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“É absurdo comparar Estaline a Hitler”

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Francisco Louçã, autor de um dos prefácios de “A Corte do Czar Vermelho”, de Sebag Montefiore, reflete sobre o exercício do poder pelo ditador

Na edição original de “A Corte do Czar Vermelho”, o livro de Simon Sebag Montefiore sobre os últimos 24 anos de vida de José Estaline, que o Expresso começa a distribuir em janeiro, um dos blocos de fotografias inserido na parte final inclui uma pequena imagem tão reveladora, quanto carregada de simbolismo. Ao centro está a urna aberta com o corpo do ditador. A ladeá-lo veem-se homens como Khrushchov e Bulganin, frente a Beria, Malenkov ou Molotov. Embora estáticos, representam a metáfora da tremenda luta pelo poder naquele exato momento já em ebulição. Se Beria poderia parecer, pelos antecedentes, capaz de congregar à sua volta os necessários apoios para a sucessão, é um subestimado Khrushchov quem arrecada o comando da União Soviética e será Khrushchov, anos mais tarde, a pôr a nu um legado cruel chamado estalinismo.

No dia 25 de fevereiro de 1956, quase três anos após a morte de Estaline, numa sessão fechada do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Nikita Khrushchov procede à leitura de um relatório secreto intitulado “Sobre o culto da personalidade e as suas consequências”, que para a história ficará para sempre conhecido como “Relatório Khrushchov”. Dado a ler, sem direito a cópia, a alguns dirigentes regionais do PCUS e a membros de outros partidos comunistas, acaba por ser tornado público dois meses depois nos EUA, graças a uma fuga de informação para a qual existem inúmeras histórias.

O documento tem um impacto tremendo, seja ao nível simbólico seja do ponto de vista prático, não apenas por apresentar Estaline como um ditador cruel, vingativo, afetado por um incomensurável culto da personalidade, mas também pelo modo como mexe, influencia ou afeta o movimento comunista internacional.

Francisco Louçã, professor universitário, ex-dirigente do Bloco de Esquerda, convidado pelo Expresso, tal como Paulo Portas, a escrever um dos prefácios a incluir na obra, tem uma leitura muito particular de todos estes acontecimentos. Começa, de resto, por sublinhar quão estranha é a figura de Khrushchov. O livro de Montefiore, não obstante arrancar no início dos anos de 1930 com o suicídio da mulher de Estaline, já detentor do poder, e assim passar ao lado da preparação da Revolução de Outubro, dos anos de guerra civil, da invasão perpetrada por tropas dos EUA e de potências europeias, dos conflitos e lutas pelo poder que levaram ao afastamento de Trotsky e outros ex-aliados, como Kamenev ou Zinoviev, reflete aquela ideia e, sublinha Louçã, “demonstra como Khrushchov foi uma figura próxima de Estaline durante muito tempo. Era um dos seus principais braços-direitos, ao ponto de desde muito novo ter assumido o controlo da Ucrânia, uma das grandes regiões económicas da URSS, e de todos os processos repressivos”.

O horror de Estaline

Para Louçã, “o relatório é um pouco surpreendente, e não é muito claro o objetivo pretendido. Trata-se de um inventário horrendo sobre o tempo de Estaline, sobre as suas vítimas, num partido que dificilmente estava preparado para fazer a desestalinização, o que, aliás, demora muito tempo. Entre o relatório e o reconhecimento das vítimas vão passar ain-
da dezenas de anos em alguns casos”.

Ao ser conhecido, o documento “provoca uma rutura no movimento comunista”. O impacto em Portugal é contraditório, mesmo se, em história, os contextos são sempre importantes. Louçã não deixa de assinalar o facto de Portugal viver em ditadura, de onde decorre que “as repercussões são sempre muito filtradas por essa situação”. O relatório é referido pela imprensa salazarista, “sempre vista com suspeita pelos antifascistas”.

Quanto à direção histórica do PCP, que Louçã classifica de “muito estalinista com alguma precaução”, teria, segundo aquele ex-dirigente do BE, “todos os elementos para poder fazer uma análise crítica e para construir uma ideologia divorciada do estalinismo”, até porque alguns dos seus dirigentes “conheceram muito bem o processo de estalinização”. Recorda que Álvaro Cunhal viveu muito tempo em Moscovo e invoca outros processos históricos, como a circunstância de “comunistas totalmente fiéis ao partido, leais à sua linha política”, terem ficado “devastados quando souberam que, após uma primeira reação de apoio à insurgência de Dubcek na Checoslováquia, chega a ordem de apoiar a invasão. Foi um balde de água fria para essas expectativas”.

Vivia-se o período áureo da chamada Guerra Fria. O Ocidente, que se aliara a Estaline no período mais mortífero do estalinismo para derrotar o nazi-fascismo de Hitler, criara entretanto a NATO e tinha como novo aliado, já não a URSS, mas a Alemanha de onde brotara o horror do Holocausto. É um ambiente de confronto latente que prejudica de forma decisiva a hipótese de um debate ideológico aberto sobre modelos de socialismo ao desencadear uma reação ultradefensiva e até conspirativa. Louçã admite que a Guerra Fria “impôs um enorme custo à URSS”, mas foi, por outro lado, “uma enorme vantagem para a sua liderança, porque polarizava politicamente e tornava muito difícil a partidos comunistas ou outras forças de esquerda marcarem uma posição crítica e uma distanciação em relação àquele bloco. Isso sim, prejudicou o debate sobre visões alternativas que tinham de ser sempre não-estalinistas”. Depois de referir posições como a do filósofo marxista húngaro György Lukács, ou do italiano Antonio Gramsci, que discute “as condições de uma democracia social”, Louçã lembra “a ilusão da revolução cultural chinesa, com uma aparência de participação popular, totalmente instrumentalizada dentro da luta de fações do PC Chinês, conduzindo a momentos de repressão que são, não só horrendos, como grotescos do ponto de vista político. É uma enorme farsa política, mas é certo que para muitos jovens, no pós-maio de 1968, a revolução cultural chinesa aparecia como uma alternativa”.

