24 de abril de 2014 às 19:45
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A minha mãe não gosta da minha Bimby

Henrique Raposo
7:00 Quinta feira, 24 de abril de 2014

Ainda por aí um profundíssimo parlapiê sobre a relação entre os portugueses e a Bimby, o rocobop da cozinha. Até o esmerado Wall Street Journal fez questão de explicar o novo-riquismo insuportável deste povinho do sul da Europa, um povinho que, como qualquer arrivista, não pode ver um pedaço de tecnologia alemã à frente. A ideia de que "o robô de cozinha é a obsessão do país mais pobre da Europa ocidental" encaixa como uma luva na prepotência anglo-saxónica em relação aos bárbaros católicos, essa gentinha que não sabe viver de acordo com as suas possibilidades. Como se sabe, os americanos nunca viveram acima das suas possibilidades. O subprime foi obra do Espírito Santo.

Eu não queria ser chato, mas gostava de dizer que o sucesso da Bimby em Portugal não se deve ao espírito parolo que baba em cima de qualquer geringonça. O problema é outro, o problema é o tuga, o homem mais gazeteiro da Europa. Sim, já perceberam: a Bimby é para eles, não é para elas. Elas compram a Bimby na esperança de que eles comecem a ajudar nas tarefas domésticas. É que a geração do meu pai mantém com a cozinha a mesma relação que os lisboetas mantêm com o Alentejo: é um sítio de passagem, ui pá, parei lá uma vez em 1987. E a minha geração? Só posso falar por mim. Na minha vil e apagada cabeça, tachos e panelas são tão enigmáticos como caracteres chineses ou fórmulas químicas. É por isso que a Bimby é minha, sou eu que a uso. Sem ela, a minha casa seria ingovernável e a prole passaria fome.

Chegados a este ponto, o leitor atento já está a pensar qualquer coisa como "lá está o Raposo a passar a mão pelo pêlo das damas". Embora avisado, o instinto do leitor está errado. Porque é que a cozinha é o meu triângulo das Bermudas? Porque é que eu desapareço enquanto ser-com-polegar-oponível quando vejo o fogão? Porque a minha mãe assim me educou. Quando tentava fazer alguma coisa na cozinha, eu levava logo um responso, fora daí, aí mando eu. E a minha mãe nem sequer é das piores. Tenho tias que simplesmente não se sentam à mesa durante os almoços de família, andam de um lado para o outro, a cozinhar, a servir, a lavar. Será isto servilismo? À superfície, sim. Todavia, quando escavamos um pouco, encontramos outra coisa. Estas mulheres gostam o seu poder absoluto dentro de casa. Não é à toa que somos uma sociedade mariana. Não é à toa que a minha mãe, quando vem cá a casa, reclama contra a existência da Bimby. Ela vê aquele robô como uma ameaça ao seu império. Se dependesse dela, eu continuaria a não fazer comida, ó filho, ligas à mãe e a mãe faz tudo lá em casa e depois traz.

Se querem mesmo conquistar poder fora de casa, as mulheres da minha geração deviam começar por enterrar a tradição da mãe-toda-poderosa, deviam começar por abdicar da ditadura que exercem de facto dentro de casa. Neste sentido, o número gigantesco de Bimbys-para-eles é uma boa notícia. 

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O galeão português é o outro lado do avião desaparecido

Henrique Raposo
8:00 Quarta feira, 23 de abril de 2014

A Tempo e a Desmodo - O galeão português é o outro lado do avião desaparecido

O avião malaio continua desaparecido, alimentando horas de jornalismo e de teorias da conspiração. Não surpreende. É um drama misterioso que preenche um mundo, o nosso, que perdeu qualquer noção de mistério ou encantamento. Através de satélites, telefones-satélites, canais de notícias 24 sobre 24, internet, redes sociais, através desta parafernália instantânea, dizia eu, os modernos mataram o mistério. Já não é possível ler reportagens literárias sobre a Ucrânia, Venezuela ou Síria, porque a nossa imaginação já não tem espaços para preencher, já não tem mundos para criar a partir das palavras. Esses espaços ficam logo ocupados pelas imagens enviadas por dezenas de repórteres armados com esses canivetes-suíços chamados iphones. É por isso que o avião desaparecido é tão poderoso. Pela primeira vez em muito tempo, não temos imagens de um acontecimento. A nossa imaginação literária tem finalmente uma nesga de terreno.

