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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta feira, 16 de maio de 2012
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Que êxtase de efusões e fluidos progressistas, meu deus. Que alegria. Hollande ganhou. Hollande esmagou. Porque a esquerda, a nossa gloriosa esquerda, ganha sempre por quinzeazero, mesmo quando ganha apenas por um golo à Vata (51% vs. 49%). Há uns mesinhos, a direita espanhola goleou (44% vs. 28%), mas, ora essa, semelhante insignificância não merece destaque. A direita nunca ganha mesmo quando ganha e, no limite, é a esquerda que permite, num ato de misericórdia, as vitoriazinhas da direita. Fixemos, portanto, o nosso olhar no glorioso Hollande, o Roosevelt da Europa, o Gandhi de Paris, o Dalai Lama do Euro.
Eles agora vão ver como elas mordem. Em oposição à austeridade, que resulta somente da maldade intrínseca que eles têm, Hollande iniciará uma política de crescimento, que resulta da bondade intrínseca das almas progressistas. Perante este milagre prestes a ganhar forma, eles, os caciques neoliberais, começaram logo a fazer perguntas idiotas, a começar por esta: "mas onde é que Hollande vai buscar o dinheiro para fazer a tal política de crescimento?". Onde? Ora, não sei. Isso são pormenores técnicos, isso é política de merceeiro. Um grande político não olha para essas coisas menores. Um grande político tem apenas de demonstrar vontade política. "Mas se a França está endividada como é que Hollande pode fazer política com mais dívida?". Ora, ora, os mercados só têm de emprestar o dinheiro. Aquele famoso slogan ("a política está em primeiro lugar") quer dizer exactamente isso: queiram ou não queiram, os capitalistas têm que emprestar dinheiro para que a malta continue a fazer as políticas de esquerda; queiram ou não queiram, os mercados só têm de financiar os novos 60 mil funcionários públicos prometidos por Hollande. Os quinzeazero da democracia é que contam.
E, caso não consiga vergar os mercados, Hollande vergará Merkel. O BCE tem de começar a imprimir dinheiro para dar aos Estados. "Mas a solução da esquerda é impor uma vaga de inflação?". Sim, a inflação pode ser a nova utopia. Se não conseguirmos obrigar os mercados a emprestar dinheiro à política, temos de começar a imprimir dinheiro. "E o empobrecimento gerado pela impressão constante de euros?". Coisa menor, caros cafres neoliberais. As pessoas até podiam começar a fumar uns charritos em notas de 500, mas isso seria um pormenor sem importância perante a emancipação da política: os Hollande desta nossa Europa teriam finalmente acesso às rotativas do BCE e, desta forma, o sonho dos quinzeazero continuaria vivo. Sim, lutemos por esta utopia que se esconde, tímida e casta, atrás da inflação.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Terça feira, 15 de maio de 2012
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Diga o que disser, o primeiro-ministro será sempre criticado. Diga "ai" ou diga "ui", as declarações de Passos serão sempre descontextualizadas no sentido de criar uma imagem de desumanidade. Um primeiro-ministro de direita é, como se sabe, desumano e quiçá nazi. O mesmo mecanismo narrativo está presente na análise ao trabalho de muitos ministros. Faça o que fizer, Paulo Macedo será sempre o neoliberal frio e quiçá fascista. Ontem, por exemplo, as TVs só deram uns segundinhos a este pormenor: mais uma vez, Paulo Macedo conseguiu vergar a indústria farmacêutica. A indústria vai aceitar a poupança de 300 milhões na factura dos medicamentos hospitalares. Por que razão não se fala disto com o devido destaque? Porque, como toda a gente sabe, Paulo Macedo é um monstro calculista, e um sujeito que só está interessado em beneficiar os privados da economia da saúde.
