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Empresas levaram economia real à mesa do ministro

“Peço-lhe desculpa, mas nunca mais vou ter a oportunidade de falar com um ministro”, exclamou Rogério Vigário, enquanto exibia estudos e estatísticas a Manuel Caldeira Cabral no dia em que o governante ouviu as preocupações de quatro empresários no seu gabinete no Chiado. Da esquerda para a direita: João Vieira Pereira (Expresso), Ricardo Fernandes (Têxtil Cães de Pedra), José Carlos Leandro (Hotel Alísios), Manuel Caldeira Cabral (ministro da Economia), Armando Levi Silva (Rodi Sinks & Ideas), Rogério Vigário, oculto (Mármores Vigário), e António Ramalho (presidente do Novo Banco)

Nuno Botelho

Manuel Caldeira Cabral recebeu quatro empresários, 
de Guimarães, Águeda, Alcobaça e Albufeira, para “perceber 
as necessidades que têm e se as políticas do Governo lhes correspondem”

Rute Barbedo

Junto às escadas que conduzem ao gabinete do ministro da Economia repousa uma bicicleta fabricada em Portugal que carrega telemóveis com a energia de cada pedalada. Enquadra-se no tipo de exemplos referidos por Manuel Caldeira Cabral no encontro inédito — promovido pelo Expresso e pelo Novo Banco e integrado no projeto PME Líder — quando quer salientar a capacidade de inovação portuguesa como elemento diferenciador no mercado global. Atrás do governante, caminham os representantes de quatro empresas nacionais, distinguidas com o estatuto de PME Líder, de áreas económicas chave: o sector têxtil, a metalurgia, a indústria da extração e transformação e o turismo. Acompanha-os António Ramalho, administrador do Novo Banco, representante de universos como o financiamento ou a prospeção de mercados. Cada um leva, dentro de pastas e na cabeça, números de sucesso, mas também inquietações. Para os comentários menos otimistas, Caldeira Cabral tem quase sempre pronta uma espécie de resposta “olhe que não”, direta a cada sector.

Quatro empresas, quatro segmentos, quatro regiões, o dobro dos desafios: foram estes os ingredientes para a conversa no gabinete na Rua da Horta Seca, num formato invulgar para o ministro e para os gestores, que durante uma hora e meia debateram o financiamento das PME, a sua competitividade, mas também as apostas necessárias ao crescimento de cada sector.

Ricardo Fernandes é administrador da Têxteis Cães de Pedra, uma empresa (que entretanto deixou de ser PME, pelo aumento do número de trabalhadores) de Guimarães com mais de 50 anos que viu na comercialização de vestuário “outro pilar” para o negócio, já que a concorrência do Extremo Oriente na produção têxtil, a sua primeira aposta, tornou-se “muito grande”. “Foi preciso optar”, simplifica. Os maiores desafios são a internacionalização e a afirmação de valor do made in Portugal, refere o administrador da empresa que comercializa marcas como Decenio ou Lion of Porches. “Não temos notoriedade como país de moda”, afirma, de olhos apontados para Caldeira Cabral.

“Mas isso está a mudar, em semelhança com o que está a acontecer no calçado”, reage o governante. E se, na tentativa de expandir o universo de vendas, acontece isto? “Quando vamos às embaixadas, somos recebidos quase como uns coitadinhos de mala na mão. [Os diplomatas] não estão ali para servir os interesses do país”, critica Ricardo Fernandes. E o ministro da Economia volta a tentar apaziguar: “Sinto que houve grande alteração de mentalidade nos diplomatas, mas devemos continuar a puxar por eles para que eles puxem pelas nossas empresas.”

Melhores do que a Alemanha
Manuel Caldeira Cabral mantém o foco na internacionalização (condição quase essencial para se alcançar o estatuto de PME Líder), até porque “há dois factos interessantes no crescimento das exportações da última década: a performance portuguesa foi das melhores da Europa (melhor do que a da Alemanha) e aconteceu de forma muito diversificada, ao contrário de outros ciclos do passado”. Ao mesmo tempo, cada área de negócio foi incorporando “melhorias tecnológicas e de marca”.

Um exemplo é a inovação em que está envolvida a Rodi Sinks & Ideas, de Águeda, que fabrica lava-loiças em inox (90% da produção é vendida no exterior, em 65 mercados) bem como aros (nisto, são os maiores produtores da Europa) e quadros de bicicletas em alumínio, estes últimos com a ajuda de robôs. O processo de automatização é “único”, vive de “uma tecnologia inovadora” e de um investimento de 25 milhões de euros, segundo o administrador, Armando Levi Silva. “A maior dificuldade é que, num projeto de 25 milhões, temos de adiantar sempre dinheiro”, assume. Mas está pronto a passar de uma produção de 100 quadros por dia para 2000, em dois anos e meio.

Ainda assim, o empresário defende que “deveria haver apoios para a contratação de entidades que ajudem as empresas a serem mais produtivas com os equipamentos que já têm”. Por outro lado, queixa-se da falta de mão de obra — o grande paradoxo, num país com mais de 10% de desemprego —, sugerindo a criação de apoios à mobilidade. “É mais fácil dar um incentivo desses às pessoas do que um subsídio de desemprego”, diz, com pragmatismo. Mas a questão não encontra uma resposta fechada à cabeceira da mesa. Para o ministro, “a questão da mobilidade interna é muito séria e tem de ser tida em conta”.

