Siga-nos

Perfil

Expresso

Iniciativas e Produtos

Médicos 
e doentes são inseparáveis

  • 333

Vintage Images

A medicina do futuro vai ser muito tecnológica, sem fronteiras 
e orientada para o indivíduo. A partilha de informação será gigantesca, mas o médico e o doente vão continuar a ‘ver-se’ no consultório.

A máquina não vai substituir o olhar clínico, nem a mão do cirurgião. O prognóstico é feito por médicos que, apesar de separados pela idade e pela experiência, estão juntos na forma como veem o futuro da medicina e da relação entre quem trata e quem é tratado. Sabem que a tecnologia vai ‘escancarar’ portas na Saúde, mas acreditam que esse acesso sem barreiras e fronteiras terá de ter um ponto de referência: o juízo médico.

Ferramentas para prevenir, avaliar, vigiar ou tratar a doença surgem a um ritmo crescente e o utilizador corre o risco de perder-se sem a validação de um clínico. Algumas das respostas, que hoje só chegam depois de uma ida ao médico e de dias de espera pelos resultados de análises ou de exames, vão estar acessíveis na ‘ponta dos dedos’ e em tempo real.

Em breve, por exemplo, vai existir um aparelho capaz de indicar se a dor de ouvidos é uma otite. E se for, o doente decide tomar um antibiótico? O dilema repete-se com aplicações para telemóvel. A app indica que o ritmo cardíaco está baixo. Abusa-se do café ou do sal sem perguntar a um médico? Em suma, os cidadãos vão ter muita informação, mas poucos vão saber o que fazer.

Cinco a sete vezes por dia, Alexandra Costa vê a glicemia (açúcar no sangue) e envia os resultados, através de uma aplicação no telemóvel, para a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal. Em caso de alteração significativa, é emitido um alerta para a equipa que a trata. “Não estou sozinha a tomar decisões e consigo ter um acompanhamento mais próximo e frequente, em vez das consultas trimestrais.”

Depressa e bem

A aplicação mudou a relação entre a jovem e o médico assistente. “Ficou mais próxima, porque permite que a consulta seja mais bem aproveitada.” A dificuldade, reconhece, é do especialista: “Ter tempo para analisar a informação à distância e realizar as consultas.”

O tempo é um dos conceitos que o futuro vai mudar. A par das ferramentas para o cidadão, vão surgir instrumentos para os profissionais de saúde aptos a funcionar “depressa e bem”. Equipamentos de diagnóstico e para tratamento são algumas das áreas privilegiadas. A Samsung, por exemplo, já tem ecografias 5D.

Com uma escala menor, Portugal também já tem experiências futurísticas. A receita eletrónica é um dos casos e a Associação Portuguesa de Analistas Clínicos quer operacionalizar um ‘armazém’ de resultados das análises feitas aos doentes para que estejam sempre acessíveis. O projeto “permite que o médico recupere o tempo dedicado à consulta e que tem vindo a ficar reduzido devido às transcrições para a ficha dos doentes, trabalho que fatalmente origina erros”, afirma o presidente, Jorge Nunes de Oliveira.

A multiplicidade de informação terá também de ser doseada pelos profissionais de saúde. “Os médicos já não querem ouvir o doente, pois sabem que os exames serão solicitados, independente da avaliação clínica, e o próprio doente, convencido de que toda a sua patologia está nos exames, esquiva-se à narrativa da doença”, critica Nuno Cardim, professor na Faculdade de Ciências Médicas, Lisboa. Na sua opinião, “é preciso um uso ponderado e individualizado das duas potentes armas, a clínica e a tecnologia, e o contacto com o doente e a experiência individual devem continuar a ser indispensáveis e insubstituíveis”.

Presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa, Tomás Neto Silva, concorda com o professor. “A relação médico-doente terá sempre de existir”, mesmo rodeada de tecnologia. “Por exemplo, em cirurgia aprendemos que todos os corpos são diferentes por dentro. Nunca sabemos o que vamos encontrar quando abrimos um doente e é impossível programar uma máquina para isso. Mesmo quando é um robô que opera, são as mãos de um cirurgião que comandam a consola.”