Este silêncio mediático em relação à gestão de Paulo Macedo não é novo. Há uns meses, o ministro mudou a fórmula de cálculo do preço dos medicamentos nas farmácias, baixando significativamente a factura para os doentes e SNS. Os preços praticados em Portugal estavam baseados numa média referente a Espanha, Itália, França e Grécia. Essa fórmula foi alterada através da introdução de países com um PIB per capita mais próximo do nosso (ex.: Eslovénia). Resultado? Em 30 de Setembro, o Negócios dizia que alguns remédios até podiam baixar cerca de 50% (ex.: o Plavix passaria de 48 euros para 22). Nos entretantos, Paulo Macedo contrariou providências cautelas da indústria, forçando a entrada de mais genéricos no mercado. Estes factos, como se sabe, têm pouca importância na vida das pessoas, logo, não tiveram impacto digno de registo nos média. Paulo Macedo é um dos maus, logo, não se podem apresentar peças que contrariem essa maldade intrínseca.
Em menos de um ano, Paulo Macedo cortou os lucros das farmácias e da indústria farmacêutica, dois dos tais lóbis impossíveis de domar. Antes disso, o contabilista sem respeito pela vida humana forçou uma diminuição do preço nas clínicas privadas que fazem exames em parceria com o SNS. Quem diria? O tal ministro dos privados fez um corte histórico nos lucros dos privados. Deve haver aqui uma cabala neoliberal, é o que é. Pelo sim e pelo não, acho que os indignados deviam fazer uma manif para defender a indústria farmacêutica e as clínicas dos avanços do contabilista desumano.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda feira, 14 de maio de 2012
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Os magos matemáticos do mundo financeiro não são os únicos culpados pela crise de 2008, mas estão, sem dúvida, no pódio da culpa. Estes geeks dos modelos matemáticos criaram um mar de dinheiro irreal, sem relação com a actividade económica. Este planeta da abstracção financeira, habitado por algoritmos e derivados, chegou a ser 40% mais rico do que o PIB real do mundo inteiro. Em 2006, o PIB de todos os países do mundo era de 48,6 triliões de dólares, mas o valor de acções e derivados estava nos 67,9 triliões (contas de Niall Ferguson). Os famosos "activos tóxicos" escondiam-se - e escondem-se - nestes 40% de malabarismo financeiro. De forma surreal, esta feitiçaria matemática criou uma torre de marfim que está tão distante de Adam Smith como de Marx. Isto já não é liberalismo ou "capitalismo". Isto é geekismo.
Antes de 2008, os tais modelos matemáticos diziam que uma crise de liquidez era virtualmente impossível. Resultado? A relação entre dinheiro-em-caixa e activos-financeiros-garantidos-por-dívida podia ser de 1 para 19. Foi o que aconteceu à Long-Term, empresa de dois prémios Nobel de Economia, Scholes e Merton. Esta empresa tinha 6,7 mil milhões em depósito, mas possuía 126 mil milhões em bens gerados na ficção financeira. Porquê? Porque os computadores diziam que uma crise de liquidez era uma impossibilidade até ao fim do universo. Problema? Estas fórmulas funcionavam com dados dos últimos cinco anos. Portanto, aquela absoluta certeza científica (repito: a crise do subprime era impossível até ao fim do universo) assentava num cálculo que apenas contemplava dados dos últimos cinco anos. Como é que um cientista pode ser tão irracional? Depois do caos de 2008, um dos geniozinhos da Long-Term disse o seguinte: "se eu tivesse vivido a crise de 1929, estaria em melhores condições para perceber os acontecimentos". Os geeks sabem muito de matemática, mas nada de história. E o habitat da economia é a história, e não a matemática.
Após 2008, seria de supor que esta arrogância científica desaparecesse do centro da finança. Mas isso não aconteceu. Aliás, o cenário ficou ainda mais lunático. De 2008 para cá, os algoritmos aumentaram a sua presença. O que é um algoritmo? É uma fórmula matemática do tamanho de um camião TIR, uma sucessão de instruções matemáticas que cria um mecanismo-que-pensa-por-si, uma máquina que toma decisões sozinha. O sistema de algoritmos (High Frequency Trading - HFT) controlava menos de 25% das transacções dos EUA em 2008; em 2012, já controla 70% das transacções americanas e 40% das europeias. Até parece piada. O factor que nos conduziu ao abismo de 2008 (modelos matemáticos) aumentou a sua dimensão e complexidade. Estamos a curar o doente com mais uma dose da doença. Chegou-se ao ponto em que os fluxos financeiros já não estão em mãos humanas. A matemática em forma de máquina (algoritmo) expulsou os corretores, aqueles humanóides que gesticulavam nas bolsas.
