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Expresso

Projeto 20+20

Por uma Ciência ao serviço da sociedade

A ligação entre empresas e investigação foi o grande tema do "Expresso da Meia-Noite"

Ana Baião

 Iniciativa junta no Palácio da Ajuda 20 investigadores e 20 empresários e "Expresso da Meia-Noite" dedica uma emissão ao tema

O projeto 20+20, que pretende traçar o novo panorama da inovação em Portugal, na altura em que se lança o maior quadro comunitário de sempre de apoio à investigação (o Horizonte 20/20 da União Europeia), escolheu o Palácio da Ajuda para a cerimónia de lançamento. Os opulentos interiores do histórico edifício assistiram à ponte entre passado, presente e futuro com a reunião entre 20 empresários e 20 investigadores para discutirem a melhor forma de empresas e comunidade científica colaborarem e darem maior sustentabilidade à investigação.

A iniciativa do Expresso - com apoio da PT, Banco Popular, Health Cluster e parceria institucional do comissário europeu para Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas - arrancou com um jantar em que os convidados, divididos por cinco mesas, tinham de discutir e responder a  quatro desafios: formação - como criar condições para que alunos e universidades trabalhem em ligação direta com as empresas? Investimento: como convencer as PME - mais focadas nos desafios do mercado - a apostarem em investigação? Financiamento: como aplicar - de forma eficiente e com resultados a prazo - os fundos europeus para a investigação e cooperação: como devem os investigadores e empresas trabalhar para criar uma nova agenda de inovação?

Alavanca fundamental

Em ambiente de audível entusiasmo, as ideias de cada um dos grupos foram entregues ao diretor do Expresso, Ricardo Costa, que as usou como ponto de partida para a emissão especial do "Expresso da Meia-Noite", exibida ontem na SIC Notícias. Carlos Moedas, Luís Portela, presidente do Health Cluster, João Bento, CEO da EFACEC, Maria Manuel Mota, investigadora e Prémio Pessoa em 2013, e Carlos Ribeiro, investigador principal da Fundação Champalimaud foram os intervenientes do programa onde teceram considerações sobre o que muda com os novos apoios financeiros.

O comissário europeu destacou os 80 mil milhões que a União Europeia disponibiliza para os próximos sete anos sem deixar de realçar "que é importante promover reformas nos países" para que o dinheiro seja bem aplicado. Para isso é importante "existir cada vez maior ligação" entre a ciência e os produtos finais.

A ponte entre comunidade académica de investigação (ciência fundamental) e indústria (ciência aplicada) foi destacada por todos, com  João Bento a dizer que a "relação entre universidades e empresas tem dois problemas: universidades e empresas". O gestor considera que a sociedade portuguesa devia dar mais atenção ao tema "porque a inovação e o conhecimento são uma alavanca fundamental para promover o crescimento". Acredita que os fundos vão incentivar a aproximação entre cientistas e a economia empresarial.

"Há 90% de doutorados ligados à academia em Portugal". Foi o número avançado por Maria Manuel Mota para admitir que existe um "problema" mas que não se pode partir desse ponto para afirmar que existem doutorados a mais. "É um disparate. A ciência não está ao serviço da economia, mas sim da sociedade e vice-versa. O conhecimento tem de ter mais aplicação prática", atirou. A questão da mentalidade também foi abordada pela investigadora de malária do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, alertando para o facto de os portugueses serem adversos ao risco e da necessidade de mudar sem medo de falhar.

Mas o valor e a qualidade da investigação feita em Portugal subiram imenso nos últimos anos, pelo que o nível de atração das instituições nacionais também acompanhou a tendência. Veja-se o caso de Carlos Ribeiro, que saiu de um dos países europeus com maior apoio à investigação científica, a Suíça (onde nasceu), para vir para Portugal trabalhar na Fundação Champalimaud no campo da neurociência. "No fundo, todos os cientistas gostam de um desafio e é isso que hoje Portugal oferece", confessou.

Se, no início, o nosso país não parecia uma oportunidade óbvia, o investigador constatou que havia uma cultura científica muito dinâmica, em que os principais líderes "são jovens" e existe a perceção de que a ciência é uma oportunidade: "Portugal começa a chamar os melhores da nossa geração", reforçou, antes de observar que os "portugueses são muito bons a pensar que são piores do que são e isso é um problema, porque a qualidade que se vê é muito alta".

Criação de valor

Luís Portela não tem dúvidas de que temos "bons cientistas em quantidade e qualidade" e que muitos empresários têm de estar mais atentos para se transferir todo o conhecimento acumulado em produtos com valia global que permitam "inovar de forma competitiva." Ou seja, tem de haver criação de valor ou deita-se por terra todo o investimento que resultou no grande desenvolvimento científico dos últimos anos.

Avanço que leva Maria Manuel Mota a considerar que não precisamos de 'discriminação positiva' e que temos de competir em pé de igualdade e fazer um esforço de base para mudar a mentalidade que "não é bom saber mais".

João Bento chamou a atenção para o problema entre investimento privado e público, mas acredita que a "abundância de formação" vai acabar por contribuir para a mudança. Propôs ainda o fim de medidas que contribuem para a permanência da esmagadora maioria dos doutorandos no meio académico.

A falta de mais investimento em investigação e desenvolvimento por parte dos grandes grupos portugueses foi colocada em causa por Luís Portela, que considera essencial tal acontecer para que o progresso ganhe "mais corpo."

Na conclusão, Carlos Moedas pediu que se olhe para ele "dentro de cinco anos e se perceba se o maior programa do mundo em relação à ciência e inovação foi implementado de forma eficiente." A frase ficou a pairar pelos corredores do Palácio da Ajuda.

Originalmente publicado no Primeiro Caderno do Expresso de 13 de Dezembro de 2014