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Que coisa é o Eusébio Macário?

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Com a edição de 16 de Julho do Expresso, teve início uma coleção com o melhor da literatura de Camilo Castelo Branco. São, ao todo, oito livros distribuídos gratuitamente nos quais se percorre a gigantesca obra de um dos maiores escritores portugueses. Coordenada editorialmente por um dos seus mais reconhecidos especialistas, como é João Bigotte Chorão, a coleção Camilo Castelo Branco resgata ao esquecimento um dos mais geniais nomes da literatura portuguesa. Este sábado, é a vez de "Eusébio Macário"

Duas coisas fez Camilo Castelo Branco ao longo da vida com notável afinco, competência e comprazimento: chorar e rir.

Chorar. É natural, a vida não lhe foi nenhum mar de rosas. Sem outros recursos além do seu génio, mourejou a gosto e a contragosto para assegurar o pão na mesa da casa amarela. Cumulativamente com esta maldição, a saúde fez-lhe negaças a vida inteira. Camilo é verdadeiramente um case study de hipocondria. Ainda na casa dos trinta começou a chamar-se velho e a decretar metodicamente a falência dos diversos órgãos, um por um. Felizmente, a seguir a cada crise, os órgãos como que se regeneravam miraculosamente e retomavam o seu funcionamento regular — excepto os da visão, que, esses sim, o levariam à morte, delegada num tiro de pistola que terá sido a sua última lamentação ou, quem sabe, a sua última gargalhada.

Mas ser sempre infeliz também cansa. Tanta infelicidade precisava do seu contrário. E assim é que, tão premente nele como a necessidade de se carpir, era a necessidade de rir, troçar, chalacear. A sua vida — resumindo — foi uma lamúria pegada com largas intermitências de riso.

Era por via de regra um riso contra. E muitas vezes violento. Raro encontramos nas suas obras exemplos de riso benigno, amorável. Zangado com a vida como toda a vida foi (e com razão), tinha necessidade de se compensar, parodiando e parodiando-se, dissecando com o bisturi da irrisão tudo o que lhe provocasse a mínima urticária. De preferência fazendo sangue. O riso da sua predilecção era aquele que fere de morte.

Porque Camilo tinha um ego altamente inflamável e, mais do que isso, de tipo lança-chamas — herança do génio assomadiço e rufião dos Brocas de Vila Real —, permanentemente disponível para a polémica e o afrontamento. Leal e generoso para com os amigos, era implacável para com os adversários. Não havia quem, tendo-lhas feito, lhas não pagasse. E de preferência com língua de palmo. Lembremos um desafortunado poeta brasileiro que ousou criticar o Cancioneiro Alegre. Camilo acusa-o: «[...] escreve imortais infâmias, chasqueando com a inexorável enfermidade que me acompanha desde a juventude e vai às enfermarias dos hospitais buscar termos demonstrativos da minha incapacidade literária.» Esta coisa da ‘incapacidade literária’ deve ter sido a gota de água: Camilo tinha em altíssima conta a dignidade de «escritor público» e não aturava que lhe bulissem com ela. Havia que castigar. Chamando-se o poeta Tomás Filho, adivinha-se facilmente a ponta por onde Camilo lhe pegou: o próprio apelido, Filho, especialmente ajeitado a certa caçoada rasteira e assassina.

Era este o riso com que Camilo aplacava os rancores.

É justamente o riso (este riso?) que nos traz ao Eusébio Macário.

Que coisa é o Eusébio Macário? Na obra quilométrica do grande jornaleiro das letras — obra tão diversa e multiforme que nela podemos encontrar um pouco de tudo, como na botica —, que lugar ocupa este livro inesperado, que rompe ruidosamente com o antes da novela camiliana e a vai alterar para sempre?

