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Obrigada

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 23 de fevereiro de 2011

Sou muito mais livre do que era quando aqui cheguei.

Termina hoje, por decisão da nova direcção do Expresso, esta crónica. Devo este espaço, iniciado em Janeiro de 2002, a José António Saraiva, então director do jornal. Estou certa de que José António retorquiria que não lhe devo nada, e essa atitude, tão rara num país habituado a preferir a rotina alternada dos favores e obediências em detrimento do exercício da consciência ética e da liberdade, reforça a alegria deste agradecimento. O convite nasceu das conversas e do trabalho em torno de um projecto de revista mensal, com design de Jorge Colombo, que Helena Matos e eu apresentámos ao Expresso. Chamava-se 'Única' essa revista que não chegou a nascer: as matérias dos números zero e um, que chegaram a ser feitos, foram publicadas na revista do Expresso, e José António Saraiva viria depois a solicitar-nos autorização para rebaptizar a revista com o título que mantém até hoje. Agradeço também a Nicolau Santos o entusiasmo com que acolheu e defendeu o projecto dessa 'Única' inicial. Agradeço a Henrique Monteiro a manutenção desta crónica ao longo dos anos em que dirigiu o Expresso e a Violeta Lòpiz as ilustrações delicadas e inteligentes que a têm iluminado. Durante nove anos, semanal e ininterruptamente, encontrei aqui o desafio de pensar e escrever livremente, sem limites temáticos ou censórios de espécie alguma. Entre 1989 e 1993 tivera o privilégio de pertencer aos quadros da redacção do Expresso, onde aprendi e cresci muitíssimo. Esta página não chegaria para agradecer a todos os que, nesta casa, me acompanharam e me ajudaram a pensar mais e melhor. Mas não posso fechar o capítulo sem agradecer ao fundador deste jornal de referência, Francisco Pinto Balsemão, não só as palavras de estímulo que repetidamente dele recebi, mas sobretudo o exemplo de independência, coragem e rigor que sempre nele encontrei.

Sem leitores não existiriam cronistas - nem jornais. Tive a sorte de encontrar leitores atentos e exigentes. Agradeço tanto aos que me levantaram o ânimo em momentos de especial cansaço ou desalento como aos que me espicaçaram as meninges, fustigando-me com críticas ferozes - e até, por duas vezes, processos judiciais. A condição de arguida é, aliás, muito útil para quem, como eu, tem como principal objectivo de vida o entendimento profundo da natureza humana.

Procurei pensar sobre cada tema, fosse ele a guerra no Médio Oriente ou a tragédia eterna da violência dita 'doméstica', a política cultural ou o trabalho infantil, como se tivesse aterrado de Sirius (isto dizia Augusto Abelaira sobre o seu método de cronista) e olhasse para este mundo pela primeira vez - ou seja, sem um programa de pensamento prévio encaixado numa cartilha. Acreditei sempre que o risco, mais do que provável, de errar é muito menos grave do que o erro de comprar, alugar ou roubar um pensamento já feito. Nunca tive a pretensão da imparcialidade - todos somos parte de alguma coisa, em qualquer situação; apenas procurei a justeza, isto é, a compreensão ou compaixão, no sentido de partilha da paixão alheia. Com Maria Antónia Palla, jornalista e figura humana de invulgar grandeza, aprendi a descascar a realidade a partir das histórias individuais. Da atenção ao particular nasce o respeito, e tudo é particular e íntimo antes de ser comum e político. Não aceito a distinção entre os 'temas fracturantes' e os outros, ditos 'sérios'; entendo a dicotomia como uma forma de ditadura particularmente castradora.

Walter Galvani, escritor brasileiro, resumiu o labor da crónica nesta imagem exacta: "Ofício de cronista é como voo de gaivota, rente às ondas, até o ponto e a hora de fisgar o peixe. E então vem o difícil: voar mais e mais, sem deixá-lo cair." As palavras são instrumentos de voo. Instrumentos sensíveis e precisos, que não resistem à ferrugem do medo ou da falsidade. Pensar é perigoso - e pensar em público, semana após semana, mais perigoso ainda: cria uma corrente de ar que desloca as ideias instaladas. Sem perigo não há liberdade. Sou muito mais livre do que era quando aqui cheguei. A gratidão que sinto por todos aqueles - conhecidos ou desconhecidos, amigos ou inimigos - que me arejaram o cérebro ao longo deste trajecto não tem medida. Ter tanto e tantos a quem agradecer é a melhor aproximação que conheço à felicidade. Obrigada.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia.

Texto publicado na revista Única de 19 de fevereiro de 2011

9

Programa para um ano de crise

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011

A conversa da angústia é velha e mata os novos.

Na Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, mulheres e homens das mais variadas idades encontram-se ao cair da noite para aprender a dançar. As aulas, excelentes, custam apenas um euro por dia, para quem tenha a persistência de rodopiar diariamente e queira aprender uma dança diferente em cada mês: jive, valsa inglesa, valsa vienense, rumba, samba, tango, cha-cha-cha, paso doble, slow fox e quick step.

Quando chegam os alunos da primeira hora, saem os dançarinos das matinés dançantes que ali existem todas as tardes, das três às sete - gente que se reformou do trabalho mas não da alegria de viver. Há mais mulheres do que homens com vontade de aprender a dançar. Pelo menos nos Alunos de Apolo. Mas nunca falta par, porque há um valoroso conjunto de homens dos níveis mais elevados que se disponibiliza a aparecer pelas aulas dos principiantes para se deixar pisar até que as novatas consigam fixar os passos.

