23 de abril de 2014 às 23:57
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Guerra de Divisas, a nova crise global?

Ben Davies, especialista financeiro em Londres, adverte que há o risco das grandes potências usarem as divisas como arma de política. E avisa, essa atitude pode desaguar no campo militar

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

A longa cauda desta Grande Recessão não para de surpreender. Mesmo depois de decretado o fim da recessão económica propriamente dita, o mundo foi sacudido por um novo tipo de crise, o da dívida soberana de várias economias desenvolvidas. E, ainda esta última crise vai no adro, já espreita uma outra, mais perigosa, pois coloca potencialmente em confronto direto grandes potências num jogo de soma nula no comércio mundial e no sistema monetário internacional: a guerra de divisas.

O primeiro a deixar o aviso público de que "ela rebentou" foi Guido Mantega, o ministro das Finanças do Brasil, secundado, esta semana, por Dominique Strauss-Kahn, o chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), que a classificou de "uma perigosa dinâmica". Por seu lado, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, disse que se deveria evitar "repetir os mesmos erros dos anos 1930".

Protecionismo em foco


O tema esteve na agenda da reunião ao pequeno-almoço de sexta-feira dos ministros das Finanças do grupo mais alargado do G20 e no jantar mais restrito dos do G7, nesse mesmo dia, na embaixada do Canadá, por ocasião do encontro semestral do FMI e do Banco Mundial em Washington DC.

O comunicado desta 22ª reunião do Comité Monetário e Financeiro Internacional e do Conselho de governadores do Fundo Monetário Internacional reafirmou a "rejeição do protecionismo sob todas as formas" e a necessidade de "uma resposta coordenada à crise", o que foi interpretado por alguns analistas internacionais como um incentivo ao armistício na guerra das divisas até à próxima reunião em abril de 2011. A reunião insistiu, também, na necessidade de "concluir a ronda de negociações de Doha" promovida pela Organização Mundial do Comércio, tendo em conta a aproximação de 2013, ano limite para a eliminação dos subsídios às exportações agrícolas.

Risco geopolítico


"Se as nações deixarem de comunicar nos assuntos de comércio internacional, os ressentimentos podem facilmente terminar em ações militares", diz Ben Davies, diretor geral e cofundador da financeira londrina Hinde Capital, em entrevista ao Expresso.

Davies considera "um verdadeiro tremor de terra" os recentes movimentos de manipulação de divisas - com destaque para a desvalorização abrupta do dólar americano em 13% em relação a um cabaz de moedas desde meados de junho, para a operação no mês passado em relação ao iene japonês, algo que o governo nipónico não fazia há seis anos, e para as novas decisões do Brasil no campo do controlo de capitais e de compra de milhares de milhões de dólares no mercado.

Como justificação para a intervenção, as autoridades americanas e de algumas instituições internacionais alegam que a China não valoriza mais diligentemente a sua moeda, o renminbi, que, apenas, se apreciou em 2,3% desde junho em relação ao dólar. Curiosamente, na sexta-feira, o câmbio do renminbi foi fixado em 6,683 por dólar, um máximo desde 2005. Desde essa data, a moeda chinesa valorizou-se em 22%.

Política monetária como arma adicional


O problema agrava-se, refere Davies, porque a Reserva Federal e o Banco do Japão estão a adicionar um plano de agressiva injeção de massa monetária - que dá pelo nome técnico de quantitative easing (QE) - a que também se associa o Banco de Inglaterra (que manteve inclusive o montante deste tipo de intervenção em 200 mil milhões de libras, cerca de €230 mil milhões). O Banco do Japão anunciou um programa de QE de 60 mil milhões de dólares (mais de 43 mil milhões de euros) - 70% dos quais em dívida pública.

O Banco Central Europeu tem, até à data, resistido a uma tal política, ainda que o esteja a fazer "indiretamente", diz Davies, através de uma política "de quase-subsídios aos orçamentos dos governos". O BCE tem, também recusado "alinhar" neste clima de guerra de divisas.

