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Expresso

EDP Open Innovation

O escritório dos empreendedores

Escritório informal
 de muitos empreendedores,
 a Starbucks começou como uma banca de café em 1971. Hoje dispõe de mais de 15 mil lojas em 50 países, está
 em Portugal desde 2008

Joao Carlos Santos

Portugal assume-se como um destino para os estrangeiros com as principais aceleradoras e incubadoras do país a serem cada vez mais procuradas. Mantê-los é o desafio

Bem-vindos ao maravilhoso mundo do empreendedorismo, onde Portugal assume lugar de destaque. Sim, o pequeno país na ponta da Europa, longe dos centros de decisão e que ainda vive na ressaca da crise é hoje centro de atração de muitos investidores e empreendedores estrangeiros. Mas se antes vinham cá em busca de trabalhadores com poucas qualificações, agora as regras do jogo mudaram.

Para o diretor-executivo da Startup Lisboa, Miguel Fontes, tudo se insere numa “necessidade de expansão geográfica” que alargou os horizontes além dos clássicos centros europeus, “como Londres ou Berlim.” Cidades que não ficam baratas e onde a explosão do empreendedorismo originou “mais projetos do que capital.” É assim que Portugal surge como uma proposta de valor “particularmente interessante” porque “quando se começa uma startup também se escolhe onde se quer viver.” Daí que das 100 empresas incubadas na sua estrutura, 30 tenham origem fora das fronteiras.

Ecossistema vibrante

Charlie Orford é um deles. Fundador da Low Cost Hero — uma startup que pretende “desenvolver uma forma mais rápida de comparar voos de baixo custo online” — a partir de um “quarto vago” na sua casa em Manchester, optou por Lisboa há seis meses para encontrar “um ambiente mais dinâmico” para a próxima fase de desenvolvimento da empresa. Após um mês de pesquisa de diferentes opções, acabou por escolher “um ecossistema vibrante e com visão internacional, uma base local consistente de firmas de investimento e startups de sucesso reconhecido” sem esquecer o custo de vida que “dá mais liberdade para trabalhar no produto antes de ter que partir para a próxima ronda de financiamento.”

A “beleza do país”, a “qualidade de vida”, a “facilidade de comunicação” e a comodidade em criar “contas bancárias e obter acesso à internet” não o deixam indiferente.” Claro que nem tudo são rosas, e a “burocracia na contratação” bem como os “salários mais baixos em comparação com os países do norte do Europa” são fatores a mudar. Num local onde todos os meses conhece mais empreendedores estrangeiros, “desde turcos a mexicanos” vir para Portugal foi a “melhor decisão”, garante, e não tem planos para voltar.

Temos tudo o que é preciso para Miguel Fontes. Desde qualidade de vida e custos acessíveis, ao “talento e o número de pessoas qualificadas” que aumentaram sobremaneira nos últimos anos, como resultado de “políticas públicas sucessivas de investimento na educação.” Ou seja, é essencial realçar que “isto não é obra do acaso”, com um “mundo académico cada vez mais alerta” e que contribui para uma “imagem de sofisticação.” Lisboa — onde se realiza a fase final do EDP Open Innovation, a competição de empreendedorismo do Expresso e da EDP — pode ser a grande bandeira mas não é a única. Exemplo desse trabalho é a UPTEC, estrutura da Universidade do Porto dedicada à incubação de startups que conta com 20 empresas internacionais. “Temos sentido cada vez mais interesse nos últimos dois anos. Recebemos imensos contactos e não tem sido difícil atrair empresas estrangeiras”, revela Clara Gonçalves, a diretora executiva.

Contemplar o interior

A Iguaneye assume-se como um desses casos. A startup foi fundada pelo designer francês Olivier Taco, que viajou com a família para Portugal em 2013 para desenvolver a sua ideia: um tipo de calçado protetor que cobre todas as partes do pé, permitindo caminhar como se andasse descalço. Todos os materiais são produzidos na zona, e a empresa já faturou mais de €320 mil com vendas para todo o mundo. No Porto encontrou uma “concentração de todas as vantagens” que o país tem para oferecer e qualidade de trabalho que o vão fazer ficar por cá “muito tempo.” Mesmo com as dificuldades em aceder a “pequenos programas financeiros de apoio com objetivos de curto prazo”.

Clara Gonçalves não tem dúvidas que o “programa Erasmus e o boom turístico” trouxeram muitas pessoas novas. Por outro lado, “começamos a ser procurados por causa de áreas que tradicionalmente o país não tinha a oferecer, como biotecnologia, arquitetura e design.” Estes empreendedores estão a trazer “escala e um melting pot, essencial para que o país se desenvolva”. Deve-se “contemplar mais o interior” nas políticas de atração e chamar a atenção para cidades como “Braga ou Coimbra” que estão a fazer o seu caminho.

O importante é agora não deixar que este crescimento seja algo efémero. Para a responsável da UPTEC, têm de se encontrar formas eficazes “de reter o talento que sai das universidades” pois só assim é possível desenvolver “massa crítica” que chame mais pessoas. Já Miguel Fontes realça que não estamos perante “uma bolha” mas que temos que aproveitar de forma inteligente “grandes oportunidades como o Brexit ou a realização da Web Summit em Lisboa.” Com doses reforçadas de “profissionalismo, criatividade e ambição”. Se somos ou não um hub internacional de empreendedorismo já nem sequer é uma questão: “É a realidade.”

Artigo orignalmente publicado no Expresso Economia de 6 de agosto de 2016