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Exorcismo camiliano

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Com o último número do Expresso foi distribuído "Eusébio Macário", o segundo volume da coleção dedicada a Camilo Castelo Branco. Ao todo, são oito livros distribuídos gratuitamente, nos quais se percorre a obra de um dos maiores escritores portugueses. Coordenada editorialmente por um dos seus mais reconhecidos especialistas, João Bigotte Chorão, a coleção resgata ao esquecimento um dos mais geniais nomes da literatura portuguesa. Esta semana é a vez de "A Brasileira de Prazins", aqui apresentado por Henrique Raposo

A paixão por um escritor é uma alquimia misteriosa. Assim que acabamos um grande livro, pressentimos de imediato que aquelas páginas alteraram a nossa personalidade ou visão das coisas, já não somos os mesmos, mas ainda não sabemos articular as razões deste impacto. Por exemplo, acabei há quase um ano o “Gente Independente” de Halldor Laxness, mas ainda não percebi porque é que fui moral e esteticamente atropelado por este romance islandês. E, no fundo, não quero perceber, não quero explicar a razão do meu temor por certos livros. Julgo até que nos tornamos ridículos ou pedantes quando tentamos racionalizar este assombro.

A minha relação com Camilo Castelo Branco está dentro deste perímetro assombrado. Mesmo quando não aprecio os seus livros (e Camilo tem muitos livros menores), sinto uma devoção mais ou menos inexplicável pelo bardo de Seide. Portanto, explicar o porquê da minha paixão camiliana tem o seu quê de herético, porque exige a racionalização de um sentimento que deveria permanecer misterioso, primário, até infantil. É uma espécie de auto-exorcismo. Seja como for, aqui fica o meu exorcismo camiliano à boleia de “A Brasileira de Prazins”, o grande fresco da sociedade portuguesa do século XIX.

O exorcismo assenta em três imprecações: a liberdade total de Camilo, a sua visão histórica sobre Portugal e o seu estilo, que resulta de uma visão simultaneamente pessimista e cómica sobre o homem.

Por norma, Camilo é rotulado de miguelista. E, de facto, estamos a falar de um dos poucos escritores portugueses que ousou criticar o Marquês de Pombal e a Revolução Francesa, porque viu no pombalismo e no “liberalismo” francês a intolerância típica das doutrinas abstractas que nos desviam do concreto. Não há Homem, só homens. Estou certo de que esta recusa da “modernidade” pombalina e francesa explica o ataque que Camilo tem sofrido da parte dos pedagogos do Mistério da Educação. Este ataque seria sempre injusto, mas torna-se ainda mais insidioso quando percebemos que Camilo nada tem de facciosismo. “Brasileira de Prazins”, por exemplo, é implacável no retrato que faz de dois pilares da causa miguelista, os morgados e os padres. Os primeiros surgem como bêbados, lunáticos e snobes, os segundos são pintados como obscurantistas que recusam a medicina moderna ou como pecadores da alcova. Aliás, “O Crime de Padre Amaro” é brincadeira de querubins quando comparado com a pornografia fradesca que Camilo pinta neste e noutros romances. Camilo era livre, não tinha um programa ideológico a contaminar as personagens, os seus romances não queriam organizar ou desorganizar coisa nenhuma.

Camilo não queria organizar segundo uma doutrina; queria, isso sim, ilustrar realidades históricas, sobretudo aquele período de horror que Portugal viveu entre as invasões francesas e a Regeneração. Neste sentido, sempre senti uma atracção epidérmica pelo ambiente camiliano, porque é a negação da falácia dos brandos costumes inventada pelos liberais fontistas e prosseguida pela Geração de 70 e Salazar, entre outros. Ao contrário do que se pensa, Portugal do século XIX não foi um país brando. Pelo contrário, foi um país violento, marcado pela guerra, pela guerrilha e pelo banditismo de navalhistas impenitentes. “A Brasileira de Prazins” é a grande crónica desta violência que varreu a sociedade portuguesa entre 1807 e 1851. Olhe-se, por exemplo, para Veríssimo, personagem central desta narrativa que decorre no contexto da Maria da Fonte e da Patuleia (anos 40 do século XIX). Veríssimo nasceu em 1806, isto é, só conheceu guerra e guerrilha ao longo da vida. A alcunha do pai, “Norberto das facadas”, é em si mesmo um tratado sobre a atmosfera deste Portugal esquecido. Em criança, Veríssimo assistiu à carnificina das invasões francesas que mataram entre 6% a 9% da população portuguesa – cerca de 300 mil portugueses morreram entre 1807 e 1811 por acção directa ou indirecta dos exércitos franceses. Sim, Portugal foi a Síria da época. Mais tarde, Veríssimo combateu no exército miguelista na guerra civil e, após a derrota de 1834, lutou no bando do guerrilheiro miguelista mais famoso, o Remexido; após a destruição desta guerrilha, Veríssimo tornou-se num dos milhares de salteadores que pilhavam as Beiras e o Minho. Numa pausa nesta vida de bandoleiro, segue conselho amigo e monta a farsa que está no centro da trama de “A Brasileira de Prazins”: aproveitando a semelhança física com o rei deposto, faz-se passar por D. Miguel junto de frades, morgados e populares do Minho. A adesão popular à farsa revela por si só um ambiente político que estava sempre à beira da explosão.

