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Há um novo teatro no Bairro Alto

No antigo edifício do "Diário Popular" foi 'erguido' o Teatro do Bairro. Dança, teatro, cinema e música num espaço alternativo inovador.
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Alexandre Oliveira (à esq.), produtor e diretor da Ar de Filmes, que gere o espaço, e o ator e encenador António Pires, seu diretor artístico
Alexandre Oliveira (à esq.), produtor e diretor da Ar de Filmes, que gere o espaço, e o ator e encenador António Pires, seu diretor artístico / José Ventura

Os mais velhos lembram-se ainda do magote irrequieto à espera, fumando um cigarrito, levando aos lábios um copo de tinto ou a carcaça com o pastel de bacalhau. Adultos uns, quase crianças outros, às vezes toda a família de ardinas ou de donos e arrendatários de quiosques de jornais, obstruindo a rua à espera da saída dos vespertinos.

O Bairro Alto por esses tempos fervilhava por via das redações de pelo menos meia dúzia de jornais e revistas, das casas de venda, das tipografias. As prostitutas vinculavam-se a outras esquinas e os novíssimos magotes, da malta dos copos de cerveja e shots, dos 'botelhões' e das noitadas modernaças, ainda não tinham tomado conta das ruelas.

Na Rua Luz Soriano era a redação do "Diário Popular" e no nº 63 abria-se a bocarra que abrigava a máquina impressora. A ferramenta enorme já lá não está: deu lugar ao buraco onde se abriu a caixa negra que dá corpo ao Teatro do Bairro, uma aventura meditada e erguida de fio a pavio por Alexandre Oliveira, alma da Ar de Filmes, produtora de cinema e de teatro que não despreza outras artes e que se mete por estes caminhos com vontade de criar.

Panóplia de espetáculos e ambientes


Mais do que uma sala de teatro, o Teatro do Bairro - inaugurado esta semana - é um espaço imaginado para variadas valências, permitindo uma panóplia de espetáculos e ambientes decorrentes de cada um dos usos que se lhe quiser, muitos deles já preparados.

Uma zona de bar aberta sobre o 'cubo' da sala permite pensar tais ares inovadores, especialmente quando se percebe que a bancada, para 80 espectadores, é retrátil, para que deixe disponível mais área a atividades livres de assentos. Para além desses lugares, haverá a somar outros 20, reorganizando-se o local das mesas do bar.

Já se vê que o arquiteto Alberto Santos Oliveira pensou em tudo para corresponder aos interesses da empreitada artística. "O local vai responder a tantas hipóteses de programação quantas desejarmos. Com o teatro e o cinema como pedras influentes, mas pensando igualmente na música mais diversificada, ou na dança", explica Alexandre Oliveira.

Também de indisfarçável sorriso estampado na cara, ainda no meio de muito pó de obra e batidas de carpinteiro, António Pires, encenador da peça que abriu o novo recinto - "Vida de Artistas", que estará em cena de quarta a sábado, às 21h, até 26 de março, um texto de Luísa Costa Gomes em torno da condição de ator em Portugal - e diretor artístico do recinto, lembra: "O Bairro Alto tem múltiplas ofertas, mas depois que saíram do casarão do jornal 'A Capital' os pioneiros Artistas Reunidos, a sociedade artística dirigida por Jorge Silva Melo, apenas a Zé dos Bois persiste em propor acontecimentos de âmbito cultural. Acho que esta aposta vem enriquecer a vida cultural da cidade, propondo programas que se entretecem muito bem com os hábitos noturnos a que o bairro nos acostumou."

Fica claro que desejam essa ligação íntima e apostam nela; a própria programação está pensada para a diversidade de gostos dos clientes habituais desta zona da cidade. O ritmo das propostas é diário e diversificado, ancorado na qualidade dos nomes que por ela se responsabilizam.

Domingo, dia de cinema


Domingo é dia de cinema, de manhã à noite, começando com sessões infantis e continuando numa aposta alternativa de distribuição e exibição cinematográfica às que existem, o que fazia flagrante falta, vindo colmatar uma lacuna grave: pelas mãos da cooperativa Zero em Comportamento (lembrem-se das sessões no Cinema 222 e na própria atividade do IndieLisboa...) serão exibidos filmes que dificilmente poderiam ser vistos noutras salas.

Às segundas, ao toque das 23h, tempo de fado, orientado pela ação da Mesa de Frades, apresentando-se Ricardo Ribeiro, Joana Amendoeira, Rebelo de Andrade, Ana Sofia Varela e Tânia Oleiro, entre mais nomes a anunciar.

As sextas são divididas por outras músicas: nas primeiras de cada mês, o mítico BLeza, nos últimos tempos uma nau sem rumo certo, tem finalmente porto seguro e mostrará ritmos africanos, com predominância das vozes que cantam Cabo Verde. Já nas penúltimas sextas-feiras, a batida é de jazz, a partir do acordo com o Hot Clube de Portugal.

Mais que o Bairro Alto e seus habituais frequentadores, ganha a cidade. Daí o apoio da Câmara Municipal e da Gulbenkian. Bom sonho. E bons ares...

Texto publicado na revista Atual de 5 de março de 2011

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