Camilo confessa em carta a um amigo que teve a intenção de divertir o público. «Estimo que o Eusébio Macário fizesse rir. Era o escopo que eu tinha de olho.» Mas quê? Pode-se fazer rir de muitas maneiras, e Camilo não ajuda a dizer qual. Pelo contrário, lança sobre o caso uma cortina de fumo (será talvez excessivo dizer: engendra uma estratégia). E nós especulamos. Seria o Eusébio Macário um simples exercício de emulação de escola, empreendido quase por diversão? Ou, menos inocentemente, uma caricatura acintosa? Ou ainda uma vingança espirrada na cara dos atrevidos arautos da nova literatura, que afanosamente desacreditavam os cânones ficcionais a que Camilo toda a vida tinha obedecido, e na verdade tinham feito a sua reputação literária?

Presumindo em Camilo uma certa inocência (coisa nem sempre fácil de presumir naquela mente complicada), pode considerar-se benevolamente que ele apenas quis fazer uma réplica neutra e brincada dos temas e processos da escola nova. Receoso contudo de que o livro ficasse aquém das expectativas e não tivesse a recepção que convinha às suas finanças — e talvez também porque publicá-lo podia ser visto como uma apostasia ou uma rendição do velho romancista —, saiu-se com aquela rábula da aposta a que acima se chamou cortina de fumo (estratégia, definitivamente não: Camilo era demasiado espontâneo para urdir estratégias). Na dedicatória do livro a uma «querida amiga», confessa: «Perguntaste-me se um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os ‘tiques’ do estilo realista. Respondi temerariamente que sim e tu apostaste que não. Venho depositar no teu regaço o romance, e na tua mão o beijo da aposta que perdi.» (A querida amiga é obviamente Ana Plácido, que tinha os seus fumos de literata e, nos longos serões de São Miguel, depois de ter despachado a criadagem com as ordens para o dia seguinte, conversava coisas de literatura mano a mano com o companheiro.)

Mas há que ser cauto: Camilo não costuma dar ponto sem nó. A confissão de aposta perdida é uma pequena impostura. É certo que, defendendo-se da acusação de segundas intenções, Camilo trata de estampar no prefácio da 2.ª edição: «Cumpre-me declarar que eu não intentei ridicularizar a escola realista. Quando apareceram o Crime do Padre Amaro, o Primo Basílio e os romances de Teixeira de Queirós, admirei-os, e escrevi ingenuamente o testemunho da minha admiração.» De facto escreveu. Mas — havia sinceridade nisso? E mais: não deixava ele sempre nesses testemunhos, falsos como Judas, o fio solto de um qualquer pormenor desairoso — do género «essas tropelias que eles fazem na sintaxe e no senso comum» ou os «admiráveis defeitos» de O Crime do Padre Amaro? Mesmo quando numa carta se refere a Júlio Dinis — que de resto navegava noutras águas e por quem a sua simpatia parece genuína —, troca o título de As Pupilas do Senhor Reitor por Pupilas do Abade. Lapso de memória? Não: maroteira refalsada.

Se o Eusébio Macário não é chacota, parece. A que outro fim, senão caçoar, vem por exemplo a minuciosa, gratuita e penosa enumeração das ervas da botica, dezenas delas, com descrição completa da morfologia e propriedades terapêuticas? Ou o catálogo das aves, na manhã em que Justino entra na freguesia? E sobretudo a que vêm as referências a padecimentos do tracto digestivo: «velhas que impam e arrotam com grandes borborigmos de gases» ou «o pai e o abade inveterados nas hemorróidas»?

E todavia «eu não intentei ridicularizar a escola realista», protesta ele em pose de virgem ofendida — trazendo-nos estranhamente à ideia o celebrado discurso shakespeareano de Marco António.

Lembremos o que escreve numa carta a Silva Pinto: «O Eusébio Macário foi uma disenteria de todo o meu ‘génio’. Derramou-se-me o cérebro naquela dejecção [...].»

E noutra carta:

«Há pouco me dizia ele [o filho Jorge], lendo uma página da Corja:

— Se isto assim vai, daqui a pouco...