Por outro lado, o avião desaparecido mexe com a nossa arrogância racionalista , com a presunção de que já controlamos em absoluto a geografia. Como é que um avião desaparece no tempo da internet e dos satélites? Como é que um avião em 2014 tem o desplante de desaparecer como se fosse um barco de piratas do século XVI? Não por acaso, dias depois do desaparecimento do avião surgiu uma notícia que está do outro lado deste espelho: um velho galeão português terá sido encontrado nos mares indonésios por drones subaquáticos de duas empresas caça-tesouros. O lendário Flor do Mar naufragou em 1511 após sair de Malaca com o saque realizado por Afonso de Albuquerque. O próprio Albuquerque estava no navio, mas acabou por encontrar salvação numa zangada de detritos. Igual destino não conheceu a carga do porão. As 60 toneladas de ouro perderam-se no fundo do mar.

Se as empresas confirmarem o achamento, a história do galeão substituirá o avião no imaginário da "sociedade de informação" global. Porquê? O navio português remete para um tempo de mistério, um tempo em que a nossa tecnologia não cobria o mundo. Nem sequer tínhamos acabado de explorar a orbis. Os mares ainda estavam por navegar. Ou seja, há aqui novamente o fascínio por um objecto que nos oferece aquele encantamento misterioso que foi banido pela nossa vidinha perfeitinha, interconectada e transparente. No tempo da Wikileaks, já não pode haver mistérios, não é verdade? Aliás, é por isso que estamos todos viciados num desejo de destruição. Sim, destruição. Todos os dias aparecem filmes, séries ou livros que criam um cenário pós-apocalíptico, um mundo sem net, sem energia, sem transportes, sem interconexão ou comunicações, um mundo onde subitamente voltamos a ser exploradores sem noção do que está do outro lado da curva. O mistério está pela hora da morte. 

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O ano sem verão

Henrique Raposo
7:56 Terça feira, 22 de abril de 2014

Em 1815, um vulcão escondido numa longínqua falha indonésia entrou em actividade. De seu nome Tambora, o bicho esteve activo entre Abril e Julho e, durante estes quatro meses, expeliu quantidades industriais de enxofre e as suas cinzas abraçaram um raio de 50 quilómetros. Claro que esta distância foi esticada pelos favores do vento e a nuvem de cinza acabou por dar um volta ao mundo, qual Magalhães vulcânica. Os efeitos não se fizeram esperar. O ano seguinte, 1816, ficou conhecido como "o ano sem verão" no Reino Unido e na América do Norte. Do pé-pra-mão, aquele instrumento da natureza provocou um arrefecimento global.

Em séculos anteriores ocorreram fenómenos opostos, ou seja, tivemos anos ou épocas de aquecimento causado por fenómenos naturais e não por qualquer partícula daninha provocada pelo homem empoleirado no tubo de escape. Por exemplo, a Idade Média foi um período particularmente quente. De seguida, tivemos uma descida da temperatura que atingiu a chamada "pequena idade do gelo" entre os séculos XVII e XIX. Ora, perante estes factos, a pergunta só pode ser uma: se o "homem industrial" é o responsável pelas mudanças climáticas, por que razão o clima mudou tanto antes do advento da revolução industrial?

A ideia de que o homem é a causa do "aquecimento global" ou das "mudanças climáticas" (a narrativa muda consoante a temperatura) sempre me pareceu uma manifestação da velha arrogância iluminista que coloca o homem no centro de tudo; nesta visão antropocêntrica, os efeitos sentidos na natureza só podem ter uma causa humana. Não lhe passa pela cabeça a existência de fenómenos com mais poder do que a humanidade. É por isso que muitos modelos climáticos das brigadas nem sequer consideram a actividade vulcânica ou as erupções solares. E assim voltamos ao problema do costume: o espírito messiânico desta ciência ambiental. Alguém me explica como é que um cientista consegue conceber um mundo onde nós, homens, somos mais poderosos do que as explosões solares ou mais influentes do que os Tamboras? Há meio milénio, a ciência de Copérnico destruiu a visão antropocêntrica do universo, impondo a visão heliocêntrica. Hoje em dia, uma ciência ambiental demasiado ideológica está a reconstruir um mundozinho antropocêntrico que não tolera a existência de nada superior ao homem. Até dou de barato o desprezo por Deus , mas já não percebo esta coisa esquisita que é não ver o Sol e os vulcões. 

