Siga-nos

Perfil

Expresso

Iniciativas e Produtos

A opereta portuguesa

  • 333

Com o último número do Expresso foi distribuído o terceiro volume da coleção dedicada a Camilo Castelo Branco, “A Brasileira de Prazins”. Ao todo, são oito livros distribuídos gratuitamente, nos quais se percorre a gigantesca obra de um dos maiores escritores portugueses. Coordenada editorialmente por um dos seus mais reconhecidos especialistas, como é João Bigotte Chorão, a coleção Camilo Castelo Branco resgata ao esquecimento um dos mais geniais nomes da literatura portuguesa. Este sábado é a vez de “A Queda de um Anjo”, aqui apresentado por Francisco José Viegas

O romance é uma formação geológica constituída por várias camadas, sobrepostas ou dispersas, através das quais circula matéria viva. Em determinadas circunstâncias, ditadas pelo confronto com certos livros, é este o resumo de tudo o que se sabe sobre o romance.

E no romance, que Camilo desenhou para nosso deleite, entra tudo – tragédia, folhetim burlesco ou romântico, história, comentário político, geografia e meteorologia, genealogia e heráldica, teologia prática e exegética, crítica de vestuário, humor, bibliofilia, monografia regional, gastronomia, eclesiologia e aconselhamento conjugal, entre outros temas. O elo desta corrente é assegurado por personagens inesquecíveis, burlescas ou trágicas, raramente doces ou enternecedoras, quase sempre caminhando no fio da navalha, vilões magníficos (truculentos, cómicos, brejeiros, malvados), heróis que defendem uma ideia de honra tão fora de moda como o autor, todos tentados pela luxúria e pela vaidade – e anjos risíveis, amáveis, de barbas solenes, que caem das alturas da virtude para o lodaçal lusitano, como ocorre com Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda.

Em 1865 – recuando – um Calisto latinista, helenista e genealogista é eleito deputado pelos povos de Miranda. A bizarria da personagem é necessária. Camilo não o sabe – ou não o diz –, mas cem anos antes os povos de Miranda tinham jurado pela pele ao seu bispo D. Aleixo de Miranda Henriques, dominicano lisboeta e que viria a morrer no Porto, como governador da diocese local; nas lajes da Sé de Miranda está lá disponível o testemunho, gravado em pedra, chamando-lhe «indigníssimo bispo» por em 1764 ter abandonado a cidade, destruída durante a Guerra dos Sete Anos, e se ter refugiado em Bragança; os mirandeses nunca perdoaram esta e outras traições. Calisto Elói, a caminho de Lisboa, devia ter isto em mente. É, no fundo, o tema do seu primeiro discurso nas Cortes: uma catilinária contra o luxo lisboeta e a dissipação, a má gramática, os males do tempo – ele não trairia os seus constituintes num país entregue à fábrica de barões.

Em A Queda dum Anjo não estão ainda expostas, como chagas purulentas, as vísceras do constitucionalismo português, como há de acontecer com dois dos seus perigosos romances facetos, Eusébio Macário e A Corja, que Camilo começou a escrever cerca de dez anos depois da publicação deste livro – hão de aparecer em 1879 e 1880, esgotando-lhe o ressentimento contra «o realismo», «o naturalismo», o «regime constitucional» e a sua procissão de indignidades e baronias. O retrato vai ser crudelíssimo (e logo desde o primeiro parágrafo de Eusébio Macário, um fragmento de génio, fel, minúcia e riso) e ninguém vai escapar vivo do pântano camiliano e do mundo que o escritor nunca há de entender. Talvez por isso, nos dois anos seguintes Camilo se ocupe do mais complexo dos seus romances, A Brasileira de Prazins (1882), uma pérola de sentimentalismo, história, comédia política, vingança e exorcismo (de verdade). Se Camilo estava exausto depois de pôr a nu a canalha do regime, enegrecendo-a com abundância de pormenores indignos, satirizando todas as classes ascendentes, a história de Marta – a brasileira de Prazins – é um finale melancólico para a sua obra romanesca. Quando escreveu A Queda dum Anjo não havia vislumbre desse drama; Camilo parece dar a entender que pretendeu apenas escrever mais um livro naquele ano: «Fica sendo, portanto», escreverá a encerrar, «esta coisa uma novela que não há de levar ao céu número de almas mais vantajoso que a novela do ano passado.»

Não é verdade. A Queda dum Anjo é uma opereta portuguesa – e com todos os ingredientes: um homem casado (com a rústica D. Teodora Figueiroa e com uma biblioteca cheia de velharias) e probo que abandona o planalto mirandês para enfrentar a hidra liberal; o seu desajustamento à grande urbe que não é já a cidade descrita pelos clássicos (Camilo nunca perde a ocasião para fustigar Lisboa); um parlamento cómico onde ele serve a honra perdida da pátria e dos antepassados diante da chusma moderna e da dissipação dos fundos públicos; longe da esposa, o primeiro amor falhado e ridículo; longe da esposa, e contra ela, o amor finalmente encontrado e que não deixa de ser ridículo; a queda do homem probo que, finalmente, é atingido pelas setas de um Cupido exigente e benigno. Camilo vigia de perto a queda deste anjo mirandês: deteta a mínima brecha no edifício moral de Calisto, sublinha as tentações a que ele há de sucumbir – desde a presença de Adelaide à voz de Ifigénia, – como os demónios que o assaltam – das quais a maior é a recordação embaraçosa da impraticável Teodora, a esposa mirandesa, a princípio fonte de virtudes, depois assustadora de fealdade.

