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EDP Open Innovation

Como podemos educar (as crianças) para o risco

INOVAÇÃO: É o nome do meio do Fablab da EDP, que as 15 equipas finalistas do Open Innovation visitaram esta semana. O laboratório de prototipagem “sem fins lucrativos” está inserido na EDP Starter — a estrutura de incubação e aceleramento — e é um entre “cerca de 700 em todo o mundo e um dos primeiros nestes moldes” de acordo com o coordenador, Paulo Teixeira (no canto inferior esquerdo da foto com a sua equipa). Trabalham com material e tecnologia de ponta para criar soluções inovadoras como “o drone de inspeção de ativos da rede elétrica”. Aos finalistas, Paulo Teixeira garantiu “acesso livre para utilizarem o know how e equipamento” e viu “projetos com muita qualidade e potencial”

António Bernardo

Cada vez se tomam mais iniciativas para levar o empreendedorismo às escolas e aos mais novos, mas o caminho para mudar a mentalidade ainda é longo e exige um esforço concertado

Bolha criadora ou ecossistema sólido: se estivesse num teste de escolha múltipla, qual seria a hipótese certa para descrever o caminho mais provável para o ecossistema empreendedor em Portugal? Para muitos, a resposta depende de um fator que, de tão cliché que é, até pode ser descurado. Falamos da educação, essa pedra basilar de qualquer sociedade que agora se vê a braços com um maior escrutínio relativamente a um novo desafio, preparar não só academicamente mas também instigar uma mentalidade propícia a lidar com o risco. É o resultado da explosão do empreendedorismo a nível global, a que Portugal não escapa, e o resultante novo mercado de trabalho que pede mais iniciativa e criatividade aos candidatos. Já diz a sabedoria popular que de pequenino se torce o pepino e agora trabalha-se para introduzir estes conceitos nas escolas.
É o caso de Cascais, onde se encontra o maior programa municipal de empreendedorismo no ensino. De “12 escolas e mil alunos” na primeira edição, o DNA Cascais Escolas

Empreendedoras chega ao décimo ano com “50 estabelecimentos e 10 mil estudantes” do 1º ciclo, ensino secundário e profissional”, conta Nuno Piteira Lopes, vereador da Câmara Municipal do concelho e responsável pela associação que promove logisticamente o programa. É um “projeto pioneiro a nível nacional” que procura lidar “com a aversão ao risco que ainda se nota”, sobretudo quando estamos numa sociedade em que a primeira coisa que se faz quando alguém erra “é apontar o dedo.” O programa funciona através da formação de todos os professores nas instituições envolvidas, que depois levam a cabo um projeto ao longo do ano, escolhido pelos alunos, desde a ideia até à sua aplicação. O objetivo é que formem “um business plan, saiam para a rua e vendam os próprios produtos.” No final, realiza-se um concurso entre as escolas para saber quem obteve o melhor projeto. O balanço é positivo e Nuno Piteira Lopes e mostra “disponibilidade” para que outros concelhos conheçam a experiência de Cascais. Até porque o objetivo não é fazer dez mil fundadores de startups, mas “dez mil pessoas com espírito empreendedor.” E, no futuro, garantir que todas as crianças em idade escolar têm acesso a esta formação.

“Não se nasce empreendedor, aprende-se” é um dos lemas da Junior Achievement Portugal, organização internacional que se encontra a trabalhar em Portugal desde 2005. Para a CEO Erica Nascimento, os mais novos têm de “arriscar mais com decisões feitas em consciência e plena noção do que precisam de fazer para atingir os seus objetivos.” A organização oferece programas desde o ensino básico ao universitário, “com forte componente lúdica, que fomentam o gosto pelo risco e pela inovação, criatividade e responsabilidade pessoal” para melhorar as “perspetivas de emprego dos jovens”, que por estas bandas já chegaram a cerca de 250 mil alunos, com o apoio de mais de 13 mil voluntários empresariais e de 12 mil professores. No início de cada ano letivo, os estabelecimentos de ensino recebem um convite para participar em programas escolares e extraescolares “para alunos dos 6 aos 30 anos com uma programática, que hoje já é muito abrangente, com um total de 11 programas.” Para a responsável, apesar dos avanços que já se registam com alguns projetos, a “educação para o empreendedorismo terá de ser alargada ao maior número de escolas e educadores possíveis.”

Meta a que a Associação Industrial Portuguesa não é alheia. A organização, pela voz do presidente José Eduardo Carvalho, acredita que “os sistemas de educação têm de se adaptar às novas realidades de um mundo global e digital.” Por isso, desenvolveram projetos como os Ateliers Empreender Criança e Empreender Jovem que se destacam pela utilização de elementos didáticos para o ensino, como “manuais, jogos, storytellings, quizzes e recursos ‘Do It Yourself’. Até ao final do ano letivo 2015/2016, mais de 11.400 crianças do 1º ciclo do ensino básico tinham já elaborado 1856 projetos de empresa, enquanto aproximadamente 2200 alunos do ensino secundário e técnico-profissional conceberam e apresentaram 309 modelos de negócio. O sucesso também só é possível com interesse dos encarregados de educação e, nesse campo, o “interesse é crescente.” Resta agora aproveitar “as novas tecnologias de fabricação digital e a redução drástica de custos na eletrónica” para formar “uma nova comunidade de inventores empreendedores.”

Arrancar do zero
Mas ainda existe uma cultura de aversão ao risco? “Pensamos que sim”, é a resposta de Carlos Pereira, vogal do Instituto Português do Desporto e da Juventude. “Haverá sempre, e em parte parece-nos até que é positivo que haja”, refere, sem deixar de realçar: “Devemos sempre sensibilizar os potenciais empreendedores para associar o risco a um compromisso financeiro e, nessa perspetiva, parece-nos que incentivar as pessoas para a assunção do risco tem efeitos positivos se bem ponderados.” Por isso, desde 2011 que promovem o INOVA, concurso de ideias em que avaliam e premeiam ideias e projetos de inovação apresentados e desenvolvidos por jovens dos 6 aos 25 anos a frequentar o ensino básico ou o secundário. Os prémios monetários entregues e os ateliês de capacitação organizados concorrem para um mesmo objetivo: “A concretização dos projetos” que promovam “uma perspetiva pedagógica, construtiva e, se se quiser, até democratizadora”, que é essencial. Agora, colaboram na elaboração do Referencial de Educação para o Empreendedorismo, dirigido à educação pré-universitária.

A introdução no currículo escolar é o próximo grande passo, como defende Miguel Pina Martins. O CEO da Science4You defende que “a sala de aula ainda não evoluiu” e utiliza o exemplo dos EUA onde a “participação em feiras da ciência” ou “vender limonada na rua” são atividades habituais. Só com mudanças, alteramos “o medo de falhar.” No ensino superior, a aprendizagem para o empreendedorismo também tem lugar através do trabalho de pessoas como Pedro Oliveira, diretor do Doutoramento em Technological Change and Entrepreneurship da Universidade Católica. “Os alunos estão muito mais interessados na criação da sua empresa” e já se veem “algumas iniciativas muito interessantes.” Para isso, esteve na criação, há 12 anos, do Programa Avançado em Empreendedorismo e Gestão da Inovação que oferece ferramentas essenciais “para qualquer empreendedor que queira criar a sua empresa” e que se destina ,“a promover a inovação no seio de empresas estabelecidas.” Hoje já se veem “mudanças relevantes” e ninguém questiona “se faz sentido haver formação nesta área”. Seja em que idade for.

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 22 de outubro de 2016