Euro 2012
Inglaterra volta a cair num 'precipício' de 11 metros
Itália elimina Inglaterra e marca nova cimeira com Alemanha nas meias-finais do Euro. Buffon, Pirlo, Balotelli e Diamanti foram os 'Quatro Magníficos' que mantiveram os transalpinos na senda dos Invencíveis; Young e Cole os dois vilões que colocaram os ingleses na rota... de casa.
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Festa italiana
Kerim Okten/EPA
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Roy Hodgson, que ainda não tinha perdido ao serviço da seleção inglesa, acabou por ficar refém da sorte quando voltou a assumir a 'italianização' do futebol britânico - linhas recuadas, pouca profundidade do ataque, 37% de posse de bola... - e teve azar ao cruzar-se de novo com o precipício dos 11 metros que condena sempre o conjunto dos três Leões à eliminação em fases finais do Euro: foi assim em 1996, com a Alemanha (meias-finais); foi assim em 2004, com Portugal (quartos-de-final); foi assim agora, contra uma Itália que não conseguiu quebrar o nulo ao longo de 120 minutos mas contornou o infortúnio do desempate nas grandes penalidades (em 2008, foi afastada assim pela Espanha)
O MINUTO 101', quando um bom cruzamento de Diamanti só não se tornou um belo golo por culpa do poste, que voltou a ajudar Joe Hart quando nem o golpe de vista lhe valia. Os tempos do golo de ouro - o fator que, por exemplo, deu o título à França em 2000 contra... a Itália - já lá vão mas o avançado do Bolonha poderia ter 'acabado' com a partida em cima do intervalo do prolongamento
O MOMENTO Os primeiros cinco minutos de jogo, com uma intensidade supersónica e tudo o que se gosta no futebol - oportunidades (De Rossi acertou no poste logo aos três minutos, Buffon fez uma grande defesa só com uma mão a um remate à queima de Glen Johnson logo a seguir), passes certos, diagonais, pressão, futebol corrido (nem uma falta para amostra nesse período). Ou quase tudo: faltou o golo que mudaria tudo
O HERÓI Buffon, que já tinha feito uma defesa 'impossível' logo no início do encontro e teve papel preponderante no desfecho das grandes penalidades ao travar a marcação de Ashley Cole. Buffon e Pirlo, claro - depois de ter enchido o campo de classe, transformou o seu penálti com grande categoria à Panenka... quando a Itália estava a perder
A ESTRELA Mario Balotelli, o Peter Pan que voltou a ser Super Mario dentro do jogo que ele gosta, sempre atrás do cogumelo com pontos extra - o golo. E foi sempre a subir: nas primeiras ações, o disco rígido fez reset na altura de passar de nível (remate do nada tão fraco que mal chegou à baliza; remate falhado por corte da defesa britânica quando estava isolado); a seguir, sonhou tão alto que os disparos, dentro e fora da área, saíram por cima da baliza; por fim, só falhou o bónus especial da exibição porque apanhou pela frente uma parede intransponível chamada Joe Hart. Certo é que a squadra azzurra teve o melhor de Balotelli e nem sempre Balotelli teve o melhor da squadra azzurra
O JOKER Walcott, pela Inglaterra; Diamanti, pela Itália. Quando metade dos jogadores já estava com o depósito na reserva e a outra metade a poupar gasolina para aguentar o prolongamento sem gripar o motor, os avançados aceleras travaram um duelo individual em torno de quem conseguia quebrar os 'tratores' defensivos contrários. E uma coisa é certa: não marcaram nem fizeram assistências para golo (pelo menos concretizadas) mas foram os únicos capazes de evitar que os últimos 30 minutos fossem jogados a dez à hora
O VILÃO Há uma expressão que caiu em desuso no futebol mas que andava pelo top-5 no dicionário do 'futebolês' - os setores assimétricos de uma equipa, sobretudo no meio-campo. No caso inglês, não é tanto assim a nível do modelo de jogo mas torna-se assim no plano das características dos seus intérpretes. É aqui que entra Ashley Young, extremo a quem se pedia mais para esticar o futebol inglês uns 20 metros (até porque marcou alguns golos nessa posição pelo Manchester United). Porque se é certo que, na filosofia de Hodgson (qualquer parecença com a que utilizava na sua ex-equipa, o West Bromwich, pode não ser mera coincidência), as linhas atuam mais recuadas do que é normal, também é verdade que os alas não devem servir apenas para compensar. Young só desequilibrou uma vez - quando atirou a sua grande penalidade à trave e permitiu que a Itália entrasse de novo na discussão da eliminatória...