Ali, naquela hora, ninguém quer demonstrar nada, nem chegar a lado algum - não há egos lustrosos nem feitos imponentes, apenas ritmos. Enquanto os professores corrigem cada passo em falso e cada movimento trôpego, os parceiros sapientes segredam às tropeçantes: "deixe-se levar pela música que o resto vem depois". O resto virá depois, sim, desde que saibamos escutar a música, entrar no tempo.

A crise que vivemos resulta do oposto desta atitude: querermos acelerar o tempo, dominar a música, abafá-la, tomá-la toda para nós. Essa é uma das coisas que se aprendem num filme que só aparentemente é sobre dança - "Cisne Negro", candidato a mais Óscares do que os que mereceria, se tomasse alguma distância sobre a loucura da perfeição em que se compromete.

A competição desenfreada conduziu o mundo ao impasse em que estamos hoje. É tempo de percebermos que o remédio está na antítese do veneno - pararmos de correr e encontrarmos tempo para, simplesmente, dançar. A conversa da angústia sobre o futuro é velha e mata as novas gerações. Há trinta anos o telemóvel, a Internet e as redes sociais que entretanto criaram empresas e fortunas eram impensáveis - por conseguinte, que valor têm os augúrios de desgraça para os nossos filhos e netos? A nova geração precisa desesperadamente de incentivo - e sobretudo calma.

O direito ao sonho parece arredado da cartilha dos mais novos, tanta é a ansiedade dos pais sobre o seu sucesso futuro. Einstein chumbou a Humanidades na entrada para a Universidade e Bill Gates abandonou o curso no 3º ano para se dedicar aos computadores. Estudar é importante, desde que se tenha paixão por aquilo que se estuda. Conheço jovens que estiolam a estudar Gestão quando gostam de Artes, porque têm medo de não poder sustentar-se. E sei que ninguém pode ser um bom gestor se não tiver amor pela gestão. Sei que a felicidade começa sempre pelo amor.

Não me atreveria a dizer que sei mais nada - mas quando se teve a sorte de aprender na infância que é importante ter sonhos e lutar para os tornar realidade, sabe-se isto. Essa sorte é hoje interditada aos meninos que são obrigados a aprender chinês ou a correr de explicação em explicação para serem os melhores da turma, os mais hábeis sobreviventes, os mais competitivos.

A crise fundamental é a de ideias: os sistemas económicos tradicionais estoiraram, e não se adivinha ainda o que poderá vir substituí-los. Seria mais fácil adivinhar se tivéssemos tempo para pensar. Tempo livre - para ler, viver, e sobretudo pensar. Deveríamos fazer da filosofia o centro dos currículos escolares, desde o primeiro ano de ensino - em vez de fazermos precisamente o contrário, como calamitosamente temos feito.

Os jardins são gratuitos. Os museus, aos domingos, também. Como são gratuitas as bibliotecas - e há-as hoje pelo país inteiro, disponibilizando, além de livros e revistas, músicas e filmes. Um bilhete para os fabulosos filmes que a Cinemateca exibe custa menos de metade de um bilhete de cinema normal. Quando se passa uma manhã de sol, mesmo no Inverno, lendo estiradamente na relva, o cérebro acende-se e a alegria renasce.

A pouco e pouco, perde-se aquele instinto de frustração que nos leva, tantas vezes, a desrespeitar os outros - utilizando-os, fustigando-os, ou tentando frustemente caçar-lhes o lugar, numa fila dos Correios ou numa qualquer empresa. O mais urgente programa anticrise parece-me esse: gozar cada dia devagar, com o mínimo de possível de custos. E pensar como quem dança, sem olhar para o par do lado nem pretender mais do que o prazer de rodopiar ao som da música.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 12 de fevereiro de 2011

 

3

Meter água

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 9 de fevereiro de 2011

Portugal promovido como uma Atlântida com campos de golfe.

Portugal é, basicamente, uma extensão de mar, rios e lagos pontuada por algumas aldeias de outrora, um cavalinho de passagem, um ou outro monumento rendilhado, um prato de bacalhau nouvelle cuisine, campos de golfe, apontamentos de modernidade - um auditório estiloso, um museu de design, um oceanário - e varandas boas para namorar por cima das vastas águas. Parece pouco? Falta acrescentar à paisagem as escadarias de uma bela livraria, uma fatia de calçada portuguesa e uma menina de minivestido branco a cantar, debaixo de uma árvore, com um guitarrista de cada lado. Os estrangeiros aos quais se destina esta visão de Portugal poderão concluir, por conseguinte, que o fado é uma música rural e a minissaia branca o seu traje habitual. Mulheres de saia curta debaixo das árvores foram uma das mais infelizes e prolongadas imagens de Portugal - aí está uma tradição já anterior ao 25 de Abril, para os saudosistas. Mas não me parece que valorize o fado que, ainda por cima, está candidato a Património Cultural da Humanidade. O que acabo de descrever é o novo filme de promoção turística de Portugal no exterior - um filme de três minutos e meio, sem palavras, o que poderia ser vantajosamente aproveitado para destacar essa música que comove multidões, do Japão ao Brasil. Mas a música de fundo deste vídeo parece ter sido criada para um elevador de hotel - é indistinta, até nos vagos acordes de guitarra. No fim, quando a mulher entra na água ao sol poente (começáramos com um homem a sair da água ao sol nascente) lê-se: "Portugal: the beauty of simplicity". Entre as coisas simples que o bom povo português faz conta-se o lançamento de balões iluminados nas noites festivas.

Não há nada neste Portugal de exportação que não exista também na Irlanda, por exemplo (excepto os balões saídos de algum festejo oriental, a calçada portuguesa e o bacalhau anoréctico, com duas batatas em tuberculose galopante e umas ervilhas do pós-guerra a acompanhar). Ou em Espanha. Ou em vários outros países.

