19 de maio de 2013 às 9:43
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Voltar a ser sócio do Benfica

Henrique Raposo
7:30 Sexta feira, 17 de maio de 2013

Em duas décadas de pântano futebolístico (1994-2009)  não sofri metade daquilo que tenho sofrido nos últimos dois anos. Durante aquela época negra , o Benfica só aguentava o verão, aquele espacinho entre a primeira e a quarta jornada, altura em que passávamos pelas Antas para a habitual sessão de sodomia com pitons. O Sporting não chegava ao Natal, não era? O meu Benfica pós-Artur Jorge não durava até ao verão de São Martinho. As castanhas já vinham com um encolher de ombros. Não havia sofrimento, havia resignação. O sofrimento implica falhar num momento de decisão. E nós não tínhamos momentos de decisão, éramos um clube de loseiros, habituados a ver os momentos de decisão dos outros. Agora as coisas são diferentes. Estas duas épocas estão a doer, porque tivemos o chupa-chupa na mão, porque julgámos que a miúda gira estava mesmo a olhar para nós e, afinal, estava a olhar para o pintas do lado.  

"O que fazer? O que dizer?", perguntavam anteontem algumas sms de amigos. Bom, já pensei em entrar em negação, já pensei em ser do Beleneses ou da Académica para ver futebol na anémica posição papai-mamãe, já pensei em desligar-me da bola, já pensei em seguir o conselho da minha mulher, isso é só futebol, ó doente, já pensei em não ir ao estádio, para quê sofrer, porra?, já pensei em não seguir os jogos pela tv, até poupávamos dinheiro, ouviste?, já pensei, no fundo, em cortar o cordão umbilical com o meu relógio biológico . "Para quê sofrer com isto?" parece ser uma pergunta tão lógica, tão certa, tão cartesiana, não é? Pois, mas acho que vou fazer exactamente o contrário, acho que vou voltar a ser sócio do Benfica. A solução é apanhar os pedaços do velho cartão de sócio que rasguei aquando do advento de Vale e Azevedo, a solução é não pensar no número de pacotes de fraldas que posso comprar com 120 euros. Sim, depois de quarta-feira, a única resposta aceitável passa por regressar ao rebanho oficial. O sacaninha do Bélla Guttman não se pode ficar a rir. 

 

Da série "O Benfiquista Terminal"

Paz de Cristo no Estádio da Luz 

O Benfica é o D. Sebastião em Chuteiras

Benfica e o medo de ser feliz 

Benfica, o meu relógio biológico 

FMI no Benfica

Veloso & Grécia

Ser do Benfica é ver D. Sebastião no Emerson

A troika do Cardozo

Os benfiquistas têm a memória curta

O guarda-redes do cinema   

Os miúdos do Benfica morrem sempre na praia

Os jogadores do Benfas foram bonzinhos

Lançar OPA sobre jogadores do Sporting   

 Aimar é como um Alfa Romeo

Última hora: o golo de Matic faz disparar PIB   

Cardozo e a Catedral de Leverkusen   

 

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Cavaco Silva, um político cobarde

Henrique Raposo
8:00 Quinta feira, 16 de maio de 2013

No dicionário da língua portuguesa, com ou sem acordo, só há uma palavra para descrever a acção política desse grande presidente de junta chamado Cavaco Silva. A palavra é cobardia. Muitos políticos à esquerda, assim ao estilo de Alegre ou Arnaut, nem sequer percebem aquilo que se está a passar. As suas declarações têm o lastro da inconsciência. Com Cavaco Silva, o assunto muda de figura. O sôr presidente sabe que os problemas existem, mas não tem coragem para os enfrentar. Resultado? Na hora h, coloca-se sempre ao lado da reacção às medidas difíceis, toma sempre o lado do status quo que está a afundar Portugal. Pior: tem a presidencialíssima lata de legitimar essa posição reaccionária com um suposto patriotismo. Cavaco julga que fala em nome da pátria, ou melhor, julga que a pátria fala através da sua esfíngica figura. Lamento, mas os discursos de Cavaco Silva não são a tradução do estado da alma da pátria. Aliás, as declarações do Presidente Cavaco Silva representam, cada vez mais, a visão pessoalíssima do reformado Cavaco Silva.

