25/05/2012 atualizado às 18:25

Gripe A: Fomos para a rua de máscara

De máscara na rua. No centro de Lisboa e nos transportes públicos a reacção é de estranheza perante quem circula com a cara semicoberta.

Ricardo Marques
20:02 Segunda feira, 20 de julho de 2009
O jornalista Ricardo Marques quando estava a fazer a reportagem
O jornalista Ricardo Marques quando estava a fazer a reportagem
Luiz Carvalho

Com os dedos cravados no meu braço, a mulher olha-me nos olhos:

"- Está com medo de morrer? É isso?"


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Menos de 12 horas depois de Portugal ter ultrapassado, na terça-feira à noite, a barreira psicológica dos 100 casos confirmados de gripe A, com a discussão sobre planos de contingência ao rubro e a doença a abrir telejornais e a encher as páginas de jornais do quiosque mais próximo, as pessoas continuam a passar por mim com aparente tranquilidade. E exceptuando a tal mulher, que já seguiu apressada rumo ao Rossio sem esperar pela resposta, ninguém parece reparar que tenho uma máscara na cara.

"Aparente" é a palavra-chave, pois muito pouco é aquilo que parece. Começando pelo mais óbvio: não tenho qualquer sintoma de gripe e o facto de ter metade da cara coberta com uma máscara verde serve apenas para avaliar a reacção dos portugueses ao convívio forçado com a doença. Segundo dados oficiais, o H1N1 irá afectar 25% da população. Olho à volta, na avenida da Liberdade, disposto a começar a contar. É impossível.
Pode ser que tudo mude entretanto, mas ainda a alguns meses do pico da epidemia, há duas ou três lições que convém fixar. A primeira é que, relativamente ao sujeito com a máscara, o resto dos humanos se divide em dois grupos: os que olham e os que, além de olhar, ainda olham para trás.

A segunda lição: apesar de as vendas terem aumentado, não existe, para já, risco de haver ruptura nos stocks de máscaras. A terceira: a tranquilidade das pessoas é apenas aparente. Sendo certo que ninguém foge a correr, também é verdade que não é preciso correr para fugir. No comboio, depois de uma rapariga simpática me ter cedido passagem à entrada, um casal evita, no último instante, sentar-se à minha frente. Optam por viajar de costas, a olhar para Cascais, em direcção ao Cais de Sodré. Perco-os de vista na estação, ao descer para o metropolitano.

Em sentido contrário seguem grupos de adolescentes a caminho da praia. "Este deve ter HIV", diz um rapaz, tão enganado como divertido. "Gripe suína. Gripe suína", grita outro. As amigas riem-se. Sempre é uma novidade, já que a maioria das pessoas parece olhar-me com um misto de medo e pena. Num café, os três homens que conversam ao balcão com o empregado calam-se imediatamente à minha entrada. Um deles, o que está mais perto, recua à procura de uma distância segura. Uma espécie de última fila do cinema para ver um filme estranho com um tipo de máscara no papel principal. Deito açúcar, mexo, levanto a máscara, bebo, baixo a máscara. E eles ainda olham.

Há quem seja mais subtil e precise apenas de um breve movimento de olhos para avaliar a situação. Como fez uma rapariga que caminhava na minha direcção. Ao reparar no tom verde da máscara, corrigiu a rota apenas o suficiente para passar à distância de um braço esticado. Não conseguiria tocar-lhe se tentasse e o mais provável é que acabasse a acenar-lhe. Afinal, ela faz parte daquele segundo grupo de pessoas.

A consequência mais óbvia de ter sempre toda a gente a olhar para nós é não repararmos quando alguém está a olhar para nós. É isso que tento explicar a um amigo que encontro na rua, à porta de uma loja, e que estava a observar-me há minutos. Isso e, claro, que não estou doente. "Passaram aqui umas senhoras que, mal te viram, mudaram de passeio e não foram à loja", diz.

O problema é que, por vezes, não há fuga possível. Quando o táxi pára e decido abrir a porta, com o mesmo braço que a mulher agarrou, já não sou eu que estou a pensar na morte. "Não vem para aqui encher-me o carro de doenças, pois não?", pergunta-me o taxista, assustado.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 de Julho de 2009

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Os frutos do desconhecimento
dedalo11 (seguir utilizador), 2 pontos , 20:46 | Segunda feira, 20 de julho de 2009
Esta descrição é francamente uma mostra inequívoca de como somos, nós os portugueses. Somos assim: tolerantes medrosos. As reacções aqui descritas também apontam no sentido de que os cidadãos não estão suficientemente informados, pois deveriam saber que a menos perigosa das pessoas, se e quando a pandemia se abater sobre o país, será aquela que use uma máscara, como o fez o jornalista. Assim, epara além da ameaça da gripe temos uma outra ameaça, que é a nossa ignorância sobre o que fazer, pelo menos em relação aos outros e isso apenas pode levar ao medo. Claro que somos portugeuses e como tal, à última da hora estaremos todos física e psicológicamente bem preparados seja parao que for. Mas como sempre, em cima da hora, o que neste caso não é um bom sintoma de defesa em relação à gripe A. Ou o medo ajuda? Também será verdade!
 
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    Re: Os frutos do desconhecimento    Ver comentário
PresidenteDaJunta (seguir utilizador), 1 ponto , 6:26 | Terça feira, 21 de julho de 2009
TER PARA CRER
Musoko (seguir utilizador), 2 pontos , 21:45 | Segunda feira, 20 de julho de 2009
E no entanto as máscaras esgotaram, alguém está a ganhar muito muito dinheiro.
 