O SEGREDO A 'italianização' do futebol britânico. Esqueça aquela máxima do 'kick and rush' - que, verdade seja dita, soava melhor fonética do que visualmente -, o modelo de jogo inglês mudou com os tempos: a equipa joga com linhas mais baixas, os extremos são 'calmantes' dos laterais e não 'muletas' dos avançados; os elementos adiantados andam muitas vezes a proteger os homens recuados (Welbeck e Carroll, por mais do que uma vez, foram 'safar' a defesa nas bolas paradas e corridas). Mas é essa faceta mais pragmática que permitiu à equipa dos três Leões (que cantou toda o hino, como Hodgson pedira) recuperar os pergaminhos da altura em que tudo andava à volta do... 'kick and rush'
O ERRO Não fazer um último 'forcing' para evitar o prolongamento: do lado inglês, com Gerrard preso por arames a arrastar-se com cãibras e Scott Parker sem pulmão para dar gás ao meio-campo, a atitude nos últimos minutos do tempo regulamentar foi a do pontapé para a corrida de Walcott, fé em Deus e... zero riscos de pecado nas transições defensivas; do lado italiano, com Balzaretti a nem saber já de que zona do corpo se devia queixar e Montolivo com o depósito na reserva, a postura nos últimos minutos do tempo regulamentar foi a do passe curto à frente, fé em Deus e... zero riscos de pecado nas transições defensivas. Os trinta minutos de prolongamento foram assim um... sacrifício
O NÚMERO 2, o número de cartões mostrados por Pedro Proença, que fez o último encontro no Euro em virtude da presença de Portugal nas meias-finais da competição. E foi sempre a subir, tal como a própria Seleção: nota 3 no Espanha-Rep. Irlanda; nota 3,5 no França-Suécia; nota 4 no Inglaterra-Itália. Passou todos os exames na primeira vez que esteve na escola das grandes competições por seleções sem favores nem cábulas. Ele e os auxiliares - o golo anulado a Nocerino (115') não era fácil mas foi mesmo ilegal
O ACONTECIMENTO A Inglaterra até consegue mais ou menos equilibrar as contas nos encontros com a Itália: em 23, entre oficiais e particulares, ganhou sete, empatou sete e perdeu nove vezes. Ok, fica a perder mas nada que deixe muito corado as caras típicas dos ingleses, com pele tipicamente branquinha, que precisam de pouco para mostrarem a sua vergonha. O problema mesmo é quando entramos no domínio das decisões na fases finais - aí, a Itália ganhou 1-0 no Euro-1980 (Tardelli) e 2-1 no Mundial-1990 (Baggio e Schillaci; Platt). Sempre em solo transalpino
O AMANHÃ Segue-se a Alemanha para a Itália e o regresso a casa para a Inglaterra. Mas, para uns e para outros, o díficil mesmo será o dia de amanhã. Literalmente - o desgaste após 120 minutos intensos de futebol foi mais que muito e, no caso dos transalpinos, terão ainda dois dias a menos para recuperar até à meia-final...
FICHA DE JOGO Estádio Olímpico de Kiev (Ucrânia). Árbitro: Pedro Proença (Portugal). Inglaterra: Joe Hart; Glen Johnson, John Terry, Lescott, Ashley Cole; Scott Parker (Henderson, 94'), Gerrard, Milner (Walcott, 61'), Ashley Young; Rooney e Welbeck (Carroll, 60'). Treinador: Roy Hodgson. Itália: Buffon; Abate (Maggio, 90+1'), Barzagli, Bonucci, Balzaretti; Pirlo, Marchisio, De Rossi (Nocerino, 80'), Montolivo; Cassano (Diamanti, 78')e Balotelli. Treinador: Cesare Prandelli. Cartões amarelos: Barzagli (82') e Maggio (94'). Grandes penalidades: Balotelli (marcou, 0-1); Gerrard (marcou, 1-1); Montolivo (atirou ao lado, 1-1); Rooney (marcou, 2-1); Pirlo (marcou, 2-2); Ashley Young (atirou à trave, 2-2); Nocerino (marcou, 3-2); Ashley Cole (Buffon defendeu, 3-2); Diamanti (marcou, 4-2)


Fehim Demir/EPA
Classe: Pirlo bateu um penálti "à Panenka"