António Pedro Ferreira

O pai dos povos

Em Portugal proliferavam os grupos maoístas, que não se entendiam com os grupos “m-l” (marxistas-leninistas), todos eles veneradores de Mao Tsé-Tung, inimigos da burocracia soviética e em particular dos revisionistas do PCP, mas sempre com Estaline, “o pai dos povos”, como farol.

Estaline era uma personagem envolta numa espécie de lenda, até pelo esforço de guerra e pelo contributo decisivo para a derrota dos nazis. Esse é um dos pontos fortes do livro de Montefiore, desde logo pelo modo como analisa o pacto Molotov-Ribbentrop, isto é, o pacto de não-agressão assinado entre a URSS e a Alemanha a 23 de agosto de 1939, que incluía, como diz Louçã, “cláusulas secretas destinadas à divisão da Polónia e dos territórios da Europa central”. No livro, Montefiore assegura que Molotov foi o único dirigente que simultaneamente conheceu e apertou a mão de Hitler, Estaline, Eisenhower e Churchill. O pacto, continua, “foi uma tentativa de Estaline para ganhar tempo, porque sabendo da guerra inevitável, podia presumir que ela fosse, como ele diria então, inter-imperialista, entre a Alemanha, a Inglaterra e a França”. O problema, e isso Montefiore revela-o em pormenor, é que a URSS “não só não valorizou as informações dos seus agentes sobre a preparação da invasão da Rússia, como, quando ela ocorre com mais de um milhão de soldados, a direção soviética fica paralisada de medo, apanhada de surpresa”.

Acresce a impreparação do exército soviético. Estaline, “por razões políticas tinha dizimado a cabeça do exército vermelho. Demora muito tempo a reorganizar o dispositivo militar, mas é também com Estaline que se reorganiza a resposta. Há um esforço de sobrevivência e há uma grande mobilização popular. O país levantou-se contra a invasão hitleriana e isso é uma enorme vitória, que no pós-guerra vai dar um enorme prestígio a Estaline e aos Partidos Comunistas que o representam, porque são os vencedores da II Guerra Mundial”.

Falar hoje de Estaline implica estabelecer uma obrigatória relação necessária com um rasto de muitos mortos. Desde logo em consequência da necessária, mas brutal industrialização, depois com a catástrofe desencadeada pela fome dos anos de 1930-33, que conduziu à morte de alguns milhões de pessoas. Ou ainda a devastação humana provocada pelo período do Grande Terror, entre 1934-39, com gigantescas purgas no PCUS e no Exército. É exponencialmente desenvolvida a prática da delação. Uns três milhões de pessoas são acusadas de oposicionistas e enviadas para o Gulag, um sistema de campos de trabalho forçado na Sibéria. No total, à volta de 750 mil pessoas terão sido ali executadas.

Guerra ideológica

A macabra contabilidade dos mortos tem sido um dos pretextos para alimentar uma guerra ideológica destinada a justificar o emparelhamento de Estaline com Hitler. O objetivo é equipará-los como os dois símbolos maiores do mal absoluto. É uma discussão que tende a vulgarizar a tragédia pessoal contida em cada morte, seja de uma ou de milhões de pessoas. O livro de Montefiore, esclarece Francisco Louçã, “critica essa espécie de banalização da história. Como se todas as tragédias escrevessem a mesma página”. Assim, assegura, “comparar Estaline a Hitler é um absurdo. É grotesco do ponto de vista histórico. São duas histórias diferentes em dois contextos diferentes. A comparação pelos níveis de violência ou de mortos não descreve a realidade histórica”.

É, frisa Louçã, a forma de lançar o anátema sobre as forças à esquerda, mesmo se não têm qualquer remota simpatia pelo ditador. “Se Estaline fosse a revolução, não se percebe porque é que teria tido que assassinar tantos revolucionários para estabelecer o seu poder”, diz. Quanto a Hitler, refere que “são os burgueses mais ilustres da Europa, a classe dominante mais culta, que faz nascer o nazismo. Não se trata de um louco, de um pintor mal-sucedido que espalha as suas angústias sobre a humanidade”.

Francisco Louçã sublinha que só a esquerda “foi capaz de combater o colonialismo francês na Argélia, o colonialismo português em Angola e Moçambique, as ditaduras de Portugal, Espanha e Grécia, bem como rejeitar o estalinismo e a destruição que provocou”. No debate ideológico, diz a concluir, “a esquerda que tem esse nome, tem uma força muito grande, que é simplesmente a de ter dito e ter feito, e lutar em todas as circunstâncias pelas liberdades essenciais do ser humano. As ideias fortes da esquerda são as ideias da liberdade e é isso que constitui o seu património”.