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Expresso

Projeto 20+20

A corrida das PME para triunfar na inovação

DYLAN MARTINEZ/REUTERS

Tecnologia: o jamaicano Usain Bolt (na foto) correu para o ouro nos Jogos Olímpicos de Londres com uma camisola made in Portugal - com malhas técnicas de alta performance que gerem a humidade do corpo - desenvolvidas pela LMA, que soma prémios internacionais e trabalha em parceria com universidades e centros tecnológicos. Para se tornarem competitivas no mercado global este pode ser o caminho das pequenas e novas empresas: aliar investigação à gestão que é, aliás, a meta do Projeto 20+20. Mas há mais LMA no país...

A Startup Braga é um bom exemplo. Foi criada em maio e já está a apoiar 34 empresas com projetos de produtos escaláveis, de cariz tecnológico e elevado potencial de desenvolvimento internacional nos sectores das TICE-Tecnologias de Informação, Comunicação e Eletrónica, tecnologia médica e nanotecnologia. A unir estas jovens empresas, selecionadas entre mais de 200 candidaturas, há um ADN inovador, tecnológico, com ambição global, como provam a PepFeed, assistente de compras online para ajudar a perceber se a compra está a ser feita ao melhor preço, ou a SWORD Health, que conquistou a atenção da maior cadeia de reabilitação dos EUA para a sua plataforma tecnológica apta a maximizar o potencial das metodologias tradicionais de reabilitação motora e estender o plano terapêutico à casa do doente. "A ideia é ter aqui um hub de inovação, incubação, aceleração com a ambição projetada de Braga para o mundo", explica Carlos Nuno Oliveira, ex-secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação que lidera este projeto lançado em parceria com a Microsoft Ventures, braço da multinacional americana para apoiar novos projetos no mundo. A Startup Braga pode não dar a Portugal o próximo Bill Gates, mas promete novas âncoras de desenvolvimento tecnológico e a consolidação do estatuto da cidade como polo criador de novas empresas capazes de entrar no radar dos investidores.

Na corrida pela inovação e competitividade, as startups impõe-se como um caminho a seguir. "Para as grandes empresas, muitas vezes é mais fácil inovar através destas unidades, mais pequenas e flexíveis, com menos processos", admite Carlos Nuno Oliveira. Daniel Bessa, responsável por um dos planos estratégicos da indústria do calçado e diretor-geral da Cotec, acredita que a dinâmica inovadora pode contagiar de igual forma todos os tipos de empresa. "Há startups mais ou menos inovadoras como há PME mais ou menos inovadoras, o mesmo valendo para empresas de média e grande dimensão", afirma o economista. Certo é, diz, que a inovação é "fator crítico de sucesso das empresas nos dias de hoje, nomeadamente das que se encontram submetidas a elevados níveis de concorrência".

Na ICC Lavoro, um dos 10 maiores produtores europeus de calçado profissional, com 18 patentes, inovar é, desde sempre, um ponto na afirmação internacional. "Temos de tornar os nossos produtos obsoletos antes que os outros o façam", sustenta José Freitas, diretor-geral da fábrica vimaranense, a apresentar continuamente novas soluções ao mercado, como a biqueira num aço especial, usado na aeronáutica. Com 174 trabalhadores, cinco dos quais dedicados à inovação, e um volume de negócios de 12 milhões de euros, a empresa aplica anualmente 5% das receitas na inovação, apostando em parcerias com universidades para complementar competências e "enquadrar a visão técnica e pragmática dos colaboradores com as melhores práticas científicas".

