27 de março de 2015
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Jorge Jesus é Hitchcock, Mourinho é Almodóvar

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António-Pedro Vasconcelos costuma dizer que cinema e futebol são muito parecidos e que a parecença começa nas semelhanças entre realizador e treinador. Percebo e acrescento: os ideais-tipo da relação entre realizador e actores podem ser comparados aos ideiais-tipo da relação entre treinador e jogadores. Por exemplo, Jorge Jesus é Hitchcock. Para o realizador de "Psico", os actores eram gado, o elenco era um rebanho de seres menores que estava ali para completar o puzzle que já estava na cabeça do mestre; os actores eram simples marionetas que ele movimentava a seu bel-prazer, qual Deus todo poderoso da montagem final; a opinião do actor era uma irrelevância, um zumbido no ouvido de Zeus. Jesus treina assim.

 

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Estamos a morrer em câmara lenta

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Chamemos-lhe Jorge. Em 1988, com trinta e poucos anos, comprou um apartamento algures em Sintra recorrendo ao crédito bonificado do cavaquismo. Queria subir na vida, não queria mais conversas com o senhorio, queria cumprir o sonho: ser proprietário da sua própria casa. E assim saiu do velho bairro onde sempre morou e onde tinha a família, a base tocquevilliana de apoio, as redes sociais que interessam, não o Facebook mas as vizinhas em quem se podia confiar as chaves e os miúdos. Dez anos depois, o filho mais velho, João, também comprou uma casa recorrendo do crédito bonificado do guterrismo. 

 

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Quando é que Ricardo Salgado pede desculpa?

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Acumularam uns tostões ao longo de uma vida de trabalho e, naquele maldito dia, resolveram confiar o mealheiro ao gestor de conta do BES, esse indivíduo fatal que lhes garantia, qual vendedor de feira, um produto maravilhoso. Este papel comercial é à confiança, dizia ele, tem uma rentabilidade estupenda e a marca BES, cento e cinquenta anos de seriedade, etc. E assim foi...

 

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Salgado e Sócrates: uma oportunidade

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Vale a pena repetir: o choque e o pavor provocados pelas detenções de José Sócrates e Ricardo Salgado representam a oportunidade para reavaliarmos e reconstruirmos o regime.  A bulldozer da história já passou. Resta-nos reconhecer essa realidade e arrumar a casa numa versão política da destruição criativa. A meu ver, esta reconstrução tem duas grandes faces: a primeira está ao nível da moral e da linguagem do debate público, a segunda é institucional. 

 

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Sócrates: criminoso ou inimputável

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Se Salgado é criminoso ou um sujeito que não sabe contar pelos dedos da mão, Sócrates é criminoso ou o político mais amoral da história da democracia portuguesa. Estamos a falar de um homem que recebeu em dinheiro vivo cerca de 670 mil euros no espaço de um ano. Quem é que vive assim? Qual é o cidadão normal que vive assim? Como é que alguém ainda tem o nervo e o estômago para defender um ex-primeiro-ministro que recebe dinheiro vivo em malas? Continuar a defender este homem significa entrar de vez no campo que sempre determinou a acção socrática: a amoralidade absoluta. Repare-se que não digo imoralidade.

 

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O avatar de José Sócrates

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O advogado de José Sócrates está ao nível do velho Cais do Sodré. Não surpreende: José Sócrates foi um político que se definiu pela má-criação; aliás, através dos seus cães de fila espalhados por meia Lisboa mediática, Sócrates conseguiu a proeza de transformar a evidente má-educação num atributo político. Era assim que as coisas funcionavam no tempo socrático: de repente, aquele indivíduo rude que espumava raiva pelos cantos da boca era elevado à condição de "animal político" por uma caterva de comentadores embevecidos. Não, não era um animal político, era só um político mal-educado e sem respeito pelos interlocutores. Neste sentido, o Dr. Araújo é a perfeita representação socrática. Quando apelida os jornalistas de "canzoada", Araújo não está a rasgar com a tradição socrática, está a segui-la.

 

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As barrigas de aluguer de Elton John

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As declarações de Dolce e Gabbana e a histérica resposta de Elton John merecem mais do que uma troca de obuses na pífia artilharia do twitter. A barriga de aluguer é um tema moral que não pode ficar preso no mercado da indignação ou do engraçadismo. Vamos então por partes. Em primeiro lugar, o que irrita Elton John e todos os autoproclamados líderes da comunidade gay é a heterodoxia de Dolce e Gabbana, dois gays que não dizem o que é suposto. Ver dois estilistas gay a criticar a adopção gay é como ver uma freira a patinar no terço.

 

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Quando Israel é um problema

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Em Paris, após o atentado terrorista, Benjamin Netanyahu comportou-se como um garoto mal educado e ensimesmado, qual narciso convencido da sua missão milenar. Naquele domingo da marcha, o primeiro-ministro israelita visitou a sinagoga de Paris e ousou cantar ali o hino de Israel, já depois de ter pedido aos judeus franceses para abandonarem França a caminho de Israel. Este acto descortês e populista foi silenciado pelos próprios judeus franceses, que começaram a cantar a Marselhesa no momento mais comovente daquele domingo histórico. O episódio não é um pormenor.

 

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Carlos Alexandre "versus" Proença de Carvalho

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Daniel Proença de Carvalho utiliza um institucionalismo límpido e rectilíneo na hora de julgar o sistema de justiça, em geral, e o juiz Carlos Alexandre, em particular. Nesse julgamento institucionalista, o advogado tem muitos pontos a seu favor. De facto, a governança da justiça nunca conheceu o seu 25 de Abril e os magistrados vivem há quarenta anos numa espécie de impunidade corporativa. Em relação a Carlos Alexandre, Proença tem razão quando alerta para o excessivo poder que está concentrado nas mãos deste juiz. Não é mesmo próprio de um Estado de Direito que um tribunal tenha apenas um juiz e Carlos Alexandre foi durante demasiado tempo rei e senhor absoluto do Ticão. Ora, o problema é que Proença não utiliza este rigor institucional quando se vê ao espelho. 

 

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A renda do barraco de António Costa

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Não se pode confiar num homem que já faz birrinha socrática quando os jornalistas fazem perguntas, não se pode confiar num homem que escondeu dos jornalistas um relatório de contas da Câmara Municipal de Lisboa, não se pode confiar num homem que precisou da decisão de um tribunal superior para mostrar esse relatório de contas, não se pode confiar num homem que dá borlas a um clube de futebol naquela esperança chico-esperta de receber o abraço eleitoral de seis milhões de Jorges Máximo, não se pode confiar num homem que transformou partes de Lisboa numa cidade arábica, não se pode confiar no homem que aparece na última história de José António Cerejo, repórter do "Público". Parece que António Costa viveu dois anos num duplex construído contra o parecer da própria Câmara. Mas repare-se que o problema central nem sequer é esta alhada burocrática, mas sim o preço da renda garantido pelo Dr. Costa. 

 

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