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Projeto 20+20

Os desafios de Moedas

Maria Manuel Mota troca impressões com Carlos Moedas, enquanto Luís Portela e Carlos Ribeiro assistem

Ana Baião

O comissário europeu vai ter de gerir bem a astronómica quantia de 80 mil milhões de euros ?e convencer as empresas de que ?o futuro passa pela inovação

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Nos últimos anos, Carlos Moedas especializou-se em cortar. Nós próximos cinco, vai especializar-se em gastar. Não deve haver mudanças profissionais mais bruscas na política. Enquanto secretário de Estado-adjunto de Pedro Passos Coelho, Moedas era o responsável pela coordenação da relação de todo o Governo com a troika, obedecendo a um plano muito rigoroso de cortes. Agora, como comissário europeu responsável pela Investigação, Ciência e Inovação, a sua maior responsabilidade vai ser a gestão e atribuição de 80 mil milhões de euros, uma soma astronómica que deve deixar os seus ex-colegas de Governo roídos de inveja.

Mas o desafio de Carlos Moedas vai muito mais longe do que gastar bem o dinheiro. O valor astronómico que a sua pasta europeia recebeu na nova Comissão Juncker não surge por acaso. Bruxelas quer dar um sinal claro às empresas de que o crescimento só se faz com inovação e que, aliás, boa parte do crescimento europeu mais relevante nos últimos anos já assentou em inovação. Fazer com que os empresários percebam isso é o primeiro desafio estrutural de Carlos Moedas. O segundo é ligar boa parte da inovação à chamada agenda digital. Moedas acredita que a economia digital vai ser absolutamente fundamental na próxima década e que o seu peso na economia mundial será brutal.

Não ter medo de falhar

O terceiro e quarto desafios de Moedas estão ligados. Um é ensinar a não ter medo de falhar. O outro é passar a mensagem de que a tecnologia é uma peça importante na inovação, mas que a inovação não tem de ser só tecnológica. O maior desafio na Europa é o de não ter medo de falhar. Na maior parte dos países europeus, quem falha uma vez é um falhado para sempre. Um contraste absoluto com os países anglo-saxónicos e outros onde a inovação - e consequentes tentativas e falhanços - está mais enraizada.

O risco e o falhanço são fundamentais porque normalmente só nesses processos é que surge a chamada inovação disruptiva, a que permite grandes saltos. Moedas chama sempre a atenção para este ponto, porque a chamada inovação incremental, apesar de fundamental, não garante a competitividade europeia. Só mesmo a inovação disruptiva.

Na mensagem fundamental do novo comissário há mais dois pontos a reter, ou melhor, desafios a lançar: a inovação aberta e o papel da ciência fundamental. A inovação aberta, ou em comunidade, começa a ser uma marca dos nossos tempos, em que consumidores assumem boa parte da inovação. A ciência fundamental e desligada das empresas continua a ter um papel fundamental na investigação. O desafio, depois, é sabê-la transformar em produtos.

 

Originalmente publicado no Primeiro Caderno do Expresso de 20 de Dezembro de 2014