Eu não acredito que Cavaco Silva não sabe como é que funciona o sistema de segurança social em Portugal . Portanto, quando diz que as pensões são intocáveis, o Presidente não está a negar o problema através da inconsciência. Está a negá-lo através da cobardia política. Cavaco não quer ficar com o ónus que resultaria da seguinte declaração: "caros reformados, lamento mas os sistemas de segurança social deixaram de ser sustentáveis e justos; dizer o contrário é estar a enganar as pessoas". No fundo, o inquilino de Belém não quer ser um dos mensageiros do mal, porque sabe que a maioria das pessoas vai odiar o mensageiro e fingir que o mal não existe. O que é uma pena. Este tempo delicado pedia um Presidente com uma coragem à Silva Lopes. Sim, o Presidente da República Portuguesa devia ter a coragem de dizer que as reformas mais altas têm de ser cortadas, porque a geração grisalha não pode continuar a asfixiar o presente e, acima de tudo, o futuro das gerações mais novas. Mas, lá está, Cavaco está mais interessado na sua popularidade. E - pior ainda - continua a dar a impressão de que está mais preocupado com a intocabilidade da sua pensão do que com a resolução do problema geracional da segurança social.    

Ainda por cima, o seu discurso recorre a um vago "grupo social", os "reformados". Com esta artimanha, Cavaco procura criar a imagem do pobre velhinho a sofrer um corte na reforma de 400 euros. Sucede que esta imagem não corresponde à realidade. Os cortes nos subsídios de férias que foram negados pelo TC abrangiam apenas 10% dos reformados, aqueles que recebiam uma pensão acima dos 1300 euros. E, agora, qualquer plano decente de cortes tem de obedecer ao princípio da progressividade. Por outras palavras, os grandes alvos dos cortes eram e continuam a ser as reformas de Cavaco Silva e demais reformados de luxo. O velhinho dos 400 euros não entra nesta história. Não entra, mas tem dado jeito à demagogia de Bagão Félix, Ferreira Leite e Cavaco Silva, o presidente dos Drs. Pinhais desta vida. 

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Os filhos da despesa

Henrique Raposo
7:45 Quarta feira, 15 de maio de 2013

A Tempo e a Desmodo - Os filhos da despesa

O general Garcia dos Santos (oficial do 25 de Abril e do 25 de Novembro; chefe da casa militar do Presidente Ramalho Eanes) relata aqui as reuniões entre Ramalho Eanes e os partidos (1976-1979). No prefácio, Joaquim Aguiar afirma que estes relatos têm o dom olímpico da neutralidade e o odor da inocência. Com o devido respeito, não compro a tese. Ninguém é neutro, ninguém é politicamente virgem, essa maçã é sempre comida até ao talinho. Sim, é verdade que Garcia dos Santos apresenta um relato sequíssimo, quase em modo excel, de factos e declarações. Também é verdade que ninguém pode fugir a esta lista de dados concretos. Porém, qualquer encadeamento de factos já tem em si mesmo uma visão pessoal. Não existe neutralidade olímpica, existe apenas honestidade intelectual. Neste sentido, Apontamentos Políticos - Eanes e os Partidos é um contributo honesto para a compreensão dos primeiros anos deste regime.

E apetece dizer que os anos fundadores não foram muito diferentes do tempo que estamos a viver, o tempo que está a mostrar a falência de uma maneira de fazer política. Ou seja, a semente do diabo que estamos a sentir em 2013 já estava plantada em 1976-1979. Que semente é essa? A prevalência absoluta do cálculo táctico. Ao longo destes quatro anos de reuniões, há uma coisa que salta à vista: ninguém estava muito interessado em discutir os problemas do país; o permanente jogo palaciano entre os partidos abria um abismo entre o sistema partidário e a realidade financeira, económica e social de Portugal. É como se a nação concreta fosse uma questão secundária para os partidos. Perante este divórcio quase cómico entre partidos e realidade, confesso que apanhei uma espécie de susto retroactivo: o país andava ao deus dará, em roda livre, porque ninguém queria assumir o ónus das escolhas governativas que poderiam evitar o colapso. As raras conversas sobre a governação concreta eram rapidamente remetidas para slogans vagos. Cunhal não era o único a usar a cassete.