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Este Benfica é um projecto literário

Henrique Raposo
7:55 Segunda feira, 21 de abril de 2014

Para contar uma história precisamos sempre do botão rewind. Antes da entrada de Jesus, o Benfica era um fantasma do passado, uma aventesma raquítica sem força para suportar o peso da história ou o ego dos adeptos . Estávamos em 2009 mas os adeptos ainda não tinham saído da década de 80, altura em que a agremiação norte-coreana começou a mudar o ciclo do futebol português. De seguida, entre 1994 e 2009, o Benfica viveu uma época negra marcada pela hegemonia total daquele-clube-que-não-convém-pronunciar. Durante esse período humilhante, a equipa já entrava derrotada no estádio das Antas. Mas, de repente, uma gestão financeira nova e um novo treinador mudaram tudo. O brilho do título de 2010 confirmou logo ali o regresso do grande Benfica. Mas não ganhou a outra equipa os três títulos seguintes? Sim, mas teve finalmente o Benfica à perna. Convém recordar que a tal equipa lá de cima encomendava as faixas pelo Natal.   

O final da época passada, porém, colocou tudo em causa. Foi demasiado doloroso e parecia a queda definitiva de um projecto, parecia que o tal novo ciclo era uma impossibilidade. Era como se a vitória azul fosse tão inevitável como a lei da gravidade. Sim, o golo de Kelvin parecia ser a maçã das leis de Newton. Pior ainda: no jogo decisivo das Antas, a equipa voltou a entrar derrotada, presa, um bando de meninos num jogo de homens. Tudo parecia perdido. Não por acaso, esta época começou mal, com os jogadores ainda contra Jesus. Contudo, duas coisas mudaram o cenário. Em primeiro lugar, a morte de Eusébio cobriu a equipa de emoção no momento certo: as vésperas do jogo com o FC Porto. Em segundo lugar, Matic saiu e a equipa reencontrou um equilíbrio táctico inédito. Parece impossível, não é? A equipa perdeu o melhor jogador mas ficou mais equipa: o seis desce para central, os laterais passam a extremos, os extremos a interiores e solta-se um carrossel à antiga. Às vezes, até parece que estou a ver o toque de bola da equipa de 94, a última grande equipa antes da queda.   

Este título sabe ainda melhor do que o título de 2010. Ganhar assim depois do pesadelo do ano passado até parece coisa de filme. Hoje, dou graças a Deus pelo sofrimento da época passada, porque aquela dor vai ser a base de muitas vitórias. Portanto, aqui têm o projecto literário deste Benfica: ascensão, queda, redenção, uma redenção que, agora sim, vai virar a correlação de forças com a entidade azul e branca. Aliás, é por isso que o jogo mais gostoso desta época não foi disputado no campeonato mas sim na Taça. Na quarta-feira passada, um Benfica reduzido a 10 humilhou o Porto. E isto, meus amigos, é como ver uma bola a desafiar as leis da gravidade. 

 

Da série "O benfiquista terminal"

Carta de amor a Vítor Paneira

O dia em que traí o Benfica     

O meu Eusébio era a toalha branca  

A benfiquista 

Eusébio, o nosso ADN mulato

Por que razão o Benfica é maior do que o FC Porto?   

