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As boas ideias não têm idade

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José Paiva fundou a Landing Jobs sem olhar a idades porque “os mais novos ganham na irreverência” e os mais velhos na experiência

José Caria

Num mundo onde a imagem tipo ainda é muito estereotipada, cada vez mais pessoas mostram que o sucesso não se define unicamente pelo Cartão de Cidadão. Dos mais velhos aos mais novos

"Costumo brincar e dizer que tenho a idade da equipa em cada perna, 24 anos”, atira José Paiva. Empreender não é um posto e não exige uma idade específica no Cartão de Cidadão. Utilizando o velho adágio, é possível criar uma empresa dos 8 aos 80 e o clássico estereótipo de empreendedores apenas como millennials que cresceram sob o advento da internet e dos dispositivos móveis não passa disso mesmo: um estereótipo. Apesar do que ainda falta fazer, esse campo alargado não é estranho em Portugal, onde o Open Innovation — projeto de empreendedorismo do Expresso e da EDP que parte para a quinta edição após a união entre o Energia de Portugal e o Prémio EDP Inovação — tem dado o seu contributo para dinamizar o movimento.

Após 20 anos a trabalhar na área da consultoria informática José Paiva achou que estava na hora certa de avançar com um negócio a que pudesse chamar seu. Porque não, se “qualquer idade é boa para ter ideias”? Criou a Landing.jobs, uma plataforma de oportunidades de emprego para tecnologias de informação e um projeto que exige tanta dedicação que, por vezes, lhe transforma “uma semana num mês e um trimestre num ano”

A diferença entre idades é algo que, a seu ver, se verifica quando entram em cena os investidores. “Valorizam muito o passado do empreendedor” e questionam como “confiar num jovem de 20 anos que nunca fez nada na vida, sem referências, ou numa pessoa de 40 anos que sempre trabalhou para outros”. De resto, só reparou nessa imagem uma vez: “Ganhei uma distinção na Startup Lisboa e o apresentador chamou ‘o jovem empreendedor que ganhou o prémio’. Depois ficou sem saber o que dizer quando eu apareci”.

Empreendedor típico

Coautor do livro “Empreendedorismo após os 50 anos — um estudo sobre Portugal” e professor no Instituto Superior Técnico, Miguel Amaral sente-se à vontade para falar sobre este tema. “O empreendedor típico em Portugal é, em média, alguém do sexo masculino, com cerca de 40 anos de idade e com (apenas) 8 anos de escolaridade que cria um pequeno negócio de subsistência”, revela, para mostrar que a imagem que temos do empreendedorismo como um movimento dinâmico e só virado para os mais novos não corresponde totalmente à verdade.

Para o investigador, é claro que “entre os indivíduos mais velhos há muito interesse em criar empresas”. Permanecem casos de “discriminação relacionada com a idade, aspetos ligados à saúde, educação ou iliteracia digital” e continua a “existir um confronto geracional”. É normal, quando há “maior apetência deste segmento para a criação de empresas” e a “maior parte dos programas e infraestruturas de apoio no país destinam-se a jovens”. Contudo, Miguel não tem dúvidas que “há espaço para todos”, pois esta geração acumula capital humano, social e financeiro que ainda faz a diferença.

“Bichinho de criar”

Que o diga Rúben Domingues, CMO da Spindots. Fundador, juntamente com mais três sócios, “todos cinquentenários”, deixou um emprego no maior grupo de comunicação do mundo por acreditar “numa grande ideia”. Sediada na Lispolis, a rede social de partilha de descontos de grandes retalhistas é uma das 66 escolhidas para representar Portugal na Web Summit, porta que “permite acelerar a ideia”, sobretudo quando os responsáveis mantêm a energia que já tinham “aos 25 anos”. Nunca sentiu qualquer estereótipo e acha que e idade “só funciona a favor.” O arrependimento é coisa que não lhe entra na cabeça quando pensa na decisão que tomou. É a “primeira experiência como empreendedor” e, até ver, “um incentivo”.

Do outro lado do espectro estão Honório Jesus, Diogo Reis e Afonso Pereira, do agrupamento de escolas de Carcavelos. Com idades compreendidas entre os 14 e os 15 anos, são os vencedores da mais recente edição do DNA Cascais Jovens Empreendedores com a Brincoteca, uma ideia de subscrição mensal de brinquedos para distribuir por famílias carenciadas. Diogo conta que já se sentem empreendedores, sobretudo depois da viagem a Madrid como parte do prémio, onde “fizeram contactos muito bons” e sentiram que, na idade deles, já se “pode avançar com uma boa ideia”. Por enquanto, não saiu do papel mas “o bichinho de criar” já ninguém lhes tira.

Falta “dar apoio aos jovens e alterar o panorama da educação”, garante Daniel André, presidente da Young Adult Generation, uma associação de apoio ao empreendedorismo. “95% não sabem como dar o primeiro passo para criar uma empresa e não sabem a quem se dirigir para os apoiar.” Desde os primeiros livros de matemática que se deve estimular uma mentalidade criadora para que “o apoio necessário alguns anos mais tarde seja mais a nível técnico”. Com cada vez mais pedidos de ajuda, dos mais novos aos mais velhos, sentem-se como uma ponte entre gerações.

Representante de uma faixa etária que dá passos de destaque é Joana Simões Correia, da Exogenus Therapeutics, empresa que atua na área da biotecnologia e se dedica ao desenvolvimento pré-clínico e clínico de terapias na área da medicina regenerativa. Vencedores do 17º Prémio de Jovem Empreendedor da ANJE, para a diretora executiva, nunca ninguém demonstrou preconceito pela idade média da sua equipa e, mais que tudo, a sua “experiência internacional é sempre reconhecida”. O importante é reconhecer que nem todos têm “apetências ou perfil para se tornarem empreendedores de profissão, mas o espírito pode ajudar muito a superar desafios pessoais”. Tenham oito ou oitenta.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 8 de novembro de 2016