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Todas as faces de Pessoa

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Com o próximo número do Expresso tem início a publicação da coleção “Obra Essencial de Fernando Pessoa”. Em nove volumes, distribuídos gratuitamente a todos os nossos leitores, percorre-se a gigantesca obra do maior escritor português do século XX, selecionada por alguns dos seus mais reconhecidos especialistas. Apesar de apenas ter publicado um livro em vida, precisamente “Mensagem”, o poema que abre esta antologia, os escritos de Fernando Pessoa são imensos na sua quantidade e qualidade. A partir da fixação de texto proposta por Ivo de Castro, foram escolhidos alguns dos que consensualmente são considerados mais relevantes. Além de “Mensagem”, a que foram acoplados outros poemas de pendor esotérico, foi considerada a poesia ortónima, o “Livro do Desassossego”, correspondência e artigos de imprensa, poesia de Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, bem como prosa crítica e ensaística e até contos policiais. O leitor pode ainda contar com um trabalho no qual também colaboraram Pedro Proença, autor de todas as capas, bem como a equipa da editora livreira Alêtheia

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

D.R.

Sim, toda a gente conhece Fernando Pessoa. Quem não ouviu versos como “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”? Ou “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

Além disso, os menos novos ouviram João Villaret recitar, quase em êxtase, “O Mostrengo que está no fim do mar/ Na noite de breu ergueu-se a voar”, de tal modo que todos temos a sensação de conhecer muito bem o mais falado dos nossos poetas modernos.

Mesmo aqueles que foram mais longe, os que leram ‘Tabacaria’, de Álvaro de Campos, ou ‘Guardador de Rebanhos’, de Alberto Caeiro, os que conseguem recitar a ‘Autopsicografia’ (o poema que começa com “O poeta é um fingidor”), acham-se já na posse do que seria o essencial daquele homem franzino, sempre de chapéu na cabeça, tanto nos retratos a óleo (são dois semelhantes pintados por Almada Negreiros), como na estátua que Lagoa Henriques fez numa mesa em frente à Brasileira, café onde passou incontáveis horas. Pessoa, no entanto, é interminável. As suas obras completas seriam impossíveis de publicar, salvo num contexto académico, como está a fazer a Imprensa Nacional Casa da Moeda com a edição crítica coordenada pelo professor Ivo de Castro. E foi precisamente a esta edição crítica que o Expresso começou por ir buscar o fundamento da sua obra: a fixação do texto. O autor, emendando e voltando a emendar, fazendo vários projetos diferentes de poemas, com versões ligeiramente alteradas, não é fácil de apanhar. O trabalho do professor Ivo de Castro, juntamente com muitos outros pessoanos, com destaque para o recém-prémio Pessoa Richard Zenith, é justamente o de, sendo fiel ao poeta, fixar ou unificar aquilo que se entendem ser as palavras escolhidas, nos locais exatos. E uma notícia: alguns destes poemas e textos que vão ser distribuídos pelo Expresso resultam, pela primeira vez, do consenso alargado de todos os que se dedicam à obra de Pessoa.

Pode pensar-se que estamos na presença de mais um poeta. Mas nada mais falso. Fernando Pessoa é a maior personalidade literária de Portugal. Por exemplo, o crítico Harold Bloom, que o considera Walt Whitman (um dos maiores, senão o maior poeta americano) renascido, inclui-o no escasso cânone dos 26 melhores escritores da civilização ocidental.

A sua dimensão genial foi também sublinhada pelo professor Eduardo Lourenço num dos primordiais e mais importantes ensaios críticos sobre a sua obra (“Pessoa Revisitado”, 1973). Mas, longe de estarmos a tentar convencer cada um acerca do seu génio, pensamos ser melhor colocar à disposição de todos o essencial da sua obra, de modo a que possam aferir por si próprios não só a versatilidade como o enorme talento de um homem que era muitos.

Se em jovem escreveu a um professor que tivera em Durban e a um colega da mesma escola, sob um nome falso, dizendo que Fernando Pessoa, entretanto regressado a Lisboa, morrera num incêndio; se, sob o nome de Alexander Search, publicou os primeiros poemas em inglês, mais tarde cria um engenheiro de máquinas e depois naval, nascido em Tavira, cujos poemas são assinados Álvaro de Campos (entre os quais o conhecido ‘Tabacaria’). Um latinista e monárquico, nascido no Porto, médico de formação, que na posteridade pessoana é Ricardo Reis. Um guardador de rebanhos (que nunca os guardou) poeta naturalista, desesperado que se proclama antimetafísico, Alberto Caeiro. Um simples guarda-livros que se encontra com Pessoa numa Casa de Pasto na Baixa, Bernardo Soares. Todos estes, e inúmeros outros heterónimos, tinham biografia, estilos, idiossincrasias e preferências próprias, chegando a polemizar entre si.

Além disto, temos ainda o Pessoa esotérico, cabalista e astrólogo, o poeta que faz versos de escárnio a Salazar e ao Estado Novo, que defende a liberdade de se ser homossexual ou que escreve indignado contra a ilegalização da maçonaria. Além, claro, dos contos policiais, que aliás fecharão esta coleção, a 14 de novembro.

