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“A nossa missão é erradicar o cancro no Texas, nos Estados Unidos e no mundo”

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O cancro está a tornar-se na primeira causa de morte no mundo. Mas há esperança nas palavras de Ronald De Pinho, filho de emigrantes portugueses nos EUA, um dos maiores entendidos na matéria a nível global, várias vezes reconhecido e premiado.

Ronald de Pinho é presidente do MD Anderson Cancer Center, em Houston, um dos maiores centros de investigação e tratamento de cancro do planeta, onde só no ano passado foram tratados mais de 127 mil doentes, segundo disse ao Expresso Diário, numa entrevista feita por e-mail. Ronald de Pinho é convidado especial da Conferência Saúde 2025, um projeto que junta o Expresso, a IBM, a José de Mello Saúde, a Médis e a Samsung para discutir os desafios da Medicina nos próximos dez anos. A Conferência realiza-se na próxima quarta-feira, dia 13, na Fundação Champalimaud, em Lisboa.

O cancro está a tornar-se na primeira causa de morte no mundo, ultrapassando o AVC e o enfarte. Porquê?

O cancro é uma doença global, responsável por uma em cada oito mortes a nível mundial. E tem vindo a aumentar devido ao rápido envelhecimento da população mundial. Hoje, 78% de todos os cancros são diagnosticados em pessoas com mais de 55 anos. Estima-se que, até 2030, a incidência total de cancro nos EUA aumente cerca de 45 por cento.

É importante assinalar que entre um terço e metade dos cancros pode ser evitado se se adotar um estilo de vida saudável. Fumar é, nos EUA, a primeira causa de morte passível de prevenção. Existem também outras grandes oportunidades, como o uso da vacina contra o HPV [Human Papilloma Virus, que afeta o colo do útero] aos 11-12 anos, a proteção solar durante a infância e o exercício regular associado a uma alimentação adequada.

Qual é a relação entre o envelhecimento e o risco de cancro?

Um fator determinante dos cancros associados à idade é a perda da função do telómero, que causa instabilidade genómica e resulta num ganho anormal de genes promotores do cancro e numa perda de genes supressores dos tumores.

O que está a ser feito para conseguir tratamentos mais eficazes e até alguma regressão do envelhecimento?

A ciência desvendou a base genética do cancro. O projeto do atlas do genoma do cancro forneceu um compêndio detalhado das alterações genéticas que permitem a conversão maligna de células normais em células cancerosas. Este conhecimento possibilitou o desenvolvimento de medicamentos orientados, e a capacidade de aplicar estes medicamentos em doentes portadores dessas aberrações genéticas específicas, a chamada medicina de precisão.

                 

Em 2014, a instituição a que preside ficou em segundo lugar na lista de melhores hospitais para tratar o cancro. Como é que se mantêm padrões tão elevados?

No MD Anderson, tudo o que fazemos processa-se em torno dos nossos doentes. É por isso que fomos classificados como o melhor hospital de cuidados oncológicos do país em 10 dos últimos 13 anos. A nossa equipa de 21 mil campeões da luta anticancro aspira à excelência em cada dia que passa. Nós abordamos o cancro de cada doente com uma equipa multidisciplinar, constituída pelos clínicos e investigadores mais talentosos do mundo, apostados em fazer história no cancro. É a nossa missão e a nossa paixão.

Têm também o maior programa de ensaios clínicos dos EUA. Porquê? A quantidade faz a diferença?

No ano passado, só em Houston, tratámos mais de 127 mil doentes. A nossa dimensão e o nosso volume permitem-nos dispor de equipas de cuidados multidisciplinares com grande conhecimento e experiência, tanto dos cancros comuns como dos cancros raros. Esta combinação permite-nos disponibilizar opções únicas aos doentes, tais como testes clínicos inovadores.

Qual vai ser a grande descoberta que vai mudar o que hoje sabemos sobre o cancro?

Há dois anos e meio, mobilizámos os nossos talentos e a nossa dimensão para lançar o programa Moon Shots, uma ofensiva abrangente centrada na aplicação do conhecimento disponível visando uma grande redução das mortes por cancro no próximo decénio. O programa contará com grandes equipas multidisciplinares de investigadores e médicos do MD Anderson, a trabalharem na conversão de descobertas em iniciativas educacionais, políticas de prevenção, testes clínicos inteligentes, tecnologia de computação cognitiva móvel. O Moon Shots já trouxe progressos à nossa luta para erradicar o cancro. Os nossos esforços de tratamento por imunoterapia abriram novos horizontes. Descoberta pelo nosso colega Jim Allison, a imunoterapia induz o sistema imunitário do próprio doente a combater as células do cancro. Os resultados têm sido significativos e estamos a aprofundar este conhecimento e a usar esta nova classe de agentes terapêuticos em muitos dos novos testes clínicos. Os nossos esforços no controlo do cancro levaram a novas leis de prevenção do crescente risco de melanoma, as quais proíbem o uso de câmaras de bronzeamento por crianças em 11 estados, com outros 15 em vias de as aprovarem.

Trata-se de verdadeiros avanços, mas há ainda muito por fazer.

A presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, Gabriela Sousa, afirma que em Portugal falta dinheiro, medicamentos e médicos para tratar o cancro. Num país em crise, como é que estas dificuldades podem ser minimizadas?

O tratamento do cancro não é fácil e os custos podem ser significativos. Estou a trabalhar com diversos grupos em Portugal para discutir formas de colaboração. Uma área de extrema importância é a da prevenção. Na Conferência Saúde 2025 centraremos a mensagem na importância da prevenção, a qual inclui o tabaco, a obesidade, as dietas menos saudáveis, a inatividade física e o consumo excessivo de álcool. Falaremos também sobre alguns avanços na deteção precoce do cancro e sobre novos tratamentos que prolongam a vida a muitos doentes.

  • Perfil: Do Bronx ao topo da investigação

Tudo começa num contentor de um navio transatlântico em 1939. Foi aí que Álvaro, pai de Ronald A. De Pinho, se escondeu durante 13 dias para entrar nos EUA. E em 1977, antes de o filho discursar após a licenciatura na Universidade de Fordham, no Bronx, Álvaro revelou-lhe que a sua primeira casa tinha sido numa cave do outro lado do campus universitário e que, quando via os alunos nos seus trajes, só pensava no mesmo destino para os filhos. “Os meus pais acreditavam no sonho americano e eu sou prova disso.”  O percurso científico de Ronald De Pinho, de 60 anos, começou no Albert Einstein College of Medicine. Mudou-se depois para o Dana-Farber Cancer Institute, onde foi diretor fundador do Belfer Institute for Applied Cancer Science. Uma fase em que a morte do pai, provocada por cancro do cólon, o influenciou bastante: “A experiência levou-me a concentrar toda a minha energia emocional e intelectual em pôr termo a uma tal experiência para outras famílias.” Em 2011, o luso-descendente chegou a presidente do MD Anderson Center, na Universidade do Texas. “Dediquei a minha vida a erradicar o cancro. É um privilégio, não um sacrifício”, garante.