Com os dedos cravados no meu braço, a mulher olha-me nos olhos:
"- Está com medo de morrer? É isso?"
Menos de 12 horas depois de Portugal ter ultrapassado, na terça-feira à noite, a barreira psicológica dos 100 casos confirmados de gripe A, com a discussão sobre planos de contingência ao rubro e a doença a abrir telejornais e a encher as páginas de jornais do quiosque mais próximo, as pessoas continuam a passar por mim com aparente tranquilidade. E exceptuando a tal mulher, que já seguiu apressada rumo ao Rossio sem esperar pela resposta, ninguém parece reparar que tenho uma máscara na cara.
"Aparente" é a palavra-chave, pois muito pouco é aquilo que parece. Começando pelo mais óbvio: não tenho qualquer sintoma de gripe e o facto de ter metade da cara coberta com uma máscara verde serve apenas para avaliar a reacção dos portugueses ao convívio forçado com a doença. Segundo dados oficiais, o H1N1 irá afectar 25% da população. Olho à volta, na avenida da Liberdade, disposto a começar a contar. É impossível.
Pode ser que tudo mude entretanto, mas ainda a alguns meses do pico da epidemia, há duas ou três lições que convém fixar. A primeira é que, relativamente ao sujeito com a máscara, o resto dos humanos se divide em dois grupos: os que olham e os que, além de olhar, ainda olham para trás.
A segunda lição: apesar de as vendas terem aumentado, não existe, para já, risco de haver ruptura nos stocks de máscaras. A terceira: a tranquilidade das pessoas é apenas aparente. Sendo certo que ninguém foge a correr, também é verdade que não é preciso correr para fugir. No comboio, depois de uma rapariga simpática me ter cedido passagem à entrada, um casal evita, no último instante, sentar-se à minha frente. Optam por viajar de costas, a olhar para Cascais, em direcção ao Cais de Sodré. Perco-os de vista na estação, ao descer para o metropolitano.
Em sentido contrário seguem grupos de adolescentes a caminho da praia. "Este deve ter HIV", diz um rapaz, tão enganado como divertido. "Gripe suína. Gripe suína", grita outro. As amigas riem-se. Sempre é uma novidade, já que a maioria das pessoas parece olhar-me com um misto de medo e pena. Num café, os três homens que conversam ao balcão com o empregado calam-se imediatamente à minha entrada. Um deles, o que está mais perto, recua à procura de uma distância segura. Uma espécie de última fila do cinema para ver um filme estranho com um tipo de máscara no papel principal. Deito açúcar, mexo, levanto a máscara, bebo, baixo a máscara. E eles ainda olham.
Há quem seja mais subtil e precise apenas de um breve movimento de olhos para avaliar a situação. Como fez uma rapariga que caminhava na minha direcção. Ao reparar no tom verde da máscara, corrigiu a rota apenas o suficiente para passar à distância de um braço esticado. Não conseguiria tocar-lhe se tentasse e o mais provável é que acabasse a acenar-lhe. Afinal, ela faz parte daquele segundo grupo de pessoas.
A consequência mais óbvia de ter sempre toda a gente a olhar para nós é não repararmos quando alguém está a olhar para nós. É isso que tento explicar a um amigo que encontro na rua, à porta de uma loja, e que estava a observar-me há minutos. Isso e, claro, que não estou doente. "Passaram aqui umas senhoras que, mal te viram, mudaram de passeio e não foram à loja", diz.
O problema é que, por vezes, não há fuga possível. Quando o táxi pára e decido abrir a porta, com o mesmo braço que a mulher agarrou, já não sou eu que estou a pensar na morte. "Não vem para aqui encher-me o carro de doenças, pois não?", pergunta-me o taxista, assustado.
Texto publicado na edição do Expresso de 18 de Julho de 2009