Tal como Jorge Nascimento Rodrigues escreveu nestas páginas, esta situação parece um filme de ficção científica. Eu acrescentaria que tudo isto soa a distopia científica. Quando a venda e a compra de milhões de obrigações é feita num micro-segundo e sem intervenção humana, é sinal de que já estamos num Admirável Mundo Novo, ou seja, já estamos para lá da moralidade humana, a beijar um mundo pós-humano liderado por uma mentalidade técnica e científica que é intrinsecamente amoral. Aliás, esta amoralidade científica ficou evidente numa reportagem do Financial Times (bastante crítica em relação ao domínio do algoritmo no sistema financeiro). Na Terra do Nunca do geek financeiro, a Financial Computing Centre, em Londres, o repórter do FT encontrou um grupo de matemáticos que vive num mundo virtual de fórmulas e linguagem de computador. Muitos destes matemáticos assumem que este paradigma financeiro cria enorme volatilidade, mas também dizem que não estão preocupados com isso. Porquê? Porque só eles podem resolver essa instabilidade provocada por modelos matemáticos. Um dos alunos chega mesmo a declarar que essa instabilidade o coloca "numa situação muito boa". Ou seja, aquelas cabeças criam a doença e o antídoto ao mesmo tempo. Pior: naquelas cabeças, as economias e as sociedades reais não existem, porque tudo é um jogo de abstracção matemática. É chocante a forma como desprezam as consequências que as suas fórmulas têm na vida real (o subprime não lhes pesa na consciência). E tudo isto vem embrulhado na típica arrogância tecnológica da espécie. Um aluno anuncia um futuro em que os bancos serão controlados por algoritmos: "não será precisa qualquer intervenção humana", diz Michal Galas. O facto de a crise de 2008 ter sido causada por esta arrogância informática e matemática é algo que não afecta a fé científica destes indivíduos. Não por acaso, o director da escola, Philip Treleaven, revela a velha snobeira epistemológica das ciências quantitativas. Segundo o rei dos geeks, apenas os algoritmos e demais bicheza matemática garantem um conhecimento efectivo não apenas da finança, mas de qualquer campo de estudo, inclusive música e política ("computational politics"). Esta petulância quantitativa não é nova. O que é novo é o contexto: o centro financeiro do Ocidente deixou-se tomar por cientistas que produzem fórmulas que, como já vimos, são válidas em qualquer parte do universo com a excepção de um lugar: a sociedade humana, a história humana.
O velho debate girava em torno de quem defendia a superioridade moral da economia aberta e em torno de quem apontava o dedo à imoralidade intrínseca do "capitalismo". Sucede que esta finança de geeks e algoritmos não toca no debate moralidade/imoralidade. Porquê? Porque é um sistema intrinsecamente amoral. O seu problema não é a imoralidade da ganância, mas a amoralidade da hubris científica. E isto é um desafio novo. Um desafio que, além de causar desastres financeiros, coloca em causa dois pressupostos clássicos das sociedades liberais. Em primeiro lugar, destrói o princípio da fiscalização. Nós sabemos como fiscalizar a boa e velha ganância dos Gordon Gekkos: a montante, existem reguladores e, a jusante, existem tribunais. Mas como é que se fiscaliza um algoritmo que é incompreensível para 99,9999% dos seres humanos? A opacidade do HFT corrói a necessária transparência e previsibilidade da sociedade liberal. Em segundo lugar, a superioridade da economia aberta, cosmopolita e comercial ("capitalismo" no calão marxista) sempre assentou na sua intrínseca humildade. Adam Smith não inventou nada, apenas constatou um facto: o ser humano procura acumular riqueza para proteger a sua família ("propriedade privada" no calão marxista). Quando desprezam esta simplicidade moral do ser humano, os sistemas económicos falham. O marxismo falhou, porque era um modelo inadequado a seres humanos. Talvez a arrogância científica do marxismo funcione noutro planeta, tal como este mundinho financeiro de geeks e algoritmos.
Ensaio publicado no Expresso de 27 de Abril
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Sexta feira, 11 de maio de 2012
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A saga Batman de Christopher Nolan e a saga Star Wars são alimentadas pela mesma pergunta-base: até onde podemos ir na defesa do Bem? Qual é o limite do Bem? Ante esta pergunta com o seu quê de teológico, Bruce Wayne e Anakin Skywalker encontraram respostas antagónicas. Comecemos por aquele que deu a resposta errada e que, por isso, é o mais interessante: o anjo caído dos Jedi.
