31 de Março de 2015
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Páscoa fraternal

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Há dias, a minha filha mais velha abriu os braços para Caim e saiu disparada em direção ao berço da irmã. Foi nesse segundo que percebi um pormenor: as grades do berço não servem para impedir o bebé de sair, servem para impedir os irmãos mais velhos de entrar. O berço não é um redil, é o escudo, o bunker ou o promontório de Abel. E, de facto, um sujeito só pode dizer que é pai quando compreende que o amor fraternal (se existir) é uma vitória sobre a natureza, é um ato racional e não um instinto natural. Um sujeito só pode dizer que é pai quando fica em pânico por perceber que a mais velha está sozinha com a mais nova no chão da sala.

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A reforma de Barroso

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Numa resposta cordata à minha coluna de 7 de março, Alfredo Barroso afirmou aqui que a sua pensão de reforma depende tão-só dos descontos que efetuou durante 40 anos. "Os governos têm o dever de honrá-la, e não cortá-la", diz. "A minha relação aqui é com o Estado e não com mercados financeiros". Ou seja, Barroso julga que a sua reforma aprisionada pelo sistema estatal e obrigatório está ao nível de um PPR. Lamento, mas não está. Não é uma questão de opinião, é uma questão de facto. 

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Nunca bebam com um russo

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Os outros russos do grupo eram estroinas, estavam bêbados ao meio-dia, perfumavam os corredores com o hábito a vodca, circulavam num ruído de graçola. Ele não era assim. Vladimir, chamemos-lhe assim, tinha a pose de conde oitocentista, alto, taciturno, com uma secura de carnes quase tuberculosa, aliás, tossia muito, tinha um ar doentio e sobretudo um olhar doentio, um olhar desprovido de empatia. E aqui não era diferente dos compatriotas.

 

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Barroso, Coelho e Costa

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Compreendo o despeito que Alfredo Barroso sente pelo socialismo-dos-negócios representado por Jorge Coelho. E, já agora, não compreendo como é um político livre como Barroso está na prateleira enquanto um ex-construtor como Coelho está na vitrina mediática. Mas, verdade seja dita, Barroso não está isento de erros. Aliás, a montante, os erros intelectuais de socialistas como Barroso abrem o espaço para que o socialismo-dos-negócios se desenvolva a jusante. O livro "A Crise da Esquerda Europeia" é um bom exemplo: Barroso investe contra o capitalismo financeiro sem perceber que é o maior aliado do tal capitalismo.  

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Saudades do Império

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Chamemos-lhe Mark. É o meu Tom Cruise pessoal e intransmissível. Quando nos conhecemos, ainda pilotava os helicópteros colossais que saem das entranhas metálicas dos porta-helicópteros, mas já estava a pensar em encerrar os dias de aventura. O curso alemão que estava a tirar ao lado de civis como eu já era um prelúdio da fase tranquila da carreira. Natural da Carolina do Sul, Mark encantava com o sotaque sulista e era tudo menos um hillbilly. Aliás, ficava incomodado com o típico isolacionismo dos compatriotas. Contava-me que, quando os porta-helicópteros ou porta-aviões aportam numa qualquer cidade do mundo, a maioria do pessoal não saía do navio. Os marinheiros ficavam a curtir a vida americana naquelas cidades flutuantes em vez de saírem para conhecer Lisboa ou Singapura. "Nem precisam de sair para terem sexo", dizia desalentado. 

 

 

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Morrer em Debaltseve

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Chamemos-lhe Nataliya. Conheci-a há uns anos num albergue internacional algures na Mitteleuropa. Era diplomata em início de carreira do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, mas, tendo em conta a sua falta de tato, duvido que se tenha mantido nos corredores das chancelarias. Nataliya não tinha aquela beleza gélida e geométrica das eslavas. Tinha curvas, traços e até os gestos delicados da latina. A típica mulher eslava tem aquele ar de ex-veterana de guerra, parece que nos vai partir o braço com golpes de karaté à KGB. Nataliya não era assim, tinha a mais afrodisíaca das curvas: um rosto vulnerável, frágil, a pedir colo. Esta vulnerabilidade estendia-se aos seus anseios políticos. Ela queria ser ocidental.  

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Traídos pela pátria

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Caro Robert Sherman, embaixador dos EUA em Portugal, venho por este meio contar-lhe uma história. Louis de Sousa nasceu há 54 anos num arquipélago dos Açores que não devia ser muito diferente do arquipélago que Mark Twain visitou em 1867: as ilhas eram o fim do mundo, a godforsaken place. Para fugir à miséria, a família de Louis emigrou para New Bedford (Massachusetts) quando ele ainda usava cueiros. A partir desse momento, a sua vida passou a ser um filme americano, um cruzamento entre "Rocky" e "Rambo": cresceu num clube de boxe e ficou à beira de ser boxeur; entrou no exército, serviu seis ou sete anos e até fez a tatuagem militar no braço, a águia da land of the free and home of the brave; saiu da tropa e começou a trabalhar como camionista, percorreu os 50 Estados da união, casou, teve dois filhos, já tem netos; no meio deste processo, Louis cometeu o erro clássico do thriller: pisou a lei, foi preso, cumpriu pena. Mas, quando julgava que já tinha saldado a dívida à sociedade, o Governo americano repatriou-o em 2010 para os Açores devido às leis pós-11 de Setembro.   

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Auschwitz fingido

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Entrei no campo de Auschwitz inserido num grupo de europeus e asiáticos. Como seria de esperar, a experiência foi chocante, mas foi ainda mais chocante escutar as conversas que me rodeavam. Por ignorância ou calculismo, os meus colegas europeus associavam o antissemitismo apenas à Alemanha. Em maior ou menor dimensão, quase todos os povos europeus colaboraram com o Holocausto.

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O astronauta

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Se Portugal tivesse NASA, o dr. Proença de Carvalho arranjaria maneira de ser astronauta. Estamos perante um homem com o dom da omnipresença divina, um milagreiro que multiplica cargos como nosso senhor multiplica pães e rosas. Além de advogado-mor de poderosos em apuros e de motoristas distraídos, o dr. Proença é figura de proa em quase trinta empresas (Cimpor, Galp, etc.). Sim, esta acumulação de poder não é crime. Aliás, aprecio o valor do trabalho e admiro quem conquista poder dentro das regras. O problema está na acumulação de cargos inconciliáveis. 

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A faca relativista

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Chamemos-lhe Solita. É uma menina guineense que vive numa torre decrépita de Alfornelos ou Santo António dos Cavaleiros. Quando chega à idade, Solita é levada pela própria mãe a um dos apartamentos da torre. Lá dentro, o cheiro a mofo mistura-se com o odor a sangue seco; no balcão da cozinha, a curandeira afia a faca de trabalho que, daqui a segundos, cortará os lábios vaginais e o clitóris daquela criança. 

 

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