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Silêncio que se vai cantar o fado... de olhos em bico

Vital d'Assunção (www.expresso.pt)
18:19 Domingo, 9 de janeiro de 2011

Em viagem no Japão fui surpreendido por fadistas e guitarristas... todos eles com os olhos em bico. Para nos nos entendermos, inventámos um acordo ortográfico luso-japonês. Ora venham daí saber qual... (Vídeo no fim do texto)

Caros amigos, desde já peço desculpa pela minha ausência mas tenho andado literalmente de olhos em bico numa série de concertos pelo Japão. Agora de regresso a Portugal, é precisamente sobre este país de vastos contrastes que vos conto a próxima história gira que envolve fado, um japonês e uma sopa... de sandálias.

Se há duas coisas em que nós portugueses somos peritos é em comer e brincar um bocado com a língua (salvo seja!). E foi entre estas duas coisas que desenvolvi uma enorme cumplicidade com um japonês fadista, durante a gravação do seu primeiro álbum, intitulado "Fado Sentido". Em plena gravação, num dos intervalos para jantar cheguei sozinho com o Taku ao restaurante e pedi a ementa. Ainda ele não tinha posto os olhos nas opções e  lembrei-me de uma brincadeira habitual entre mim e o engenheiro de som: "Taku, aqui a especialidade é uma sopinha deliciosa: Chama-se sopa de sandálias". Com seu ar educadíssimo mas muito surpreendido, apontou para os pés para as sandálias que trazia: "Sandálias Vital San?". E eu teimei: "Sim é a especialidade da casa. Tipicamente portuguesa". E ele fez o seu típico som: "Ooohhh!".  Sem combinar, o engenheiro de som sentou-se à mesa e perguntou: "E então, vamos á sopinha de sandálias?". Escusado será dizer que o japonês mais curioso ficou.

Quando a terrina da sopa rica do mar chegou à mesa ele não se desmanchou e ficou a ver o que de lá saia sem fazer perguntas. Embora ao comer soubesse perfeitamente que era peixe e marisco, a meio comentou com uma piscadela de olho: "Sopa de sandálias muito bom, muito bom! Oohhh!", e a habitual vénia.

Acordo ortográfico luso-japonês

Esta reacção extremamente pacífica e educada, mas sem nada de parvo, é uma belíssima prova da personalidade japonesa que vim a descobrir no périplo pelo Japão no lançamento do segundo álbum "Fado Inacabado". Por mais "encomendas" que tanto eu como o guitarrista João Chitas fossemos nos nosso comentários e gozos (que depois de muito "saquê" foram muitos... à boa moda portuguesa!) , eles foram os reis da vénia.

Lembro-me de termos insistido que a partir daquela viagem havia um acordo ortográfico luso-japonês e que a palavra obrigado seria transformada em "obrigáto". Podem não acreditar, mas só para nos fazerem sentir bem recebidos, o próprio Taku e restante comitiva adotaram a palavra sem pestanejar e quando demos conta, no fim de um espectáculo para cerca de 400 pessoas tínhamos um plateia em uníssono a bater palmas, fazer vénias e a agradecer com um sorriso: "Obrigáto... Oohhh!". 

Curiosamente, há poucos dias estava a jantar em Lisboa e sou surpreendido com um burburinho na mesa atrás da minha. Quando me viro, vejo dois japoneses que me fazem uma vénia, riem-se muito e brindam-me com um surpreendente: "obrigáto!". Por esta é que eu não esperava...



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Fadista... ou papagaio de discos?

Vital d'Assunção (www.expresso.p)
10:00 Sábado, 25 de setembro de 2010

Como diria o Alfredo Marceneiro: "eles aprendem pelos discos, eu aprendi com os poetas". A história desta semana é sobre isso,  os fadistas papagaios. (Vídeos no fim do texto)

A fadista Berta Cardoso
A fadista Berta Cardoso

Não me lembro quando assisti a esta troca de galhardetes entre a Berta Cardoso e uma miúda nova no fado (cujo nome confesso que nem sequer me lembro porque ela desapareceu pouco tempo depois), mas nunca mais me esqueci da ironia da Berta.

Para quem não sabe, a Berta Cardoso era uma enfermeira parteira que tinha o ciclo preparatório. Naquela época ter a 4º classe já era bom, ter o ciclo era fabuloso. Ao mesmo tempo conciliava uma saudosa carreira de muitos anos no fado, quando a Amália nem sequer sonhava cantar.