O turismo, como quase tudo no mundo actual, é uma área cada vez mais especializada - e rentável. Portugal tem todas as condições para se tornar um dos mais desejados destinos turísticos internacionais, e não é só nem especialmente por ter muita água (para fazer surf, regar campos de golfe ou criar cenários românticos). O que Portugal tem de único para vender é cultura: os monumentos, sim - muito mais variados do que os hiperpublicitados Palácio da Pena, Mosteiros dos Jerónimos e da Batalha mostrados neste filme. Mas também a arquitectura contemporânea - Siza Vieira é uma referência mundial, e é português. E a literatura - desse ícone incontestado que é Fernando Pessoa ao Nobel José Saramago. E a pintura - dos painéis de Nuno Gonçalves no fascinante Museu de Arte Antiga à Casa das Histórias de Paula Rego, às obras de Júlio Pomar ou Graça Morais. E a música - o fado, precisamente. Uma campanha que mostrasse o que só em Portugal se pode ver e sentir atrairia ao país um novo e mais lucrativo tipo de turista. O turismo do sol e da praia nunca poderá beneficiar grandemente o país - mares mais quentes, até a Espanha tem. A verdade é que o nosso turismo de areal se esgota nos pubs e nos campos de golfe do popular Allgarve, sem criar grandes receitas nem animar o resto do país. Porque é que o Minho ou Trás-os-Montes nunca aparecem na propaganda externa? Porque é que a cultura de um país internacionalmente popular por causa do fado e de Fernando Pessoa - além das Descobertas - se resume à síntese mais evidente do tricô manuelino ou dos vinhedos do Douro? Porque é que o bacalhau de exportação há-de ter uma cara mais infeliz do que a da Kate Moss nos seus bons tempos? Porque é que de uma gastronomia mais rica do que a Arábia Saudita só se promove a posta do peixe seco?

A resposta estará provavelmente na descrença que temos em nós mesmos, nas dúvidas constantes que nos assombram, vá-se lá saber porquê, sobre a identidade deste país antiquíssimo, e a sua capacidade de atrair estrangeiros. Sugiro aos responsáveis destas campanhas que ouçam os muitos estrangeiros que se naturalizaram portugueses. Eles saberão explicar-lhes o que tem Portugal de diferente e singular. E depois filmem essa diferença, de Norte a Sul - não em voo planado e abstracto, mas no concreto íntimo das cidades, dos museus, das ruas, das personagens inesquecíveis e das suas obras. Portugal não é simples, não; é muito mais belo e específico do que isso.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 5 de fevereiro de 2011

2

Memória, precisa-se

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011

Pior, antes do 25 de Abril, só os mortos.

Os portugueses têm memória de passarinho, e dos tontos. Podiam pelo menos ter memória de andorinha, que essas voam para longe mas regressam todas as Primaveras aos beirais, e constroem os seus próprios ninhos, com notável empreendedorismo e competência, chilreando sem lamúrias. Segundo um inquérito realizado no âmbito do Projecto Farol, 46 por cento da população acham que "estamos pior do que antes do 25 de Abril". A coisa refina: para 58 por cento dos portugueses, estamos hoje pior do que antes da entrada na Comunidade Económica Europeia, há 25 anos. Escusado será lembrar a este povo voluntário da desmemória que no fabuloso final da década de 80 do século passado, quando o maná dos fundos europeus caía diária e copiosamente do céu sobre as nossas atarantadas cabecinhas (então lideradas pelo senhor que sozinho consegue ser mais honesto que nós todos renascidos), a Europa era considerada a mais linda das noivas. Sim: grande parte desse caudal foi transformado em betão, cursos de formação da treta e luxos depois abandonados (veja-se o simbólico Pavilhão de Portugal) - mas isso já não é culpa da Europa. Sucede que a culpa à portuguesa é sempre dos outros: em primeiro lugar, do mundo cruel; em segundo, dos governantes ferozes. E assim o povo, acompanhado de alguma populista opinião, continua no seu triste contentamento de se achar sempre pior do que nunca, à revelia dos factos e números.

Basta um ligeiro alumiar das meninges: antes do 25 de Abril, para se ter direito a tratamento hospitalar gratuito era necessário ter-se um documento onde estava escrito "indigente", e hoje o Serviço Nacional de Saúde é uma realidade universal. Antes do 25 Abril, a educação era um privilégio de ricos - o tão gabado ensino de "excelência" não só não era assim tão bom (leiam os jornais desse tempo e avaliem, além dos ruidosos silêncios da censura, os rodriguinhos da ignorância pura e do deslumbramento pacóvio que lhes enchiam as páginas, no lugar da informação) como deixava a maior parte da população de fora. Hoje a escola pública é para todos - e está, infelizmente ainda desde há poucos anos, aberta todo o dia. Poderíamos também enumerar, entre muitos outros dados essenciais, a descida vertiginosa da mortalidade infantil, o aumento da esperança de vida, o decréscimo dessa miséria atávica que é a gravidez na adolescência. Falta cumprir muito? Sem dúvida. Mas pior do que antes do 25 de Abril? Só um esquecimento comatoso de ingratidão poderá afirmá-lo. É curioso, aliás, que os mesmos inquiridos manifestem em simultâneo um desprezo avassalador (chega aos 90 por cento) pela classe política e a convicção de que é à dita classe (isto é, ao Estado) que cabe o dever de assegurar o desenvolvimento e a competitividade do país. Por outro lado, a percentagem da população disponível para a intervenção cívica activa não excede os 31 por cento - e mais de metade dos portugueses manifestam-se indisponíveis para lançar um negócio próprio. A segurança no emprego é central para a grande maioria, e 83 por cento dos inquiridos consideram que a responsabilidade pelo sucesso de uma empresa é do empresário, ou seja, do patrão. Ah, nação valente e imortal!

