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Projeto 20+20

Entre ciência fundamental e aplicada não há fronteiras

Elvira Fortunato, coordenadora dos 18 centros de investigação da Faculdade de Ciências
e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa: “Está
a passar-se a ideia errada
de que o Horizonte 2020 só apoia a investigação aplicada”

Tiago Miranda

Debate: há uma polémica sem sentido sobre os financiamentos à investigação que não pode ser utilizada pelas empresas

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

O debate sobre o peso que deve ser dado pelas políticas públicas aos apoios à investigação fundamental ou aplicada tem sido recorrente desde que começou a crise em Portugal, devido ao papel que a ciência deve ter no desenvolvimento das empresas.

O confronto parece, no entanto, sem sentido. Como explica ao Expresso Miguel Seabra, presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, "este debate foi uma consequência da crise, que condicionou o discurso político".   Na verdade, "o processo de investigação é contínuo e há demasiado ênfase naquilo que o separa". É como um rio, "onde o estuário representa a aplicação direta nas empresas e na sociedade, mas não nos podemos concentrar no estuário sem tratar da nascente".

A ciência fundamental "deve ser o mais forte possível e a aplicada também, no sentido de contribuir para a valorização económica do conhecimento e para o aumento da competitividade das empresas portuguesas". O problema é que "em Portugal temos focos de excelência na ciência fundamental, mas na aplicada estamos mais atrasados, como é visível no número de doutorados a trabalhar em empresas (3% contra 30% em vários países do centro da Europa) ou no reduzido número de patentes registadas".      

Rodrigo Martins, membro da Comissão de Aconselhamento do Programa  Horizonte 2020 da UE para a inovação e investigação nos materiais avançados, concorda que "a investigação deve ser olhada como um processo contínuo", mas reconhece que aquilo que falta em Portugal é "um melhor diálogo e uma aproximação entre quem pensa e quem executa".

Ou seja, trata-se "de tornar o sistema científico mais sexy para a indústria, para resolver problemas de curto prazo, mas também de médio e longo prazo que possam modificar a linha de desenvolvimento de uma empresa, dando-lhe um pensamento estratégico". Rodrigo Martins, que é também professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL), fala em dois casos emblemáticos de empresas europeias de alta tecnologia com produtos muito inovadores, mas que acabaram por falhar no mercado mundial: a Quimonda, em Portugal, e a Nokia, na Finlândia.

A Quimonda (ligada à Siemens), que chegou a ser o segundo maior exportador nacional (a seguir à Autoeuropa), era líder mundial no fabrico de memórias para computadores, "mas quando começou a ter uma forte competição asiática não conseguiu inovar" e acabou por reduzir drasticamente a sua atividade. A Nokia "não desenvolvia produtos próprios, concebia apenas o design e a maior parte do fabrico era feito em outsourcing, ao contrário da coreana Samsung, que faz o desenvolvimento de novos produtos com uma visão de futuro". Por isso, para o professor da FCT/UNL "a ciência deve estar junto das empresas".

Elvira Fortunato: "Horizonte 2020 apoia investigação disruptiva"

A coordenadora dos 18 centros de investigação da FCT/UNL, Elvira Fortunato, argumenta que "se está a passar a ideia errada de que o programa europeu de ciência Horizonte 2020 se destina apenas a apoiar a investigação aplicada". Com efeito, as bolsas milionárias do Conselho Europeu de Investigação (ERC), integradas naquele programa, "apoiam áreas de fronteira, investigação disruptiva, sem limites". E há outras iniciativas do Horizonte 2020 "que apostam na excelência pela excelência". A cientista ganhou uma bolsa de 2,25 milhões de euros do ERC em 2008.

Assim, no novo quadro financeiro de apoio até 2020, "a UE continua a investir na investigação fundamental". E a fronteira entre esta e a investigação aplicada "não existe, porque hoje a ciência é feita por objetivos e qualquer objetivo acaba por ter utilidade, por melhorar ou otimizar, mais cedo ou mais tarde, qualquer coisa que tem a ver com a vida das pessoas".  

Cerca de 60% da atividade do Centro de Investigação de Materiais/Laboratório Associado I3N, que Elvira Fortunato também coordena, é investigação aplicada. A ligação às empresas é forte: o último contrato foi assinado com a Merck (indústria química), para aplicação da eletrónica transparente - "área onde somos um laboratório de referência internacional" - em materiais desenvolvidos pela empresa alemã. Já antes, num contrato com a Samsung, surgiram produtos nesta área aplicados nos computadores portáteis, telemóveis e tablets de várias marcas. O Mac Book Pro de 2013 da Apple usa no mostrador tecnologia desenvolvida em Portugal.

O reitor da Universidade do Minho (UM), António Cunha, destaca um dos maiores projetos em curso em Portugal, que envolve 100 investigadores e um investimento de 19 milhões de euros. Chama-se HMI Excel, é uma parceria entre a UM e a Bosch Car Multimedia (Braga), fabricante de sistemas de GPS e instrumentos para painéis automóveis.

Já existem protótipos de 14 produtos para novos painéis e sistemas de navegação projetados no para-brisas dos automóveis (realidade aumentada). "Este projeto de investigação aplicada só foi possível porque havia na UM centros de pesquisa que levaram muitos anos a ser montados", conta António Cunha. "Foi uma aposta de longo prazo, em que estes centros desenvolveram tecnologia que na altura ainda não sabiam bem onde seria usada".

 

Originalmente publicado no Primeiro Caderno do Expresso de 13 de Dezembro de 2014