Siga-nos

Perfil

Expresso

Iniciativas e Produtos

O engenheiro de pessoas que conquistou Michelle Obama

  • 333

"Sinto que um dos grandes problemas de Portugal é que estamos a tornar-nos especialistas da crítica"

A conversa com Ricardo Carvalho terminou assim: “O meu foco é doentiamente as pessoas”. Uma boa expressão para concluir a conversa com um homem cujo projeto é admirado pela primeira dama dos Estados Unidos e que quer por o mundo mais saudável. É um dos 100 eleitos para constar no Círculo de Inovação do país.

Rodrigo Carvalho tem duas vidas: uma em que se formou em engenharia espacial no Técnico e fez um mestrado em Inglaterra; outra que começa antes de fazer o doutoramento quando o orientador lhe diz que dava “um bom engenheiro, mas que se isso acontecesse se estava a perder um bom engenheiro de pessoas.”

O guião noticioso dos principais negócios girou em torno de quem vende e de quem compra. Mas uma recolha feita pelo Expresso sobre os atores secundários envolvidos nestes dossiês permitiu identificar as personagens recorrentes. Nalguns casos há mesmo quem represente vários papéis no mesmo filme ou em sequelas.

Esta segunda parte da vida de Rodrigo, perdão a segunda vida, tem início com uma aposta no Marketing. Tentou tudo, mandou muitos currículos e a resposta era invariavelmente uma gargalhada. “As entrevistas foram terríveis, até que apareceu uma P&G que é uma escola de marketing. Foi a primeira vez que não assumiram que eu não sabia nada do assunto. Focaram-se antes nas minhas características pessoais, na forma como eu comunicava e liderava”, lembra.

Foi-se apercebendo que a premonição do seu orientador estava correta, ele era um engenheiro de pessoas. Por aquela altura ainda não pensava em empreendedorismo, apesar de ter lançado duas empresas para quem o futuro não foi risonho. Precipitou-se nas conclusões: “Pensava que empreendedor era aquela pessoa que lançava negócios e os negócios davam certo. Só depois descobri que o empreendedor é quem é apaixonado por empreender, o dar certo ou não é irrelevante”.

Sai em 2005 como o carimbo de “menino bonito da P&G” que em linguagem de mercado de trabalho quer dizer que estava à sua espera “um grande cargo, grande salário e grande carro”. Alcançou isso tudo e odiou. Despediu-se para ser feliz, “palavra que hoje é muito corny, e se antes era proibida de falar nos conselhos de administração hoje é obrigatória, ninguém a pensa.” Foi pensar felicidade - descobrir o que faz uma pessoa feliz - no trabalho para a Jason que lhe deu mais do que alguma vez pensou: a descoberta de que queria ser empreendedor social. No fundo, queria ser feliz.

Foi aí que surgiu o desafio de Rui Lima Miranda – “tão empreendedor que tinha uma empresa que nem sabia o que ela fazia” – de trabalharem juntos. Continuam hoje com um nome que já é um gigante no mercado, a Nutri Ventures e que apenas quer “associar sentimentos bons a alimentos bons”. Desenhos animados, livros e muito merchandising fizeram o sustento de uma empresa que quer promover a boa alimentação infantil sem ser pela informação mas sim pelo entretenimento.

Já estão no mundo inteiro e nos Estados Unidos ganharam terreno com “sorte, destino, Deus, energia, you name it”. Andavam há muito tempo a tentar entrar em contacto com a fundação da Michelle Obama. Após várias tentativas reuniram com Allan Katz – embaixador americano em Portugal – que estava quase de regresso a Washington. A conversa correu mal, não se olharam nos olhos mas tiveram tempo para deixar um DVD com a série. Por engano ou não o Embaixador levou-o para casa e fez as delícias do público da Nutri Ventures – os seus filhos – que só pediam mais e mais. Não tardou até receberem uma chamada: “Guys you got a winner”. Daí à conversa com Michelle Obama foi um piscar de olhos. E conquistaram a simpatia da primeira dama dos Estados Unidos.

UMA IDEIA

“Sinto que um dos grandes problemas de Portugal é que estamos a tornar-nos especialistas da crítica, com pouca capacidade para propor soluções, com ainda menor capacidade para agir/fazer/concretizar estas soluções e com a sensação de que precisamos que tudo seja feito por um ‘pai’ chamado Governo/Estado – ‘ele’ é o culpado de tudo, logo, ‘ele’ tem que resolver tudo. Por isso, gostaria de tentar minimizar este problema (que por ser de ordem cultural é de difícil resolução) lançando a campanha “E...”. “E...” - abreviação da frase “E o que é que vais FAZER sobre isso?”) - é uma campanha que visa treinar os portugueses para o exercício da sua capacidade de solução (em vez da crítica) e de acção para resolução de problemas (em vez da dependência de organizações externas que "deveriam" resolver tudo por nós). É uma espécie de “condicionamento Pavloviano” para nos transformar em artistas da acção de resolução de problemas.

Descarregas uma app chamada “E…” e sempre que algum conhecido teu faz uma crítica (a qualquer coisa), tanto verbal como num post de numa rede social, vais a app "E...", seleccionas a categoria do problema que ele está a reclamar, colocas a informação (simples dados de Facebook por exemplo) do teu amigo e nesse instante ele recebe no seu telemóvel e no seu facebook o selo “E...”: um selo muito visual que mostra que aquela pessoa estava a reclamar do problema XYZ sem, contudo, propor uma solução para o mesmo. Imaginem o que é ter a página do Facebook cheia de selos “E...” a indicar que és muito bom a reclamar? Shame on you!”

UM DESAFIO

“Todavia, a ‘vergonha’ de ser apanhado sempre a reclamar é só a primeira parte do processo. A ideia principal é teres a oportunidade de propor uma solução para a reclamação que fizeste (usando a mesma APP). No momento em que fazes isso e o teu amigo confirme que é mesmo uma solução (e não apenas outra reclamação), o selo “E...” é removido e no seu lugar é colocado o selo “SE...” (abreviação da frase "SE FIZERMOS ISSO...") que indica que a pessoa em causa propôs uma solução para a reclamação e isso fica visível no seu Facebook, juntamente com a solução proposta.

Para além disso, a base de dados da app com todas as reclamações e soluções (visível para todos), é agrupada por categorias e uma equipa procura patrocinadores para tentar colocar em prática as soluções propostas e resolver as questões apresentadas. Estes patrocinadores são empresas, organizações e/ou instituições (públicas ou privadas) que teriam a ganhar com a resolução do problema em questão (e todas as pessoas que publicaram soluções seriam reconhecidas por proporem uma solução para o problema (e ganhariam um outro selo "FIZ!"). Ou seriam mesmo convidadas a, fisicamente, participar nas soluções propostas. Também seria possível editar e desenvolver as soluções de alguém tornando-a ainda mais robusta e completa.

Acredito firmemente que é possível desenvolver esta App-Campanha-Causa que orientaria os Portugueses a transformar toda a energia perdida por eles nas reclamações numa capacidade de construir e implementar soluções, de forma independente do Estado. Sinto que isso faz muita falta ao nosso país”