— Daqui a pouco, o quê?

Pediu-me licença, com o chapéu na mão, e continuou:

— Daqui a pouco, escreve-se: “Senhoras traquejavam-se; p****s ouviam-se.” [1]

Tornou a pedir perdão, e cobriu-se.»

Esta cena, é mais que certo, não passa de uma patranha destinada a ridicularizar o Realismo, associando-o às funções torpes da fisiologia — coisa que, como poucas, é susceptível de provocar o riso canalha em Portugal.

O reiterado recurso a alusões de natureza escatológica — disenteria, dejecção, hemorróidas, gases, borborigmos e afins — poucas dúvidas deixa sobre as intenções de Camilo: achincalhar, proclamar a superioridade (pelo menos a nível de bom gosto) do coração sobre o baixo ventre. Isto é, da novela romântica idealista sobre a novela naturalista com o seu engodo pelo sórdido e pelo repulsivo, e por «descrever as tetas das mulheres». «O último feitio das novelas [realistas]», tinha dito ele, nas Novelas do Minho, «é não pintar, com o colorido gótico dos românticos, os quadros comoventes que rutilam na alma a faísca do entusiasmo. Agora somente se pintam as gangrenas com as cores roxas das chagas, e com a cores verdes das podridões modernas. Nos literatos o que predomina é o verde, e nas literaturas é o podre.» E, no prefácio da 5.ª edição do Amor de Perdição: «Pois que estou a dobrar o cabo tormentório da morte, já não verei onde vai desaguar este enxurro, que rola no bojo a Ideia Novíssima.» A palavra ‘enxurro’ vai bem com disenteria, etc.

É forçoso ver em toda esta artilharia uma intenção punitiva. Camilo tinha, no dizer de Aquilino Ribeiro, «o realismo trancado na garganta». Com razão. Em época de efervescência e proselitismo aguerrido, a nova geração, impante da Ideia Nova que trazia no bucho, proclamava alto e bom som a necessidade de uma literatura regeneradora da sociedade, moderna, ancorada nos progressos da ciência. Ao mesmo tempo decretava a obsolescência da novela romântica, expondo-lhe os podres e comparando-a desairosamente com o novo romance. Eça de Queirós, figura de proa, explicara em 1871 a que vinha o Realismo por oposição ao Romantismo: «É a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas. É a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos.»

Camilo, mesmo sem se ver citado por nome, lia coisas destas, apalpava-se — e achava que entendiam com ele os adjectivos desprimorosos. Admitindo embora admiração pela nova progenies, na verdade afinava com as suas petulâncias e irreverências. O seu ego, já se disse, era altamente inflamável e propenso a retaliar. De cada vez que lia uma provocação — Camilo lia tudo —, sentia-se azedar, acumular-se-lhe a bílis e exigir desforço. O seu ágil varapau lá ia ripostando como podia. Mas bordoadas ocasionais não o apaziguavam. Impunha-se um desagravo grande e definitivo como uma apoteose. Que acabou por deflagrar a seu tempo, e foi a estrondosa girândola que se chamou Eusébio Macário, seguida do encore não menos espectacular que foi A Corja. A que Camilo, inveterado na impostura, chamaria «dois frívolos livrecos».

Aposta, emulação, caricatura, show-off, prova de vida, descarga de bílis, desafronta... Quem o pode dizer ao certo? E interessa? Mesmo não querendo tomar partido na velha pendência que opõe os que defendem o primado do Autor sobre a Obra aos que defendem justamente o contrário, ocorre-nos uma pergunta: terão os estados de alma do Autor assim tanta importância — quando o produto final é esta esplêndida, imensa e perene gargalhada?

A. M. Pires Cabral

A. M. Pires Cabral escreve de acordo com a antiga ortografia.

[1] O eufemismo dos asteriscos é de nossa responsabilidade. Camilo escreveu a palavra por claro.