Estes primeiros anos criaram assim o absurdo paradoxo que marcou até hoje a vida da III República: aqueles que deviam ser os primeiros a percepcionar os problemas concretos são, na verdade, os primeiros a recusar ver esses problemas. Em consequência, a entrada do FMI em 1977 (e depois em 1983) foi apenas a conclusão óbvia deste estado de coisas. O país tornou-se ingovernável, porque a governação não era o business dos partidos. O seu business era a sobrevivência eleitoral, a conquista da posição-charneira dentro do sistema partidário (não se percebe o PS sem esta ideia em mente ) e a captura do aparelho de estado. E, importa frisar este terceiro factor, porque os partidos precisavam do estado para sobreviver. Porquê? Num livro fundamental, Carlos Jalali explicou que, ao contrário dos seus congéneres europeus, os partidos portugueses tinham uma reduzida base social, não eram emanações da sociedade civil . O seu poder advinha da infiltração e duplicação das estruturas do estado. Para mal dos nossos pecados, os partidos aprofundaram este adn ao longo das décadas seguintes. Com prazer e proveito, os aparelhos partidários aprenderam a responder apenas às ansiedades do estado, afinaram os ouvidos para ouvir somente a frequência emitida pela despesa, a sua mãe. 

 

 

 

 

 

 

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A luta de galarós entre PSD e CDS

Henrique Raposo
7:45 Terça feira, 14 de maio de 2013

Talvez com a excepção de Paulo Macedo, julgo que nenhum dos ministros deste governo tem actuado com a noção de que este é um tempo especial, um tempo que pede uma atitude afastada da habitual politiquinha. Exemplos? A reforma do Estado ficou na gaveta durante dois anos, e agora surgiu por aí um plano de rescisões feito em cima do joelho. Isso não é uma reforma, é um uso adolescente do Excel. Ora, este estado psicológico do governo revela que os dois partidos da direita não se prepararam para este tempo anormal. Aliás, PSD e CDS têm mantido uma irritante normalidade no campo da baixa intriga palaciana, esse desporto de tempos calmos, chatos e de bolso cheio. Às vezes, esta AD até parece uma "luta de galarós acabadinhos de sair do ovo", para citar o meu avô Chico.

O problema, atenção, não está nas divergências substantivas entre os dois partidos. Como defensor de governos de coligação, só posso ficar contente com a existência dessas divergências. Prefiro o pluralismo da coligação à ditadura de quatro anos de um partido. O problema está, isso sim, nestas constantes encenações e traições para jornalista reportar. O problema está nos conselhos de ministros encenados e nas declarações pomposas. O problema é este constante jogo táctico que procura tramar o parceiro de coligação junto dos média e do eleitorado. Ou seja, as tropas de Passos e de Portas têm feito o habitual jogo da politiquinha numa altura em que a realidade do país é alérgica à politiquinha. Razões para este clima? Os laranjinhas ainda vivem no tempo mental do cavaquismo e, por isso, ficam irritados com a necessidade de um parceiro. Os azulinhos têm o complexo do sobrevivente e acabam por minar certos esforços do governo, porque acham que medida x pode recambiar o CDS para a praça de táxis. Mas o maior problema está a cultura política pessoalista ou lealista

Não existem diferenças substantivas entre CDS e PSD. Os dois partidos têm a mesma combinação de liberais, conservadores, democratas-cristãs e gajos que são aquilo que o chefe quiser. As pessoas do PSD podiam ser do CDS e vice-versa. Aquilo que os distingue são os laços de lealdade aos diferentes chefes. É só isso. E este clima de intriga permanente dentro do governo revela precisamente isso: os laranjinhas e os azulinhos têm sido leais às necessidades tácticas dos seus chefes e não às necessidades estratégicas do país. Pior: enredados na teia palaciana, laranjinhas e azulinhos não percebem que a guerra civil dentro do governo cria um enorme cansaço junto da população. Aliás, os galarós do CDS e do PSD deviam perceber que a guerrinha interna tira tantos ou mais votos do que as medidas difíceis. 