Por trás, apenas um homem franzino de chapéu, tímido, com um único amor conhecido na vida — Ofélia Maria Queirós Soares a quem ele escreve cartas, que como todas as cartas de amor “são ridículas”, como postulou Álvaro de Campos.

Todas estas informações, muito mais pormenorizadas, bem como as explicações sobre as escolhas de poemas e textos, podem ser encontradas nos prefácios de cada um dos volumes. O poeta, comissário do Plano Nacional de Leitura e professor Fernando Pinto do Amaral ocupa-se do I Volume, “Mensagem e outros Poemas”; Richard Zenith toma a seu cargo a “Poesia Ortónima” (assinada pelo próprio Pessoa); o poeta, ensaísta e professor Nuno Júdice organizou o essencial do “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares; o professor e ensaísta, atual vice-reitor da Universidade de Lisboa, António M. Feijó trata da “Correspondência e Artigos de Imprensa”; a poetisa Ana Luísa Amaral, professora da Universidade do Porto, organiza a “Poesia de Ricardo Reis”; a professora da Universidade do Minho Rita Patrício tem a seu cargo a “Poesia de Alberto Caeiro”; Clara Ferreira Alves, crítica e jornalista, apresenta a “Poesia de Álvaro Campos”; o professor Miguel Tamen tem a cargo a “Prosa Crítica e Ensaística” e, finalmente, já a 14 de novembro, o último volume estará a cargo do poeta e cronista Pedro Mexia: “Contos Policiais”.

Seis destes especialistas — Ivo de Castro, Fernando Pinto do Amaral, Nuno Júdice, Rita Patrício, António M. Feijó e Clara Ferreira Alves — fizeram a apresentação do conjunto da obra, bem como das principais características do autor e dos seus heterónimos, esta semana, na casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, Lisboa, onde o poeta viveu.

Fernando Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888, em Lisboa, onde foi batizado com o nome que homenageia o santo que se comemora nesse dia; e morreu também em Lisboa a 30 de novembro de 1935, aos 47 anos. Estudou em Durban, porque, após a morte do pai, quando tinha apenas cinco anos, sua mãe se casou com o cônsul português daquela cidade na África do Sul. Voltou para Lisboa em 1905 e daí só se deslocou aos Açores (Terceira), de onde era natural a sua mãe. Mas o mundo todo coube na sua caneta. Assim como toda a imaginação do mundo coube nos seus versos e prosas.

A oportunidade de ler ou reler Fernando Pessoa, prefaciado por alguns dos maiores especialistas e amantes da sua obra, é um privilégio que o Expresso — mantendo a sua ligação de sempre com a cultura portuguesa — oferece aos leitores. Esperamos que lhes agrade tanto ler esta coleção, quanto para nós foi um enorme prazer organizá-la e (re)aprender o que de novo ela traz e o que já estava nas prateleiras do esquecimento.

1º VOLUME 19 DE SETEMBRO
“Mais do que a uma ‘epopeia’ no sentido clássico do termo, ‘Mensagem’ corresponde talvez a uma profecia — uma profecia obscura e luminosa como são todas as profecias dignas desse nome — que interroga ‘o futuro do passado’”

2º VOLUME 26 DE SETEMBRO
“A personalidade prevalecente na poesia ortónima é outra ainda. Trata-se de um ser hiperconsciente que assume o papel de espectador, que está afetivamente só por destino, medo ou opção (três maneiras de dizer, talvez, a mesma coisa)”

3º VOLUME 2 DE OUTUBRO
“O que é surpreendente para quem conhece a fortuna editorial de Fernando Pessoa é ver que não terá sido a poesia a razão do seu sucesso internacional mas este livro sem fim”

4º VOLUME 10 DE OUTUBRO
“Muitas vezes considerada mero material ancilar da obra literária, a correspondência deverá, em vez disso, ser tida como parte integrante da obra, várias das cartas que a integram sendo textos literários maiores”

5º VOLUME 17 DE OUTUBRO
“Para ser grande, sê inteiro: nada/ Teu exagera ou exclui.// Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes.// Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque alta vive”

6º VOLUME 24 DE OUTUBRO
“Pessoa nunca viria a publicar em vida estes poemas na sua totalidade; não obstante, fica evidente (...) a descrição de ‘O Guardador’ enquanto obra-prima absoluta, fruto de um êxtase que a tornava irrepetível”

7º VOLUME 31 DE OUTUBRO
“O que há em mim é sobretudo cansaço —/ Não disto nem daquilo,/ Nem sequer de tudo ou de nada:/ Cansaço assim mesmo, ele mesmo,/ Cansaço.”

8º VOLUME 7 DE NOVEMBRO
“Apesar de Pessoa ter morrido relativamente novo, em 1935, a prosa crítica que publicou em vida é substancial e bastaria para o considerar o crítico mais importante de toda a história da literatura portuguesa”

9º VOLUME 14 DE NOVEMBRO
“Tive uma grande vontade de chorar, de lhe pedir perdão, a ele, a quem nada fizera. Durante um momento não pude falar. Depois encontrei a minha voz dizendo-lhe: ‘não sei.’”