Talvez por isso tenha ficado chocado quando vi o retrato da Berta Cardoso elaborado pelo senhor La Feria no musical Amália. Tanto o dela como do Alberto Ribeiro deixaram-me de queixo caído de tão incorretos que foram. A Amália é a Amália, está fora de questão. Mas em função dela não há necessidade de rebaixar outras grandes personalidades.... Mas isso é outra conversa que fica para outro dia.

Papagaios de discos

Voltando à Berta, que uma mulher com muito bom humor: uma encontrei-a na "Viela", na altura a minha paragem obrigatória ao fim da noite antes de ir dormir. Na altura andava a tal rapariga nova a cantar por lá. Até cantava muito bem, mas era um bocado papagaia: aprendia pelos discos e fazia reproduções fiéis quando cantava, inclusive dos erros.

Havia o fado "Que Deus me Perdoa, que em certa parte diz "cantando dou brado e nada me dói". Mas a Amália comia um bocadinho as palavras e percebia-se "cantando dobrado e nada me dói". Claro que a menina dizia o mesmo erro, dando-lhe até alguma acentuação.

No final da noite a Berta decidiu chamá-la à atenção mas levou como resposta: "É assim que a dona Amália canta, portanto está bem!". Passados dois dias, Berta Cardoso voltou a chamar a menina á parte para corrigi-la no mesmo verso e ela voltou a mostrar a postura arrogante de papagaia de discos: "Fui para casa ouvir e no disco é assim que ela canta!"

Lembro-me de não conseguir conter o riso quando a Berta, que não tinha papas na língua, se saiu com a seguinte pérola: "Ai é? Então olhe menina, ele estendido e rijo já é difícil, quanto mais dobrado e mole... tenha juízo e pense por si mesma!".


Clique para visitar o site oficial da fadista Berta Cardoso

Relembre Berta Cardoso a cantar o Fado Antigo


Relembre Amália Rodrigues a cantar o fado Que Deus me Perdoe


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O dia em que Hermínia Silva levou um apalpão em palco

Vital d'Assunção (www.expresso.p)
11:00 Sábado, 18 de setembro de 2010

mulheres muito bonitas no fado. E há homens que têm dificuldade em controlar a atração que sentem. A história desta semana é sobre isso. (Ver vídeo no fim do texto)

Hermínia Silva foi uma das caras mais famosas do antigo cinema português
Hermínia Silva foi uma das caras mais famosas do antigo cinema português

Há atrações literalmente fatais e que podem terminar numa grande confusão. Que o digam a fadista Hermínia Silva , o forcado e o estivador... ora venham daí saber porquê.

Anos 60, restaurante "Solar da Hermínia". Tal como o nome indica, esta casa de fados pertencia à saudosa Hermínia Silva (que em relação ao povo deve ter sido mais acarinhada do que a própria Amália), essa grande fadista popular, do cinema, da revista... enfim, se isto fosse medicina ela teria sido uma fabulosa médica de clínica geral. Percebia de tudo.

Numa noite ela ficou sem guitarrista e não conseguia encontrar ninguém que estivesse livre. Como último recurso, lembrou-se de um tipo que era o "Joaquim Alemão", um estivador que tocava só aos fins de semana. Era o género de guitarrista do desenrasque.

A Hermínia tinha por mania ensaiar o reportório com os guitarristas novos na cave e nesse dia cumpriu a tradição. O Joaquim tinha uma adoração secreta por ela e quando a viu já toda meio produzida engoliu em seco e manteve a calma enquanto ensaiava. Para que não restem dúvidas: A Hermínia era um verdadeiro mulherão, muito vistosa.

Com o vestido justinho, parecia uma viola...

No início da noite começaram os fados e ela era a última a cantar. Quando apareceu com um vestido justinho... parecia uma viola, com as curvas todas acentuadas. Pôs-se à frente do "Alemão", virada para o público, pronta para cantar. Ele começou a tocar, enquanto olhava insistentemente para o rabo dela. Ao fim de uns acordes não resistiu, deu-lhe um palmadão no rabo e disse: "Ah fazenda!".