Antes do 25 de Abril, de facto, a segurança do emprego era melhor (para os que o tinham, e o passavam em testamento), a Justiça era extraordinária (os tribunais plenários eram rápidos e eficientes), a saúde não tinha listas de espera (eram saudavelmente substituídas pela relva dos cemitérios) e quem queria ser empreendedor emigrava, não ficava cá a fazer sombra a ninguém. Acresce que a fome - a fome real, aquela que as crianças analfabetas sentiam de manhã à noite, porque nem tinham uma escola que lhes desse duas refeições por dia - era, por si só, um grande estímulo ao empreendedorismo no exterior.

Os resultados deste inquérito demonstram que o temperamento passivo, timorato e autodesresponsabilizador criado pelas ditaduras demora muito a alterar-se. O paternalismo providencialista é menos uma maldição do que um vício. Portugal continua toxicodependente dos poderes. Também é por isso que eles não funcionam melhor: porque deles se espera tudo, mesmo quando se desespera. Esperar, desesperar são verbos fáceis. Fatais - mas desgraçadamente cómodos. A época do comodismo de olhos fechados acabou de vez. Já acabou há muito tempo, não só em Portugal. A democracia dá mais trabalho do que a ditadura, pois é. Uma chatice.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia.

Texto publicado na revista Única de 29 de janeiro de 2011

15

Peregrinação a Roma

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 26 de janeiro de 2011

De Fellini a Caravaggio, uma digressão pelo amor puro.

Dizia Fellini: "A única responsabilidade que sinto é a de evitar a aproximação que é a secreção mais directa da ignorância e da estupidez. Ser aproximativos é uma característica nossa, tipicamente italiana, uma atitude psicológica que cultivamos desde sempre com deleitado cuidado, às vezes até com presunção, como se fosse um recurso, uma qualidade genética que os outros só podem invejar-nos; enquanto quase sempre não é mais do que a esquálida resignação a sobreviver; ainda e só aproximativamente, entenda-se. Sinto a responsabilidade de não enganar, de não me contentar, de testemunhar, com uma aplicação rigorosa dos instrumentos de que disponho, a embrulhada que, caso a caso, vou encontrando." (Em "Fellini por Fellini", entrevista de Giovanni Grazzini, Publicações Dom Quixote, 1985). Este escorregadio talento para a aproximação, mansa e mordaz, feita de doses iguais de deslumbramento e desconfiança, resvalando quase sempre para o conformismo, é também muito português - talvez seja esse um dos encantos que a Itália tem para nós. O Museu de Arte Contemporânea de Roma (MACRO) exibe agora, pela noite dentro (das quatro à meia-noite) um fabuloso Labirinto Fellini. A parte central da exposição é uma instalação cenográfica inspirada nas atmosferas teatrais e oníricas do realizador, um prodígio de luz, som e vazio, seguido por um dédalo de telas gigantes onde pedaços dos seus filmes contracenam entre si, e onde confirmamos a que ponto Marcello Mastroianni é único e inesquecível. Pedaços do filme que já não chegou a realizar, excertos de entrevistas, e uma homenagem à revolução que foi "La Dolce Vita" compõem a outra parte da exposição. Reencontrar Fellini é recuperar o dom da inocência, essa verdade íntegra e desprevenida que nos falta tanto. Há também inocência na exasperação sublime da pintura de Caravaggio, que levou para as paredes das igrejas a desesperada sensualidade do mundo. Fui a Roma para me ajoelhar uma vez mais, na igreja de Santo Agostinho, diante da Madonna dei Pellegrini, uma mulher com uma criança demasiado grande nos braços, e que ainda assim parece dançar em silêncio, sobre uns pés levitantes, e abraçar com olhos carnais, humanos, os peregrinos de pés sujos que vergam as suas dores diante dela. Era prostituta de profissão, a Lena que serviu de modelo a esta Madonna de Caravaggio - não é por acaso que as santas e santos deste pintor de fogo e gelo são invariavelmente seres da verdade violenta da noite, anjos caídos na hipocrisia de um mundo de aparências. Às Madonnas de Caravaggio pode-se rezar, porque elas não têm medo de ouvir nem se deixam confundir com mentiras, meias tintas, cobardias ou omissões. São apenas e soberanamente mulheres, com os braços carregados e ainda assim disponíveis para afogar o mal dos outros nos seus fartos colos.

No regresso, a alma irmã que me acompanha nesta peregrinação e percorre comigo em silêncio o Panteão onde jaz Rafael, debaixo de uma abóbada de céu, põe-me na mão um livro pequeno: "Toma, fica com ele. Está velho, não encontrei um novo, já o li três vezes, é teu". O livro chama-se "Um Amor Puro" e é assinado por Agustina Izquierdo - uma velharia de 1995, imaginem, impossível de encontrar nas livrarias. Leio: "Era uma luz feita de uma precisão perversa ou misteriosa, longínqua e penetrada pelo silêncio. Não havia uma luz em combate com uma sombra, um dia que se opusesse à noite e aniquilasse a sua escuridão. Havia uma terceira fonte de brilho e de trevas simultaneamente. Havia uma luz escura em que os homens mantinham as pálpebras fechadas e estavam em condições de perceber a vida mais intensamente, se para isso tivessem a temeridade necessária." Na Catarina desta novela de uma escritora que nem sequer existe vejo o rosto de Lena, o rosto da Madonna de Caravaggio, o rosto de Roma, devastadoramente belo na sua melancolia de séculos misturados, a esperança dos jovens turistas que lançam moedas e desejos à Fontana di Trevi que Anita Ekberg continua a percorrer, à noite, no labirinto de Fellini, que abre as portas quando a noite cai. Em Roma, de resto, a noite não cai - nasce devagar, numa bruma lenta que apaga os azuis e ocres das paredes e acende a música e os projectores, como no genérico de um filme que nunca acabasse de começar.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

2

Sigamos a inocência

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 19 de janeiro de 2011

O medo da vulnerabilidade torna-nos pequenos e tristes.

