A guerra fria começava a aquecer e a luz azul brilhava pela primeira vez em Portugal. Estávamos em 1961 e o reator nuclear de Sacavém, às portas de Lisboa, nascia à luz do programa norte-americano Átomos para a Paz.
Mas nada disto teria acontecido se Portugal não fosse um país amigo dos Estados Unidos da América e se não tivesse assinado uma declaração segundo a qual o reator nacional seria apenas usado para aplicações pacíficas.
E foi naquele mesmo ano que chegou a Lisboa a primeira remessa de combustível - urânio altamente enriquecido, a 90% -, para que a cisão nuclear acontecesse pela primeira vez em Portugal.
O reator português foi construído exclusivamente para fins de investigação científica, e assim se manteve até hoje. No Instituto Tecnológico e Nuclear (ITN) trabalham 300 pessoas, das quais 70 são investigadores.
Montalvão e Silva, presidente do ITN, garante que, se a questão do nuclear um dia se colocar, Portugal está "bastante bem preparado, com gente muito competente na matéria".
Partir átomos debaixo de água
A piscina tem nove metros de profundidade e as paredes de betão de alta densidade que ladeiam o reator têm dois metros de espessura. Lá no fundo, sensivelmente a oito metros da superfície, os átomos são escaqueirados (dá-se a cisão nuclear) e libertam ondas de choque que produzem aquela luminosidade azulada.
"Na verdade, o que ali está a acontecer é que partículas carregadas de eletrões e positrões estão a ser libertadas na água e viajam nela a uma velocidade superior à da luz. Daí aquele efeito luminoso ao longo de vários centímetros." A explicação é dada por José Marques, responsável pela operação do reator. Nota ainda que a água serve para arrefecimento do reator e é também uma "excelente" protecção radiológica.
Por outro lado, sublinha, a água desempenha ainda a função de moderador, "para que a cisão seja eficiente".
As radiações libertadas são depois utilizadas pelos investigadores para vários tipos de aplicações, nomeadamente em análises por ativação de neutrões. Uma das mais recorrentes é a análise de metais pesados na atmosfera. Mas também já se trabalhou ali para grandes laboratórios internacionais.
Reator em operação
Uma hora e quinze depois de termos entrado no edifício que abriga o reactor nuclear, o dosímetro electrónico que transportámos encostado à parte esquerda do tórax marcava 0,3 microsieverts.
O que é isto? Cerca de um terço de mil vezes menos daquilo que o nosso organismo pode suportar anualmente (e suporta) pela radiação natural que recebemos nos sítios onde vivemos. O limite anual tolerável pelo organismo humano é um milisieverts.
O ambiente dentro do edifício do reator remete para um cenário de ficção científica. Entra-se passando por duas portas de aço com mais de um palmo de espessura cada.
A segunda só abre quando a primeira está totalmente fechada. Circula-se com cuidado sobre a ponte metálica que atravessa a piscina e, num gabinete fechado ao lado do reator, alguns técnicos controlam tudo ao pormenor. No centro das atenções, a inconfundível luz azul, que alimenta os sonhos de José Marques: "Esta luz é única. Sinto que herdei um sonho, que é manter esta máquina em operação."