Um milhão de gigabytes

A relação entre quem trata e quem é tratado vai, ainda assim, mudar. “Tenho doentes que já enviam os exames por e-mail e que usam o telemóvel para anotar o dia da consulta”, conta o jovem médico de família Miguel Azevedo. “As novas tecnologias vão generalizar-se, porque melhoram a acessibilidade e permitem uma resposta rápida, e o utente vai fazer pressão e vai procurar essa resposta.” Mesmo que esteja do outro lado do mundo.

A tecnologia vai anular as fronteiras físicas, mas também as do conhecimento. “Com o aumento dos dispositivos biométricos de fitness, equipamentos médicos conectados, como os implantáveis, e de outros sensores que reúnem informação em tempo real, uma pessoa consegue gerar, em média, mais de um milhão de gigabytes de dados durante a vida, o equivalente a mais de 300 milhões de livros”, revelam especialistas da IBM — empenhada em criar um “ecossistema de saúde”.

“Toda esta informação pode ser esmagadora para os prestadores de cuidados e pacientes, mas também apresenta uma oportunidade sem precedentes para transformar o modo como gerimos a nossa saúde”, diz John E. Kelly III, vice-presidente sénior da IBM. Mas Nuno Cardim pede cautela: “A imagem da doença não é a doença e muito menos o doente.”

P&R

  • Como pode o big data revolucionar o futuro da saúde?

A crescente capacidade dos computadores combinada com a nova geração de software analítico criou condições para analisar e interpretar em tempo real gigantescos volumes de dados que até agora existiam de forma caótica em todos os sectores de atividade. A área da saúde vai ser uma das beneficiárias desta revolução tecnológica conhecida pela expressão anglo-saxónica big data. Os efeitos práticos não vão acontecer de um dia para o outro, mas é certo que vai contribuir para otimizar tratamentos e sobretudo permitir antecipar os problemas de saúde dos indivíduos e da sociedade. Em suma, será uma ferramenta para que a medicina possa ser mais preventiva e deixe de ser necessário afetar tantos recursos à medicina curativa.     

  • Quais vão ser as 
aplicações concretas?

O big data já está a ser usado em muitas áreas da medicina. Desde a antecipação da propagação de epidemias, passando pela criação de medicamentos sofisticados, até à otimização do tratamento do cancro através da manipulação de elevado número de variáveis complexas e imagens. A Fundação Champalimaud está, neste último domínio, a colocar Portugal na vanguarda. Passou a integrar desde a passada semana o projeto Patologia Digital que usa o big data para melhorar o acompanhamento de doenças complexas como o cancro. O projeto, que envolve a Mount Sinai de Nova Iorque e a Philips, vai funcionar como uma rede virtual de troca de conhecimento que integra vários laboratórios de vários países (Arábia Saudita, Espanha e Israel).  

  • Os computadores vão ajudar os médicos a fazer diagnósticos?

Carlos Cordon-Cardo, presidente do departamento de patologia digital da Fundação Champalimaud e do Mount Sinai, não tem dúvida que o futuro da medicina passa pela análise preditiva assistida por computador. “A patologia digital vai permitir fazer diagnósticos com base em factos e não apenas em opiniões”, refere o especialista. “A digitalização da patologia dá uma oportunidade sem precedentes para aceder a um gigantesco volume de dados que são analisados no contexto de outras imagens, resultados e informações clínicas como radiologia e patologia cirúrgica e molecular”, afirmou o especialista durante o lançamento do projeto de patologia digital. “O nosso objetivo é traduzir dados em conhecimento, de forma a maximizar o tratamento do paciente”, acrescenta.

  • Os computadores vão ter capacidade para apreender?

Colocar a inteligência artificial ao serviço dos cuidados de saúde é um velho sonho que o Watson da IBM vai poder concretizar em breve. Através deste supercomputador que tem capacidades cognitivas e usa a linguagem natural — ou seja, que aprende — este gigante da informática espera colocar grandes volumes de informação de saúde na nuvem e disponibilizá-la “à medida” para hospitais, médicos, seguradoras, investigadores e talvez para o paciente a nível individual. Para o efeito, a IBM anunciou uma aliança com a Apple, a Johnson & Johnson e a Medtronic. A ideia é melhorar e personalizar os cuidados de saúde do indivíduo a partir de dados recolhidos por equipamentos de leitura de dados biométricos por sensores, aplicações móveis e relógios inteligentes (iWatch). Esta será uma das formas do Watson colocar o big data ao serviço das pessoas.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 1 de maio de 2015