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Jorge Miranda acha que o meu dinheiro é dele

Henrique Raposo
8:00 Segunda feira, 13 de maio de 2013

O constitucionalíssimo Jorge Miranda, um dos grandes reaccionários do actual momento da pátria, resolveu considerar a pensão de reforma como algo equivalente à propriedade privada. É um pouco triste, mas neste país constitucionalíssimo ninguém parece interessado em vasculhar o baixo mundo da matéria, a realidade concreta e suja da vidinha. Tal como milhares de outros reformados ou de pessoas a caminho da reforma, Jorge Miranda não conhece o funcionamento do modelo de segurança social existente em Portugal (quer na CGA, quer no regime geral). Não sabe ou não quer saber, e por isso cai neste reaccionarismo que recusa qualquer mudança no status quo. Um status quo que, repita-se, só beneficia a geração de Jorge Miranda, Ferreira Leite, Bagão Félix, etc.

Tal como existe em Portugal, a segurança social é um sistema estatal que obriga os cidadãos a fazer x descontos. Repito: é estatal e obrigatório. Além disso, os descontos do cidadão Jorge Miranda não ficam anexados a uma conta pessoal e intransmissível. Era bom que assim fosse, mas não é assim que o sistema funciona (aliás, aposto que Jorge Miranda consideraria inconstitucional um sistema de segurança social que criasse contas individuais e capitalizadas). Nesta realidade colectiva e a milhas da noção de propriedade privada, os descontos do contribuinte Jorge Miranda são atirados para um saco comum que alimenta quem já está reformado. Quando chegar à idade da reforma, Jorge Miranda dependerá dos descontos da geração mais nova. Ou seja, a pensão do dr. Miranda dependerá da propriedade privada de outrem. Sim, é isso mesmo: em Portugal, a pensão de reforma não é propriedade privada do reformado, porque depende da propriedade privada de quem está a descontar. As reformas destes sistemas colectivos que nos apascentam não são Planos de Poupança e Reforma (PPR).

E este é precisamente o centro da falácia de Jorge Miranda: o Sôr Doutor Constitucionalíssimo está a pedir um efeito capitalista para uma causa socialista, está a pedir uma protecção individual para algo que foi sempre colectivo, está a ver um PPR privado onde só existe um saco colectivo. Ora, um PPR é mesmo propriedade privada, porque o seu proprietário colocou dinheiro numa conta pessoal abrangida pelo direito de propriedade. Aquele dinheiro existe mesmo, não é um cálculo virtual. Ao invés, as pensões dos sistemas colectivos são meros cálculos virtuais que não resistem à frieza dos números do PIB e da demografia. Com a crescente redução do número de trabalhadores e de jovens e com o crescente aumento dos reformados, o valor das pensões tem mesmo de descer. Menos pessoas e um PIB a diminuir não podem continuar a pagar pensões calculadas num cenário que contava com mais gente e com um PIB sempre a subir. Ou será que quem tem menos de 50 anos está destinado a trabalhar apenas para aquecer, isto é, para pagar impostos e segurança social? E a Constituição nada diz sobre a ausência de dinheiro para as reformas dos mais novos em 2030 ou 2040? Onde é que está o contrato entre gerações? 

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A maravilha que é um padre falso

Henrique Raposo
8:00 Sexta feira, 10 de maio de 2013

A Tempo e a Desmodo - A maravilha que é um padre falso

Há dias, aterrou na Vila do Coronado (Trofa) um tal de Manuel Martins Leite. Brasonado com um "Dom" antes do nome e decorado com uma cruz, o sujeito chegou, viu e disse à população que era figurão da Igreja, estava ali o "Dom" e demais maquilhagem religiosa para o provar. Era tão importante que até estava a construir uma instituição de caridade em São Romão, portanto, se não se importam, meus irmãos, é favor de botar aqui umas moedinhas, Deus não dorme e já tem à sua espera um T2 junto dos anjinhos, minha querida irmã, obrigado pelo cheque. Sucede que Dom Manuel Martins Leite não existe. É uma criação de Fernando Leite Martins, um burlão magnífico. "Sou padre", garantiu ao Jornal de Notícias, mas o vigário oficial garante que não existe nenhum padre com aquele nome em todo o distrito do Porto. 