O marido da Hermínia, que era o Guerreiro, forcado em Benavente, não foi de modas: Saltou da mesa e atirou-se ao guitarrista. A noite de fados acabou por ali, com um verdadeiro duelo entre um forcado e um estivador. Escusado será dizer que o Joaquim teve de meter a viola no saco e sair dali mal conseguiu.


Relembre Hermínia Silva a cantar O Fado da Sina


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O dia em que Jorge Fernando levou uma reprimenda do professor

Vital d'Assunção (www.expresso.pt)
18:15 Domingo, 5 de setembro de 2010

Quem é mais importante: o fadista ou o guitarrista? Quando era guitarrista da Amália Rodrigues, o agora fadista, instrumentista, produtor e compositor Jorge Fernando ficou a saber a resposta. (Vídeo no fim do texto)

Jorge Fernando, fadista, instrumentista, compositor, produtor
Jorge Fernando, fadista, instrumentista, compositor, produtor

Não devemos menosprezar a nossa função de guitarristas em prol de quem canta. A história que hoje vos conto é precisamente sobre isso. Não foi comigo, mas serviu-me de lição há mais de duas décadas.

Restaurante "A Tipóia", princípio dos anos 80. Eu, o Martinho d'Assunção e o grande mestre da guitarra portuguesa, Francisco Carvalhinho , éramos os músicos residentes daquela casa de fados, que há bem pouco tempo fechou portas. Nessa noite eu tinha tido um espetáculo fora e quando cheguei para a habitual tertúlia de fim de noite fui surpreendido com uma grandiosa noite fados a decorrer.

Na "Tipóia" estavam diversas caras conhecidas, entre elas o Nuno de Aguiar que levara consigo o então viola da Amália , Jorge Fernando (que além de um belíssimo compositor sempre foi um homem simpático e com jogo de cintura para entrar em novos projetos. Agora, acho que está a fazer tanta coisa em tão pouco tempo que começa a repetir-se um bocadinho... mas isto é só a minha opinião).

Entre copos e guitarradas, foram dizer ao meu avô que o Jorge gostava de cantar qualquer coisa, mas queria acompanhar-se a si mesmo. Ora bem, o "professor Martinho" (como quase toda a gente lhe chamava) não gostava de emprestar a viola a ninguém, nem sequer a mim que era neto dele. Quando eu em casa mexia na viola sem ele saber, mal ele agarrava nela dava-me logo um sermão. Tinha uma tal sensibilidade que sentia o suor e a pressão nas cordas se alguém tocasse.

Quando lhe pediram se podia emprestar a viola ao Jorge, ele disse que não, sem sequer explicar porquê. Era um homem de poucas palavras. Lembro-me que ficou toda a agente em broa e foram buscar outra ao "Café Luso", que era mesmo ao pé.

"É mesmo assim que você quer ser lembrado?"

Antes de começar a cantar, o Jorge fez um mini discurso, frisando por mais do que uma vez que era o guitarrista da Amália, que não era um artista qualquer, que não percebia por que é que não lhe emprestavam a guitarra. Depois cantou, e encantou (eu estava lá e ouvi, posso confirmar).

No fim da atuação, com a sua calma e descrição habituais, o "professor Martinho" chamou o Jorge à parte e disse-lhe: Ó Jorge, você até tem muito valor, mas escusa de dizer tantas vezes que é o viola da Amália. Ela tem alguma escola de guitarristas, é? Ela ensina alguém a tocar? Deixo-lhe conselho de quem já anda cá há uns bons anos e talvez um dia você me vá perceber: Quando quiser falar sobre si próprio diga que é o Jorge Fernando, senão nunca será mais do que apenas o viola da Amália. É isso que quer?".

Lembro-me de ter ouvido esta conversa e de ter ficado em silêncio. Totalmente desarmado, o Jorge também ficou. Não sei se ele ainda se lembra deste episódio (que se passou há mais de vinte anos, quando éramos ainda uns miúdos), mas são momentos destes que nos fazem crescer enquanto artistas e aprender que nunca devemos diminuir o nosso mérito de instrumentistas.


Oiça o tema inédito Ai Vida, editado em 2009, cantado em dueto por Jorge Fernando e Amália Rodrigues


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E se o fado e o striptease se misturassem em palco?

