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Contos de mistério, fantasia e erotismo

Gravura que representa Xerazade, retirada de uma edição de “As Mil e Uma Noites” publicada em 1892

Smith Collection/Gado

“As Mil e Uma Noites”. O Expresso oferece a partir de 22 de julho um clássico da literatura de interesse sempre renovado

Luís M. Faria

Jornalista

A partir de 22 de julho, o Expresso oferece a todos os seus leitores a obra clássica da literatura oriental “As Mil e Uma Noites”. Trata-se de uma coleção que perdurará ao longo de sete semanas e onde se encontram as histórias de fantasia e mistério mas também erotismo e pragmatismo que marcam uma escrita perdida nos confins do tempo que se sabe originária do sudoeste asiático e do Médio Oriente. Na presente edição, distribuída gratuitamente, os leitores terão acesso a uma escolha de contos onde se encontram aqueles tidos como incontornáveis — Aladino, Ali Babá ou Sindbad — mas também muitos outros capazes de erguer um universo de encantamentos vários ainda que revelador de um pragmatismo provavelmente ancorado nas tradições morais da Índia. Xerazade, a grande contadora de histórias, poderia ser uma heroína dos nossos dias. Cada volume conta com um prefácio que ajuda a contextualizar a narrativa. Os dois primeiros, de que hoje publicamos largos excertos, são assinados por Miguel Sousa Tavares e Rodrigo Guedes de Carvalho. Nas semanas seguintes chegará a vez de Clara Ferreira Alves, Valter Hugo Mãe, Alice Vieira, José Luís Peixoto e Mia Couto.

Tapetes voadores, palavras mágicas que abrem cavernas, génios a sair de lâmpadas, maçãs milagrosas... Este é o género de coisas que associamos a “As Mil e Uma Noites”, uma obra literária de fama universal que se tornou símbolo de prodígios e encantamentos. Na sua génese ainda há bastante de misterioso, mas nada de mágico. Trata-se de uma coleção de histórias e contos tradicionais do sudoeste asiático e do Médio Oriente que foram sendo transcritos e compilados em árabe a partir do século VIII, durante a chamada Idade de Ouro Islâmica. A primeira edição ocidental data de 1704. Intitulada “Les Mille et Une Nuits, contes arabes traduits en français”, deve-se ao orientalista francês Antoine Galland, tendo saído em 12 volumes até 1717. Depressa começou a ser lida e imitada na Europa, bem como noutros lugares. Entre os escritores que inspirou está Voltaire, cujos ‘contos filosóficos’ são igualmente fantasiosos.

“As Mil e Uma Noites” (em alternativa, “Mil Noites e Uma”, ou “Mil Noites e Uma Noite”) continuaram a fazer sentir a sua presença no século XIX. Diderot, Dickens, Poe, Goethe, Fielding, Flaubert e Tolstoi são apenas alguns dos gigantes onde ela se nota de forma direta ou indireta. Se no Iluminismo as fábulas serviam sobretudo para expor ideias, no Romantismo entraram diretamente na sensibilidade dos poetas. A obra foi traduzida do francês para outras línguas — alemão, russo, italiano — e em 1885 outra edição de referência, feita pelo explorador e autor britânico Richard Burton, repôs material erótico que tinha sido cortado por Galland.

Hoje “As Mil e Uma Noites” continuam a ser alvo de adaptações e a servir de matéria-prima a artistas, na literatura como noutras artes. “Aladino”, um filme de animação da Disney, expandiu a novas gerações, à escala global, um dos contos mais emblemáticos. A outro nível, o realizador Miguel Gomes usa num drama de 2015 a estrutura de “As Mil e Uma Noites”, cujo título aliás apropria. Se a origem remota da obra são as velhas fábulas animais da Índia, é também lá que vai buscar o conceito de meter histórias dentro de outras histórias, qual matrioshka verbal.

O propósito, geralmente, é instrutivo. Por exemplo, numa história sobre um génio que vai matar o pescador que o libertou de uma garrafa, surge outra sobre um rei que manda executar o homem que o curou de uma doença, antes de ser ele próprio morto com veneno que o seu benfeitor lhe fez chegar ardilosamente... pouco antes de ser executado. A lição tem que ver com os perigos da ingratidão. Mas só pode ser enunciada pelo pescador quando ele já conseguiu, por meio de astúcia, fazer o génio voltar a entrar no pote, onde fica novamente preso. Fantasia, sim, mas assistida pelo pragmatismo.

