Siga-nos

Perfil

Expresso

EDP Open Innovation

Em que posso ajudar? Eis a questão do Estado

Os fundadores da Book
 in Loop — Manuel Tovar, João Parreira e José Moura — rodeados de livros na sala São Paulo da Universidade de Coimbra. Querem ser a referência no mercado de livros escolares em 2ª mão

Rui Duarte Silva

A viver um período de dinamismo inédito, o ecossistema empreendedor português procura agora ganhar bases sólidas. Com a ajuda das ferramentas estatais, o objetivo pode estar ao alcance

Poucas expressões representam tão bem o espírito independente que se tem cultivado no empreendedorismo como aquela que designa os habituais primeiros investidores numa empresa: friends, family and fools (amigos, família e loucos).

Os três efes são um dos mandamentos para os membros deste ecossistema e uma asserção clara sobre as grandes dificuldades que muitas ideias de negócio enfrentam: com falta de apoio morrem sem chegar a florescer. É uma das fases em que o dinheiro público pode fazer toda a diferença.

Vivemos uma altura de visibilidade e pujança do ecossistema nacional — para o qual o EDP Open Innovation, o projeto de empreendedorismo do Expresso e da EDP tem procurado dar o seu contributo — como nunca se viu. “Antes era só uma palavra do mundo da zoologia. Agora descreve todo um universo dinâmico de pessoas”, segundo João Bernardo Parreira, fundador de uma das startups da nova vaga, a Book in Loop.

Desde o início de 2016 que a sua empresa de venda de livros escolares em segunda mão, com base em Coimbra, atingiu a marca dos 15 mil utilizadores e montou 330 pontos de recolha espalhados pelo país. Trabalho que já lhe valeu uma audiência na Assembleia da República e protestos da Porto Editora.

“Sente-se um ambiente de estímulo”, admite, que tem colocado Portugal na mira do mundo dos negócios. Uma situação que oferece oportunidades únicas às startups que por cá se formam, mas também aumenta a pressão para garantir bases mais sólidas que impeçam este movimento de ser visto como uma mera moda.

Colmatar lacunas

De acordo com o secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, o objetivo dos organismos públicos é “ir mais longe em termos de financiamento”. Daí que o Governo tenha desenvolvido e apresentado uma estratégia nacional para o empreendedorismo, a Startup Portugal, que se divide em três áreas de atuação”. A saber: fortalecer o ecossistema, garantir financiamento e apoiar a internacionalização.

“Mais do que fomentar o espírito empreendedor”, pretende-se “apoiar quem já é, assegurar a longevidade das empresas criadas e garantir que produzem maior impacto em termos de criação de emprego e de valor económico”. Entre as principais metas contam-se ainda “desbloquear e promover a partilha de benefícios, boas práticas e recursos, entender onde há falhas regionais e sectoriais e colmatar lacunas.” Para o governante é essencial que as políticas públicas de financiamento a startups estejam concentradas em oferecer “uma alternativa ao crédito bancário” e em coinvestir com os “melhores investidores nacionais e internacionais”.

Espaço para a entrada em ação da Portugal Ventures, o organismo responsável pelo investimento público de capital de risco criado em 2012 e que coloca no ecossistema “cerca de 30 milhões por ano” de acordo com o CEO, Celso Guedes de Carvalho. Abrem regularmente iniciativas — “calls para sectores estratégicos” — para atrair candidaturas de startups promissoras e desde a sua criação que já investiram em 81 empresas. Sempre numa fase inicial, procuram “projetos inovadores, de base científica ou tecnológica, com foco nas fases onde o dinheiro se destina a desenvolver novas tecnologias e novos produtos, a fazer a prova de conceito e a testar no mercado”.

Segue-se o “grande desafio”, o do crescimento, que passa por dar às empresas ferramentas para ganharem mais independência e “tornarem-se atrativas”. O objetivo é que no futuro se possam realizar operações de desinvestimento com retorno, única forma de aferir o sucesso. O responsável garante não pretender substituir-se “aos investidores privados” numa altura em que “os esforços mais recentes têm ido no sentido de partilhar o investimento com os privados.” Aponta para exemplos como o Programa Semente (da Startup Portugal), que prevê benefícios fiscais individuais para os primeiros investidores, para deixar uma certeza: “Somos um dos países da Europa que mais estão a fazer para apoiar os investidores e as startups.”

Um dos frutos da aliança entre sector público e privado no investimento é a Chic by Choice. Fundada em 2014, foi considerada recentemente a melhor europeia na área da moda. A proposta de valor passa por uma plataforma de aluguer de vestidos ou outros acessórios de luxo em mais de 15 territórios. Exigia-se um “elevado investimento inicial tanto em marketing como em tecnologia e inventário” para “criar uma nova categoria de consumo”, conta uma das fundadoras, Filipa Neto.

Ausência de tradição

O potencial da ideia levou a Portugal Ventures, juntamente com outros dois investidores, a Faber Ventures e The Edge Group, a um investimento de €550 mil, que sustentou a “evolução nos primeiros 18 meses”. O apoio estatal tem sido “importante porque não existia uma tradição de capital de risco” e , sem ele, o ecossistema “não teria oportunidades de florescer à mesma velocidade.” Não deixa de apontar algumas “ineficiências” mas acredita que estamos “mais próximos de modelos que fazem sentido”.

Outra das medidas incluídas na estratégia nacional do Governo é o Startup Voucher, um apoio destinado a projetos na fase da ideia e que consiste numa bolsa de €691,70 mensais durante um ano. O IAPMEI (Agência para a Competitividade e Inovação) é uma das entidades responsáveis pela aplicação do programa, assim como por outros apoios a PME. O seu presidente, Miguel Campos Cruz, destaca o “lançamento de instrumentos de coinvestimento com business angels e de instrumentos que conjuguem dívida e capital” sem esquecer o papel das linhas de crédito, criadas em 2008/2009, e que já permitiram canalizar milhões para novos projetos.

Não tem dúvidas que a “promoção do empreendedorismo sustentável se faz em rede, envolvendo centros de conhecimento, tecnológicos e instituições financeiras”. Uma rede que exige uma “gestão eficiente e profissional” para fazer face às restrições de recursos. Dá como exemplo a rede nacional de mentores, que “envolve agentes internacionais e da diáspora” e o estímulo da literacia financeira junto dos empreendedores. Ferramentas muito úteis que não têm um conteúdo “exclusivamente financeiro”.

Para João Bernardo Parreira, da Book in Loop, que ainda não saiu da fase dos três efes, este tipo de ações de “estimulação de incubação e conhecimento” devia ser o cerne da atividade do Estado e não um financiamento que pode sustentar o crescimento “de forma artificial.” Pede uma “gestão mais criteriosa” para o que o ecossistema não fique irremediavelmente “dependente de estruturas estatais”. Os responsáveis trabalham nesse equilíbrio, há “instrumentos no terreno que têm de ser afinados”, mas Miguel Campos Cruz acredita que a articulação entre medidas e entidades levará a “um novo patamar”.

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 27 de agosto de 2016