Vital d'Assunção (www.expresso.pt)
10:04 Domingo, 29 de agosto de 2010

Nunca niguém se lembraria de misturar fado e striptease em cima do palco. O que vos posso dizer é que isso já aconteceu, com a fadista Beatriz da Conceição. (Vídeo no fim do texto)

Beatriz da Conceição surgiu no panorama do fado no final dos anos 50
Beatriz da Conceição surgiu no panorama do fado no final dos anos 50

Striptease e fado não são propriamente dois tipos de espetáculos compatíveis. A Beatriz da Conceição que, além de ser uma fadista com uma capacidade estrondosa para dar o seu estilo próprio às melodias mais tradicionais é também uma mulher cheia de frontalidade, bem o pode dizer. Ora venham daí saber porquê.

1974. Eu, o guitarrista Arménio de Melo e a fadista Beatriz da Conceição estávamos a atuar na "Taverna do Embuçado", quando o empresário Sérgio de Azevedo - que era um homem ousado para  época - nos fez um convite: Durante quinze dias, teríamos um show de fado na sua recém-aberta casa de espetáculos, ali para os lados do Campo Grande, de nome "Frou-Frou".

Aceitámos o convite e lá fomos. Para os anos 70, o "Frou-Frou" era uma casa modernaça, com um palco elevatório e espetáculos para todos os gostos. Antes do fado, havia, nada mais, nada menos, do que striptease. Lembro-me de a artista austríaca entrar em palco através de uma língua gigante, que pendia numa boca que fazia parte do cenário. Do outro lado do palco havia um pénis com dois metros de altura, que servia de varão para a dança sensual.

Quando o strip acabava, as luzes eram desligadas, o aderecista retirava a boca e o pénis, e colocava as nossas duas cadeiras. Nós entrávamos no palco às apalpadelas para dar início à sessão da fado, que começava com as cortinas a abrir e a Beatriz a entrar a cantar.

"Que grande besugo!"

Ao fim de uma semana de espetáculos, era o dia de folga do aderecista e veio outra pessoa substituí-lo. Ninguém nos avisou, portanto fizemos o percurso habitual: findo o strip, entrámos no palco às escuras e sentámo-nos nas nossas cadeirinhas. Lembro-me de nessa noite o tema de abertura ser o "Canoa". Começámos a dedilhar os primeiros acordes, a cortina começou a abrir, acenderam-se as luzes e a Beatriz entrou em palco enfrentando um público que tentava conter o riso. Do lado direito do palco, lá estava ele: O pénis de dois metros.

Beatriz, que é conhecida pela sua veia portista, não conseguiu conter-se. Parou de cantar e, perante um público incrédulo, disse a seguinte frase: "Ena pá. Que granda besugo! A mim nunca me calhou uma coisa assim!"

A gargalhada foi geral e escusado será dizer que nessa noite foi pouco o silencio que se fez no "Frou-Frou" para se ouvir cantar o fado. O bom-humor, as larachas e as gargalhadas levaram a melhor.


Recorde aqui Beatriz da Conceição a cantar o tema Meu Corpo


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Pedro Moutinho e os problemas de circulação sanguínea

Vital d'Assunção (www.expresso.p)
20:08 Domingo, 22 de agosto de 2010

Haverá alguma forma simpática e discreta de dizer a alguém que não tem mesmo jeitinho nenhum para cantar fado? O Pedro Moutinho explica-vos como fazê-lo. (Com Vídeo)

Histórias giras do fado - Pedro Moutinho e os problemas de circulação sanguínea

O fado amador está na moda. Mas se antigamente quem recorria às velhas tascas para tentar o seu golpe de sorte ia com a lição bem sabida, hoje em dia há quem o faça apenas por brincadeira, sem pensar que para os músicos (e quem está a ouvir) aqueles minutos podem ser um verdadeiro suplício. Mas como lhes dizer de forma simpática que são péssimos a cantar? A história de hoje fala sobre isto, após uma dissertação com o fadista Pedro Moutinho , numa noite tardia de fados como tantas outras.

Bairro Alto. À porta da mítica antiga "Toca" do Carlos Ramos (na Rua Diário de Notícias), juntei-me à conversa com o Pedro Moutinho e o Mário Gameiro - que, para quem não sabe, é filho de Alcídia Rodrigues, que nos tempos idos era uma das poucas compositoras existentes no fado, celebrizada pela "Fado do Embuçado". Nessa noite de Inverno o tema era a quantidade de gente que entope os sítios onde se pode cantar fado amador. Todos concordamos num aspeto: É bom que se dê oportunidade. Que todos possam tentar. Agora o que falta é a frontalidade que se tinha antigamente, para dizer: "Desculpe lá, você pode ser um bom ouvinte de fado, mas para cantar não tem jeito nenhum!". 

