19 de junho de 2013 às 2:55
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Derby da dívida soberana: BCE 2, Especuladores 1

A crise da dívida soberana bateu forte durante a semana no próprio "centro" da zona euro. Leilões de dívida em Espanha e França dão sinais de alarme. Mas Banco Central Europeu consegue inverter a escalada dos juros na quinta e sexta-feira

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

O ataque especulativo na zona euro subiu de tom esta semana. A crise da dívida soberana passou a "ocupar" também o "centro", e não só a "periferia".

Espanha e Itália com recordes


Os investidores internacionais continuaram a estar de olho na "periferia" da zona euro, na situação na Grécia e Itália, com novos governos de iniciativa presidencial, e em Espanha, com um leilão de dívida no dia 17 de novembro que bateu o recorde em juros em vésperas de eleições legislativas antecipadas (que decorrem amanhã), com a taxa média de remuneração das obrigações espanholas, a 10 anos, a fixar-se em 6,975%, quase no limiar crítico dos 7%.

O spread (diferença) dos juros italianos em relação aos juros alemães, a 10 anos, atingiu um nível, de novo, elevado a 15 de novembro, em 5,29 pontos percentuais (ou 529 pontos base), em valor de fecho, segundo dados da Bloomberg. Para muitos analistas, a barreira dos 500 pontos base no prémio de risco é um ponto de não retorno. A Itália já a tinha galgado na semana anterior, a 9 de novembro, no auge da crise Berlusconi, quando o spread chegou a 5,53 pontos percentuais (553 pontos base) e as yields dos títulos italianos (BTP) atingiram 7,25% no prazo a 10 anos.

O custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida) associados à dívida soberana italiana ascendeu a um recorde de 594,34 pontos base no dia 15 de novembro, com um nível de risco de default de 40,07%, segundo dados da CMA DataVision. Nem mesmo a 9 de novembro, o risco tinha chegado tão alto (fechara em 38,95%). As yields (juros) da dívida italiana a 10 anos fixaram-se, a 15 de novembro, em 7,07%, acima da barreira crítica dos 7%. Nem o recém-indigitado primeiro-ministro Mario Monti parecia entusiasmar os mercados da dívida.

Por outro lado, o spread dos juros espanhóis em relação aos juros alemães, a 10 anos, atingiu o pico a 16 de novembro, em 4,69 pontos percentuais (ou 469 pontos base), em valor de fecho. Na manhã seguinte (quinta-feira, 17 de novembro), após serem conhecidos os resultados do leilão de dívida pelo Tesouro Público espanhol, a probabilidade de incumprimento da dívida espanhola passou para 33,79% e Espanha subiu para o 9º lugar do "clube da bancarrota" (o TOP 10 de países com risco de default mais elevado no mundo).

"Centro" da zona euro sob stresse


Mas o mais grave foi que a crise da dívida soberana chegou ao "centro" da zona euro com toda a força - França (o outro pilar do G2 da zona euro formado pela dupla Alemanha-França), Áustria e Bélgica estiveram na berlinda. A vaga especulativa, aproveitando as fraquezas da zona euro, resolveu "ocupar" o "centro".

De segunda a quinta-feira de manhã, o stresse na dívida soberana destes três países atingiu um clímax, com as yields (juros) dos títulos soberanos e o spread (diferença) em relação aos juros dos títulos alemães (Bunds) a disparar.

O facto mais simbólico deste stresse foi o leilão das OAT (obrigações assimiláveis do Tesouro francês) em Paris, na manhã de 17 de novembro (quinta-feira), que alarmou os analistas - a taxa de remuneração média das OAT a 5 anos fixou-se em 2,82%, acima dos 2,77% negociados no mercado secundário. No dia anterior, o spread dos juros franceses em relação aos juros alemães, a 10 anos, atingiu um pico de 1,90 pontos percentuais, no valor de fecho, o valor mais elevado desde a criação do euro. "Os mercados já não esperam mais pelo sinal das agências de notação. Antecipam-se. A França, com um juro de 2,82% numa das colocações de dívida, começa a ficar em primeiro plano. Os investidores já falam claramente de uma provável degradação da notação do país", diz-nos Fabrice Pelosi, editor financeiro do Yahoo! Finance.

A meio de quinta-feira, a vaga especulativa dominava o jogo. A agência de informação financeira Markit retirava uma consequência do stresse sobre a dívida francesa: o spread observado implicava uma notação "implícita" de A, cinco níveis abaixo do rating de triplo A que, formalmente, a França ainda detém nas classificações das três principais agências mundiais de notação.

Georges Ugeux, um financeiro belga fundador da Galileo Global Advisors sediada em Nova Iorque, veio alertar os seus clientes que os pilares do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) estavam ameaçados - o FEEF vive da notação de triplo A de um conjunto de membros da zona euro, incluindo França e Áustria. Ora, o FEEF é considerado como um dos braços armados da zona euro e da União Europeia para combater a crise da dívida soberana europeia.