Ou seja: por um lado – o primeiro – a guerrilha contra «a política» e os seus manobristas, em que tão cedo acompanhamos o fundibulário Calisto como logo a seguir duvidamos da sua sanidade; por outro, o folhetim romântico constituído pela cedência do fidalgo mirandês às tentações do coração. São elas, aliás, que determinam tudo o resto.

Camilo não poupa os seres que, longe da idade da paixão, se comportam como adolescentes em busca do tempo perdido: «Duas enfermidades há aí cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas: uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos, confundem-se com os sintomas do idiotismo.» Em Os Brilhantes do Brasileiro (1869), Edmundo Barrosas é atacado por um «choque elétrico» que lhe subverte «as enxúndias do coração»; em A Queda dum Anjo, a eletricidade já tinha sido usada como metáfora da paixão: «Foi neste instante que o morgado de Agra de Freimas sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e a quinta costela, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações eléctricas, e vaporações cálidas, que lhe passaram à espinha dorsal, e daqui ao cérebro, e pouco depois a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal.» Interessante leitura, a do amor como um susto nas fisiologias masculinas: «Calisto Elói também sentiu a queda da espinhela, sensação esquisita de vácuo e despego, que a gente experimenta, uma polegada e três linhas acima do estômago, quando o amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.»

Tudo serve para rir, mesmo os primeiros discursos atormentados em que o génio de Calisto se oferece em holocausto em nome da «antiga pátria», e ninguém entende se aquilo é verdadeiro ou apenas resultado de uma particular demência que afecta os deputados letrados das províncias, saídos de um incunábulo poeirento que reúne as crónicas dos nossos reis. Mas se Calisto «faz rir o parlamento» – porque em determinadas circunstâncias a exposição da verdade se faz numa comédia –, como nota o próprio Camilo na abertura do capítulo oitavo, já o seu rival predilecto, Libório Meireles («o deputado do Porto») é o retrato, a carvão, dos emergentes do regime, sem gramática, sem talento, sem moral e sem passado para honrá-los; são o ridículo do ridículo.

Ninguém se salva no lodaçal lisboeta – nem os deputados, nem os anjos de Miranda, nem as mulheres abandonadas (D. Teodora nunca será vingada, porque, enfim, tem de fazer a sua aprendizagem). Mas Camilo não é severo com nenhum deles (apenas o Dr. Libório sucumbe): Calisto porque, descobrindo o amor delicado por Ifigénia (e mais tarde adocicado pelos seus loiros rebentos), só pode vivê-lo num mundo sem tormentos, linhagens, austeridade e boticários transmontanos; o seu velho companheiro, abade de Estevães, que o condena, garante o lugar de cabido na Sé da capital; D. Teodora, finalmente entregue ao seu primo valdevinos, revela o lado sensual de uma mulher do planalto; o país, porque interpreta o seu papel de opereta romântica, constitucional – e porque o Senhor Dom Miguel, valha a verdade, não podia regressar da Áustria, como Camilo há de demonstrar em A Brasileira de Prazins. É o destino de Portugal, como 150 anos depois se pode ver.

Francisco José Viegas

  • Exorcismo camiliano

    Com o último número do Expresso foi distribuído "Eusébio Macário", o segundo volume da coleção dedicada a Camilo Castelo Branco. Ao todo, são oito livros distribuídos gratuitamente, nos quais se percorre a obra de um dos maiores escritores portugueses. Coordenada editorialmente por um dos seus mais reconhecidos especialistas, João Bigotte Chorão, a coleção resgata ao esquecimento um dos mais geniais nomes da literatura portuguesa. Esta semana é a vez de "A Brasileira de Prazins", aqui apresentado por Henrique Raposo

  • Que coisa é o Eusébio Macário?

    Com a edição de 16 de Julho do Expresso, teve início uma coleção com o melhor da literatura de Camilo Castelo Branco. São, ao todo, oito livros distribuídos gratuitamente nos quais se percorre a gigantesca obra de um dos maiores escritores portugueses. Coordenada editorialmente por um dos seus mais reconhecidos especialistas, como é João Bigotte Chorão, a coleção Camilo Castelo Branco resgata ao esquecimento um dos mais geniais nomes da literatura portuguesa. Este sábado, é a vez de "Eusébio Macário"

  • “Camilo não era só um escritor, era também um aventureiro”

    Com o próximo número do Expresso, este sábado, tem início uma coleção com o melhor da literatura de Camilo Castelo Branco. São, ao todo, oito livros distribuídos gratuitamente a partir de 16 de julho nos quais se percorre a gigantesca obra de um dos maiores escritores portugueses