Uma questão de circulação sanguínea 

Pedro Moutinho que, embora tenha só 34 anos, já canta há mais de 20, costuma andar por essas casas quando termina a sua atuação no "Café Luso ". Discreto mas bem-humorado (bem ao estilo marialva), o mais novo fadista da dinastia Moutinho (ao todo os irmãos Moutinho são três: Pedro, Hélder e Camané ) vai observando as novas vozes e revelou-me qual o seu truque para, de forma delicada, dizer que alguém não tem queda para o fado. 

"Muito simples, Vital", explicou-me o Pedro. "Ele acaba de cantar, convencido que canta bem. Nós, com toda a calma e boa educação só temos de dizer: Você até tem presença, ar de fadista, vê-se que o fado corre-lhe nas veias... Mas atenção. Acho que na realidade você tem um problema de circulação sanguínea".

Caso para dizer: Para bom entendedor, meia palavra basta... Esperemos que o pessoal com os ditos "problemas de circulação" a perceba.

Pedro Moutinho com o tema Um Copo de Sol



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Guitarrista de doze anos encanta o Teatro Luísa Tody

Vital d'Assunção (www.expresso.pt)
9:19 Domingo, 8 de agosto de 2010

Martinho d'Assunção esteve para a viola como Carlos Paredes esteve para guitarra portuguesa. Leia aqui a história da sua estreia ao público, com apenas doze anos. (Com vídeo)

Martinho d'Assunção, mestre da viola e da composição musical
Martinho d'Assunção, mestre da viola e da composição musical

Já vos falei aqui sobre fadistas, um guitarrista e um poeta. Chegou a agora a vez de relembrar um viola. Sendo ele uma das minhas maiores referências de sempre na música, desta vez relembro Martinho d'Assunção , que esteve para a viola como Carlos Paredes esteve para guitarra portuguesa. E porque os dons dos grandes génios nascem com eles, a história que hoje vos conto fala precisamente da infância daquele que foi o meu avô... e mestre.

Anos 20. Martinho d'Assunção tinha doze anos e estava a ter aulas de guitarra clássica desde os onze com o espanhol Agustín Rebel Fernandez. Nessa altura dava os primeiros passos no fado com João da Mata Gonçalves, que acompanhava à viola o famoso fadista Armando Augusto Freire, mais conhecido por Armandinho .

Um dia, Armandinho ia dar um espetáculo no Teatro Luísa Tody, em Setúbal, e João da Mata Gonçalves adoeceu. Como solução de última hora, o guitarrista lembrou-se do seu brilhante aluno e propôs a Martinho de Assunção pai (mais conhecido por "poeta vermelho") que o seu filho se estreasse em público. Á partida, a ideia assustou o pequeno Martinho que acabou por aceitar o desafio com a serenidade e humildade que caracterizou os seus mais de 60 anos de carreira.

Armandinho incrédulo, público rendido

Uma rara foto onde se vê Martinho d'Assunção aos doze anos
Uma rara foto onde se vê Martinho d'Assunção aos doze anos
O encontro com Armandinho era numa esplanada da Avenida Luisa Tody. Os dois Martinhos, pai e filho, chegaram lado a lado, perante o olhar incrédulo do fadista que não queria acreditar no substituto enviado pelo seu músico: "O quê, este miúdo de calçõezinhos é que vai tocar? Parem lá com as brincadeiras e tragam mas é o guitarrista que estou a ficar nervoso com as horas", disse Armandinho.

O fadista só teve a certeza de que não estava a ser alvo de uma partida quando ao palco subiu mesmo Martinho d'Assunção, de calções e meias brancas por dentro de uns aprumados sapatos de verniz. Perante um público incrédulo, aquele que viria a transformar-se no grande mestre da viola e da composição (não só do fado, mas também da ópera... mas essa é outra história que um dia vos contarei), fez a sua estreia.

A meio do espetáculo, Martinho d'Assunção, com apenas doze anos, tocou dois solos. Resultado: o teatro Luísa Tody ia vindo abaixo com os aplausos de uma enorme plateia que se pôs de pé para aclamar o menino guitarrista. Estava assim lançada a carreira do génio.