Não sei se alguém, entre os que generosamente pousam os olhos nesta página, se dedicou a fazer a lista das causas da tristeza portuguesa que aqui propus, depois de ver o bom povo lusitano descrito como "surpreendentemente tristonho" nas páginas da "The Economist". Somos tristes por humildade: ensinaram-nos a responder "cá se vai andando" e a nunca manifestar muita alegria, para não ofender os outros. É uma ideia avara e arrogante, esta, de quem quer poupar-se a explicações ou suspeita que lhe vão pedir favores. Por outro lado, num país pequeno, o grau de intromissão na vida alheia agiganta-se e as solicitações multiplicam-se - o "cá se vai andando", mais do que uma declaração de desalento, é uma expressão de autodefesa. Defendemo-nos, talvez, demasiado - uma desconfiança incompreensível num país com fronteiras antiquíssimas. Há na atmosfera portuguesa um fatalismo que se prende com o prolongamento de uma cultura de famílias e castas, fortemente hierarquizadas, inamovíveis para lá de todos os progressos tecnológicos. Esse peso da tradição feudal explica o fraco empreendedorismo nacional - ou, melhor dito, os obstáculos violentos aos empreendedores desprotegidos de relações de poder - e a baixa produtividade do país. A má gestão do erário público é outra das causas de tristeza - e pobreza. O fosso entre os salários de topo e os de baixo só não pode dizer-se terceiro-mundista porque os países do dito terceiro mundo estão já a corrigi-lo mais depressa do que nós. Pessoas infelizes, frustradas, enraivecidas com a injustiça das suas condições laborais, produzem pouco e mal.

Entretanto, se começássemos por olhar para as coisas boas do país, talvez conseguíssemos mudar de atitude. A carta de despedida do embaixador de Inglaterra, Alex Ellis, publicada há semanas no Expresso, enumerava as seguintes singularidades positivas de Portugal, por esta ordem: a ligação intergeracional, o lugar central da comida na vida diária, a variedade da paisagem, a tolerância, o café e os cafés, a inocência, um profundo espírito de independência, as mulheres, a curiosidade sobre, e o conhecimento, do mundo, a relativização da importância do dinheiro.

Claro que algumas destas qualidades - a dimensão dos almoços da trabalho, por exemplo, ou o tempo passado nos cafés, já para não falar pela relação solta com o dinheiro - explicam também a dificuldade de nos tornarmos mais activos e competitivos. Mas a grande lição que o ano de 2010 deu ao mundo foi que os jogos do dinheiro e a competição desenfreada tornam-se fatais: são a Al-Qaeda interior do mundo capitalista. O conselho que o embaixador recebeu à sua chegada a Lisboa ("se quiser uma coisa bem feita neste país dê a tarefa a uma mulher"), também não é bom sinal: significa que as portuguesas sentem que têm de se esforçar a dobrar para que o seu trabalho seja reconhecido - e que os homens, contando com isso, descarregam sobre elas as missões impossíveis (e mais mal pagas).

Tocou-me particularmente, nesta lista, a palavra inocência. À primeira vista pode parecer paternalista, como o próprio Alex Ellis admite - até porque o paternalismo é um dos nossos mais velhos fantasmas. Facilmente tomamos um gesto de ternura por invectiva de menoridade - é o excesso de desconfiança e cerimónia em que fomos criados, a inabilidade para a expressão dos afectos que é o nosso problema central, o medo de mostrarmos vulnerabilidade e de sermos apoucados por isso. Nada nos torna tão vulneráveis quanto a inocência - um dom de encantamento, uma espécie de fé no futuro que resiste a todas as dores, desenhando-se como coragem luminosa. O ex-embaixador de Inglaterra encontra a palavra a partir da imagem de uns adolescentes dançando músicas tradicionais em Vila Real. Esta visão padece de uma inocência turística, de um fascínio pelo exótico que turva a comunicação. Mas não se pode negar que, precisamente por ser um país pequeno, convivial, de clima suave, exposto ao mar e ao desconhecido, com um ritmo lento e uma curiosidade inesgotável, Portugal cultiva a inocência. O fado é uma canção radicalmente inocente, extremista, transbordante de sentimentos, a canção que nos ensina a fazer das lágrimas rios que nos levarão para outras paragens. A inocência explica a força e a originalidade da literatura e do cinema que se fazem em Portugal. A inocência é a pedra de toque da beleza comovedora deste rosto da Europa que é o nosso país. Só a inocência salva.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 15 de janeiro de 2011

3

A curva da felicidade

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 12 de janeiro de 2011

Preparem-se, jovens angustiados: dos 50 anos para cima, a curva sobe.

Irresistível, o tema de capa da última edição de 2010 da "The Economist": anunciava "a alegria do envelhecimento (ou porque é que a vida começa aos 46 anos)". A primeira coisa que os espíritos cépticos (como tendemos a ser todos com medo de parecermos burros) pensarão é que o desespero financeiro já chegou a este bastião do jornalismo, que terá entrado pelo terreno dos títulos atiçadores e falsos, disparando ao coração da média dos seus leitores. Ainda assim, deixei-me balear - no bombardeamento de juventude mediática em vigor, agradeço qualquer fogo amigo em prol da meia-idade. Nas duas últimas décadas cresceram as sondagens e os estudos que procuram medir o grau de felicidade. Inicialmente centrados sobretudo em variantes económicas, dedicam-se agora a esmiuçar factores biológicos (como a idade) psicológicos e ambientais. Concluiu-se que a riqueza e a segurança, por si só, não apresentam relação directa com os níveis de felicidade (a não ser em países miseravelmente pobres e sujeitos a guerras). A geografia da felicidade diz-nos, e cito, que "os europeus ocidentais e os norte-americanos se aproximam muito, embora existam algumas anomalias, como os surpreendentemente tristonhos portugueses (the surprinsingly gloomy portuguese)." Surpreendente, a tristeza portuguesa? Woody Allen, quando cá esteve, também achou que sim. Desafio da semana: elencar as razões da tristeza nacional - largando o cotão do nosso umbigo e comparando o país com o resto do mundo, por favor. Pode ser um exercício interessante de início de década.