Anakin Skywalker vive angustiado com a presença do Bem, com a possível existência de uma salvação absoluta, com a possibilidade de salvar da própria morte aqueles que ama. Foi assim com a sua mãe. É assim com Padmé. E esta obsessão acaba por ser a chave da transformação. Este casulo obcecado com o Bem é a maternidade do medo e do Mal, Darth Vader. Anakin transforma-se em Vader, porque não encontra um ponto de equilíbrio na sua busca do Bem, porque se julga acima de uma necessidade moral: a colocação de limites ao nosso ego moral ("presunção e água benta..."). O Bem desejado é tão absoluto, que Anakin não admite negociações com a realidade e com os outros. Portanto, no meio da fantasia e das naves, a saga Star Wars acaba por ser uma metáfora sobre a natureza do Mal, sobre a raiz do Mal, que, como já vimos, não está no sítio óbvio. Estou certo que Todorov gostou do desenlace da saga mais popular do século XX.
Se Star Wars é uma aula sobre a crença, o Batman de Nolan é uma palestra sobre cepticismo. Ante a pergunta inicial, Bruce Wayne encontrou uma resposta diferente: sim, devem existir limites à busca do Bem. Ao contrário de Anakin Skywalker, Bruce Wayne não se deixa embriagar pelo Bem, não se deixa cegar pelo seu papel de guardião do Bem. Desta forma, O Cavaleiro das Trevas gira em torno dos limites que Wayne coloca a si próprio. E o Joker surge como o teste final a esses limites. O Mal absoluto - Joker - pode legitimar o poder absoluto daqueles que defendem o Bem? Não. Wayne recusa dar o salto de Anakin. O Batman aceita compromissos com a realidade. Aceita, inclusive, ser visto como o mau-da-fita, aceita não ser o herói, aceita não ter a glória que merece. Porque esse é o mal menor, e o mal menor é o melhor que se pode ter num mundo sem acesso ao Bem em absoluto. Santo Agostinho ia gostar muito de O Cavaleiro das Trevas.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Quinta feira, 10 de maio de 2012
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A UE precisava de política. A elite europeia não podia continuar na linguagem apolítica do economês, sem enfrentar os elefantes que estavam na sala: os demos nacionais, os 17 soberanos da Zona Euro, os 17 povos. Não, não estou a invocar aquela lengalenga que proclama o défice democrático, que grita mui indignada "ai, os eurocratas construíram a Europa nas costas dos povos". Nada disso. A UE é composta por democracias liberais, que, de livre vontade, construíram esta confederação (desculpem a pompa semi-kantiana). Então qual é o problema? É que a fase da confederação chegou ao fim. Os próximos passos da construção europeia já são passos federais e, neste sentido, já não dá para construir a UE sem o consentimento explícito dos soberanos. Para a confederação, um Kant for dummies chegava. Para o federalismo, é preciso trazer a artilharia pesada: Hamilton e Madison. E aqui a coisa começa a doer, e até pode não resultar.
Sempre defendi Merkel por causa deste ponto: as mudanças em curso exigiam uma lenta gestão da democracia alemã. Como é óbvio, a construção do Euro não podia ignorar o demos germânico. Pela mesma ordem de razões, respeito o curto-circuito que Papandreou lançou no sistema. O soberano grego tem de clarificar a sua posição, e isso é feito na urna pela maioria silenciosa, e não na rua por minorias gritonas. Sim, Papandreou desrespeitou todos os preceitos institucionais. Sim, 'grego' começa a ser sinónimo de tipo-que-não-merece-confiança. Sim, Papandreou podia ter provocado eleições dignas em vez deste referendo pindérico. Sim, as minhas convicções institucionalistas estão todas arrepiadinhas com esta descida aos infernos da democracia directa. Sim, eu sei isso tudo. Mas também sei que chegámos a um ponto limite que exige soluções claras e brutais. Sim, brutais. O tempo exige a brutalidade de um Leviatã sem ambiguidades. Queremos ou não lutar pelo Euro e pela UE? E, neste momento, caso não ocorra esta clarificação política, as instituições podem transformar-se em catedrais vazias. Na Grécia, noutros países e em Bruxelas.