Relembre o professor Martinho d Assunção

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O dia em que Ary dos Santos ficou nu na varanda

Vital d'Assunção (www.expresso.pt)
9:28 Domingo, 1 de agosto de 2010

Que Ary era um grande poeta todos sabem. Que escreveu sucessos do fado, como "Um Homem na Cidade", também. Mas que era capaz de ficar nu à janela nem todos saberão... (Com vídeos)

Histórias giras do fado - O dia em que Ary dos Santos ficou nu na varanda

Criativo. Revolucionário. Espontâneo. Assim era Ary dos Santos e a história que esta semana vos vou contar, relata precisamente estas características daquele que tanta gente encantou com os poemas que escreveu para músicas que venceram o Festival da Canção, mas também para o fado.

Fim dos anos 60. Ary dos Santos estava a trabalhar em quatro poemas que tinham sido musicados pelo professor Martinho d'Assunção para um disco da fadista Maria da Fé . Como era hábito na altura, o poeta juntou-se com outros artistas para trocar impressões. De seguida haveria uma concorrida jantarada e o ponto de encontro era num apartamento da zona da Estefânia, em Lisboa.

Durante a tarde foram chegando fadistas, músicos, atores, todos - tal como Ary - assumidamente do Partido Comunista. As movimentações levaram os "bufos" da época a alertarem a PIDE para uma possível reunião de célula. Pouco tempo depois, a porta foi aberta de rompante e pela casa entram os temidos agentes.

"Socorro! Estas pides querem-me violar!"

Calhou Ary dos Santos estar perto da janela e esquivou-se para a varanda, onde acabou por ficar isolado a assistir ao desenrolar da situação. Em vez de se esconder e ficar quieto, o poeta achou que devia dar a conhecer ao povo que passava na rua mais uma detenção sem motivo. E foi aí que teve uma ideia repentina, tal como quase todas as ideias daquele que era não só um poeta, mas também um dos grandes criativos publicitários da época: pôr-se nu!

Com o cabelo a cair-lhe na testa, Ary dos Santos tirou a roupa e gritou com a sua voz grossa: "Socorro! Querem-me violar!!". Os agentes deram conta da sua presença e tentaram agarrá-lo. Ary, que era um homem de grandes dimensões, ripostou com murros e pontapés e ainda gritou mais: "Socorro! Estas agentes da pide querem-me violar! Larguem-me, suas pegas da pide!"

Escusado será dizer que não houve jantar. Acabaram todos presos. Não era a primeira vez e estou certo que não foi a última... Mais do que poeta, Ary era, essencialmente, um grande homem de força.

 

Poeta castrado não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não! 

 


Lembre Ary dos Santos a recitar o Retrato de Amália


Lembre o tema Homem na Cidade, com letra de Ary dos Santos

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O dia em que Marceneiro mostrou o mau feitio aos clientes

Vital d'Assunção (www.expresso.pt)
18:43 Domingo, 25 de julho de 2010

Havia quem estivesse disposto a pagar (e bem) para que o "tio Alfredo" cantasse um fado. Mas nem mesmo essas pessoas se livravam do irreverente mau feitio do fadista...

Cigarro, lenço ao pescoço e boné era a imagem de marca de Marceneiro
Cigarro, lenço ao pescoço e boné era a imagem de marca de Marceneiro

Olhando para mais de quarenta anos de vida no fado, posso dizer que a figura mais engraçada que conheci foi, sem dúvida, Alfredo Marceneiro. A sua irreverência e falta de travão na língua faziam com que muita gente não lhe achasse piada. Já eu, deliciava-me com aquele mau feitio. E é precisamente sobre isso que fala a história desta semana...

Marceneiro, que para quem não sabe era também compositor, tinha como regra não ser efetivo em nenhuma casa de fados. Porquê? Porque amado ou odiado, o público queria ouvi-lo e havia sempre quem estivesse disposto a pagar-lhe (e bem) para cantar. Naquela época, eram muitos os ditos "clientes melgas" que gostavam de se salientar perante os amigos ao mostrarem que se davam com as estrelas do fado. Marceneiro era, obviamente, um dos nomes mais desejados pelos "melgas".

"Esteja quieto que me está a aleijar!"

