21 de abril de 2015
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O que é morrer bem?

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A história repete-se: amigas chegam e dizem que o pai tem uma namorada lá na residência sénior. E, com um certo ar de reprovação, acrescentam que "é namorada mesmo!". Não entendo a censura. Ainda bem que os velhotes encontraram a fonte da juventude no Viagra ou no Cialis, ainda bem que os lares de idosos são cada vez mais parecidos com repúblicas de estudantes, até porque este forrobodó geriátrico pode muito bem ser a grande revolução sexual da história.   

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Pais que matam filhos

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Queria dizer-vos que há muita mentira nas conversas sobre bebés. Não percebo, por exemplo, aquelas pessoas que afirmam que sentem logo um apego pelos filhos acabados de nascer. Dizem que sentem um encaixe perfeito no primeiro minuto. Eu não sinto essa magia. Quando as minhas filhas nasceram (e é seguro que só vou ter filhas, cinco no mínimo) não senti esse íman. Só sinto medo. Nunca tive tanto medo na vida como nos primeiros meses de vida destes dois seres que carregam o meu sangue. Sim, medo. 

 

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Somos todos Andreas Lubitz

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Os incêndios são animais noctívagos. Naquela noite quente de 87, a oficina do tio Custódio começou a arder. Tintas, vernizes, gasolina, carros e bilhas de gás lá dentro, pavor cá fora. Os meus pais saíram a correr para ajudar com as mangueiras que tentavam serenar a chama crescente, eu fiquei a cuidar do meu irmão. A garagem era no prédio ao lado, mas o declive alpino da rua impedia que os prédios se tocassem. À partida, estava em segurança e assisti ao espetáculo com a cabeça entre as grades da varanda. Tinha sete ou oito anos e naquela noite ganhei consciência de mim mesmo e, não por acaso, cometi naquelas horas um pecado que ainda me envergonha: gostei de sentir o caos, gostei de ver o Paulo, filho do tio Custódio, a entrar nas chamas para resgatar uma bilha de gás prestes a rebentar, gostei da banda sonora que cruzava o som sincopado das labaredas, os estalidos da madeira a queimar, os gritos das mulheres, entre elas a minha mãe, e o choro do meu irmão esquecido no quarto.  

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Páscoa fraternal

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Há dias, a minha filha mais velha abriu os braços para Caim e saiu disparada em direção ao berço da irmã. Foi nesse segundo que percebi um pormenor: as grades do berço não servem para impedir o bebé de sair, servem para impedir os irmãos mais velhos de entrar. O berço não é um redil, é o escudo, o bunker ou o promontório de Abel. E, de facto, um sujeito só pode dizer que é pai quando compreende que o amor fraternal (se existir) é uma vitória sobre a natureza, é um ato racional e não um instinto natural. Um sujeito só pode dizer que é pai quando fica em pânico por perceber que a mais velha está sozinha com a mais nova no chão da sala.

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A reforma de Barroso

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Numa resposta cordata à minha coluna de 7 de março, Alfredo Barroso afirmou aqui que a sua pensão de reforma depende tão-só dos descontos que efetuou durante 40 anos. "Os governos têm o dever de honrá-la, e não cortá-la", diz. "A minha relação aqui é com o Estado e não com mercados financeiros". Ou seja, Barroso julga que a sua reforma aprisionada pelo sistema estatal e obrigatório está ao nível de um PPR. Lamento, mas não está. Não é uma questão de opinião, é uma questão de facto. 

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Nunca bebam com um russo

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Os outros russos do grupo eram estroinas, estavam bêbados ao meio-dia, perfumavam os corredores com o hábito a vodca, circulavam num ruído de graçola. Ele não era assim. Vladimir, chamemos-lhe assim, tinha a pose de conde oitocentista, alto, taciturno, com uma secura de carnes quase tuberculosa, aliás, tossia muito, tinha um ar doentio e sobretudo um olhar doentio, um olhar desprovido de empatia. E aqui não era diferente dos compatriotas.

 

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Barroso, Coelho e Costa

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Compreendo o despeito que Alfredo Barroso sente pelo socialismo-dos-negócios representado por Jorge Coelho. E, já agora, não compreendo como é um político livre como Barroso está na prateleira enquanto um ex-construtor como Coelho está na vitrina mediática. Mas, verdade seja dita, Barroso não está isento de erros. Aliás, a montante, os erros intelectuais de socialistas como Barroso abrem o espaço para que o socialismo-dos-negócios se desenvolva a jusante. O livro "A Crise da Esquerda Europeia" é um bom exemplo: Barroso investe contra o capitalismo financeiro sem perceber que é o maior aliado do tal capitalismo.  

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Saudades do Império

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Chamemos-lhe Mark. É o meu Tom Cruise pessoal e intransmissível. Quando nos conhecemos, ainda pilotava os helicópteros colossais que saem das entranhas metálicas dos porta-helicópteros, mas já estava a pensar em encerrar os dias de aventura. O curso alemão que estava a tirar ao lado de civis como eu já era um prelúdio da fase tranquila da carreira. Natural da Carolina do Sul, Mark encantava com o sotaque sulista e era tudo menos um hillbilly. Aliás, ficava incomodado com o típico isolacionismo dos compatriotas. Contava-me que, quando os porta-helicópteros ou porta-aviões aportam numa qualquer cidade do mundo, a maioria do pessoal não saía do navio. Os marinheiros ficavam a curtir a vida americana naquelas cidades flutuantes em vez de saírem para conhecer Lisboa ou Singapura. "Nem precisam de sair para terem sexo", dizia desalentado. 

 

 

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Morrer em Debaltseve

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Chamemos-lhe Nataliya. Conheci-a há uns anos num albergue internacional algures na Mitteleuropa. Era diplomata em início de carreira do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, mas, tendo em conta a sua falta de tato, duvido que se tenha mantido nos corredores das chancelarias. Nataliya não tinha aquela beleza gélida e geométrica das eslavas. Tinha curvas, traços e até os gestos delicados da latina. A típica mulher eslava tem aquele ar de ex-veterana de guerra, parece que nos vai partir o braço com golpes de karaté à KGB. Nataliya não era assim, tinha a mais afrodisíaca das curvas: um rosto vulnerável, frágil, a pedir colo. Esta vulnerabilidade estendia-se aos seus anseios políticos. Ela queria ser ocidental.  

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Traídos pela pátria

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Caro Robert Sherman, embaixador dos EUA em Portugal, venho por este meio contar-lhe uma história. Louis de Sousa nasceu há 54 anos num arquipélago dos Açores que não devia ser muito diferente do arquipélago que Mark Twain visitou em 1867: as ilhas eram o fim do mundo, a godforsaken place. Para fugir à miséria, a família de Louis emigrou para New Bedford (Massachusetts) quando ele ainda usava cueiros. A partir desse momento, a sua vida passou a ser um filme americano, um cruzamento entre "Rocky" e "Rambo": cresceu num clube de boxe e ficou à beira de ser boxeur; entrou no exército, serviu seis ou sete anos e até fez a tatuagem militar no braço, a águia da land of the free and home of the brave; saiu da tropa e começou a trabalhar como camionista, percorreu os 50 Estados da união, casou, teve dois filhos, já tem netos; no meio deste processo, Louis cometeu o erro clássico do thriller: pisou a lei, foi preso, cumpriu pena. Mas, quando julgava que já tinha saldado a dívida à sociedade, o Governo americano repatriou-o em 2010 para os Açores devido às leis pós-11 de Setembro.   

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