Portanto, o povo grego será o primeiro soberano europeu a perceber que não existem boas soluções para esta crise. Os gregos terão de escolher entre dois males: ou querem empobrecer-um-pouco-de-forma-previsível-e-dentro-da-UE (o "sim"), ou querem-empobrecer-muitíssimo-de-forma-imprevisível-e-fora-da-UE-enquanto-lançam-o-caos-nos-outros-países-do-Euro (o "não"). Sim, devemos torcer pela vitória do "sim", mas não podemos invalidar a legitimidade do "não". Sim, o "não" constitui um harakiri grego, mas a lei da gravidade da política é mesmo assim: a liberdade soberana não garante a inteligência soberana. Seja como for, com ou sem inteligência, a Grécia e a UE precisam desta clarificação. Todos nós, gregos e não gregos, vamos ser forçados a fazer escolhas e a viver com as consequências dessas escolhas. O referendo grego é só o início do regresso da política à Europa. Habituem-se.
Crónica do dia 5 de Novembro
. Os actores gregos mudaram, mas o essencial continua de pé: não há soluções indolores para o caos grego e europeu. Neste fase do campeonato, é preciso desconfiar daqueles que prometem caminhos imunes à dor e à incerteza. O "não pagamos" da esquerda radical tem um custo elevadíssimo (um pormenor que os santos desta tribo deixam sempre de lado). A outro nível, as Eurobonds não resolveriam, por artes mágicas, os problemas económicos e financeiros de gregos ou portugueses. A institucionalização das Eurobonds representaria a institucionalização da troika. Os gregos e os portugueses querem isso? Não existem boas soluções à nossa frente.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta feira, 9 de maio de 2012
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A esquerdinha está furibunda com as massas populares. Anda por aí um show de snobismo esquerdista perante as pessoas que passaram pelo Pingo Doce no dia 1 de Maio. Nada de novo, diga-se. É a vidinha na sua doce normalidade: aqueles que estão sempre a falar de um Pobre em abstracto assustam-se quando vêem pobres de verdade. Amar uma Humanidade Pobre e à Espera da Nossa Ajuda é bom, é exultante. Aliás, esse amor é tão épico que depois não há espaço para a compreensão empática dos pobres reais
. Mas - convém reforçar - este nojo da esquerda croquete em relação às massas não é coisa nova. Basta folhear o livro de Nick Cohen para encontrarmos um inventário desta snobeira mui progressista
. Tenho de confessar, porém, que compreendo este despeito. Marxistas e socialistas, coitadinhos, foram traídos pelas massas ignaras.
No início, no século XIX e até na primeira metade do século XX, a esquerdinha queria proteger a "classe operária" ocidental. Mas, de forma muito ingrata, os pobres ocidentais não abraçaram a revolução ou o homem novo. Pelo contrário, abraçaram as delícias modestas e a abundância da sociedade liberal (até porque o tal estado social foi projectado por conservadores e liberais). E daqui nasceu o nojo progressista em relação ao tal "consumismo", que representa - no jargão da espécie - a alienação silenciosa às mãos dessa tirania invisível chamada "capitalismo". Ora, ante esta traição histórica do proletariado ocidental, a esquerdinha - a partir dos anos 60 - virou atenções para os descamisados do Terceiro Mundo. Pela mão de Marcuse, os revolucionários de cadeirão passaram a dizer que a "globalização" era uma forma de o Ocidente explorar o Terceiro Mundo. E, claro, nasceu ali uma nova profecia. O "capitalismo" não morreria às mãos dos trabalhadores ocidentais. Marx não tinha percebido bem a coisa. O "capitalismo" morreria, isso sim, às mãos das hordas de Frantz Fanon, que invadiriam e destruiriam o Ocidente. Quando apoiou a revolução de Khomeini, Foucault não pensava noutra coisa.