Tal como em “Decameron”, um clássico italiano do século XIV onde um grupo de jovens contam histórias uns aos outros durante uma epidemia, “As Mil e Uma Noites” têm uma narrativa central que enquadra as outras todas. Há um irmão cuja esposa lhe é infiel. A seguir acontece o mesmo azar ao rei. Os dois propõem-se descobrir se todas as mulheres são assim.

Encontram um génio gigante. Quando ele adormece, a mulher obriga os irmãos a terem sexo com ela e a seguir revela que já traiu o marido com 98 homens.

Perdida por completo a fé na metade feminina da humanidade, o rei regressa a casa e manda matar a mulher e os demais envolvidos na traição. A seguir, para evitar que a vergonha se repita, decide casar-se com uma virgem todas as noites e matá-la na manhã seguinte, antes de ela ter tempo para o desonrar. A chacina começa, e nada detém o rei até ao dia em que Xerazade, uma das filhas do vizir, se oferece para ser a esposa seguinte. O seu plano é simples: contar histórias ao rei. Histórias tão interessantes que ele queira sempre ouvi-las até ao fim. Como nunca haverá tempo para terminar a história de cada noite, o rei tem de poupar Xerazade até à noite seguinte, onde entretanto começou outra história.

As histórias são de tipos extremamente variados, desde puras fábulas até relatos quase realistas. Decorrem em cenários não menos diversos, refletindo as fontes e o momento em que cada história foi escrita (muitas adaptam material indiano ou persa a cenários árabes, atribuindo a personagens históricos como o califa Harun al-Rashid ações e situações que nunca não foram deles). Três das mais conhecidas — as de Aladino, Ali Babá e Sindbad — são acrescentos feitos por Galland. Acrescentos não arbitrários, note-se. Sindbad, por exemplo, foi recolhido numa tradição turca.

De onde quer que venham, as histórias cumprem a sua missão salvadora. Ao cabo de um milhar de noites, o rei decide poupar a sua esposa, que não só é bela como mostrou ter uma memória absolutamente incrível. Poupar Xerazade significa poupar todas as outras mulheres que graças a ela deixam de morrer. Além de ter dado três filhos ao rei, a filha do vizir contou-lhe histórias que o transformaram. E o mundo ficou melhor.

A maior contadora de histórias de sempre

Por Miguel Sousa Tavares

Se tivesse existido mesmo, Xerazade teria sido a maior contadora de histórias de sempre. Mil e uma noites a fio, ela contou histórias ao rei para salvar a própria cabeça — é essa a história de “As Mil e Uma Noites”, um dos livros de referência de toda a história da literatura mundial. Como este é o primeiro dos tomos do livro que o Expresso vai editar, julgo que se impõe começar por resumir minimamente a história.