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Isto é a Silly Season. já começou a palhaçada
soliloquio (seguir utilizador), 1 ponto , 21:07 | Segunda feira, 20 de julho de 2009
Caro Jovanoti tem toda a razão. Isto é a Silly Season. já começou a palhaçada, deve ter sido uma ideia peregrina de algum estagiário logo apadrinhada por alguém de direito. Assim se fazem grandes repórteres de coisa nenhuma. Apanhados, Ria se quiser, Só rir, Aqui foi filmado etc.
Gags for all.
Merry melodies
 
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Negócios.
Cruzadas (seguir utilizador), 1 ponto , 21:11 | Segunda feira, 20 de julho de 2009
Continua a venda da gripe. Os media fazem o seu papel. As farmacêuticas encomendaram a propaganda. É dinheiro que não se pode recusar.
 
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Tudo serve
Malekas (seguir utilizador), 1 ponto , 21:38 | Segunda feira, 20 de julho de 2009
Ganhar dinheiro, muito dinheiro, é o lema de vida que impera nestes tempos tão conturbados.
Seja pelo o que for, importa é "cheirar" as oportunidades para se concretizarem negociatas que encham os bolsos aos do costume.
Esta estorieta da gripe A, já cientificamente explicada como uma entre muitas outras formas de gripe existentes (nalguns casos, menos mortífera que a gripe "tradicional") servirá para se venderem máscaras, mascarilhas, caraças e caraçoilas, vacinas e outras mezinhas, para gáudio daqueles que já anteviam um longo período de tempo sem gerar lucros astronómicos.
A receita é invariavelmente a mesma. Assustam-se as pessoas para que as mesmas sejam tomadas por pânicos irracionais e depois é só vender o material dito "protector". Sai tudo como pãezinhos quentes.
Quando vamos a ver quem está por detrás destes esquemas, concluímos que são os mesmos, desde há uns tempos a esta parte.
E viva a gripe A.
A chamada gripe porcina que vai alimentar muita ave de rapina.
 
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chiu!
nadomorto42 (seguir utilizador), 1 ponto , 22:26 | Segunda feira, 20 de julho de 2009
chiu!
 
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    este flipou    Ver comentário
THUNDERSSTORM (seguir utilizador), 1 ponto , 8:52 | Terça feira, 21 de julho de 2009
Em portugal era de esperar
Nanquim (seguir utilizador), 1 ponto , 0:40 | Terça feira, 21 de julho de 2009
Tinha pensado não comentar nada hoje...
Nos últimos dias comentários cruzados deixaram-me exaurido devido á qualidade das questões que educadamente me colocaram e por isso mesmo mereciam resposta!
Mas é impossível resistir!
Quantas mais frases lia da notícia mais vontade tinha de rir.
E ao mesmo tempo que ria ficava admirado com a minha reacção.
Depois compreendi... foi tudo por causa de uma noticia que li.
Aqui no Brasil devido á grande dimensão do pais acontece uma coisa curiosa:
Nos estados do sul perto da Argentina, as pessoas estão em pânico, no norte não estão sequer preocupados. Mas o governo preocupado com o aumento de casos reforçou a presença do exercito na fronteira, como se fosse possível evitar a entrada do vírus por falta de visto no passaporte.
Será que a loucura dos procedimentos se propaga á medida que a doença avança?
Será que já fui contaminado pela loucura e não tenho consciência do perigo que corro?
Não me parece, apenas nós conhecemos a história do pastor e do lobo que nunca mais chegava... por isso deixámos de acreditar no perigo, e o pior vai ser quando nos cruzarmos com o vírus.
Mas o que é certo é que o vírus é muito activo mas só mata quando o estado de saúde das pessoas já não é bom...
Talvez acabe por acontecer como o caso da gripe das aves, e se assim for vamos ficar contentes pela nossa maneira de ser que não nos deixa preocuparmo-nos antes de tempo!
Eu aposto nisso!
E acho que o jornalista não conhece o povo português.
 
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    Re: Em Portugal era de esperar    Ver comentário
soliloquio (seguir utilizador), 1 ponto , 1:42 | Terça feira, 21 de julho de 2009
será?
leitaojo (seguir utilizador), 1 ponto , 7:27 | Terça feira, 21 de julho de 2009
Lá para o fim do ano vamos estranhar é quando virmos alguem sem máscara!
 
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Não seria melhor
Sebastião da Treta (seguir utilizador), 1 ponto , 7:56 | Terça feira, 21 de julho de 2009
levar um sino também?
 
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vamos morrer todos
THUNDERSSTORM (seguir utilizador), 1 ponto , 8:38 | Terça feira, 21 de julho de 2009
aaaaggghh....adeus mundo cruel
 
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Máscaras, só mesmo no Carnaval!
Motuproprio (seguir utilizador), 1 ponto , 8:41 | Terça feira, 21 de julho de 2009
Pobre país iliterato que se admira de ver transeuntes de máscara e aceita com naturalidade quando se escarra para o chão ou se abandona o papelinho publicitário, acabado de receber.
Em qualquer país decente, o uso da máscara é uma coisa natural. Que o digam os japoneses. Se se usa máscara, é porque alguma razão há para o fazer. É o óbvio. Toda a gente sabe que existe a gripe "A"! Para o português, "palhaçadas", só mesmo no Carnaval!
 
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    Re: Máscaras, só mesmo no Carnaval!    Ver comentário
THUNDERSSTORM (seguir utilizador), 1 ponto , 8:50 | Terça feira, 21 de julho de 2009
    Re: Máscaras, só mesmo no Carnaval!    Ver comentário
Motuproprio (seguir utilizador), 1 ponto , 9:04 | Terça feira, 21 de julho de 2009
    Re: Máscaras, só mesmo no Carnaval!    Ver comentário
Mary C (seguir utilizador), 1 ponto , 9:44 | Terça feira, 21 de julho de 2009
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