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Indemnização ajudou vítima a "não cair mais no buraco"

"Quando recebi esse dinheiro estava numa fase muito, muito má da minha vida. Esse dinheiro ajudou-me a reestruturá-la", diz o ex-capasiano.

16:28 Quarta feira, 30 de setembro de 2009

Bernardo Teixeira, testemunha do processo de pedofilia da Casa Pia, considera que a indemnização que o Estado lhe atribuiu não pagou os abusos que sofreu, mas reconhece que o ajudou "a não cair mais no buraco".

Em entrevista à Lusa a propósito do lançamento do seu livro "Porquê eu?", no qual relata como foi abusado por dois dos arguidos do processo Casa Pia - o "motorista" da instituição e um "famoso da televisão" - Bernardo Teixeira reconheceu que a indemnização que o Estado lhe atribuiu como vítima, no valor de 50 mil euros, o ajudou "numa fase muito má" da vida.

"Quando recebi esse dinheiro estava numa fase muito, muito má da minha vida. Esse dinheiro ajudou-me a reestruturá-la", disse, sublinhando que "nenhum dinheiro paga os abusos" que alegadamente sofreu e que são relatados ao longo das 220 páginas do livro.

Essa "fase má" aconteceu após Bernardo Teixeira ter saído da instituição e apresentar uma queixa por abusos, o que o transformou numa testemunha de um dos processos mais mediáticos de sempre e que está agora na fase final.

Sem querer revelar nomes nem comentar pormenores do processo, este ex-casapiano que um dia quis ser advogado, mas agora está farto do mundo das leis, disse esperar que se faça justiça.

Em relação à Casa Pia, este ex-aluno, interno desde os 11 anos, disse não conseguir culpar a instituição.

"A Casa Pia deu-me aquilo de que eu precisava. Eu vinha de uma família desfavorecida e a Casa Pia deu-me estudos. Dentro das instalações da instituição eu até tinha uma boa vida, era respeitado pelos educadores e até bem acolhido. Se calhar não era o afecto de que as crianças precisam dos pais, mas era o possível" conta.

Sobre a hipótese de as pessoas da instituição desconhecerem os abusos que lá terão acontecido, Bernardo Teixeira afirma: "Não acredito que as
pessoas soubessem". Reconhece, contudo, que "o Caetano [nome fictício do motorista que acusa de o violar] era um funcionário da Casa Pia".

Sobre o relacionamento que manteve com este motorista, Bernardo Teixeira explica como alimentou o segredo: "Nunca comentei com nenhum outro [aluno] o que acontecia, pois inicialmente o Caetano era uma pessoa que me fazia muito bem, que me dava o que os meus pais não davam, apoio, afecto e atenção e eu não queria dividir isso com ninguém".

Em relação aos presentes que recebia do motorista, o ex-casapiano sublinha que estes eram sempre comunicados ao colégio, que os proibia.

Prestes a conhecer o resultado do mega-processo de pedofilia na Casa Pia, Bernardo Teixeira ainda acredita na justiça, embora, como escreveu no livro, lamente que o Estado não julgue "todos os envolvidos".

Sobre estes não fala, nem das repercussões que o seu livro terá, uma vez que facilmente encaminha o leitor na identificação dos dois homens que acusa de violação.

"Para mim não é importante quem o fez, é importante o que fez. Não interessa o nome, a personagem. Interessa o acto e esse acto é que deve ser alertado no sentido de ajudar".

Com este livro, Bernardo Teixeira espera "aceitar o que aconteceu", mas também ajudar os outros, alertando-os que estas coisas acontecem e não só na Casa Pia.

"É um alerta de como estas coisas acontecem e como as crianças dão sinais", concluiu.

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