25/05/2012 atualizado às 18:42

Guerra às quintas: O adeus às armas de António e Cleópatra

A batalha de Accio (2 de Setembro de 31 a.C.) marcou o fim de um ciclo de guerras civis em Roma e a afirmação do modelo imperial em detrimento da república. E mostrou que um bom general (Marco António) não é, forçosamente, um bom almirante.

Rui Cardoso
15:17 Quarta feira, 10 de junho de 2009
Reconstituição dos combates
Reconstituição dos combates

Com excepção das guerras com Cartago, Roma nunca teve que enfrentar uma grande potência naval. Por isso, a máquina de guerra quase perfeita que era a legião romana nunca teve um equivalente na marinha de guerra. Na disputa pela sucessão de César, Marco António e Octávio vão travar uma batalha naval em Accio, na costa ocidental grega, onde o menos mau dos almirantes, Agripa, vai acabar por vencer.

Este foi o tema da segunda sessão do curso livre "A Guerra no Mar", apresentado por Pedro Barbosa, docente e investigador da Faculdade de Letras de Lisboa. O ciclo que se prolonga até ao fim de Julho todas as quintas-feiras, é promovido pelo Centro de História da Universidade de Lisboa.Se a batalha de Accio tivesse sido travada em terra, a História não teria, eventualmente, seguido o curso que lhe conhecemos.

Marco António, não sendo Júlio César, era um dos melhores generais do seu tempo e não era fácil de bater no campo de batalha, sobretudo perante uma legião romana equipada e armada como a sua. Contudo, o confronto decisivo vai dar-se no mar, meio que António não dominava. Ainda que, como sublinhou Pedro Barbosa, não haja relatos independentes da batalha, só tendo chegado até nós os panegíricos ao futuro imperador Augusto, consegue-se reconstituir o essencial dos combates e das movimentações que os precederam.

À partida, o efectivo das duas frotas equivale-se: cerca de 400 navios para cada lado, com alguma vantagem de António nos navios pesados, que tem a apoiá-lo a frota egípcia de Cléopatra. Todos são navios de batalha a remos, desde as leves birremes às pesadas quinquirremes. Contudo, o antigo lugar-tenente de César vai cometer um erro crucial ao ancorar a frota no interior de uma baía com um canal estreito de acesso ao mar, junto a terras insalubres e pantanosas onde o paludismo se fazia sentir.

Cena do filme «Cleópatra» de Mankiewicz (1963): a preparação da batalha
Cena do filme «Cleópatra» de Mankiewicz (1963): a preparação da batalha

Desta forma, a frota de Octávio, comandada por Agripa, ao vir de norte, junto à costa, vai dar caça a alguns navios inimigos isolados e, sobretudo, fazer um bloqueio que impedirá o reabastecimento por mar dos contrários. "Seria uma boa posição para um combate terrestre mas nunca para uma batalha naval", explicou o conferencista. A zona onde se travará o combate é estreita e não permitirá fazer grandes manobras de envolvimento. A situação precipita-se.

Marco António e Cleópatra vêem o número de tripulantes diminuir e a fome e a doença grassarem no seu acampamento. Para reajustar o efectivo ao número de navios e impedir que as embarcações deixadas para trás caiam nas mãos de Octávio, parte da frota é queimada. Saem para o combate em mar aberto cerca de 200 navios, contra os 400 que os esperam. Dividida em duas alas, a frota de António investe contra o bloqueio. Habilmente, Agripa retira para o largo, evitando o primeiro combate e deixando os remadores contrários cansarem-se.

Abre-se uma brecha ao centro por onde, como estava combinado, as reservas, a cargo de Cleópatra, poderiam ter passado e envolvido o inimigo. Em vez disso, os barcos que escoltam o gigantesco navio da rainha viram para sul e fogem.

Ainda que Marco António e Cleópatra sobrevivam à batalha e conservem algumas forças residuais, a balança penderá definitivamente para o lado do futuro imperador Augusto, que não tardará a estabelecer o seu poder pessoal e enterrar de vez a República Romana. Como referiu Pedro Barbosa "é um pouco como os alemães na II Guerra Mundial. Não perderam a guerra na batalha de Berlim, em Abril de 1945 mas sim dois anos antes em Leninegrado e Estalinegrado".

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