Mas, mais uma vez, a traição dos pobres surgiu no horizonte. Contra as leis da física e quiçá da química, a tal "globalização" retirou poder ao Ocidente e enriqueceu os tais descamisados do tal Terceiro Mundo. A "globalização predatória", afinal de contas, retirou centenas e centenas de milhões de pessoas da pobreza provocada pelo colonialismo e pelas opções marxistas e socialistas pós-descolonização. Hoje em dia, os chineses, brasileiros, indianos e afins não querem a revolução mundial de Marcuse, Fanon ou Foucault. Querem, isso sim, participar na governança da tal "globalização" (FMI, Banco Mundial, etc.) e, acima de tudo, querem usufruir da abundância "burguesa". E agora? Quem salva a esquerdinha? Depois dos pobres ocidentais e dos pobres do Terceiro Mundo, quem serão os novos mártires à espera da bondade da esquerdinha? Talvez os ursos polares do Al Gore.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Terça feira, 8 de maio de 2012
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Há dias, um amigo chegou e disse "acho que vou perder a casa, acho que tenho de dar a casa ao banco". Num acesso de misericórdia, não relembrei conversas passadas, bate-bocas em que ele gozava com a minha "paranóia contra os bancos" e com a minha "obsessão idiota com o aluguer de casa". Ele achou que ficar preso a 40 anos de empréstimo bancário era a solução. Tal como milhares de outros portugueses, o meu imprevidente brother não parou para pensar no seguinte: em 30 ou 40 anos, a economia vai e vem, logo, o emprego também pode ir e vir, mas aquele empréstimo fica sempre no mesmo sítio; é um encargo demasiado rígido para a vidinha. Se tivesse parado cinco minutos para pensar, talvez o meu amigo tivesse compreendido, em tempo útil, a "obsessão idiota com o aluguer de casa".
Agora o meu amigo vai ter de lidar com as consequências da sua escolha. Mas, caramba, o banco também devia ser obrigado a enfrentar as consequências das escolhas que tomou. Se o meu amigo perder a casa, o banco devia perder alguma coisa, que é como quem diz 0,00000000000000000000000001% do seu capital. Sim, o meu patrício deu um passo maior do que a perna, mas a maior irresponsabilidade foi cometida pelo banco. Como é que o banco passou cheques a jovens de vinte e poucos anos e sem emprego-para-a-vida? Como é que bancários e banqueiros puderam ser tão idiotas? Aqueles MBA serviam para quê? O banco do meu amigo e os restantes cometeram, durante décadas, uma irresponsabilidade histórica, e agora têm de ser chamados à responsabilidade. Não se podem ficar a rir.
E não se podem ficar a rir por duas razões de ordem moral (sim, há vida para lá do Excel e do MBA). A primeira parte da seguinte pergunta: após entregar a casa ao banco e após perder o restante património igualmente penhorado para saldar a dívida, uma pessoa merece continuar presa ao empréstimo inicial? Não, não merece. Perder a casa e o restante património é sentença suficiente. Permitir que o banco continue a penhorar o vencimento da pessoa após aquela dupla penhora cheira a escravatura bancária. E este ponto já está relacionado com a segunda questão: como qualquer actividade económica, a actividade bancária pressupõe uma dose de risco, mas, no caso dos empréstimos bancários, os bancos não têm qualquer risco. Numa primeira fase, dão dinheiro a quem não deviam dar, assumindo um risco temerário. Depois, quando as coisas começam a correr mal, os bancos exigem que pessoa continue a pagar o empréstimo até ao último tostão mesmo quando a casa e o restante património já foram penhorados. Por outras palavras, os brincalhões com MBA estão numa actividade livre de risco. Isto não está certo. Se o meu amigo perder a casa, a malta do MBA tem de perder 0,00000000000000000000000001% do seu capital.
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Henrique Raposo (www.expresso.,pt)
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8:00 Quinta feira, 3 de maio de 2012
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1. A moralidade marxista permite ao esquerdista dizer uma coisa e o seu contrário sem perda de legitimidade. Ou seja, a vulgata marxista transforma a verdade numa coisa plástica, adaptável a cada contexto táctico. Até há uns dias, ainda não tinha percebido bem esta lição do mestre. Mas agora acho que já percebo, e vou demonstrá-lo com um exercício mui científico.
2. Pingo Doce não faz descontos ou promoções. Reação dos donos da justiça social e da pureza de coração? Eis a prova da insensibilidade social dos porcos capitalistas.