Benfica e os dias da rádio 

O fim de Jesus é o fim de Vieira

No país dos árbitros não há cavalheiros 

Benfica TV: jogos à tarde, sff 

FC Porto, a primeira sucursal do Benfica          

Voltar a ser sócio do Benfica 

Paz de Cristo no Estádio da Luz 

O Benfica é o D. Sebastião em Chuteiras

Benfica e o medo de ser feliz 

Benfica, o meu relógio biológico 

FMI no Benfica

Veloso & Grécia

Ser do Benfica é ver D. Sebastião no Emerson

A troika do Cardozo

Os benfiquistas têm a memória curta

O guarda-redes do cinema             

Os miúdos do Benfica morrem sempre na praia

Os jogadores do Benfas foram bonzinhos

Lançar OPA sobre jogadores do Sporting             

Aimar é como um Alfa Romeo

Última hora: o golo de Matic faz disparar PIB             

Cardozo e a Catedral de Leverkusen   

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Dizer asneiras já não choca ninguém

Henrique Raposo
7:10 Quinta feira, 17 de abril de 2014

Jon Stewart diz sempre um fuck ou fucking entre piadas. Aquele asneiredo é uma espécie de escala obrigatória entre segmentos. O problema é que as escalas escatológicas já não têm piada. Há uns anos, talvez tivessem algum potencial cómico, mas hoje em dia são tão engraçadas como um campeonato de cochet e, verdade seja dita, acabam por esconder a falta de graça de alguns episódios do Daily Show. Ora, este raciocínio podia ser aplicado a outros programas de humor ou até a outros ramos de actividade, como por exemplo a publicidade. Nos anos 80 e 90, toda a gente ficava chocada com as campanhas da Benetton, mas hoje em dia a marca italiana parece tão inofensiva como uma beata de Carrazeda de Ansiães.

Há dois ou três anos, a Benetton fez uma campanha que mostrava políticos a beijar outros políticos na boca. Hugo Chávez dava um beijo molhado em Barack, Abbas dava um chocho em Netanyahu e Bento XVI trocava fluidos com um líder muçulmano. O sucesso da campanha foi quase nulo porque o chocante já não choca ninguém. A iconoclastia transformou-se na norma, o iconoclasta é um chato do caraças. Toda a gente tem tatuagens, toda a gente ajoelha no altar do ateísmo, toda a gente diz asneiras, toda a gente quer a desconstrução da sinceridade, toda a gente quer chocar e, por isso, já ninguém se choca. Ou melhor, aquilo que choca é a ausência de iconoclastia: aqueles que acreditam em Deus (é o meu caso) ou aqueles que passam uma hora inteira sem dizer asneiras (não é o meu caso) é que são os verdadeiros rebeldes. A boa-educação é que é chocante.

Durante décadas, uma certa cultura pós-moderna construiu a sua carreira através da desconstrução sistemática da sinceridade e dos valores clássicos. Resultado? Não restou nada, já não temos começos nem fins.  Já não há nada para desconstruir. Neste sentido, o conservador é o novo iconoclasta. No ano da graça de 2014, ser bem educado, acreditar em Deus, casar e ter filhos é que é a verdadeira rebeldia. Sim, meus caros, o conservador é the meanest motherfucker in the valley

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Carta de amor a Vítor Paneira

Henrique Raposo
7:30 Quarta feira, 16 de abril de 2014

Há dias, quando saiu a bolinha com o nome da Juventus, lembrei-me de imediato de um jogo em que Vítor Paneira desfez sozinho a defesa da Juve (1993) . Mas, para meu azar, um indivíduo na casa dos vinte anos fez o favor de destruir esta alameda de memórias com a seguinte heresia: "mas quem é o Vítor Paneira?". Confesso que estive para lhe dar um tabefe seguido de um rotativo à Van Damme mas depois ele ainda acabava por perguntar "mas quem é o Van Damme" e, aí, meus senhores, é que o caldo entornava de vez. Portanto, apelando à paz do Senhor, resolvi contar a história do Vítor Paneira, ou melhor, a história da minha relação com o maior número sete que a Benfas já conheceu (com a sua licença, José Augusto). Para começar, Paneira era o protótipo do jogador português antes da profissionalização extrema, antes da mania de que o jogador de bola tem de ser um atleta. Se quiserem, o Paneira era um Figo sem trabalho de ginásio, estava mais próximo do génio furtivo de Quaresma do que da competência mecânica de Ronaldo.