O fim de Bretton Woods II

A questão de fundo, no entanto, é a aproximação do fim de um era, que alguns alcunharam de "Bretton Woods II", um sistema específico de relação umbilical entre o dólar e o renminbi em vigor desde 1995. "Sim, os chineses querem sair desta relação, mas querem fazê-lo nos seus termos e dentro da sua agenda. A China, sejamos claro, acabará por enveredar por um processo de liberalização da sua divisa. Ela sabe que para consolidar a sua dominância como superpotência terá de ter um sistema flexível", refere o financeiro, que acrescenta: "A China tem de diversificar e de criar relações bilaterais fortes com outras nações, particularmente as que dispõem de recursos em matérias-primas e mercadorias. A China não se pode dar ao luxo de ser uma potência isolacionista".

Entretanto, Beijing tem vindo a dar passos no sentido de internacionalizar a sua divisa criando acordos de swap com a Rússia e o Brasil e estabelecendo um primeiro centro offshore para a sua divisa em Hong Kong, recorda o nosso entrevistado. Em 19 de junho decidiu, também, criar um novo quadro político que permitirá a maior flexibilização da política cambial apontando para uma valorização gradual da divisa, recordou, esta semana, o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet. No entanto, os passos da China serão, sempre, cautelosos. Como referia um editorial do Global Times, um jornal oficioso chinês em inglês: "Na valorização do yuan (renminbi), os Estados Unidos têm pouco a ganhar e a China tem a sua estabilidade social e económica em jogo".

A versão original da entrevista em inglês pode ser consultada aqui .

Adaptado e atualizado de artigo publicado na edição impressa de 9/10/2010.

Comentários 3 Comentar
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GGuerra de Divisas, a nova crise global ?
No meio da tempestade desta crise, referi aqui em mais de um comentário que o Mundo nunca jamais voltaria a ser o mesmo. Que nem o capitalismo nem o comunismo tal como os conhecemos tinham sido capaz de resolver os problemas da Humanidade. Referi que o capitalismo estava doente e só não se sabia quando seria a sua morte, tal como aconteceu com o comunismo, que ruiu de um dia para o outro. Referi que me parecia que o capitalismo não sabia viver sem o seu rival e precisava dele para continuar a sobreviver. Tive algumas vozes críticas, mas o tempo parece dar-me razão.
Re: GGuerra de Divisas, a nova crise global ? Ver comentário
Esperemos que seja só um recuo na globalização.
Nas sociedades modernas, o incentivo à competição é muito mais forte que à partilha e solidariedade, e os governos têm que prestar contas aos seus eleitores, que defenderão sempre os seus interesses, acentuando o fervor nacionalista com o aprofundar da crise social. É dos manuais.

Talvez chegue o dia em que exista uma sociedade globalizada, com cidadania, economia, moeda e governo globais. Nessa altura, a utopia de uma só pátria para a humanidade poderá parecer sonho realizável.

Mas nunca deixarão de existir os jogos de poder, por mais global que a política seja. Vamos ter que continuar a conviver com esse facto.

A moeda fiduciária é o agente infiltrado ao serviço dos estados, para apropriação da poupança via impostos, juros e inflação.

A exportação de dívida foi o método inovador usado para expandir soberania, subjugando outras economias e conquistando riquezas externas, projectando moeda de ocupação em vez de forças militares, com poupança de custos financeiros e políticos.

Consumimos o futuro a crédito e já não temos tempo para evoluir

Ao contrário da evolução via aperfeiçoamento, sublima-se a inovação constante, sem critério nem sedimentação.

Poderão as sociedades humanas aceitar os métodos de selecção usados pela natureza, em que sobrevivem os mais aptos de uma constante inovação genética? Para isso, teríamos que aceitar a morte tão naturalmente como aceitamos a vida, com a humildade que já deixámos de cultivar há muito.
peatrasluminic@gmail.com
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