3. Pingo Doce faz um desconto de 5%. Reação dos justos? Os porcos capitalistas estão a gozar com o povo. Tendo em conta os seus lucros, o Pingo Doce podia fazer promoções com valores superiores, estilo 20%, 30% e quiçá 50%. Que desumanidade.
4. Pingo Doce faz desconto de 10%. Reações dos donos da bondade? Os capitalistas continuam a gozar com o povo. Promoção de 10%? Mais valia estarem quietos. Isto é andar a brincar com as pessoas. Que insensibilidade.
5. Pingo Doce faz desconto de 30%. Reação dos donos da verdade? A pocilga capitalista está a tentar enganar o povo com esta falsa bondade. Quem é que eles pensam que enganam? O Pingo Doce tem os armazéns cheios de coisas velhas, logo, está a tentar esvaziá-los à custa das pessoas. Não se deixem enganar. A desumanidade não passará.
6. Pingo Doce faz desconto de 50%. Reação dos donos da Humanidade? Que coisa desumana. Até me apetece vomitar perante tamanha malvadeza. Nesta altura de crise, fazer descontos de 50% é andar a gozar com as pessoas. Aliás, isto já não são pessoas, mas sim mortos-vivos a consumir sem propósito. A minha alma humanista está chocada. O meu amor pela Humanidade está de luto. Chorem comigo, por favor.
7. Pingo Doce faz descontos de 60%. Reação daqueles-que-falam-em-nome-da-Pobreza-sem-nunca-terem-conhecido-um-pobre? Eis o Apocalipse, meus senhores. O Pingo Doce não pode fazer saldos. Os saldos são para coisas cool e trendy como um ipad, e não para coisas pindéricas como um pacote de fraldas. E, já que estamos aqui, os saldos deviam ser proibidos pela lei. Se uma promoção de 50% é um atentado à humanidade, os saldos constituem um genocídio perpetrado por esse monstro totalitário chamado a exploração-do-homem-pelo-homem.
8. Pingo Doce faz fundação inovadora que estuda o país como ninguém. Reação dos justiceiros que adoram o Pobre em abstracto? Continuem a chorar comigo, por favor. Esta é mais uma ofensiva do capital, desta vez no campo do conhecimento, meus deus. Este tipo de recolha de dados e de estudo deve ser feito por um instituto público e nunca por uma fundação privada, meus deus, que ainda por cima, meus deus, é financiada por um merceeiro.
9. Dono do Pingo Doce doa parte da fortuna para a edificação de uma fundação que estará na vanguarda do combate ao cancro. Reação dos santos progressistas? Eis a manipulação derradeira do capital. No final da vida, o capitalista quer dar uma indulgência à sociedade que explorou durante décadas. Não se deixem enganar. Um capitalista é um pulha sem salvação.
10. Moral da história? Faça o que fizer, o Pingo Doce é desumano. A presunção de superioridade moral dos santos progressistas assim o exige.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta feira, 2 de maio de 2012
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Sim, eu sei que é doloroso. Sim, eu sei que custa ouvir. Mas a Cassandra-ao-contrário tem de registar mais um conjunto de boas notícias sobre Portugal. É, de facto, escandaloso e quiçá inadmissível, mas o Apocalipse da choldra vai ter de esperar. E, atenção, as boas notícias já não ficam limitadas às nossas exportações supersónicas
. Parece que o investimento directo estrangeiro também quer ajudar. Subiu 270% em 2011
e continua em alta em 2012. Há duas semanas, a Easyjet inaugurou uma nova base em Lisboa, um pormenor que representa um impacto directo de 600 milhões na nossa economia (Expresso economia, 21 de Abril). Há dias, a Nokia/Siemens anunciou um novo investimento em Portugal, um pormenor que representará 1500 postos de trabalho. Não por acaso, a consultora Gartner considera Portugal como um dos países desenvolvidos com mais potencial para serviços off-shore de tecnologia de informação (Expresso Economia, 28 de Abril).
Depois convém registar que os juros da nossa dívida soberana continuam a cair.
Um pormenor que parece não interessar as nossas TV. Quando os juros subiam, a notícia abria os telejornais. Agora os juros estão a descer, mas a notícia não abre os telejornais. Confesso-me fascinado por este critério editorial, até porque é mais fácil encontrar referências a este facto num telejornal estrangeiro (BBC World ou Deutsche-Welle). De igual modo, as redacções desprezaram um relatório da OCDE muito simpático para Portugal.