Naquele tempo pré-ginásio e pré-Bosman, Paneira fazia parte de Portugal, do meu Portugal, pelo menos. Quando me lembro da minha infância, está lá o Lecas, o Herman, o Vasco Granja, McGyver, Van Damme, Sousa Veloso e, claro, o Vítor Paneira. Para terem uma noção, eu dizia ao barbeiro que queria "um corte à Paneira" e joguei sempre na posição sete por causa dele. Na verdade, eu era guarda-redes, mas o que queria mesmo era ser como o Paneira, médio direito que vai à ala e ao centro, à patrão. Aliás, ele foi um dos patrões do Benfica pré-coma, pré-Artur Jorge, foi um dos últimos capitães portugueses, o herdeiro final de uma centelha que passou da geração de Coluna e Eusébio para a geração de Humberto e Shéu e que terminou em 94 quando Artur Jorge resolveu despedir Paneira e Isaías, entre outros. Mas antes da saída infame, Paneira ainda teve tempo para deixar na nossa memória dois grandes momentos. Em primeiro lugar, fez parte da última grande equipa portuguesa do Benfica, a de 1993, a da vitória por 5-2 na final da Taça contra o saudoso Boavista. Era assim do meio-campo para a frente: Paulo Sousa, Rui Costa, Paneira, Futre, João Pinto e Águas. Em segundo lugar, Paneira foi a alma da equipa que fez o meu benfiquismo, a equipa de 93/94, a época dos 4-4 e dos 6-3, a última época da velha mística.  

Por falar em mística, o grande episódio de Paneira não é um título ou uma jogada, como aquela em que ele deu um nó cego no Michel ou Chendo, deixando o jogador do Real Madrid no chão e um estádio inteiro a rir (Taça Pepsi de 1992), ou o primeiro golo de chapéu na final de 1993, ou as tabelinhas com Valdo na equipa campeã de 91. Embora bonitas, estas jogadas não chegam aos calcanhares do tal grande momento. Antes do jogo com o Bayer em Leverkusen (94), Vítor Paneira chamou os russos, Yuran e Kulkov, moços de profissionalismo oscilante, apontou para aquelas bancadas alemãs cheias de benfiquistas e disse qualquer coisa como isto: olhem, pá, isto é o Benfica, estamos na Alemanha, a milhares de quilómetros de casa, mas o estádio está cheio de benfiquistas. Isto é o Benfica. Façam lá o favor de se atinar e honrar a camisola que têm vestida. E honraram. 

 

Da série "O benfiquista terminal"

O dia em que traí o Benfica     

O meu Eusébio era a toalha branca  

A benfiquista 

Eusébio, o nosso ADN mulato

Por que razão o Benfica é maior do que o FC Porto?   

Benfica e os dias da rádio 

O fim de Jesus é o fim de Vieira

No país dos árbitros não há cavalheiros 

Benfica TV: jogos à tarde, sff 

FC Porto, a primeira sucursal do Benfica          

Voltar a ser sócio do Benfica 

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O Benfica é o D. Sebastião em Chuteiras

Benfica e o medo de ser feliz 

Benfica, o meu relógio biológico 

FMI no Benfica

Veloso & Grécia

Ser do Benfica é ver D. Sebastião no Emerson

A troika do Cardozo

Os benfiquistas têm a memória curta

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Os miúdos do Benfica morrem sempre na praia

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Aimar é como um Alfa Romeo

Última hora: o golo de Matic faz disparar PIB             

Cardozo e a Catedral de Leverkusen      

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Não quero que os meus filhos brinquem com tablets

Henrique Raposo
8:00 Terça feira, 15 de abril de 2014

Quero que eles aprendam a fazer tablets, o que é um pouco diferente. E brincar num tablet não oferece a ninguém as capacidades que permitem a construção do hardware e software daquelas geringonças. Todavia, amigos, primos e vizinhos andam por aí numa enorme alegria, que também é um enorme equívoco, eh pá, a minha filha já mexe no tablet, já brinca com aquilo, é tão esperta não é? Não, não é. A minha filha de dois anos já sabe mexer num ecrã de toque, sabe procurar as suas aplicações, Angry Birds, por exemplo, mas isso não faz dela um génio. Se tivesse tempo, um chimpanzé também aprenderia a usar aquele ecrã de toque.