O rei persa Xarir, da dinastia dos Sassânidas, descobriu que, nas suas ausências para a caça ou para a guerra, a sua mulher tinha por mau hábito adotar como amante um escravo negro. Desvairado pela raiva, Xarir cortou a cabeça a ambos, mas isso esteve longe de apaziguar a sua fúria vingativa: tendo concluído que todas as mulheres o iriam igualmente atraiçoar, passou a reclamar uma virgem todos os dias — com a qual casava à noite, desflorava de seguida e entregava ao vizir do reino, na manhã seguinte, para que ele a degolasse, antes que ela tivesse tempo de o atraiçoar. Aparentemente dotado de um notável instinto assassino e de uma não menos notável capacidade sexual, o rei dedicou-se a este macabro desporto três anos a fio, até que já não restavam praticamente mais virgens no reino para saciar o seu apetite por sexo e morte. Foi então que Xerazade, a própria filha do vizir, disse ao pai que se ia oferecer como voluntária para ser a próxima esposa do rei. O pai, desesperado, suplicou-lhe que o não fizesse, pois não se via a cortar a cabeça da sua amada e deslumbrante filha. Mas Xerazade insistiu, dizendo que tinha um plano para contrariar os instintos do rei e pôr termo àquela carnificina. Só pedia que Xarir aceitasse a presença, ao lado dela, da sua irmã mais nova, Dinarzade. E assim se fez, não tendo o pai conseguido demovê-la daquele passo para a morte. Mas Xerazade tinha, de facto, um plano, o qual envolvia a cumplicidade da irmã. Uma vez consumado o seu ‘casamento’ com Xarir, e antes que este se retirasse, Dinarzade pediu à irmã que lhe contasse uma das suas maravilhosas histórias. Intrigado, Xarir deixou-se ficar a ouvir e Xerazade esteve até altas horas da noite a contar uma história que ficou de terminar na noite seguinte, visto que o rei já estava a adormecer mas não queria que ela morresse antes de ele saber o fim da história. Enfim, já adivinham o resto: noite após noite, durante mil e uma noites, Xerazade inventava sempre uma história tão extraordinária que Xarir passou a encontrar mais prazer em escutar aquelas histórias do que em desvirginar e degolar virgens. Três anos depois, o casal tinha feito três filhos e Xarir adotou definitivamente Xerazade como sua única e legítima esposa. (...)

Voltando ao livro, em si mesmo, o que há para dizer é que ele confirma que todos os grandes livros contam uma grande história (este conta 1001)... E todos os grandes escritores contam grandes histórias. Há quem discorde e ache que se pode escrever um grande livro e ser um grande escritor sem ter, sequer, de contar história alguma. Mas eu estou com o espanhol Pérez-Reverte, quando há tempos dizia a um jornal português: “Esses escritores que só têm para nos contar os seus dramas pessoais e psicológicos, porque não vão antes ao psiquiatra e nos deixam em paz?”. “As Mil e Uma Noites”, além do testemunho da importância das histórias de cada livro, constitui também uma justíssima homenagem aos contadores de histórias orais: aos que as passam de geração em geração, até que alguém pegue nelas e as junte em livro, como aqui.

Quando me perguntam pelos meus escritores preferidos (uma pergunta sempre recorrente e de resposta sempre complexa), eu, para me defender, conto sempre esta história a que assisti na Praça Jemaa el-Fna, em Marraquexe. Um homem falava sem cessar para um grupo de outros homens e crianças que o rodeavam. Mais do que falar, ele interpretava o que dizia, com grande profusão de gestos e diferentes entoações, silêncios súbitos e gritos esporádicos. O que seria? Aproximei-me até perceber: era um contador de histórias, a quem, no final, os ‘leitores’ gratificavam conforme tivessem gostado mais ou menos da história ouvida. Era um profissional, não da escrita, mas da literatura oral — que foi onde toda a escrita começou. E agora o mais extraordinário de tudo: o homem era cego e, segundo me informei junto de um dos presentes, de nascença. Ou seja: aquele contador de histórias descrevia cenas, acontecimentos, paisagens, trovoadas, dias de sol, desertos atravessados, que jamais contemplara e que apenas podia tentar imaginar para poder reproduzir. O meu escritor favorito, desde então, passou a ser ele. Foi a visão mais próxima de uma Xerazade que me foi dado testemunhar.

Quando a palavra vence a espada

Por Rodrigo Guedes de Carvalho

Quem julga uma obra, olha para um copo. Se quer louvar, vai ao copo cheio, enaltece o prometedor discípulo de um qualquer mestre antigo. Se não gosta, desdenha, aponta a metade vazia do copo, chama-lhe um reles e limitado imitador. Na literatura, os fantasmas de quem nos precedeu pairam em permanência. Inevitável? Talvez. Quem julga, tenha opinião mais pública e respeitada, ou nem por isso, faz questão de lembrar ao escritor que houve outros antes dele. Não me insurjo, até compreendo. Proponho, aliás, que se vá muito mais longe, muito atrás. Pois bem: se de facto ninguém começa a escrever do nada, se ninguém sai de uma caverna escura (onde foi sempre cego e surdo) e desata a inventar do único nada que conhece, faça-se então a coisa a sério. Mergulhe-se nos milénios e assuma-se: todos os escrevinhadores vêm depois de “As Mil e Uma Noites”. (...)

