Incêndios andam a assustar a Pontinha
A Pontinha tem sido perturbada por uma vaga sucessiva de incêndios que não tem dado descanso aos bombeiros. Os moradores queixam-se da falta de limpeza dos terrenos e de interesses económicos, mas, para os bombeiros, estão em causa carências sociais.
Enquanto, nos últimos dois anos só se registou um incêndio na freguesia da Pontinha, concelho de Odivelas, desde o princípio de julho que já se verificaram mais de dez, segundo os moradores locais.
Os incêndios começaram por deflagrar, na primeira quinzena de julho, na freguesia de Famões, também no concelho de Odivelas, onde ocorreram três fogos, mas, a partir de 17 de julho, passaram para a Pontinha.
Na freguesia da Pontinha, cinco incêndios fizeram notícia, mas a população fala em muitos outros, que não foram reportados - "praticamente um por dia", dizem.
Apesar de ser uma zona urbana, a freguesia dividida numa série de bairros tem ainda bastantes espaços verdes a envolverem os edifícios, no entanto, a maior partes dessas zonas estão agora total ou parcialmente em cinzas.
Estado é o maior proprietário
Quatro suspeitos de fogo posto foram detidos no último mês, contudo as responsabilidades vão mais além, nomeadamente, até aos proprietários - o Estado detém cerca de 80% da área -, que têm a obrigação legal de limpar os terrenos e não o fazem.
"Com a extinção do Governo Civil, as habitações foram entregues ao Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana [IHRU] e os terrenos à Direcção-Geral do Tesouro e Finanças [DGTF]. Nem o Governo nem a Câmara de Lisboa procedem à limpeza dos matos", explica Eugénio Marques, substituto legal do presidente da Junta de Freguesia da Pontinha.
Apesar das temperaturas elevadas e dos ventos fortes das últimas semanas serem propícios à ocorrência de incêndios, na Pontinha não se verificavam casos desta magnitude há vários anos.
"A Pontinha é uma zona urbana, onde prevalecem cidadãos de classe baixa e média, com fortes carências económicas e socio-psicológicas. Por intuição e experiência, digo que alguém está a colocar os fogos", disse ao Expresso o comandante dos bombeiros da Pontinha, António Rodrigues.
A grande maioria dos incêndios teve início durante o mesmo período do dia, nas horas de mais calor, ou durante a noite, quando os ventos estavam mais favoráveis, e com três a quatro focos praticamente em simultâneo, o que faz aumentar as suspeitas de fogo posto.
Apesar da situação crítica que se vive na freguesia, os habitantes são unânimes no elogio ao trabalho dos bombeiros e da Junta de Freguesia, que tudo têm feito para ajudar.
"Os bombeiros foram incansáveis, se hoje a minha casa está intacta, deve-se à sua dedicação", dizia uma moradora, claramente emocionada.
Quatro suspeitos foram detidos
O maior dos fogos registados na freguesia da Pontinha, ocorreu no dia 18 de julho. Quatro focos de incêndio assustaram o bairro da Milharda, queimando quatro hectares e meio de mato e pondo várias casas em perigo.
Três homens foram detidos nessa tarde. Dois estão em casa com pulseira electrónica e, em relação ao terceiro, segundo as autoridades, não forão reunidas provas suficientes, contudo, os locais dizem que ele fugiu antes de lhe ser colocada a pulseira.
"São todos jovens [entre os 20 e os 38 anos] aqui da zona. São conhecidos no bairro, vivem aqui perto", relatava uma moradora, que foi obrigada a fugir de helicópetro nesse dia, porque a sua casa estava rodeada pelas chamas.
Mesmo depois das detenções, alguns habitantes dizem ter visto três indivíduos de bicicleta a fugir dos locais que arderam nos dias seguintes, mas os bombeiros, que têm o quartel a poucos metros, nunca viram ninguém.
A 6 de agosto, um outro indivíduo foi detido, tendo resistido às autoridades quando foi identificado, contou o comandante António Rodrigues.
Para o comandante, não existem motivações económicas por trás dos incêndios. "São zonas de antigos aterros, reservas nacionais, zonas agrícolas, ou terrenos do Estado, construir naqueles locais seria inadmissível".
A desintegração social de muitos jovens da zona, sem ocupação ou motivação, pode estar na origem dos fogos. "São miúdos que procuram notoriedade entre o grupo de amigos", continua.
Moradores descrentes apontam interesses económicos
Alguns moradores discordam e acreditam que, daqui a uns anos, as áreas ardidas vão estar ocupadas por prédios.
"Quando se olha para a Pontinha neste momento, o que ainda não tinha prédios, está agora queimado. Não tarda, já não vão restar espaços verdes, vai estar tudo contruído", diz revoltado um morador.
O substituto do presidente da Junta de Freguesia da Pontinha também não acredita em motivações económicas, uma vez que são terrenos do Estado, mas queixa-se da falta de limpeza por parte dos proprietários que "levam a situações como esta".
A Junta de Freguesia já terá investido cinco mil euros em limpeza. "Agora devíamos mandar a fatura ao Governo", diz Eugénio Marques que, em maio deste ano, requereu uma reunião com o IHRU para alertar sobre a necessidade de limpeza dos terrenos que, a falta desta, coloca várias habitações em perigo. Esta reunião nunca se concretizou.
Limpeza dos terrenos cabe aos proprietários
O Expresso contatou o IHRU que remeteu a responsabilidade de qualquer assunto relativo aos terrenos da Pontinha para a DGTF, uma vez que só lhe foram entregues as habitações.
Na DGTF, depois de várias tentativas para obter algum esclarecimento nos mais diversos departamentos para onde fomos remetidos, falámos com Ana Paula Pires, assessora de imprensa da secretaria-geral do Ministério das Finanças, que disse não ter qualquer informação a dar, uma vez que desconhecia quais seriam esses terrenos e que "demoraria muito tempo até conseguir reunir a informação necessária".
Na Pontinha, onde muitos dos moradores não recebem mais do que o ordenado mínimo ou estão desempregados, os terrenos continuam por limpar. Os seus inquilinos, apesar de não ser da sua responsabilidade, dizem não ter dinheiro para o fazer, mesmo que quisessem.
Neste momento, as noites são passadas em branco, consumidas pelo medo de que os incêndios continuem e que, da próxima vez, não poupem as casas, ou mesmo uma vida.


