6 de março de 2015
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Saudades do Império

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Chamemos-lhe Mark. É o meu Tom Cruise pessoal e intransmissível. Quando nos conhecemos, ainda pilotava os helicópteros colossais que saem das entranhas metálicas dos porta-helicópteros, mas já estava a pensar em encerrar os dias de aventura. O curso alemão que estava a tirar ao lado de civis como eu já era um prelúdio da fase tranquila da carreira. Natural da Carolina do Sul, Mark encantava com o sotaque sulista e era tudo menos um hillbilly. Aliás, ficava incomodado com o típico isolacionismo dos compatriotas. Contava-me que, quando os porta-helicópteros ou porta-aviões aportam numa qualquer cidade do mundo, a maioria do pessoal não saía do navio. Os marinheiros ficavam a curtir a vida americana naquelas cidades flutuantes em vez de saírem para conhecer Lisboa ou Singapura. "Nem precisam de sair para terem sexo", dizia desalentado. 

 

 

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Morrer em Debaltseve

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Chamemos-lhe Nataliya. Conheci-a há uns anos num albergue internacional algures na Mitteleuropa. Era diplomata em início de carreira do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, mas, tendo em conta a sua falta de tato, duvido que se tenha mantido nos corredores das chancelarias. Nataliya não tinha aquela beleza gélida e geométrica das eslavas. Tinha curvas, traços e até os gestos delicados da latina. A típica mulher eslava tem aquele ar de ex-veterana de guerra, parece que nos vai partir o braço com golpes de karaté à KGB. Nataliya não era assim, tinha a mais afrodisíaca das curvas: um rosto vulnerável, frágil, a pedir colo. Esta vulnerabilidade estendia-se aos seus anseios políticos. Ela queria ser ocidental.  

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Traídos pela pátria

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Caro Robert Sherman, embaixador dos EUA em Portugal, venho por este meio contar-lhe uma história. Louis de Sousa nasceu há 54 anos num arquipélago dos Açores que não devia ser muito diferente do arquipélago que Mark Twain visitou em 1867: as ilhas eram o fim do mundo, a godforsaken place. Para fugir à miséria, a família de Louis emigrou para New Bedford (Massachusetts) quando ele ainda usava cueiros. A partir desse momento, a sua vida passou a ser um filme americano, um cruzamento entre "Rocky" e "Rambo": cresceu num clube de boxe e ficou à beira de ser boxeur; entrou no exército, serviu seis ou sete anos e até fez a tatuagem militar no braço, a águia da land of the free and home of the brave; saiu da tropa e começou a trabalhar como camionista, percorreu os 50 Estados da união, casou, teve dois filhos, já tem netos; no meio deste processo, Louis cometeu o erro clássico do thriller: pisou a lei, foi preso, cumpriu pena. Mas, quando julgava que já tinha saldado a dívida à sociedade, o Governo americano repatriou-o em 2010 para os Açores devido às leis pós-11 de Setembro.   

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Auschwitz fingido

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Entrei no campo de Auschwitz inserido num grupo de europeus e asiáticos. Como seria de esperar, a experiência foi chocante, mas foi ainda mais chocante escutar as conversas que me rodeavam. Por ignorância ou calculismo, os meus colegas europeus associavam o antissemitismo apenas à Alemanha. Em maior ou menor dimensão, quase todos os povos europeus colaboraram com o Holocausto.

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O astronauta

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Se Portugal tivesse NASA, o dr. Proença de Carvalho arranjaria maneira de ser astronauta. Estamos perante um homem com o dom da omnipresença divina, um milagreiro que multiplica cargos como nosso senhor multiplica pães e rosas. Além de advogado-mor de poderosos em apuros e de motoristas distraídos, o dr. Proença é figura de proa em quase trinta empresas (Cimpor, Galp, etc.). Sim, esta acumulação de poder não é crime. Aliás, aprecio o valor do trabalho e admiro quem conquista poder dentro das regras. O problema está na acumulação de cargos inconciliáveis. 

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A faca relativista

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Chamemos-lhe Solita. É uma menina guineense que vive numa torre decrépita de Alfornelos ou Santo António dos Cavaleiros. Quando chega à idade, Solita é levada pela própria mãe a um dos apartamentos da torre. Lá dentro, o cheiro a mofo mistura-se com o odor a sangue seco; no balcão da cozinha, a curandeira afia a faca de trabalho que, daqui a segundos, cortará os lábios vaginais e o clitóris daquela criança. 

 

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E se eu fosse francês?

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Em conversa, costumo ouvir o seguinte: "ó Henrique, V. é muito corajoso! Que nunca lhe doam os dedos!" Logo ali mando calar os meus interlocutores para lhes dizer uma coisa: "Felizmente vivo num país onde não é preciso coragem física para escrever. Ameaças em e-mails e caixas de comentários não contam. O meu preço não está na coragem mas na carteira, isto é, sei que nunca irei ter cátedras ou prémios. Mas isso é pouco importante. Coragem tem o bloguer egípcio que conheci há anos em Cracóvia. Ele, sim, é corajoso, pode ir parar à masmorra. 

 

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O senhor bem educado

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O gajo de 1979 acorda, toma banho, lê jornais em papel e ouve música que comprou: é mesmo um disco analógico que se coloca numa geringonça chamada aparelhagem; não é um ficheiro roubado na internet. O gajo de 79 é, portanto, um dinossauro. De seguida, vai tomar a bica no senhor Joaquim e consegue ler os jornais do café. No passado, o "Correio da Manhã", "A Bola" e o "Record" tinham fila de espera, era preciso conhecer as artes da 'fuçanga' para passar à frente. Agora não.  

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A recusa da cruz

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É confrangedor comparar as séries e livros infantis dos anos 80 com as séries e filmes dos anos 2010. Quando é que passámos a assumir que as crianças são idiotas? Para compreenderem o que estou a dizer, só têm de comparar qualquer série dos incontáveis canais de desenhos animados da TV Cabo com "Era Uma Vez no Espaço", uma das séries da minha geração. Apostando na aventura espacial, o seu autor (Albert Barillé) colocava questões profundas à pequenada: o que é a morte? O que é Deus? O que é o inimigo? O que é a democracia? Além da profundidade da substância, convém ainda destacar as diferenças na forma, que são ainda mais decisivas. Os desenhos animados de hoje têm um ritmo frenético; um plano não sobrevive mais do que três segundos; os miúdos não são treinados para pensar, mas sim para sentir. Ao invés, o ritmo de "Era uma Vez no Espaço" é lento. Aliás, para os padrões de 2014, esta série infantil de 1982 é lenta e silenciosa até para os adultos. Não, não estou a brincar: a profundidade e a secura narrativa de "Era uma Vez no Espaço" são estranhas para os adultos de 2014. O ritmo dos "CSI" é mais primitivo e pueril do que o ritmo pensado por Albert Barillé.

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Ir à terra

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O Natal era sinónimo de ir à terra, Foros da Pouca Sorte (Santiago do Cacém). O Natal era ficar parado horas a fio nas filas de trânsito dentro do gelado Fiat 127 do meu pai. Na época, Alcácer do Sal era um Bojador rodoviário quase intransponível. Dava para trocar de carro no meio das filas de quilómetros: se começava no Fiat, acabava a viagem nos Fords ou Minis dos meus tios. Natal era chegar aos Foros e sentir o cheiro do frio. Sim, o frio alentejano tem cheiro, espessura e até nome próprio: cacimba.   

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Edição Diária 17.Abr.2014

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