha (o que não significa necessariamente que tenha de ter a nacionalidade, basta a equipa ter ligações a um deles). Contamos consigo.

As datas mais importantes

23 de agosto
Último dia para se candidatar. Aceitam-se projetos 
de Portugal, Brasil 
e Espanha. Objetivo: 
ser uma das 15 equipas 
a competir pelo prémio 
de €50 mil euros 
e três entradas diretas 
para a Web Summit. 
Inscrições em 
edpopeninnovation.edp.pt

4-6 de setembro
Apresentações ao júri das equipas pré-selecionadas

7-8 de setembro
Seleção e comunicação dos 15 finalistas (cinco por cada país)

9-24 de outubro
Fase de bootcamps. Serão nove as sessões de trabalho intenso na sede da Fábrica de Startups, em Lisboa, onde as equipas terão de dar asas à sua ideia

25 de outubro
Dia do investment pitch, onde os grupos terão dez minutos para apresentar o seu projeto 
perante o júri e uma plateia 
de investidores. 
Para a vitória conta também 
o trabalho desenvolvido ao longo 
das três semanas

6-9 de novembro
As três melhores equipas do Open Innovation ganham bilhete para 
a Web Summit, onde vão poder contactar com pessoas de todo 
o mundo no stand da EDP

Textos publicados originalmente no Expresso Economia de 22 de julho de 2017