Fernando Leite Martins, 54 anos, com residência conhecida no lugar de Querelêdo, Covelas, é casado, tem dois filhos e uma história antiga de burlas e falsificações. Anda nesta vida de wiseguy camiliano desde os anos 80. Entre março de 2010 e julho de 2012 esteve preso em Paços de Ferreira por burla qualificada. Uma repetição do filme de 2005. Nessa altura, o tribunal de Caminha condenou-o a três anos de cadeia, que, ora essa, não cumpriu. Porquê? Porque já estava a cumprir outra pena relacionada com um crime parecido.  E, atenção, este crime é delicioso: em 1998, Fernando Manuel colocou um cabeção (aquela coisinha branca do colarinho dos padres, a gravata teológica, portanto) e comprou uma autocaravana com um cheque careca de 2 mil contos. As burlas soam melhor em contos, não é?

O mais engraçado é que Fernando Martins não é o primeiro padre falso a passar pelas terras da Trofa. Aliás, ao pé do sujeito que se segue, o nosso Fernando é um menino. Em 2004, Agostinho Caridade chegou à terra usando o pseudónimo maravilhoso de D. João Luís Amorim. O Padre Amorim fez casamentos, baptizou crianças e, claro, gatunou os fiéis mais incautos em alguns milhares de euros. Outra instituição de caridade em São Romão? Em 2007, o Padre Amorim, isto é, Agostinho Caridade foi finalmente detido em Santo Tirso enquanto baptizava um bebé. Camilo ia gostar de saber que o seu país ainda está de pé.

PS: se quiser fazer uma comédia, João Canijo tem aqui o material. O argumento escreve-se sozinho. 

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Mãe mata filhos: o pronto-a-pensar não explica

Henrique Raposo
8:00 Quinta feira, 9 de maio de 2013

A Tempo e a Desmodo - Mãe mata filhos: o pronto-a-pensar não explica

Neste número da Brotéria, Henrique Monteiro apresenta um ensaio intitulado 'No Princípio era o Verbo". Mote? Sem complexos jacobinos, Monteiro segue uma deixa do ex-Papa e critica a "recusa do silêncio" desta "sociedade de ruído" que "pretende ter resposta para tudo".  Por outras palavras, o jornalista Henrique Monteiro critica o jornalismo contemporâneo que procura respostas instantâneas para tudo e mais alguma coisa. É importante fixar este raciocínio ratzingeriano, porque existe, de facto, a seguinte marca na comunicação social: os problemas são apresentados como meros pretextos para a imposição de explicações que já estão à espera na prateleira das "respostas certas"; é como se as soluções existissem antes dos problemas. Ou seja, está sempre à mão de semear um pronto-a-pensar que torna a realidade numa coisa fácil de digerir; nas TVs, rádios e jornais, chovem especialistas "científicos" que transformam o real numa espécie de Cerelac sociológica. Curiosamente, estes mingaus pseudo-científicos são sempre variações da vulgata marxista, isto é, têm uma natureza exclusivamente económica. O indivíduo é transformado numa folha inerte ao sabor dos ventos que sopram da sua conta bancária. 

Querem exemplos? Quando surge uma notícia de um assalto, a explicação vai sempre calhar à crise, ao "as pessoas estão aflitas". Mas olhem só para este azar dos Távoras: a criminalidade baixou em 2012. Mais? Há uns meses, surgiu a notícia mais dramática: "mãe mata filhos e suicida-se". De imediato, os jornais encheram-se de especialistas a garantir que a causa do sucedido era a crise e uma hipotética instabilidade profissional (a senhora era professora). Perante esta pressa submarxista, há que colocar duas perguntas. Primeira: onde é que está a humildade dos especialistas e dos jornalistas perante a tragédia? Porque é que querem de imediato uma explicação bem explicadinha para algo tão complicadinho? Segunda pergunta: qual é a explicação para estas tragédias na ausência da crise? Antes da crise, não existiam tragédias desta natureza? Claro que existiam. A vida das pessoas é um pouco mais misteriosa do que a sua carteira. Nós não somos a nossa conta bancária, e fazemos coisas que não se explicam pela existência ou inexistência de cheques carecas em cima da mesa. 