BCE reage - bombeiro inverte situação


Mas o Banco Central Europeu (BCE) reagiu claramente na quinta e na sexta-feira, e marcou dois golos, ganhando o derby desta semana. Os traders falam de uma intervenção importante do banco central no mercado secundário, comprando títulos "aflitos" de membros da zona euro ao abrigo do programa SMP (acrónimo em inglês para Securities Markets Programme).

Assistiu-se, então, desde a tarde de quinta-feira, a uma inversão significativa na tendência de subida das yields e dos spreads nos casos de França, Áustria, Bélgica, Itália e Espanha.

As desacelerações mais significativas ocorreram na sexta-feira com os casos da Áustria (cujo spread em relação aos juros alemães baixou de 15%) e da França (cujo spread em relação aos juros alemães baixou de 14%) nos títulos a 10 anos. Na sexta-feira, o spread entre os juros franceses e os alemães a 10 anos desceu para 1,6 pontos percentuais e no caso da Áustria para 1,43 pontos percentuais.

Finalmente, o spread dos juros italianos a 10 anos em relação aos alemães fechou na sexta-feira abaixo do limiar crítico dos 5 pontos percentuais (500 pontos base), em 4,67. E no caso de Espanha em 4,41 pontos percentuais. Espanha desceria, na sexta-feira, um degrau no "clube da bancarrota" regressando ao 10º lugar.

Na batalha no mercado secundário, de registar, ainda, que o BCE conseguiu fazer baixar as yields dos títulos do Tesouro italiano, a 10 anos, do patamar crítico dos 7%; fecharam em 6,64% na sexta-feira. E as yields das obrigações espanholas a 10 anos desceram para 6,38%, depois de terem estado num recorde de 6,49% (valor de fecho) no dia 17 de novembro.

O papel de bombeiro da crise da dívida por parte do BCE é hoje muito polémico. Segundo o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, os governadores do banco central teriam decidido colocar um teto de intervenção semanal no mercado secundário, ao abrigo do SMP, num patamar de €20 mil milhões. Só na próxima semana se saberá o montante da intervenção realizada esta semana por Frankfurt (sede do BCE). Desde setembro, as operações semanais em média têm rondado os €6,5 mil milhões, segundo a Credit Writedowns. O programa SMP está em vigor desde 10 de maio de 2010 e já somava a 11 de novembro um montante acumulado de cerca de €187 mil milhões.

Conhecido esse "teto", os investidores internacionais irão, certamente, testá-lo na sua resistência.

Os golos do BCE somaram-se à passagem do programa do novo primeiro-ministro "técnico" Mario Monti na Câmara de Deputados (por 556 votos a favor e 61 contra) e no Senado (por 281 votos e 1 contra) italianos e à apresentação do orçamento para 2012 pelo novo governo grego chefiado pelo "técnico" Lucas Papademos, que deverá ser votado a 8 de dezembro.

 

 

Comentários 10 Comentar
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Essa vitória do BCE vai durar quanto tempo?
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É uma boa notícia, mas não creio que o resultado se mantenha com vantagem para o BCE.

Porque se os países continuam a necessitar de pedir dinheiro ao exterior, vai chegar um momento que o BCE não tem capacidade para afastar os especuladores.

Nessa altura, estes vão entrar em acção e ai, o castelo de cartas vai ao chão.

O que virá a seguir?
Nem quero imaginar!!!!

O importante era que os países fizessem um esforço para se governarem com o que têm internamente, entretanto poupassem o mais que pudessem, até não precisarem dos especuladores.
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Estou surpreendido!...
... afinal existem especuladores... quem diria?
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Jargão
Esta linguagem cifrada sobre economia deixa mais do que um fora da compreensão do que se passa. Os próprios jornalistas pertencem à tribo, bombardeiam -nos com um série de conceitos , chamam produtos (futuros,derivados,etc) a abstracções, vendem antes de comprar algo que não chega a existir, um frenesim só para modificarem números nas contas bancarias.

Foge-se à questão central, que , na minha opinião é esta:

Com a acumulação de capitais, tanto nas grandes fortunas, como nos fundos vários, há um excesso de oferta de dinheiro a juros baixos.
Isso levou a que Estados e milhões de pessoas se habituassem a absorver esses capitais, vivendo e gastando acima do produzido, sem a preocupação de pagamento, ficando só com o ónus dos juros.

Pensaram e pensaram bem que o capital se não for emprestado, deixa de ser um rendimento para passar a ser um encargo. Assim, quem tem o dinheiro precisa que lhe peçam emprestado.
  Nós pedimos,pagamos baixos juros,não nos preocupamos com o capital e tudo corre no melhor dos mundos.

Só que esta harmonia pode ser alterada: O poder do capital pode enveredar pela especulação, tentando ganhar mais dinheiro, ou, pior ainda, impor condições políticas aos devedores, entretanto atascados até ao pescoço.

Viver de empréstimos é o que dá e só agora, 40 anos depois, os Estados e os cidadãos se estão a aperceber de que, quem deve fica sempre dependente....
Re: Jargão Ver comentário
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