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Caminho da Internacionalização

Matateu, a estrela antes de Eusébio

Matateu num lance acrobático. A fotografia mais conhecida do astro moçambicano

ASF

Conheça um pouco a história daquele que ficará para a posteridade como a grande figura do Belenenses e o primeiro moçambicano a chegar a Portugal para jogar futebol

Em julho de 1966, Portugal chegava pela primeira vez à fase final de um Mundial de futebol para arrancar a melhor classificação de sempre - o terceiro lugar, que até hoje, nenhuma outra seleção nacional igualou ou bateu. Chamaram-lhes Magriços, nome inspirado numa lenda cantada por Camões em "Os Lusíadas", que conta a história de um português do século XIV, conhecido por "Magriço", e que parte com 11 cavaleiros para Inglaterra para defender a honra de 12 donzelas. Seis séculos depois, não havia donzelas para defender, mas a honra mantém-se de pé, quase meio século depois, no coração até daqueles que não têm idade para tanta memória. No onze daqueles tempos, comandado pelo brasileiro Otto Glória, sobressaem quatro jogadores nascidos em Moçambique - mais de um terço da equipa titular: o "inultrapassável" Hilário Conceição, do Sporting, o defesa central Vicente Lucas, do Belenenses, que ganhou fama pela marcação que fez a Pelé, e dois grandes nomes do Benfica, o capitão Mário Coluna, a quem também chamavam "Monstro Sagrado", e, claro, Eusébio, o "Pantera Negra", o "Pérola Negra", o "Rei". A história da seleção portuguesa de futebol seria certamente diferente sem estes craques (e outros que se seguiram). E pode até ir-se mais longe: a história do futebol português não seria a mesma sem esse suor moçambicano. Uma dinastia de jogadores extraordinários que teve início em 1951, com a chegada do primeiro africano à primeira divisão portuguesa: o moçambicano Sebastião Lucas da Fonseca (irmão mais velho de Vicente Lucas) que assinou pelo Belenenses. "Matateu" estreou-se de camisola azul a 23 de setembro, contra o então Sporting dos "cinco violinos", marcando dois dos 4 golos da vitória. Saiu do campo em ombros e para uma longa carreira que terminou no Canadá. Jogou até aos 50 anos de idade e muitos consideram-no como um dos melhores pontas de lança de sempre do futebol português. Costumava beber uma cerveja ao intervalo para na segunda parte fazer em água a cabeça dos adversários.

Texto publicado no Caderno de Economia da edição do Expresso de 31 de agosto de 2013