Moral da história? Certos episódios não têm uma explicação económica, material, mensurável. Nós não sabemos porque é que um velho fica abandonado dois meses na morgue. Só podemos (e devemos) narrar essa tragédia, evitando explicações coladas a cuspo . No fundo, o jornalismo moderno, cá e lá fora, precisava de uma dose daquela humildade narrativa do velho jornalismo que contava 'estórias' sem pretender explicar as coisas de forma científica.  Sim, falta-nos um jornalismo mais encostado à ambiguidade literária do romance e menos devedor da certeza do abstract. Malta que só lê abstracts fica desarmada perante aquilo que Henrique Monteiro apelida de "imperscrutável". Eu prefiro chamar-lhe o mistério da tragédia, presença do mal, ou ambiguidades da vidinha. 

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A mulher que matou Salazar

Henrique Raposo
8:00 Quarta feira, 8 de maio de 2013

A Tempo e a Desmodo - A mulher que matou Salazar

Bruno, começo por dizer que Alexandra Alpha é a minha única paixão dentro da obra de Cardoso Pires. Noutros livros, encontrei obviamente muitas passagens brilhantes, porque Cardoso Pires domina, entre outras coisas, a arte do diálogo - coisa rara na ficção portuguesa. Além disso, ele define personagens com pontaria de Guilherme Tell. Bastam duas ou três setas para a personagem cardosopirista entrar na nossa cabeça já completamente formada. Um exemplo de O Anjo Ancorado: "À rapariga tremiam-lhe os dedos. Tinha-os queimados do tabaco, e eram secos, maltratados, até. Isso queria dizer insónias, arrelias de alma, vida de pessoa só. Percebendo os dedos, lendo-os por fora, o homem ao findar o serão falou-lhe como se deve falar a uma rapariga assim". A passagem é boa, sem dúvida, mas repito: o livro não me agarra, não me fascina, não me apanha de frente, e a ficção ou é uma colisão frontal ou não é. Foi assim com Anjo Ancorado, Jogos de Azar, Delfim, República dos Corvos, etc. O cenário só mudou com Alexandra Alpha. Este, sim, foi essa colisão frontal.

Tal como dizes neste verdadeiro Google Maps da literatura portuguesa, Alexandra, a publicitária da Alpha Linn, é a plataforma giratória de uma galeria notável de personagens que ilustram a sociedade portuguesa dos anos 60 e 70. Está lá tudo: o queque de esquerda dado às "pedantices francófilas", para usar uma expressão tua; o jovem padre contestatário, representante dos católicos progressistas liderados espiritualmente por Ruy Belo; a professora que transfere a frustração amorosa para a mensagem de ódio do PCP; as "amigas malfodidas" que parecem representar um país de malfodidos (Alexandra é a única pessoa bem resolvida naquele Portugal); o marialva do Alentejo (o tio Berlengas) e o marialva de Trás-os-Montes (Sebastião Opus Night), dois Palma Bravo mais interessantes do que o Palma Bravo original, dois representantes da ordem social derrotada pelo 25 de Abril. O conjunto sociológico é notável. Aliás, atrevo-me a dizer que Alexandra Alpha está para os anos 60 e 70 como Sinais de Fogo está para os anos 30. É um fresco da sociedade que fez a transição do Estado Novo para a democracia. E tudo isto é regado com a técnica do monólogo. Alexandra Alpha é uma gigantesca teia de dezenas de monólogos distintos, algo que, porventura, influenciou o nosso Francisco.