O que diz esse relatório? Todos os países desenvolvidos terão de cortar na despesa do estado no sentido de assegurar a sustentabilidade das dívidas soberanas. Reino Unido, EUA e Japão estão nos lugares mais complicados, e - que escândalo! - Portugal aparece no pelotão da frente. Ou seja, "Portugal não vai precisar de tanta contenção orçamental no futuro porque a maior parte do trabalho de reestruturação da despesa está a ser feito agora".
Para terminar, a Cassandra-ao-contrário gostava de apontar para uma mudança de paradigma na nossa economia. Os nossos sectores tradicionais continuam fortes, sim senhora, mas o dado mais positivo não é a resiliência do sector do vinho, cortiça ou vestuário e calçado. O que é realmente determinante é o sucesso de Portugal em novos sectores de ponta. Já vimos que Portugal é um jogador no campo das tecnologias da informação, e agora podemos olhar para outro pormaior: já exportamos mais saúde do que vinho ou cortiça. O chamado turismo da saúde, uma actividade que precisa de ciência e tecnologia, é uma actividade central no nosso PIB
. Quem diria? Quem diria que o país da choldra iria ser uma potência da economia da saúde? Um escândalo, de facto.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda feira, 30 de abril de 2012
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Dizem que Portugal não é a Grécia. E, de facto, não somos a Grécia. Depois dizem que Portugal não tem uma bolha imobiliária como Espanha. Lamento, mas aqui o otimismo não pega. Nós temos uma bolha imobiliária. Aliás, a nossa absurda dívida privada assenta numa enorme bolha imobiliária criada pela obsessão colectiva pelo crédito à habitação. Não, não é um subprime fulminante como nos EUA e Islândia, mas é, com certeza, um subprime em câmara lenta. Todos os dias, dezenas de pessoas entregam as chaves ao banco. É por isto que a decisão do juiz de Portalegre é digna de registo
. Esta decisão judicial reconhece o problema e, mais importante, aproxima Portugal de soluções já existentes noutros países europeus. Na Islândia, por exemplo, o Supremo Tribunal ordenou a revisão em baixa de contratos de compra de casa
. E, em Espanha, a decisão do jovem juiz de Portalegre é prática comum desde 2009.
Não sei argumentar sobre as razões jurídicas apresentadas pelo juiz
, mas conheço duas grandes razões políticas e até morais para defender esta decisão. Em primeiro lugar, os bancos viciaram a sociedade no crédito à habitação ao longo das últimas décadas. De forma absurda, Portugal tem uma taxa de casa própria a rondar os 80% (na Alemanha ronda os 40%). Como é natural, no meio desta loucura organizada, os bancos acabaram por dar crédito a pessoas que não tinham condições financeiras para tal. Por outras palavras, os bancos portugueses criaram o seu próprio subprime, fizeram a cama onde agora têm de deitar o corpinho. Esta irresponsabilidade histórica tem de ter custos para os próprios bancos. Em segundo lugar, a banca está a receber milhões de euros do BCE a juros baixíssimos e depois, de forma infame, a mesma banca não empresta esse dinheiro à economia. Portanto, os senhores banqueiros têm dinheiro mais do que suficiente para encaixar as perdas geradas pela generalização da decisão do juiz de Portalegre.
É preciso perceber que um empréstimo garantido em 2006 parece uma coisa de uma era longínqua ou de outro planeta, porque o choque financeiro de 2008 e dos anos subsequentes foi, de facto, um acontecimento tectónico. As balizas da realidade mudaram por completo e, nesse sentido, as práticas também têm de mudar. Em Espanha, uma grande parte dos bancos acabou de assinar um código de conduta assente em dois pressupostos: é preciso reestruturar o crédito à habitação das famílias em risco (algo já feito na Islândia); se a reestruturação já nem sequer for possível, a entrega da chave é suficiente para liquidar a dívida. O próprio FMI já afirmou que é necessário um programa de reestruturação da dívida das famílias dos países viciados em crédito à habitação. Como se vê, a força é forte com o juiz de Portalegre.
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