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A invasão das aplicações móveis

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MARIO JOAO

Desafio: Futuro da medicina está no telemóvel, mas há aplicações inúteis e ameaças à privacidade

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Microsensores viajam no sangue e percorrem todos os recantos do corpo transmitindo para o smartphone alertas de cancro. Outros sensores controlam a exposição do organismo a radiações, poluição e pesticidas nos alimentos. Estas são algumas das sofisticadas aplicações móveis (apps) que provavelmente vão estar acessíveis ao cidadão comum em 2025. Mas, não será preciso esperar 10 anos para que equipamentos ou roupa que trazemos vestida (os wearables) possam medir e transmitir para o telemóvel os dados biométricos básicos como a pressão arterial, as pulsações ou o nível de açúcar do sangue. Informação que poderá aumentar a longevidade. E vai mudar a relação entre médico e paciente que tenderá a ser mais remota e menos presencial. Como foi possível chegar até aqui?  

Tudo começou há oito anos, quando a Apple lançou o iPhone. Abriu-se uma nova era nas comunicações móveis com forte impacto na vida das pessoas. Surgiram milhões de apps nos ecossistemas da empresa da maçã  e dos concorrentes (Google e Microsoft). O resultado foi uma mudança radical na forma como os utilizadores acedem à informação, fazem compras, interagem entre si e se divertem. Agora chegou a vez de as aplicações de saúde chegarem à palma da mão.   

Bastaram  três anos para se dar  uma verdadeira explosão do número destas apps que monitorizam a atividade física e incentivam estilos de vida saudáveis. 

Há cerca de um ano, quando saiu o livro verde da Comissão da UE sobre “saúde móvel”, tinham sido identificadas mais de 97.000 apps nesta área. Este número não parou de crescer, não custando admitir que  já ultrapassou largamente as 100 mil. 

Esta invasão das apps da saúde já pode parecer excessiva, mas continuará a atrair fortes investimentos nos próximos anos. Segundo uma estimativa da consultora PriceWaterhouseCoopers (PwC), o mercado das apps para saúde atingiu em 2014 os 6,5 mil milhões de euros e em 2018 vai disparar para 16,7 mil milhões de dólares. 

Como quase sempre acontece com as tecnologias de grande consumo, após a euforia inicial, haverá uma separação  entre o trigo e o joio. Provavelmente poucos serão os criadores de apps da saúde que vão enriquecer. A consultora research2guidance, diz que 68% das produtoras de apps de saúde têm receitas inferiores a 10 mil dólares e só 5% faturavam 1 milhão de dólares em 2014. 

Mas estes números não desencorajam as grandes marcas. Apple e Samsung já fizeram saber que também querem ter o seu quinhão e preparam uma ofensiva comercial em maio. Cada um destes gigantes, que também estão presentes no mercado do relógios inteligentes, terão a sua oferta completa de apps de saúde e bem-estar. A IBM também não quer estar fora e firmou uma parceria com a Apple para a criação de um sistema que permitirá analisar dados clínicos recolhidos pelas apps do iPhone  (Healthkit). 

Sem o glamour das grandes marcas, também há outras iniciativas de aplicações que podem ser um auxiliar precioso à qualidade de vida. É o caso do projeto-piloto desenvolvido pela Fraunhofer Portugal (foto em cima)  que visa auxiliar a população idosa através da deteção de quedas, envio de alertas SOS, controlo da atividade física ou como lembrete da toma de medicação. Não surpreende por isso que a PwC preveja que as apps da saúde vão permitir poupanças de €99 mil milhões nos serviços de saúde na Europa em 2017.  

