Siga-nos

Perfil

Expresso

EDP Open Innovation

Estamos a criar as startups certas?

Tal como retratou o filme 
“Rede Social”, Mark Zuckerberg criou uma nova indústria 
a partir do seu dormitório. 
Não acontece todos os dias mas, em média, são criadas 
35 mil startups por ano 
em Portugal com 2,5% a serem exclusivamente tecnológicas

Merrick Morton

O digital domina no mundo e as empresas portuguesas têm de acompanhar este movimento. No dia em que apresentamos os 15 finalistas do Open Innovation, colocamos o dedo na ferida

Estar consistentemente no lugar certo à hora certa não é um talento ao alcance de muitos. Se para alguns se trata meramente de, como se diz na gíria, os astros se alinharem, para outros não é mais do que estar atento às tendências de mercado e ser capaz de atuar sem ser traído pelo medo. Que o diga Mark Zuckerberg, cujo retrato no filme “Rede Social” é paradigmático de dedicação e trabalho. Por outras palavras: a essência do empreendedorismo. É algo que exige muito trabalho, sempre acompanhado de um pouco de rasgo para que as empresas sejam sustentáveis. Portugal não foge à regra e há uma preocupação cada vez maior em garantir que esta vaga empreendedora não se transforme numa bolha.

“Há uma vaga de empreendedorismo de base tecnológica, científica e criativa em Portugal”, concorda o presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários, João Rafael Koehler. “A partir do conhecimento adquirido nas universidades, muitos jovens estão a criar startups inovadoras, orientadas para o mercado global e capazes de competir em segmentos de elevado valor acrescentado. Existem, de resto, boas perspetivas de crescimento deste empreendedorismo mais sofisticado”, garante.

Bits e bytes

Acompanhar as áreas que mais futuro garantem e antecipar os grandes movimentos globais são uma componente cada vez mais essencial e, atualmente, o meio onde se centra a atenção de investidores e responsáveis é a economia digital. Por esta expressão, entenda-se os bits e bytes que permeiam todos os elementos da sociedade e ligam o sector empresarial de uma forma que antes não era possível. Entre os 15 finalistas (que pode conhecer melhor em baixo) do Open Innovation — quinta edição do projeto de empreendedorismo do Expresso e da EDP que resulta da união entre o Energia de Portugal e o prémio EDP Inovação — a ligação do sector energético e da tecnologia é o elo que une todos. Uma sinergia que é cada vez mais a norma.

Para Pedro Norton de Matos, CEO da Commit e um dos pioneiros do empreendedorismo em Portugal, cabe ao mercado definir. “Se estivermos atentos e escutar ele diz-nos... e muito do mercado é global no modelo da economia digital, ultrapassando em muito as fronteiras físicas tradicionais.” O sucesso “pode acontecer em qualquer área de atividade.” Basta “identificar a oportunidade” e ”dimensionar corretamente” para garantir mais condições de sucesso. Algo que se verifica em Portugal, onde a digitalização é acompanhada de uma recuperação do “nosso ADN histórico”.

Talvez a resposta seja que não há área errada para criar, visão corroborada por Miguel Frasquilho. O presidente da AICEP acredita que “a criação de novas empresas tem ocorrido em praticamente todos os sectores da economia, desde os mais tradicionais até aos emergentes”, com o elo que distingue a passar pela “capacidade de inovação, a qualidade e design dos produtos, a capacidade de resposta e de serviço ao cliente, mas acima de tudo a qualidade, polivalência e capacidade técnica dos nossos recursos humanos”. Nesta quarta revolução industrial, a Indústria 4.0 em que, pela primeira vez, a “proximidade dos fatores de produção não é relevante, Portugal pode e deve ter um papel ativo pois os fatores críticos de sucesso serão aqueles que as nossas empresas têm demonstrado”.

Ambições internacionais

“Existem muitos mais projetos e muitos mais agentes no ecossistema. Temos mais empreendedores, mais investigadores que colaboram com estes, mais investidores, mais mentores e sobretudo a qualificação de todos estes agentes é cada vez maior também”, defende o responsável pelo Instituto Pedro Nunes — Associação para a Inovação em Ciência e Tecnologia de Coimbra. Para Paulo Santos, são cada vez mais “as empresas com ambições internacionais”, algo que sabe estar a acontecer “em vários outros sítios do país”. Ainda assim, “continuamos muito focados nos serviços” e deviam surgir “mais projetos baseados em produto”.

Se a evolução é positiva, João Rafael Koehler acha que “ainda faltam empresas de base tecnológica, científica e criativa em sectores de futuro” enquanto Miguel Frasquilho sustenta que este crescimento não pode perder de vista a “promoção externa do nosso ecossistema”. Até pelo papel que pode ter na criação de emprego: “Estamos certamente a criar bases sólidas para que os nossos recursos humanos mais qualificados se possam manter no país. Mais do que isso, se formos capazes de nos posicionar a nível internacional estamos também a criar condições para que os recursos humanos de mais qualidade que estão fora de Portugal possam regressar.” Pedro Norton de Matos admite que este movimento destrói também “alguns empregos tradicionais” mas os “mais qualificados defendem-se melhor” pelo que, a longo prazo, irá funcionar.

De acordo com uma estatística da consultora Informa D&B, as empresas até aos cinco anos de idade são responsáveis por 46% do novo emprego gerado em Portugal desde 2007, pelo que o seu papel não pode ser descurado. Na hora certa, no lugar certo, seja em que sector for, o ecossistema empreendedor português cria empresas como nunca. Sempre com o elo de ligação da tecnologia.

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 24 de setembro