Lembro-me de estar a tocar na Adega Machado, em 1976, numa noite em que o "tio Alfredo" andava por lá: Lenço ao pescoço, boné, bota bicuda, cabelo bem penteado (aparência que lhe rendeu a alcunha "Alfredo Lulu"). Entrou um grupo grande e foi fácil detetar o "melga" da noite, que - com o dobro do tamanho de Marceneiro - abriu-lhe os braços e tentou abraça-lo como se fossem amigos de longa data. Mesmo sabendo que era dali que viria o dinheiro da noite, sabem qual foi a resposta de Marceneiro? Ora aqui vai:

Marceneiro: Esteja quieto que me está a aleijar. O que você quer é salientar-se à conta dos artistas. Tire as mãozinhas de cima de mim faz favor!

Melga: Ó tio Alfredo, então não me está a reconhecer? Você andou comigo ao colo.

Marceneiro: Andei com você ao colo? Eu nem com os meus filhos andei ao colo, quanto mais com você que tem o tamanho de um armário!

A gargalhada foi geral. E o que é certo, é que mesmo levando com o mau feitio do "tio Alfredo", o "melga" acabou por fazer as honras da noite e pagar-lhe dois contos para ele cantar... 


Relembre aqui uma entrevista a Alfredo Marceneiro


Relembre aqui o fado Casa da Mariquinhas

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O dia em que Amália Rodrigues ia sendo presa

Vital d'Assunção (www.expresso.pt)
10:41 Sábado, 17 de julho de 2010

Que Amália era glamourosa todos sabemos. Mas que tinha também um lado bem espontâneo e popular que quase a levou à prisão, já nem todos fazem ideia. Ora venham daí saber como tudo aconteceu... (Com vídeo)

Amália Rodrigues tinha o dom de arrastar multidões
Amália Rodrigues tinha o dom de arrastar multidões

Finais dos anos 60, na "Adega Machado" (casa de fado de renome mundial que infelizmente fechou portas em 2009). Todas as noites, ao fim de fado e folclore, o espectáculo fechava sempre com a "Marcha do Machado", uma brincadeira que levava à escolha de pessoas do público para interagirem numa mini marcha popular com os artistas da casa.

Numa noite em que Amália Rodrigues jantava na "Adega Machado", um dos bailarinos escolheu-a e a diva do fado encabeçou a marcha, sorridente, com arco e balão na mão.  Espontânea, como sempre, sem avisar resolveu sair do restaurante, levando a trás bailarinos, clientes, fadistas, guitarristas e empregados de mesa que decidiram alinhar na brincadeira. O inédito aconteceu: a "Marcha do Machado", acabou por seguir Bairro Alto fora, com Amália à frente e uma legião de muitos desconhecidos a acompanhar.

"Estão todos presos!"

Num cruzamento da Rua da Atalaia com a Travessa da Queimada, dois "polícias de giro" (na altura, nome que se dava aos agentes de bairro) interceptaram a marcha. Sob a velha máxima pré-25 de Abril, declararam: "Mais do que duas pessoas é um ajuntamento... ou uma manifestação comunista. Está tudo preso!".

A marcha parou, o silêncio deu lugar à euforia anterior. Entre olhares temerosos, todos se preparavam para passar uma noite na esquadra quando surgiu, por acaso, o chefe da esquadra da Mercês, celebrizado com a alcunha de "o bailarino" (segundo consta que tinha boa esquiva e usava passos de bailarino nas suas intervenções). Ao ver o grupo, ouviu a explicação dos seus agentes e concordou com a detenção... até que viu quem encabeçava a brincadeira.

Chefe: Mas é a dona Amália Rodrigues numa manifestação?
Amália: Sou, sim senhor. Mas isto não é uma manifestação, é só a "Marcha da Adega Machado".
Chefe: Bem, se é a dona Amália que vai à frente, então siga a marcha!

Quebrou-se o silêncio, voltou-se a cantar e a marcha seguiu até à "Adega Machado" com três novos marchantes (embevecidos pela rainha das fadistas): os três temidos polícias. Sem sequer cantar o fado, com o seu dom de arrastar multidões, Amália acabou por ser, como sempre, a estrela da noite.

Ora venha daí ver o vídeo abaixo e relembrar Amália Rodrigues com a saudosa "Cheira a Lisboa":


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