As respostas à pergunta: "Pensando na sua vida como um todo, como se sente?", são diferentes das que se obtêm quando se especifica "ontem, sentiu-se feliz/ satisfeito/triste/ansioso?" A primeira questão mede o bem-estar global; a segunda, o quotidiano emocional. Verifica-se, por exemplo, que ter filhos dá uma sensação de bem-estar geral, mas também aumenta as hipóteses de que as pessoas se tenham sentido ontem descontentes ou ansiosas. Os filhos são, aliás, uma das razões que explicam que as pessoas comecem a ser mais felizes a partir dos 45 ou 50 anos: está cientificamente provado que o convívio diário com adolescentes (que tende a escassear a partir dessa idade) não contribui para a alegria de viver. Outro factor de felicidade é, segundo os estudos, o casamento - e os segundos ou terceiros casamentos tendem a satisfazer mais do que os primeiros. Interessante é também a relação entre o género e a felicidade: as mulheres confessam-se, de um modo geral, mais felizes do que os homens - mas também se mostram mais vulneráveis à depressão. Menos surpreendente será descobrirmos que os extrovertidos são mais felizes do que os introvertidos, e que as personalidades neuróticas, dotadas de baixos níveis de inteligência emocional (as duas coisas são indissociáveis o que estoira com a ideia feita segundo a qual a personalidade neurótica resulta de um alto grau de inteligência), manifestem um particular talento para a infelicidade.

A boa notícia é que a felicidade desenha uma curva em U: alguns economistas já o tinham descoberto nos anos 90, e a confirmação torna-se agora consistente, cruzando variados trabalhos de investigação. A curva começa a descer aos 18 anos e atinge o seu ponto mais baixo entre os 45 e os 50 anos: aparentemente, dir-se-ia que é o auge das preocupações com a família, a carreira, as finanças. Mas controlando estas variáveis, a curva em U mantém-se - o que significa que o sentimento de infelicidade da meia-idade resulta de mudanças internas e não de circunstâncias exteriores. Os mais velhos discutem menos e encontram melhores soluções para os conflitos. Aceitam melhor as contrariedades, estão mais atentos aos seus sentimentos e esforçam-se por ser felizes no presente, ignorando o médio e o longo prazo - a proximidade da morte tem, afinal, os seus encantos. Por outro lado, a felicidade tem efeitos comprovados na saúde e na produtividade ( ah, os portugueses tristonhos, pois é...). Assim, conclui a "The Economist", é urgente revermos a ideia de que o envelhecimento é um fardo para os países ricos. Os mais velhos são mesmo, como a cultura tribal defendia, os mais sábios. São também, descobrimo-lo agora, os mais activamente habilitados para a felicidade. Sempre gostei do brilho das rugas. O ouro do tempo sobre o azul dos dias é afinal uma evidência estatística. Resta-nos esperar.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 8 de janeiro de 2011

 

Década dois

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 5 de janeiro de 2011

A realidade virtual é uma escola de desresponsabilização.

Os balanços insensibilizam, tornam tudo igual. E falseiam, mostram o que alguém quer que mostrem. Mas nunca se encontra ninguém. Esta foi a década em que a noção de "alguém" se tornou puramente virtual. Como a economia. Como a política. Como as pessoas: números, contados em milhões. Dois milhões de pobres. Milhões crescentes de velhos, definidos como idosos pela imaginação da boçalidade, que se diz politicamente correcta. Se alguém um dia me chamar idosa, a única coisa que posso garantir é que leva um murro nas trombas - mesmo que o murro me mate, porque antes brava morta do que mansa idosa. Milhões e milhões de jovens, fulgurantes, no desemprego, nas capas das revistas, na droga ou nos concursos de talentos da televisão - quem não é jovem não existe. E basta ser-se jovem para existir. Esta foi a década da disseminação nas redes. Da dissimulação e do seu exacto avesso: o escancaramento. A década em que em vez de rostos únicos, insubstituíveis, nos tornámos, facebooks: uma cara para cada estação, nenhuma delas com cheiro a alfazema, mar ou lume - nenhuma delas com lágrimas. Ou rugas, escusado será dizer. A década do Photoshop. No reino do Facebook só existe o sucesso: muita acção, muitas imagens, um mínimo de palavras. Em vez da indigestão dos afectos, a espuma leve dos gostos: o mundo reduzido a listas de objectos, momentos e prazeres. Toda a gente sabe de toda a gente e ninguém sabe - nem quer saber - de ninguém. A realidade virtual é uma escola de duplicidade e desresponsabilização, obviamente fundada nos bons resultados obtidos por variados responsáveis pela "coisa pública". Generalizou-se a impressão de que quanto mais cinzento e/ou medíocre for um candidato a uma administração pública, maiores serão os seus proventos. Esta foi também a década publicitária do sexo e do respeito pelas culturas alternativas, em particular as que não dão qualquer espécie de alternativa às mulheres.