Devido à presença hegemónica da teoria dos brandos costumes, o público português está habituado a reduzir o século XIX à pasmaceira dândi do Hotel Central e, por conseguinte, não sabe o que fazer com homens como Veríssimo, aventureiro, soldado, guerrilheiro, salteador. Da mesma forma, o nosso ambiente intelectual só está disponível para ver os portugueses através da lente de Dâmaso Salcede ou Conde de Abranhos, protótipos queirosianos do tuga cobarde, mole e escorregadio, que não acredita nem luta por nada. Neste esquema mental, homens como Zeferino de “Brasileira de Prazins” também não existem. Zeferino era um miguelista intransigente que fazia frente a liberais intransigentes num país radicalizado e idealista que era o exacto oposto da plasticidade amoral de Dâmaso Salcede. Por outras palavras, a violência camiliana provoca um (necessário) curto-circuito nas mentes que assumem que o nosso século XIX foi a choldra de Ega, Carlos, Amaro, Jacinto ou Gonçalo. Não, o Portugal oitocentista não foi a pasmaceira choldrística inventada por Eça, foi a granada pousada na mesa retratada por Camilo. No país inventado por Eça, os burgueses de Lisboa bebiam genebra; no país descrito por Camilo, miguelistas e malhados (liberais) bebiam genebra enquanto limpavam escopetas, clavinas e bacamartes.

Estas duas causas substantivas (a liberdade e a visão histórica) não teriam impacto sem a acção da terceira e última peça deste exorcismo camiliano: a adesão estilística. O tal mistério que sentimos pelos nossos autores preferidos está relacionado com a música que se esconde nas palavras. As frases têm um ritmo, uma frequência sonora, um tom que encaixa ou não encaixa no nosso ouvido. O meu ouvido, por exemplo, repele de imediato a frase pseudo-poética e celebra por instinto a frase lapidar. E, apesar de não ser a mais enxuta das frases, a frase camiliana mantém relações cordiais com o meu ouvido. Muitas vezes, dou por mim a repetir em voz alta algumas frases de Camilo. Um exemplo de “Brasileira de Prazins”: “um sobrinho do Melo, um valente navalhista, ganhou-lhe ódio, por ciúmes de uma tecedeira chibante, raparigaça de tremer, de quadris roliços, a Libânia de Covas”.

Ainda dentro deste ângulo formal, destaco a visão simultaneamente pessimista e cómica que Camilo desenvolve sobre a humanidade. O nosso autor está disponível para observar o mal e a estupidez sem filtros ou intelectualismos, mas embrulha essa maldade não numa roupagem trágica (que seria a minha preferida, confesso) mas numa capa irónica à Laurence Sterne. Repare-se, por exemplo, em Feliciano, o brasileiro da “Brasileira de Prazins”. Ao longo do livro, só sentimos pena por este pobre emigrante. Sim, ele enriqueceu no Brasil, mas é um sujeito feio, gozável e que permanece virgem aos quarenta. Contudo, é dele o acto mais desprezível do livro – abusa sexualmente da mulher (que é sua sobrinha) quando esta cai num estado de inconsciência que se segue aos ataques epilépticos. Eis como Camilo descreve a maldade bovina de Feliciano:

“Não obstante, como, passado o ataque epiléptico, a esposa recaía numa serena indolência, numa impassibilidade mansa e tranquila, o tio ia dormir com ela, tendo sempre em vista as condições do seu bem-estar, as necessidades imperiosas da sua fisiologia. Assim se explica a fecundidade de Marta (...) A providência não teve a bondade de fazer estéreis as dementes”.

Contorcemo-nos e rimo-nos ao mesmo tempo, vemos a maldade e o patético em simultâneo, ficamos incomodados mas também é impossível escondermos o riso perante uma personagem que é a personificação do ridículo. Aqui está um homem que só consegue ter sexo com aquilo que objectivamente é um cadáver temporário - Marta, a heroína do livro. Quando dos rimos da maldade, não quer isso dizer que a catarse já está feita? E não é a catarse o fim último da literatura?

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