Eu não me importo que ela brinque com o ipad, mas não vejo nisso qualquer incursão pedagógica nos mistérios da tecnologia. Brincar naquele ecrã não oferece vantagens comparativas aos nossos filhos. Pelo contrário, até pode gerar a ideia de que a informática é apenas aquilo - dar piparotes num ecrã. Eu ainda me lembro dos rapazes do meu tempo que queriam ser informáticos só porque gostavam muito de jogar computador, e também me lembro de ouvir os pais desses rapazes a dizer coisas como "ai, o meu João tem muito jeito para os computadores, que é um emprego com saída". Infelizmente, estes pais perceberam demasiado tarde que ficar a jogar "Civilization" ou "Command & Conquer" até às 5 da manhã não é o mesmo que ter jeito para engenharia informática. 

Neste ponto, convém relembrar uma história reveladora: os homens da Google têm os filhos numa escola sem tecnologia de ponta, uma escola com a boa e velha ardósia onde as crianças aprendem aquilo que se aprende há séculos: as fórmulas e cálculos da matemática. A jusante, é este pensamento abstracto que permite a concepção dos algoritmos e afins que estão na base dos tablets e demais tecnologia. Portanto, a vantagem comparativa que podemos dar aos nossos filhos continua a ser a mesma da era pré-tablet e pré-net. Há que dotá-los de agilidade matemática, há que pegar num lápis e forçá-los a encarar os problemas da matemática. Passar a vida a brincar com o tablet é meio caminho andado para nunca se conseguir fazer um... tablet. 

 

Série "Daddy Blog é Filosofia"

A solução é ter muitos filhos 

Não temos filhos porque começamos a trabalhar a meio da manhã

Ter filhos nunca foi tão difícil 

Não temos mais filhos porque gastamos tudo no primeiro

Ser pai nunca foi tão difícil 

Deixarei a minha filha estudar humanidades? 

Por que razão estão as raparigas a ultrapassar os rapazes?

Rita Marrafa de Carvalho, o machismo e as crianças  

O Rei Leão já tem 20 anos: hoje em dia não seria realizado 

Pais a discutir à frente dos filhos: o outro lado do filho único 

As crianças são boas ou más? 

O Facebook dos bebés

Dia do Pai? É ir para a cama às nove e meia

A minha filha é um bully

As crianças não são hiperactivas, são mal-educadas

O filme perfeito para a criançada

O problema da escola começa em casa

A família e os anos 80

Darth Vader vs. Batman (ou como debater filosofia com a sua filha)

A Bimby da sogra     

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A solução é ter muito filhos

Henrique Raposo
7:39 Segunda feira, 14 de abril de 2014

Sim, ter filhos nunca foi tão difícil. Além do problema já referido , convém relembrar que os fedelhos de hoje são adolescentes aos doze. A infância passou a ter o prazo de validade de um iogurte; a Blitzkrieg que transforma a relação pai-filho na linha Oder-Neisse chega mais cedo. Depois, nós vemos perigos em todo o lado. Um homem sozinho no parque é um pedófilo em potência e as crianças não podem andar sozinhas na rua, nem recados podem fazer. Porquê? Há carros a mais, a rua já não é um espaço de brincadeira, o progresso material roubou-nos essa infância despreocupada, o "sim, vai pra rua brincar" desapareceu da linguagem. Além disso, estamos sempre a ver raptores em cada esquina. Já não sabemos quando é que foi, se foi em Portugal ou nos EUA, mas sabemos que vimos na TV um caso de rapto e aquela imagem vaga ficou a pairar. Nunca desligamos, nunca relaxamos.