Entramos na década dois do terceiro milénio - o que não quer dizer nada. Contagem decimal. Se tivéssemos quatro dedos em cada mão, estaríamos noutro tempo - mas seríamos os mesmos seres, simultaneamente sôfregos e desapaixonados, infantis e sem inocência, deslumbrados e enfastiados. Capazes do melhor e do pior, ao mesmo tempo - capazes de tudo menos de usar esse dom que nos distingue de todos os restantes animais: o conhecimento da nossa mortalidade, a consciência de que temos uma História. O popular lema "goza o dia!" serve a cães, moscas e jacarés, que não sabem de onde vêm nem para onde vão. Para seres humanos esperar-se-ia uma recomendação como: "Lembra-te e faz-te lembrar." Somos feitos de memória e pó de estrelas. Gastamos muito do nosso tempo a desprezar a mistura faiscante de que somos feitos. Escolhemos esquecer em vez de lembrar, baixar a cabeça para o pó da terra em vez de erguer os olhos para o céu. Esquecemos, sobretudo, de nos olharmos nos olhos, o gesto que nos permite reconhecermo-nos como iguais. Animais moribundos, todos nós - os velhos dos lares "de idosos" como os jovens génios. As mulheres presas em burcas como as top-models. Os que se afadigam a dobrar a espinha ao dinheiro como os que dormem no chão sem comer. Esquecemos que morrer é deixar de ser lembrado e que a memória do cheiro e do toque dura mais do que a do olhar. Esquecemos que as coisas não podem ser possuídas por nós porque durarão muito mais do que nós. Esquecemos a singularidade da pele. Esquecemos que gozar o dia é também recordar a noite de onde ele veio e antecipar a noite para onde ele vai - as crianças sofrem de tédio porque lhes falta ainda o poderoso filme das recordações e a capacidade de concretizar sonhos.

Na década um ficámos parados como garotos a olhar para uma loja de brinquedos. As catedrais do dinheiro desabaram porque se tinham tornado virtuais sem que ninguém desse por isso. As estruturas políticas desmoronaram-se porque estavam escoradas nessa portentosa economia virtual. Gastamos horas e horas de conversa, páginas e páginas de jornais, a futurar desenvolvimentos tecnológicos que nos tornarão ainda mais virtuais e abstractos, mais distantes da vida - essa coisa chata onde se trabalha e se sua e se ama e se escolhe e se cometem erros e se chora e se ri. Essa coisa assustadora que nos impede de morrer de vez, como morrem todos os outros animais.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 30 de dezembro de 2010

 

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Aviso por causa da moral

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 29 de dezembro de 2010

É urgente restaurar a diferença entre verdade e mentira.

A velocidade anestesiante a que vivemos, mergulhados em ondas sucessivas de informação superficial (porque a aprofundada é cara e fere sempre algum interesse político ou económico), está a desmoronar-nos o espírito crítico e autocrítico. A ostensiva secundarização da Filosofia nos currículos escolares é, mais do que um resultado deste mundo de aparências, uma acção voluntária de aniquilamento das faculdades interrogativas e morais dos jovens. O conceito de ética tem vindo progressivamente a arredar e arrastar para o caixote do lixo da História a noção de moral, considerada demasiado hirta e assertiva para os dias de hoje, que se querem flexíveis, maleáveis.

Ora a ética é a organização filosófica da moral, não uma mera compressão da estética, como pretendem dar a entender certas almas trajadas pela moda derradeira.

Sim: existe a moral, como existe a alma, esse estofo da pele onde circulam sonhos, paixões, desejos, frustrações, medos, a rede intrincada dos sentimentos e dos pensamentos. A moral começa pela responsabilização de cada indivíduo pelas suas acções e omissões e pela definição dos limites a que cada um deve submeter-se para não perturbar a esfera de individualidade dos outros: aquela ideia de que a nossa liberdade acaba onde começa a liberdade alheia. Estes são princípios universais, que não podem merecer qualquer espécie de complacência sob pretextos "culturais": o respeito pela integridade do outro é um absoluto não negociável.

Do mesmo modo, e ao contrário do que a profusão de apelos à subjectividade irredutível quer fazer parecer, é possível, desejável e urgente restaurar a diferença entre verdade e mentira. A mentira tem um vasto espectro de manifestações. Segundo o dicionário Houaiss, mentir pode ser: acto ou efeito de mentir; engano, falsidade, fraude; qualquer coisa feita na intenção de enganar ou de transmitir falsa impressão; aquilo que é enganador, que ilude, que se aproxima da verdade ou é real apenas na aparência; ilusão, fábula, ficção. Há uma assinalável diferença de grau, repercussão e efeito entre a mentira e a mentiralha ou mentirola (que o dicionário define como mentira sem importância, inofensiva). O mesmo dicionário descreve a verdade, do ponto de vista filosófico, como: correspondência, adequação ou harmonia passível de ser estabelecida, por meio de um discurso ou pensamento, entre a subjectividade cognitiva do intelecto humano e os factos, eventos e seres da realidade objectiva. Por conseguinte, a ideia amplamente difundida de que tudo é uma questão de opinião ou de que a verdade e a mentira são insusceptíveis de verificação porque dependem da posição relativa dos sujeitos ou das culturas em relação a elas, não passa de mistificação demagógica. Uma versão mental da tenda kadhafiana onde o camarada Hugo Chávez foi enfiar-se para exibir a sua generosidade em relação aos pobrezinhos.

Ao descarregar quantidades industriais e indiscriminadas de informações supostamente "secretas", o site WikiLeaks veio realçar a necessidade de traçar, com rigor, estas distinções essenciais - às quais deve ainda acrescentar-se a definição da ideia de "segredo" nas suas dimensões individual e social, ou de Estado. Onde começa o direito à informação e acaba o direito ao segredo? De que modo se pode defender em simultâneo a liberdade e a segurança? Quando uma mensagem verdadeira, secreta e perigosa é defendida, deve calar-se o mensageiro - mesmo que através de uma bateria de acusações altamente duvidosas, como as que impendem sobre Julian Assange?

