Siga-nos

Perfil

Click Portugal

Click Portugal

Economia digital obriga banca a reinventar-se

  • 333

Os bancos terão sistemas inteligentes, ecrãs táteis e quiosques interativos. 
A imagem de Tom Cruise 
no filme “Minority Report”, de 2012, vai deixar 
de ser ficção FOTO D.R.

Tecnologia. A revolução da economia digital e o aparecimento de novos competidores está a pôr em causa o tradicional modelo da banca

João Ramos

João Ramos

Jornalista

No filme “Minority Report”, de 2002, a personagem John Anderton, encarnada por Tom Cruise, era confrontada com sistemas inteligentes e ecrãs táteis que reconheciam a sua face e que antecipavam desejos e necessidades. Uma voz dirigia-se-lhe pelo nome próprio e propunha-lhe comprar o carro dos seus sonhos. Uma situação que há poucos anos parecia apenas ser do domínio da ficção científica, mas que afinal hoje não está muito distante da realidade. Os atuais equipamentos móveis (smartphones e tablets) já estão equipados com ecrãs táteis e os modelos topo de gama já reconhecem dados biométricos (impressão digital e reconhecimento da íris). E na retaguarda já existem poderosos sistemas de informação (servidores e big data) usados sobretudo pelas grandes marcas do mundo digital — Amazon, Google ou Facebook — que conseguem conhecer os hábitos e as preferências dos clientes e utilizadores e antecipar necessidades e induzir consumos.

Mais distante da realidade retratada pelo filme de Steven Spilberg parece estar a banca de retalho tradicional. Também possuem sistemas de informação poderosos, mas, salvo algumas exceções, não conseguem rentabilizar o conhecimento que têm dos seus clientes. E estão a ser ultrapassados em inovação pelas empresas da era digital, em várias frentes. “Estão a surgir novos concorrentes que também querem ter a sua fatia do bolo do sector financeiro”, refere Alyson Clarke, analista da consultora Forrester Research, que recentemente publicou um estudo sobre a banca digital na América do Norte em 2015. “Os novos competidores da banca apresentam modelos de negócio inovadores para contornar constrangimentos financeiros. Atacam mercados onde há boas margens ou onde o sector financeiro atual é ineficiente. E vão ao encontro das pretensões dos consumidores: produtos melhores, mais baratos e simples”, sintetiza Alyson Clarke.

De entre os novos concorrentes da banca tradicional, estão as fintech (tecnológicas financeiras) que nascem para serem eficientes e servir o cliente. Há vários tipos de startup com este perfil: as especialistas em pagamentos (como a LevelUp ou Square); as que propõem fazer a intermediação do crédito entre pessoas a um custo muito mais baixo do que os bancos (por exemplo, o Lending Club), novos especialistas na gestão de divisas (Kantox) ou ainda a nova geração de bancos digitais sem balcões (como o Moven e o BankMobile).

As dores de cabeça dos gestores da banca tradicional, que também estão a ser confrontados com exigências regulatórias e cortes de custos, também vão surgir dos gigantes da tecnologia como a Apple, Google ou Samsung. Também eles querem o seu quinhão das transações financeiras e já avançaram com sistemas de pagamento e wallets. Tiram partido do facto de terem posições dominantes nos ecossistemas dos equipamentos móveis (smartphones e tablets).

A Apple foi a primeira a atacar. Lançou nos Estados Unidos o serviço Apple Pay no final de 2014 que ainda não é um sucesso (para já, os lojistas e os consumidores ainda se queixam de algumas ineficiências). Recentemente, foi a vez da Samsung — parceira do Expresso no Click Portugal, projeto que dá conta das transformações tecnológicas que surgirão no futuro próximo em sectores como banca, retalho, turismo e saúde — lançar na Coreia o sistema de pagamento Samsung Pay, que ficará disponível este ano para os utilizadores de smartphones da marca asiática nos Estados Unidos e em 2016 na Europa. A Google também se prepara para conceder crédito dentro de dois ou três anos.