Agora, leitor, leitora, vou aqui à música e já volto, para explicar uma coisa muito simples. Um pouco escondida, muito discreta, habita num disco dos Rio Grande uma música belíssima, a que Jorge Palma empresta a sua voz inconfundível. Reza assim, a letra de João Monge: “Senta-te aí, está na hora de ouvires o teu pai, puxa para ti essa cadeira”. Para mim, reler, tantos anos depois, parte importante de “As Mil e Uma Noites”, é escutar, claramente, Xerazade a dizer o mesmo, no que imaginamos ser canto de sereia hipnotizadora. Ao tentar salvar a vida, fez nascer a Literatura. Desde logo, conferiu-lhe a majestosidade das redenções que parecem impossíveis: uma mulher só e frágil, ameaçada em permanência pela lâmina do rei implacável. A mulher que nada pode contra a força inventa a magia das histórias. E eis que a palavra vence a espada. Não é o que hoje procuram, ainda, os escritores? Conseguir que o mundo que nos pode matar a qualquer instante se suspenda por um pouco, nem que seja um pouco, para ouvir uma história? E dela podermos sair diferentes. Xerazade salva a vida, encanta, seduz, hipnotiza, adia, subverte, vira o carrasco de pernas para o ar, transforma o amo em escravo da sua boca. E fá-lo como quem começa por dizer: senta-te aí. Diz ao poderoso e temível Xarir, diz-nos a todos: senta-te aí.

Diz-se, e nota-se, que “As Mil e Uma Noites” sofreram senão mil e um ajustes, os suficientes para se farejar que no original andava por ali mais sexo. Vede, escutai, saboreai a entrada em cena das personagens deste segundo volume. Uma mulher capaz de incendiar o mais tímido dos homens leva para casa o que julgamos ser um pobre indigente (será?) a carregar-lhe as compras: há lá entrada mais moderna? “As Mil e Uma Noites” inventaram também a dinâmica de casal no hipermercado... A mulher é, claro, linda de morrer. E só é suplantada pela próxima que nos aparece. E esta pela seguinte. Toda a narrativa, para nos embriagar de fantasia, está inundada de superlativos que quase nos fazem sentir indignos de ler. Pouco depois (num ápice, aliás) na casa estão frente a frente sete homens e três mulheres de cair para o lado. Sim, também pensei isso: já se começaram bacanais com menos. E não é que a orgia começa? A da carne fica sempre por ali a pairar, ou a estremecer dentro de nós, mas a das palavras é um remoinho. Aquelas mulheres e homens vão-se babar por histórias. A Literatura faz mergulhar a sua âncora, para nos deleitar pelos séculos. Mostra-nos a sua longilínea sedução, mas sobretudo o seu poder. Poder? Sim, poder. Os homens arrancam esmagados e a vergar. Talvez porque consigam assim algo da mulher capitosa? Sexo, pois então, no seu jogo mais linear.

E são os homens quem principia a relatar, a cada um seu episódio, e logo ao primeiro arrepiamos porque traz existenciais dúvidas e um tabu que julgamos (ingénuos) ser muito dos nossos dias: o incesto. Quem confessa coisas destas? Quem se atreve a rasgar assim a alma e deixar-se ver? Acontece porque somos todos, personagens e leitores, convocados para a sociedade secreta das histórias. (...)

1º VOLUME 
22 DE JULHO
Prefácio 
Miguel Sousa Tavares
Ilustração Kruella

2º VOLUME 
29 DE JULHO
Prefácio
Rodrigo Guedes de Carvalho
Ilustração

3º VOLUME 
5 DE AGOSTO
Prefácio
Clara Ferreira Alves
Ilustração
Pedro Proença

4º VOLUME 
12 DE AGOSTO
Prefácio
Valter Hugo Mãe
Ilustração Cláudia Guerreiro

5º VOLUME 
19 DE AGOSTO
Prefácio
Alice Vieira
Ilustração Gonçalo Viana

6º VOLUME 
26 DE AGOSTO
Prefácio
José Luís Peixoto
Ilustração Fatimorri

7º VOLUME 
2 DE SETEMBRO
Prefácio
Mia Couto
Ilustração
Hugo Makarov