Existe ainda a constante atmosfera medicalizada, todas as mães e pais são sub-médicos que entram em pânico ao mínimo indício de febre. Como não estamos habituados à dor e muito menos à dor de crianças , saímos disparados para as urgências sem necessidade. Nunca desligamos, nunca relaxamos. E este stress permanente é reforçado pelo problema principal: estamos sozinhos. Eu ainda fui educado por uma cooperativa familiar e comunitária que dividia o fardo com a minha mãe.  Mas hoje em dia as famílias são demasiado pequenas e, sobretudo, estão espalhadas. Uns estão aqui, outros em Carnaxide, aqueles em Queluz, outros ainda estão na terra, etc., etc. Às vezes, nem os avós estão por perto. É por isso que eu percebo a malta com dinheiro, sim, percebo e invejo o exército de babás. Permitem desligar, permitem relaxar. 

Um pai e uma mãe não chegam, é preciso a presença de avós, tios, primos mais velhos, vizinhos, ou a alternativa: uma ou duas profissionais. Ora, como estou longe da família e como sou um pé rapado sem acesso ao maná composto por babás e nannys, resta-me uma solução para encontrar a libertação: ter muitos filhos. Parece paradoxal mas não é. Todas estas ânsias resultam de uma coisa muito simples: ainda só tenho uma filha. Quando tiver mais, serei um pai mais relaxado, com menos dramas na cabeça. Já não verei perigos no parque e na rua, a febre já não será um bicho de sete cabeças, a adolescência precoce dos mais velhos não será um problema porque ainda estarei concentrado na infância dos pequenos e, acima de tudo, não estarei tão cansado porque os mais velhos ajudarão a criar os mais novos. Sim, a solução é ter filhos como um coelhinho endemoniado por pilhas duracel. Irei relaxar, irei desligar. 

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Com amigos assim, a Igreja não precisa de inimigos

Henrique Raposo
8:00 Sexta feira, 11 de abril de 2014

Em dez anos de jornalismo, nunca falhei uma questão factual. Posso dizer disparates a jusante, mas a montante tenho sempre uma sólida base factual. Investigo, leio, sublinho, empilho recortes sobre o tema. Mas há sempre uma primeira vez: a base desta crónica é falsa , é uma piada que se transformou em mito urbano. Não, o arcebispo de Granada não disse para as senhoras pensarem em Deus enquanto fazem o fellatio da ordem aos maridos. Era bom de mais para ser verdade, não era? Como estava rodeado de amigos a comentar a notícia, nunca pensei que estava perante um mito urbano. Mas a culpa é só minha. Só tenho de pedir desculpas aos leitores.

Deus, porém, escreve direito por linhas tortas. Se não tivesse cometido este erro, nunca teria investigado a fundo esta personagem. E, depois de ler várias peças sobre Francisco Javier Martinez, só posso dizer o seguinte: com amigos assim, a Igreja não precisa de inimigos. Comecemos pelo soft porno. Martinez afastou um padre da vila de Albunol, porque o dito pároco acolhia imigrantes ilegais. O padre em questão, Gabriel Castillo, estava a fazer aquilo que a Igreja da caridade tem de fazer: ajudar os mais necessitados, acolher na sua própria casa os desgraçados que ali dão à costa em pele e osso. Mas, ora essa, Francisco Javier Martinez não admitiu tamanha heterodoxia no seu domínio e suspendeu Gabriel Castillo. Dentro do mesmo espírito, Martinez também expulsou noviças estrangeiras (indianas) de conventos. Um ecuménico, este Javier.

Mas deixemos o soft porno e passemos à pornografia moral pura e dura. Francisco Javier Martinez é daquele estirpe que, em nome de Deus e do Bem, entra em territórios mais do que questionáveis. Uma coisa é dizer que o aborto é um mal. E é, com certeza. Outra coisa, bem diferente, é dizer que o aborto voluntário dá aos homens a licença absoluta para abusar do corpo da mulher. Eis a versão total e original: "matar a un nino indefenso, y que lo haga su propria madre, da a los varones la licencia absoluta de abusar del cuerpo de la mujer, porque la tragedia se la traga ella". Preferia ter ficado na ignorância, preferia ter ficado no mito urbano, porque isto é muito pior. Esta é a versão eclesiástica do ela-estava-mesmo-a-pedi-las, o arcebispo de Granada está a legitimar a violação das mulheres que abortam. O que é estranho para um suposto homem de Deus: um mal não se cura com outro mal, cura-se com o perdão, essa invenção de Jesus Cristo que muitos filisteus de batina nunca compreenderão. 