Reverso da medalha 

Porém, esta invasão de apps na saúde tem perigos e inconvenientes. Pode, sobretudo, expor a terceiros informação privada dos utilizadores. “Uma das preocupações nucleares prende-se com a proteção dos dados mais sensíveis de todos, os dados médicos”, afirma o advogado Manuel Lopes da Rocha, especialista de direito nas tecnologias. “Há ameaça muito séria à informação pessoal, pela revelação voluntária dos utilizadores das apps, pela falta de cuidado dos fabricantes e pela ameaça externa da criminalidade sofisticada”, acrescenta. O jurista admite que podemos estar perante um Big Brother (ver artigo de opinião). O perigo de terceiros terem acesso a dados confidenciais sobre o utilizador é real. Por exemplo, pode revelar se alguém está a ter um tratamento de quimioterapia, se é portador do vírus da sida ou se está a fazer uma cura de alcoolismo... 

A questão da privacidade das apps da saúde está a preocupar a Comissão Europeia. No livro verde “Mobile Health”, Bruxelas constatou que 80% das 100 mil apps existentes são “pouco úteis”. E que 75% são gratuitas porque têm como contrapartida a publicidade. Há que ter cuidado ao descarregar uma app da saúde no telemóvel.

P&R

  • O que vai mudar nas seguradoras nos próximos dez anos?

Vão deixar de ser ‘apenas’ agentes de comparticipação e converter-se em partes mais ativas de todo o sistema de saúde. De acordo com Pedro Correia, diretor da Rede Médis, as grandes inovações nos cuidados de saúde obrigam as companhias de seguros a integrarem-se mais e a terem cada vez mais em conta as doenças crónicas nas apólices. Uma vez que “todos os operadores estão sujeitos aos mesmos riscos, é a única forma de garantir sustentabilidade financeira”.

  • A adoção de novas tecnologias vai ser uma realidade?

Sem dúvida. As grandes tendências convergem para a necessidade de reconhecer as potencialidades dos novos canais de saúde. “Apostar no uso da telemedicina, desenvolver ferramentas mais próximas de clientes e utilizar dispositivos móveis” são alguns dos pontos destacados por Pedro Correia para sustentar o que já acontece em seguradoras de todo o mundo. É essencial adaptarem-se aos novos ritmos de vida, que dão menos disponibilidade aos clientes.

  • Em que se vão focar 
os planos de saúde?

Prevenção. É a palavra-chave a ser destacada na indústria da saúde. Ou seja, mais do que ser um mero instrumento de pagamento de despesas, as companhias de seguros querem posicionar-se como uma parte integrante das escolhidas de vida do utente. Ser um serviço completo de saúde. É o caso, por exemplo, do seguro de saúde da Vitality Health, no Reino Unido, que encoraja o cliente a fazer escolhas de vida saudável e dá-lhe recompensas por objetivos cumpridos.

Os dados clínicos vão estar suficientemente seguros daqui 
a dez anos?

Em princípio, sim. Os dispositivos móveis obrigam a parâmetros ainda mais rígidos no que toca à segurança da informação, pelo que as entidades europeias estão a rever a “Personal Data Protection Directive” para responder aos novos desafios. De acordo com o livro verde "Mobile Health" publicado pela União Europeia, 45% dos inquiridos manifestaram-se alarmados com o uso dos dados que partilham em aplicações de saúde.

  • O que é que as autoridades garantem?

A proteção de dados pessoais é um direito fundamental mas as respostas são pouco específicas, por enquanto. No espaço europeu, o “eHealth Action Plan 2012-2020” estabelece a necessidade de criar diretrizes legais bem definidas para as novas ferramentas. Há também uma proposta para introduzir um “General Data Protection Regulation” que garanta salvaguardas nas fases mais precoces de desenvolvimento das novas plataformas de Medicina.

  • Qual é o método de armazenamento de informação que oferece mais garantias?

Os dados na cloud estão a mudar a forma como a informação é protegida. Os dados são cada vez mais escrutinados para estarem a salvo de qualquer tentativa de intrusão. As empresas responsáveis têm apostado, por exemplo, em mecanismos sofisticados de encriptação de dados (tanto quando estão a ser comunicados como quando ficam guardados nos servidores), de autenticação e de transmissão de dados móveis semelhantes aos usados em sistemas bancários, os mais avançados neste campo.

Artigo originalmente publicado no Expresso a 25 de abril de 2015