Torna-se óbvio, no caso WikiLeaks como em tantos outros casos do nosso dia-a-dia político e pessoal, que a confusão deliberada entre verdade e mentira, factos e falatórios, tem um objectivo claro: impedir as pessoas de pensar. Habituar-nos a considerar que tudo é equivalente, que não vale a pena lutar por nada, que a vida não é mais do que um somatório de momentos (sejam escândalos ou segredos) desgarrados e fatais, pelo que nos resta apenas viver o instante e procurarmos passar entre os pingos da chuva sem grandes incómodos. Esta é a escola da resignação, da apatia e da conivência com a mentira. Esta é a antifilosofia que nos é proposta diariamente: desresponsabilização geral, impotência, desistência. Regressemos ao básico: os actos têm consequências, a liberdade dá trabalho, a mentira entorpece e embacia o brilho e a força da verdade.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia.

Texto publicado na revista Única de 23 de dezembro de 2010

 

Estado de emergência

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 22 de dezembro de 2010

Para que há-de um homem separar-se, se pode ter e fazer tudo?

Devia ser o bê-à-bá da educação, a primeira coisa a ensinar-se a uma criança no jardim infantil: o amor existe. Existe e manifesta-se, antes e depois de tudo, pelo respeito. Respeito pelas ideias do outro, pelo corpo do outro, pela liberdade do outro. O corpo de uma mulher vale tanto como o corpo de um homem. Esta ideia de igualdade efectiva é muito importante, porque a sacralização da mulher através da maternidade tem potenciado a violência sobre as mulheres: as que não são santas serão inevitavelmente galdérias, e basta uma mulher sorrir para o lado para se desequilibrar do pedestal de santidade. Este conceito atravessa praticamente todos os discursos, mesmo os dos pretensamente democráticos e esclarecidos: aqueles que defendem que deve haver mais mulheres na política para elevar o nível ético da sociedade (porque elas seriam mais "sensíveis", "humanas", "dedicadas" ou disparates semelhantes) admitem implicitamente que o "dever-ser" é diferente para homens e mulheres. Os que diziam que Margaret Thatcher era "um homem de saias" ou os que definem carinhosamente as suas filhas como "marias-rapazes" contribuem para a manutenção da violência sobre as mulheres: o paternalismo é o primeiro e o último degrau, infiltra-se na cabeça das pessoas diminuindo-as, classificando-as como agressores ou vítimas. A condescendência com estes princípios, a pretexto de que a mudança das mentalidades é lenta, é a principal responsável pela situação trágica que vivemos em Portugal: só este ano (e até 14 de Dezembro, o dia em que escrevo) foram assassinadas pelos homens a quem tinham entregue o seu amor quarenta mulheres.

Cada uma destas mulheres mortas representa pelo menos quatrocentas outras que ainda não morreram mas são espancadas, humilhadas, vigiadas, aterrorizadas diariamente. Muitas delas não têm ainda sequer vinte anos: segundo dados da UMAR ( União de Mulheres Alternativa e Resposta), revelados numa reportagem da "Visão" de 9 de Dezembro, 28% das raparigas entre os 11 e os 18 anos já sofreram algum tipo de violência. "Se não és minha, não és de mais ninguém", disse o namorado de Stephanie, antes de a matar à facada, em Albufeira. Por que aceitam as raparigas esta prepotência? Porque aprenderam a desvalorizar-se e extasiam-se de espanto quando um rapaz parece fazer delas o centro da sua vida. Porque foram ensinadas a perdoar e qualquer excerto de flor as comove. Porque foram educadas a contentar-se com pouco. Todas as mulheres são educadas assim, o duplo padrão continua com o mesmo vigor de há cem anos. As mulheres que tomam a decisão de se separar ouvem frequentemente aos maridos: "De que te queixas? Eu nunca sequer te bati". Que sejam as mulheres, em mais de 80% dos casos, a tomar a iniciativa do divórcio, diz muito do estado discriminatório em que ainda vivemos: para que há-de um homem separar-se, se pode ter e fazer tudo?

As campanhas de alerta, por mais inteligentes e bem-intencionadas, não resolvem, antes agravam o drama: são como sangue à vista num mar de tubarões. O que resolveria, antes de mais, seria a prevenção: Maria Olívia, de 31 anos e com dois filhos adolescentes, a quadragésima mulher, tinha apresentado três queixas à PSP - três queixas sucessivas - contra o ex-companheiro que a matou com quatro facadas no peito, no início deste mês, quando ela limpava uma cabina telefónica da estação de comboios da Reboleira, onde trabalhava como empregada da limpeza. O pai acompanhava-a diariamente ao trabalho, para a proteger, "porque ela tinha muito medo de morrer", como explicou ao "Correio da Manhã". Tinha boas razões para ter muito medo de morrer: assim não o entendeu a polícia, à qual ela recorreu insistentemente antes de ser morta. Por cada Maria Olívia que é morta depois de ter visto as suas queixas desprezadas, muitas outras desistem de se queixar. Quase todas as mulheres assassinadas tinham apresentado queixa à Justiça - e essa queixa apenas serviu para acelerar a sua morte, porque os agressores, mesmo quando chamados pela polícia, são imediatamente libertados pelos tribunais, com um sortido de ralhetes, bons conselhos e apresentações periódicas. Portugal ensina as mulheres a amar e a sofrer a fundo perdido. E abandona-as, pura e simplesmente, às mãos dos homens que as destroem como brinquedos gastos.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição da Única de 18 de dezembro de 2010

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