 

Da série "És a minha fé"

Francisco e o dilema dos gays católicos 

As mães solteira do Papa

Matar cristãos já é desporto olímpico   

O tufão e o terramoto de 1755: Deus e o ambientalismo 

As mamas de Angelina Jolie são filosóficas

Aborto e baptismo: a hipocrisia criticada por Francisco I

O aborto e a coragem de Francisco I

A Igreja Católica podia dar igrejas a outros cristãos

O Papa que abriria a porta ao casamento de padres

Há que adorar o bebé real e o Papa Chico

Comunistas e fascistas: o Papa explica

Carmela Soprano: enfrentar o inferno com unhas de gel

Não é fácil ser um bom muçulmano

Um conservador não olha para trás, olha para cima

A pedofilia dos padres começa no celibato?

O Papa que abriria a porta ao casamento dos padres

Batman e o triunfo do mal

Gozar com a fé cristã: uma modernice com 170 anos

Ratzinger e a necessidade de religião 

(S. Agostinho por portas travessas)

A Igreja esteve sempre em crise 

Católico e liberal, por esta ordem e sem contradição

Deus não é para o bico da ciência

Não há diálogo entre religiões, só tolerância

A necessidade de Deus (e de Cristo)

TS Eliot, ou o cristão no circo pagão 

O católico da treta

Manuel Clemente, um bispo para a crise

Manuel Clemente, um bispo xpto

Ratzinger e a ilegalização de Deus

A Igreja no espaço público

Deus está na moda

Deus e a máfia do cinismo

Flannery O'Connor: a beleza e a fé cristã

Gays, Papa e o Islão homofóbico

Os católicos e a política

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José Mourinho, o génio do gajo porreiro

Henrique Raposo
7:28 Quinta feira, 10 de abril de 2014

Melhor do que ninguém, José Mourinho percebe que o futebol é um parente afastado do teatro ou do circo romano, ou seja, o nosso homem sabe que a bola tem um fraquinho pela dramaturgia. A corrida genial de terça-feira volta a confirmar esta tese altamente científica. Porquê genial? O homem consegue ser genuíno, inteligente e maquiavélico em apenas trinta segundos. Quando começa a correr, ele está apenas a comemorar como qualquer garoto das bancadas, até dá um pontapé no ar ou numa garrafa azarada.  Mas, cinco segundos depois, já está a pensar de forma racional no sentido de reorganizar a equipa. É por isso que arranca os avançados do cacho de jogadores que está no chão: é preciso transformar Torres e Demba Ba em médios com adversários para marcar e esfolar entre os 87m e os 90+4.

Depois de vinte segundos de inconsciência em relação à atmosfera, o sentido de espectáculo reemerge naquela cabeça e Mourinho começa o seu show de teatro, qual gladiador maquiavélico que sabe gerir as emoções dos seus jogadores e, sobretudo, dos adversários (repare-se que maquiavélico é elogio cá em casa). A forma como deu instruções a Schurrle já tem um lado teatral, o lado de actor que sabe que está a ser filmado para todo o mundo, a face do ícone que assusta o adversário. Trinta segundos de emoção, inteligência e espectáculo calculado, trinta segundos de uma corrida genial de um homem que trabalha como ninguém este circo romano que é a bola.

Mas não se pense que Mourinho é só inteligência e sentido cénico. Nada disso. Não se esqueçam de que os primeiros três segundos da corrida são de pura emoção, a emoção de um garoto ou de um gajo porreiro. Sim, de um gajo porreiro. Vejam a cena entre o nosso homem e Ibrahimovic no final do jogo . Depois de tanta dureza e cálculo, Mourinho revela uma ternura que derrete dois metros de mau-feito sueco; mais um bocado e Zlatan vertia ali uma lagrimita, tal como Materazzi há uns anos. Portanto, se me permitem trinta segundos de chauvinismo, gostava de terminar com outra tese altamente científica: alguém com esta amplitude térmica só podia ser português; sujeito que anda assim entre cálculo e ternura só pode ser português. 

 

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