Neste fresco, qual é o papel concreto de Alexandra? Tal como salientas, a sua independência financeira e emocional (recusa o casamento, cuida do filho do seu amante brasileiro, é soberana na cama, "amande-se mesmo à pai Adão") metia medo aos homens do antigamente, a começar pelo tio, e às mulheres da geração anterior, a começar pela mãe. Ou seja, Alexandra representa a geração de mulheres que matou o salazarismo. Emancipadas pelo trabalho e pela pílula, as Alexandras, entre elas a minha mãe, destruíram a base social daquele autoritarismo versão marialva .

Mas este fresco histórico é apenas a carapaça. Sem uma personagem forte no seu centro, Alexandra Alpha seria um relato sociológico e não um romance. E, meu caro amigo, Alexandra é mesmo um íman literário. Queremos estar com ela, queremos aqueles "seios precisos", aquelas "coxas densas", aquele robe desleixado, mas, acima de tudo, queremos aquela cabeça dentro da nossa cabeça. Durante as dezenas e dezenas de páginas dedicadas às personagens secundárias, perdemos o rasto a Alexandra e isso, confesso, deixa-me angustiado. Acho até que escrevi à margem qualquer coisa como "ó Cardoso Pires, onde está a nossa mulher?" E por que razão Alexandra é tão poderosa literariamente? Haverá muitas respostas, mas a minha está na página 114 do teu livro: quando começa a sentir amor por aquele jovem oficial do ultramar, Alexandra usa de imediato certas memórias para iniciar um processo de desapaixonamento. Nos antípodas da mulher-anjo, Alexandra é a mulher-soberana que sabe desapaixonar-se, um verbo que nós, homens, só concebíamos em cabeças masculinas. Julgávamos que o segredo era só nosso. Gandas meninos.  

 

Da série "Cartas a amigos"

O purgatório dos retornados

Profeta de um Portugal secreto 

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Caro Paulo Portas, a sua democracia-cristã quer reformados sem netos?

Henrique Raposo
8:03 Terça feira, 7 de maio de 2013

Caro Paulo, também há coisas que não posso deixar passar. A democracia cristã é uma forma de encararmos os problemas, não é uma forma de negarmos a existência desses problemas. Lamento, mas na questão dos reformados a sua democracia cristã está a ser um instrumento clássico de denial. No domingo, como em todas as encenações de denial, V. até deixou cair um tom de superioridade moral supostamente garantida por um rótulo (democrata-cristão) visto como superior em relação a outros rótulos. Só lhe faltou invocar a patranha do "neoliberalismo".  Mas eu até percebo a encenação. Os reformados são um mercado eleitoral que convém ocupar, até porque votam sempre, ao contrário dos mais novos. E este imenso poder eleitoral reforça a grande questão: o "direito adquirido dos pensionistas" é o último dos grandes tabus do regime. Mas, meu caro Paulo, lembre-se que a queda em curso dos "direitos adquiridos do funcionalismo público" é apenas o prelúdio da queda do tabu grisalho. E, se continuar a ouvir os Barões Félix, temo que V. fique do lado errado aquando da queda do muro.  

Repare numa coisa: não se trata de libertar os mais novos de quaisquer encargos para com os mais velhos. Nada disso. O contrato entre gerações deve ser respeitado. Como já disse várias vezes, estou disponível para continuar a alimentar uma segurança social que não vai estar lá quando chegar a minha vez. Mas, em compensação, exijo um abrandamento e diminuição do peso da contribuição. Ora, como o peso tem aumentado sistematicamente e como continuará a aumentar devido ao inverno demográfico e devido à resistência aos cortes, parece-me evidente que o contrato entre geração foi rasgado em benefício claro e abusivo de quem já tem reforma. Quem tem entre 20 e 50 anos está num limbo desprotegido (paga para algo que não existirá no futuro) e, acima de tudo, este esquema põe em causa a geração mais importante de todas: aqueles que ainda estão por nascer. Repare noutra coisa, caro Paulo: à semelhança de milhares e milhares de outros casais, eu e a minha mulher damos dinheiro à segurança social e, logo a seguir, temos de alimentar o nosso esquema particular de segurança social. Ou seja, suportamos duas seguranças sociais. E agora faço-lhe uma pergunta: pagando duas seguranças sociais (mais impostos, taxas e afins que V. também não cortou), como é que podemos ter mais filhos? É triste: o seu discurso parece ignorar este drama, o drama dos casais mais novos, aqueles que ainda podem ter filhos, aqueles que podem dar algum futuro ao país. À semelhança de muitos outros profissionais da negação e do respeitinho, V. só consegue ter um discurso para os mais velhos. Ao proteger este desequilíbrio, a sua democracia cristã está a contribuir para a perpetuação desta sociedade de neto único.