Bolt, tecnicamente português

No calçado, como nos têxteis, a rota da inovação passa pelos centros tecnológicos sectoriais, habituados a apoiar as empresas no desenvolvimento de produtos e processos, numa lógica transversal, na qual o futuro passa, agora, pela nanotecnologia. A regra "é trabalhar a inovação de forma orientada para o mercado, já com clientes para o produto, o material, o equipamento", diz Leandro Melo, diretor-geral do Centro Tecnológico do Calçado, que envolve uma rede de 60 entidades entre empresas, universidades e centros de investigação. A confirmar o êxito da estratégia, apresenta o balanço da FACAP-Fábrica de Calçado do Futuro, que permitiu desenvolver 50 equipamentos, 48 dos quais são comercializados e exportados.

"Numa PME, ter argumentos de diferenciação positiva, ser rentável e competitivo obriga a estas parcerias", sustenta Paulo Vaz, diretor-geral da ATP-Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, que já viu empresas como a LMA, com 40 trabalhadores e vendas de 7 milhões de euros vestir Usain Bolt para a vitória e o recorde olímpico dos 100, o triunfo nos 200 metros e a conquista do ouro na estafeta 4x100m em Londres. Como? Com uma camisola confecionada na P&R, em Barcelos, com uma malha técnicas de alta performance desenvolvida na empresa de Santo Tirso, de forma a permitir a transmissão de ar e uma solução final mais leve, confortável, de alta respirabilidade, a que se soma propriedades antibacterianas. "Agora, o Horizonte 2020 traz-nos novas oportunidades de desenvolvimento, fundamentais para ganhar mais competitividade", diz Helder Rosendo, subdiretor-geral do Citeve-Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário, a liderar um consórcio europeu selecionado para a segunda fase de candidaturas ao novo programa quadro com o projeto CORK IT, que procura de novas formas de ligação entre o substrato têxtil e a cortiça.

O novo Programa-Quadro de Investigação e Inovação da União Europeia traz, também, novas modalidades de apoio às PME portuguesas como o InnovFin Garantia PME. O primeiro acordo deste instrumento financeiro, assinado esta semana entre o BPI e o Fundo Europeu de Investimento, cria uma linha de crédito de 200 milhões de euros para as empresas inovadoras em Portugal usarem nos próximos dois anos. O objetivo é facilitar o acesso do tecido empresarial ao financiamento numa área que a Europa considera crucial para o crescimento e a criação de emprego.

Em 2013, as pequenas e médias empresas portuguesas (PME) autoclassificavam-se como as terceiras mais inovadoras da Europa. Um ano depois estão em 12º lugar, "posição mais realista e próxima do 18º lugar que efetivamente ocupam no ranking da IUS-Innovation Union Scoreboard", comenta João Bento,  presidente da COTEC-Associação Empresarial para a Inovação. Na base da mudança do autodiagnóstico, visível neste trabalho sobre o tecido empresarial dos 28 membros da União Europeia, Suíça e Noruega, o gestor acredita estar uma "melhor perceção do que é ser inovador" num país que fica abaixo da média europeia no esforço de I&D medido em percentagem do PIB. "Quando o objetivo europeu é chegar aos 3% do PIB neste indicador e a Europa já vai nos 2,1%, Portugal ainda fica pelos 1,5%", sublinha o presidente da COTEC.

Mas há outro parâmetro relevante para perceber a diferença entre Portugal e Europa. "No top 10 do IUS, a relação entre a parte privada e pública é de 2 para 1, o que significa que por cada euro que o Estado coloca, o sector privado investe dois euros. Em Portugal, o sector privado gasta 94 cêntimos, 47% da média europeia", diz João Bento. Mas o que é uma empresa inovadora para os gestores portugueses? De acordo com o 9º Barómetro Internacional do Financiamento da Inovação é repensar a organização e processos (61%), investir em I&D (63%) valorizar a criatividade no trabalho (44%). Já "criar rutura ou criar novo mercado", o segundo aspeto mais referido a nível internacional, é citado apenas por 26% neste estudo da Alma CG em que só 18% das empresas nacionais dizem ser fácil inovar. Mesmo assim, 92% das empresas lusas acreditam ser competitivas e 77% autoclassificam-se como inovadoras.