Os grandes retalhistas também já deram sinais de quererem ficar com uma fatia do mesmo bolo. Por exemplo, o gigante americano Wal-Mart fez uma parceria com o Gobank para prestar serviços financeiros. Perante esta forte concorrência que se avizinha, a banca de retalho vai ter que apostar forte na área digital e reconverter os seus balcões, transformando-os em espaços de aconselhamento personalizados a que não faltarão grandes vídeos de parede (videowall) e quiosques interativos.
O presidente do banco espanhol BBVA, Francisco Gonzales, surpreendeu os seus pares quando afirmou numa conferência que “a sobrevivência da banca de retalho passa não só pelo negócio bancário mas sobretudo pela capacidade em se transformar em empresas de software”. É a forma do sector lutar em pé de igualdade com empresas como a Amazon, Apple, Google ou Samsung.

Uma revolução que é difícil de fazer internamente em instituições normalmente conservadoras. Por isso, o relatório da Forrester Research faz notar que alguns grandes bancos americanos, como o Bank of America ou Wells Fargo, já estão a apostar na criação de novos modelos de negócio inspirados no exterior. Recorrem a inovação aberta e investem em startups fintech. Um sector que está a ter grande pujança sobretudo no Reino Unido, onde estão a surgir diversas startups unicórnio (com valorizações superiores a mil milhões de dólares) especializadas em aplicações de software e em produtos financeiros inovadores.

Por outro lado, o acesso aos serviços bancários é cada vez mais móvel. Ainda segundo a Forrester, visitar o banco através do smartphone e do tablet duplicou nos Estados Unidos entre 2014 e 2015. Nesse sentido, os bancos tradicionais tenderão a usar mais o canal móvel, não apenas para prestar serviços, mas sobretudo para vender produtos financeiros através de propostas personalizadas que aumentam a fidelização.

Aparentemente, muitos dos novos consumidores, sobretudo os que cresceram com a internet, estão dispostos a correr riscos de segurança e privacidade e estão a aderir a novas entidades para fazer transações financeiras. Uma atitude que explica o sucesso do serviço Paypal, uma entidade que há poucos anos não era conhecida. Grande parte desta nova geração de utilizadores está habituada a interfaces apelativos. É a que vê os filmes e séries através de serviços streaming como o Netflix.

É também a geração que mais adere a serviços da economia da partilha como o Uber ou o Airbnb e mais compra online (Amazon). A visão do “Minority Report” está ao virar da esquina.

CANAIS MÓVEIS

72%
dos clientes bancários europeus utilizam os canais móveis ou esperam usá-los no próximo ano, segundo um inquérito da ING 2015

CONSULTORES

66%
dos clientes bancários preferem falar cara a cara com consultores quando compram produtos financeiros (Accenture)

O QUE É O CLICK PORTUGAL

O PROJETO
É um movimento para ajudar a transformar quatro sectores: banca, retalho, turismo e saúde. Em outubro e novembro ficará a saber — no semanário, no site do Expresso e no Diário — quais as mudanças e os desafios tecnológicos que se colocam nestas áreas e o que procuram os novos consumidores nos bancos, supermercados, hotéis e hospitais. Para se juntar ao debate no Click Portugal e ficar a saber tudo sobre o projeto conjunto do Expresso e da Samsung consulte o clickportugal.expresso.pt

A GRANDE CONFERÊNCIA
No próximo dia 15 de outubro, quinta-feira, é o ponto alto do Click Portugal. O Expresso e a Samsung organizam a conferência “O Futuro da Banca & Seguros”, no Hotel Ritz, em Lisboa. Principais temas e painéis: A nova economia digital; O futuro da banca e seguros; Como as novas gerações estão a transformar este negócio, bem como o impacto do marketing e da inovação na relação com os consumidores. Entre os oradores já confirmados encontram-se Luís Pereira Coutinho (CEO do Banco CTT), Rui Manuel Teixeira (CIO do Millennium BCP), Domingo Miron (Diretor Serviços Financeiros, Accenture Espanha).

Se quiser fazer parte desta conferência, inscreva-se enviando um email para eventos@impresa.pt colocando no assunto “Inscrição Conferência Click Portugal”.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 3 de outubro de 2015