Para terminar, confesso que não percebi qual é a sua objecção concreta. O meu caro amigo não quer a indexação óbvia do valor das reformas às oscilações da economia, tal como existe na Suécia? Diga-me, por favor, que não é isto. Ou será que não quer outro tipo de taxa/corte estrutural no valor das reformas? Eu compreendo a nega a cortes nas pensões baixas, mas não admito a resistência a cortes em pensões acima de x. Aliás, no estado a que chegámos, este é o único debate aceitável: a definição do valor a partir do qual as reformas devem ser cortadas de forma progressiva. 1000 euros? 1350 euros? Não sei, é um debate a fazer. Mas iniciar os cortes nas pensões acima dos 1350 euros parece-me justo. Sim, justo: não só para os mais novos que têm de suportar o sistema, mas também para aqueles pensionistas que recebem 300 euros.

PS: se me permite, continuarei este diálogo semi-imaginário, porque o interlocutor merece respeito, e porque o tema é demasiado importante para ficar nas mãos dos Barões Félix. 

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Caro funcionário público, os outros trabalhadores é que deviam estar indignados

Henrique Raposo
7:46 Segunda feira, 6 de maio de 2013

Caro funcionário da República, as organizações que representam V. Exa. já estão a fazer um banzé sindical contra as medidas tomadas pelo governo. Dizem que estão indignados e não sei quê. Ora, eu gostava de salientar uma coisa: nesta história, a indignação não devia estar nos funcionários públicos; devia estar, isso sim, nos restantes trabalhadores. O comum dos mortais, trabalhador normal, as pessoas que trabalham em empresas privadas é que deviam andar de manif em manif. Porque a questão central não é "por que razão o governo cortou direitos aos funcionários públicos?". Nada disso. A pergunta certa é outra, a saber: "por que razão os funcionários públicos acumularam durante décadas estes privilégios?". Essa é que é a questão. Aliás, é por isso que a equivalência entre V. Exa. e trabalhador privado só peca por tardia.

Por que razão o cálculo da pensão da sua CGA era mais generoso do que o cálculo da pensão do regime geral? Porquê? Por que razão uns tinham reforma de filhos e outros reforma de enteados? Esta discrepância logo à partida é que é razão para indignação, meu caro amigo. A equiparação prometida na sexta por Passos é da mais elementar justiça. Por que razão trabalha V. Exa. menos 5 horas semanais do que os trabalhadores dos sectores privados? Pior: além de trabalhar menos horas, ainda tem direito a mais dias de férias. Porquê? Que razões podem justificar estes privilégios injustificáveis? Que aritmética laboral pode justificar esta diferença entre V. Exa. e a restante população? Que equidade pode existir aqui? E, já agora, a falta de equidade vai continuar a marcar a ADSE. Mesmo com o aumento da sua contribuição, aposto que a ADSE continuará a ser deficitária, ou seja, V. Exa. continuará a usufruir de um seguro de saúde pago pelo dinheiro de todos. Cá fora, as pessoas pagam os seus seguros de saúde na totalidade, mas o meu caro amigo teve durante décadas um seguro de saúde financiado pelos impostos de toda a gente. E, apesar das mexidas, o dito seguro continua de pé. Porquê?

Portanto, meu caro amigo, esta é a verdadeira indignação da sociedade portuguesa: por que razão tinha o funcionalismo público estes privilégios? É uma indignação sem manifs, porque o sindicalismo que existe é o sindicalismo da função pública e das empresas públicas. E este sindicalismo vai passar a semana a gritar "assalto a direitos". Não, meu caro. Assalto a direitos é aquilo que existia até agora. A discrepância injustificável entre público e privado é que era um assalto. 

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