Partir pedra
Ficamos a saber que o avô de Caldeira Cabral trabalhava numa mina, tudo porque o que vai na cabeça de Rogério Vigário, da empresa Mármores Vigário (Alcobaça), são imagens de extração e de transformação de pedra, por vezes em obras de arte (como no Primeira Pedra, um programa de divulgação do mármore e granito portugueses). Na extração, 60% da rocha segue para o estrangeiro; na transformação, o número sobe para 80%. O que é preciso melhorar? Duas coisas: a imagem de um sector associado a riscos ambientais — “era mal visto por mexer com o subsolo, sobretudo nas décadas de 80, 90 e princípios de 2000” — e o acesso à matéria-prima — “só estão levantados 35% dos recursos minerais não energéticos”.

“Essa é uma área em que o secretário de Estado está muito ativo”, reage o ministro. “Por causa do lítio?”, provoca o grupo, sabendo que Portugal é um dos maiores exportadores mundiais do metal mais leve da Terra. “Não é só por causa do lítio, mas por vários recursos minerais. Os mapeamentos estão desatualizados, mas a tecnologia evoluiu muito, portanto, temos de fazer melhores diagnósticos com ela.”

Falta o turismo fechar os pontos à mesa. O cabelo grisalho de José Carlos Leandro, que administra o Hotel Alísios, em Albufeira, denota o número de viajantes que já lhe terão passado pelas camas, desde o alemão que vem todos os anos ao inglês que só conhece Monte Gordo e Amália Rodrigues. “Nunca tivemos à disposição tantos incentivos como agora”, admite o empresário, pelo que, no plano do financiamento, o caminho parece livre. O que o preocupa são três aspetos: a ciclicidade do sector no Algarve — “dois anos maus, dois anos bons” —, a pressão para que os hotéis adiram ao regime “tudo incluído”, que contribui para “cidades-fantasma”, e a falta de recursos humanos qualificados.

“De facto, há um efeito do all inclusive, porque as pessoas gastam mais dentro do hotel”, mas os dados mostram que “as receitas do turismo cresceram significativamente, e incluem as receitas fora do hotel”, contrapõe Caldeira Cabral, entusiasmado com o crescimento de 10% do número de turistas e de 17% do proveito hoteleiro em 2016, sendo que “quase dois terços do crescimento aconteceu na época baixa”. Quanto à mão de obra, o Turismo de Portugal detetou a mesma carência e está a investir na reformulação dos currículos das escolas hoteleiras, entre outras medidas. Ainda assim, Caldeira Cabral ressalva que a performance do turismo resulta “do trabalho de diferentes governos, mas principalmente do sector”.

As grandes preocupações que apresentaram as PME

“No quadro do Portugal 2020, não se apostou no aumento da produtividade. Penso que, antes de entrarmos na Indústria 4.0, deveria haver mais apoios para esse ponto. Às vezes, produzir mais não é uma questão de comprar mais equipamento ou investir em tecnologia”
Armando Levi Silva, Administrador da Rodi Sinks & Ideas

“Atualmente, o sector exporta para 116 países e, em termos de valor acrescentado bruto (VAB), só as telecomunicações estão à nossa frente. Mas temos muitos problemas quanto às áreas em que podemos explorar, por causa da REN, dos PDM [planos diretores municipais], etc. A associação [Associação Nacional da Indústria Extrativa e Transformadora] fez um estudo que indica que só estão levantados 35% dos recursos minerais não energéticos disponíveis”
Rogério Vigário, Sócio-gerente da empresa Mármores Vigário

“Portugal é visto como um país produtor, mas ainda não somos conhecidos na área da moda. E as pessoas só pagam o valor acrescentado de um produto se a marca for reconhecida”
Ricardo Herculano Fernandes, Administrador da Têxtil Cães de Pedra

“O regime do ‘tudo incluído’ veio criar um impacto negativo na hotelaria e no turismo; é considerado a prostituição da atividade. E é preciso estarmos atentos ao que acontece lá fora: Corfu [na Grécia] desapareceu com isto. Fizemos algumas pesquisas no Algarve e percebemos que a quantidade de [hotéis com] ‘tudo incluído’ é muito maior do que o desejável, fazendo com que a restauração e o comércio em volta sequem”
José Carlos Leandro, Administrador do Hotel Alísios

“Exame” faz o retrato 
das PME líderes

Não perca a lista 
das 7120 empresas 
que se destacam pela 
sua solidez financeira 
e desempenho

Entrevistas, encontros inéditos, infografias, números e a lista das pequenas e médias empresas que estão a dar cartas.

É isto e muito mais que irá encontrar no final do mês de março na revista “Exame”, disponível nas bancas com a edição de 2017 das “PME que lideram”, um projeto em parceria com o Novo Banco.

Conheça quem 
está mais à frente
É um retrato das melhores PME do país, acompanhado por entrevistas ao secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, ao secretário de Estado da Internacionalização, Jorge Costa Oliveira, e ao presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo.

Na mesma edição, o ministro da Economia convidou quatro PME de quatro sectores de atividade a exporem os seus desafios e problemas, numa conversa inédita com o CEO do Novo Banco, António Ramalho.

Não perca ainda a lista das 7120 empresas que se destacam com o estatuto de PME Líder, pela sua solidez financeira e desempenho, numa distinção atribuída pelo IAPMEI .

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 18 de março de 2017