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Projeto 20+20

€1,5 milhões para contrariar a visão passiva dos cromossomas

IMPACTO: Raquel Oliveira acredita que o financiamento europeu dará condições de trabalho estáveis ao seu grupo de investigação no Instituto Gulbenkian de Ciência

ROBERTO KELLER

Raquel Oliveira recebeu um ERC Starting Grant para continuar a investigar o papel ativo dos cromossomas durante o processo de divisão dos células com recurso a técnicas inovadoras.

Os cromossomas, durante a sua divisão, são muitas vezes comparados a um corpo num funeral: são a razão principal para o acontecimento mas não têm uma parte ativa no processo." Raquel Oliveira atribui a descrição ao cientista Daniel Mazia e utiliza-a para explicar o pensamento que trabalha para contrariar: os cromossomas não são passivos.

A investigadora estuda os mecanismos das células responsáveis por garantir que o processo de divisão celular (que se realiza triliões de vezes ao longo da vida do corpo humano e promove o desenvolvimento, crescimento, e manutenção dos tecidos no organismo adulto) ocorre de forma correta. O objetivo é percber como o ADN se compacta em cromossomas durante este processo, o que até hoje é um dos grandes mistérios na biologia da célula.

"A cada uma destas divisões a célula tem que assegurar que há uma distribuição correta do material genético distribuído nos nossos cromossomas. Se esta distribuição for de algum modo perturbada, as células podem receber um número errado de cromossomas. Estas anomalias estão normalmente associada a muitas doenças, como é o caso do desenvolvimento de cancros, doenças genéticas e infertilidade", explica a cientista do Instituto Gulbenkian de Ciência.

"Um ponto importante da nossa abordagem é mesmo o impacto que eventuais erros na divisão celular possam ter no desenvolvimento de organismos vivos. Isto aliado ao desenvolvimento de tecnologias inovadoras para inativar proteínas nas células, com uma grande precisão e eficácia, permite estudar a função dos cromossomas uma forma nunca antes possível", revela.

Reconhecimento europeu

Desde os estudos de doutoramento que a investigadora se centrou nos mecanismos de divisão celular, por serem algo que compara a uma dança com uma "coreografia e sincronização extraordinariamente precisas." Compreender como o processo ocorre de forma fidedigna pode ser fulcral para perceber o desenvolvimento de cancros.

A relevância da investigação foi reconhecido quando o nome de Raquel Oliveira foi anunciado, no final de 2014, como um dos cinco a receber em Portugal financiamento do European Research Council (ERC Starting Grant) para continuar a sua pesquisa. Um reconhecimento no valor de €1,5 milhões que a deixa "sem palavras" e que vai ter um "enorme impacto" para o grupo de investigação que dirige.

Quanto ao futuro, não exclui a hipótese de partir para o estrangeiro, mas vinca que está focada em permanecer em Portugal e aprofundar aqui a sua investigação, uma vez que "as respostas trazem sempre novas perguntas que servirão de inspiração para projetos vindouros."

Acompanhe no Expresso Diário as histórias de 20 investigadores portugueses até 8 de janeiro