Guterres: "Ajuda a refugiados está em risco"
O crescente número de refugiados em consequência de conflitos um pouco por todo o mundo, associado à recessão nos países doadores, poderão levar à rutura dos fundos dos organismos dedicados à ajuda humanitária, avança a edição de hoje do jornal "Folha de S.Paulo", que cita o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres.
Em entrevista ao jornal brasileiro, realizada durante a viagem a Teerão para dar assistência a 800 mil refugiados afegãos no Irão, o ex-primeiro-ministro português apela à comunidade internacional para 'abrir os cordões à bolsa', ou seja, reforçar os fundos destinados à ajuda humanitária.
Quatro crises agudas e casos de generosidade
De acordo com o Alto Comissário da ONU, "temos neste momento quatro crises agudas. Síria (250 mil refugiados), Mali (250 mil), um número muito próximo resultante do conflito entre o Sudão e o Sudão do Sul, e, recentemente, grandes fugas de população da República Democrática do Congo rumo a Uganda e Ruanda".
A estas crises humanitárias, acrescentam-se as situações mais antigas, com o Afeganistão e a Somália. "Não só do ponto de vista financeiro mas também humano, é muito difícil encontrar capacidade para responder a tudo isso", diz António Guterres.
Enaltecendo a "política de portas abertas" da Jordânia, Líbano, Turquia e Iraque - países que têm recebido milhares de refugiados sírios, "e que é essencial"-, Guterres refere que a "Jordânia e a Turquia fazem um esforço notável para manter as portas abertas, apesar do impacto inetivável do fluxo de refugiados sobre a sua economia. Há uma grande generosidade que deve ser reconhecida", afirma.
Questionado sobre a situação no Irão por causa do peso dos refugiados afegãos, o Alto Comissário da ONU diz não temer que os mesmos venham a ser expulsos do país. "O Presidente Mahmoud Ahmadinejad assegurou-me, de forma muito clara, que o espaço de proteção para os refugiados afegãos será mantido".
"O Irão, além de permitir que os afegãos trabalhem e que os seus filhos tenham acesso à escola, pretende regularizar a situação dos que estão ilegamente no país. São poucos os Governos dispostos a isso", acrescenta Guterres.
"Solução para as crises humanitárias é sempre política"
Segundo António Guterres, "nunca há solução humanitária para problemas humanitários. A solução é sempre política". O Alto Comissário da ONU cita, como exemplo, o caso da Colômbia, onde as partes envolvidas concordaram em negociar a paz. "Infelizmente, esta solução parece longe de se alcançar na Síria. O conflito tem tido consequências trágicas para a população que ainda se encontra no país, e para os 250 mil refugiados".
Guterres ressalta, no entanto, a colaboração, até aqui, das autoridades sírias para que o ACNUR (agência da ONU para os refugiados) possa continuar a atuar, dentro da própria Síria, junto dos refugiados iraquianos (que fugiram após a invasão norte-americana, em 2003). Embora persistam dois problemas sérios no país: "O acesso a certas zonas e a dificuldade em encontrar fundos".


Mohamed Azakir/Reuters
António Guterres, Alto Comissário para os Refugiados, ao lado de Angelina Jolie, embaixadora da ONU, numa conferência em Beirute no passado dia 12
