Grécia e Portugal: os únicos "periféricos" com subida de juros
Num dia de baixa generalizada dos juros da dívida soberana em seis países da zona euro que estiveram em stresse em semanas anteriores, os juros dos títulos portugueses e gregos a 10 anos marcaram novos máximos históricos neste final do mês
As yields (juros) das obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam esta quarta-feira (30 de novembro) no mercado secundário da dívida em 14,05%, um novo máximo histórico desde a adesão ao euro. Também os juros dos títulos gregos com o mesmo prazo fecharam em 32%, um novo máximo histórico também, segundo dados da Bloomberg.
O prémio de risco para a dívida portuguesa marcou hoje novo máximo ao atingir 11,77 pontos percentuais (ou 1177 pontos base) de diferença em relação ao nível dos juros dos Bunds alemães que servem de referência na zona euro.
Este comportamento dos juros nestes dois casos contrasta flagrantemente com a descida generalizada nos outros cinco países da zona euro - Itália, Espanha, Bélgica, França e Áustria - que estiveram sob stresse elevado no mercado da dívida em semanas anteriores. Também os títulos irlandeses mantiveram a tendência de descida.
No caso das descidas para os títulos franceses e austríacos a dinâmica de queda foi muito elevada, com reduções entre 15 e 18% nos prazos a 2 e a 3 anos.
Assistimos, também, a uma descida muito significativa, entre 19% e 22%, nos juros dos Bunds, os títulos alemães, a 2 e a 3 anos.
Divergência nos "periféricos"
No seio dos "periféricos" têm-se manifestado, esta semana, claramente, duas dinâmicas distintas: a da vanguarda do risco de incumprimento da dívida - Grécia e Portugal - e a dos restantes.
Será importante verificar se esta assimetria se vai manter.
Isto não significa que nos restantes os sinais de risco não permaneçam. Os juros dos títulos italianos a 3, a 5 e a 10 anos continuam acima de 7%, apesar dos traders referirem que o Banco Central Europeu tem prosseguido com intervenções no mercado secundário. E os juros dos títulos irlandeses continuam acima de 9% nos prazos a 2, a 3, a 5 e a 9 anos.
O desanuviamento mais nítido ocorreu, entretanto, com as obrigações espanholas cujos juros nos prazos a 2, a 3 e a 5 anos já estão abaixo do limiar dos 6%. A Espanha acabou inclusive por sair na terça-feira do "clube da bancarrota" (o TOP 10 dos países com mais elevada probabilidade de incumprimento), deixando de acompanhar a Grécia, Portugal, Irlanda e Itália.
As decisões do Eurogrupo de terça-feira não provocaram reações negativas nos investidores internacionais. Os novos dispositivos do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (o lançamento de uma espécie de seguro nas emissões de títulos soberanos, criando uma proteção de 20 a 30%, e o estabelecimento de um ou mais fundos de co-investimento público-privado para intervir nas emissões de dívida e no mercado secundário), apesar das muitas dúvidas que subsistem sobre a sua dimensão e financiamento, não provocaram stresse.
O que se passou hoje a nível dos bancos centrais criou também um ambiente otimista que se repercutiu nos mercados da dívida e não só nas bolsas (que ganharam 3,7%), ainda que as decisões tomadas sinalizem graves problemas.
O banco central da China (Banco Popular da China) decidiu cortar o rácio de reservas para a banca em 50 pontos base (ou 0,5 pontos percentuais) pela primeira vez desde dezembro de 2008, no auge da crise financeira, o que deu um sinal de que as autoridades do país estão a procurar evitar uma quebra abrupta no seu crescimento económico, aliviando o controlo sobre a expansão de crédito. O rácio descerá, a partir de 5 de dezembro, de 21,5% para 21%.
Mais tarde, foi comunicada uma ação coordenada entre a Reserva Federal norte-americana, o Banco Central Europeu e mais outros quatro bancos centrais (do Canadá, Japão, Reino Unido e Suíça) no sentido de baixar, também a partir de 5 de dezembro, em 50 pontos base o custo de financiamento em dólares através de swaps (trocas recíprocas de divisas), aliviando o stresse no sistema bancário europeu que estava a sofrer de dificuldade extrema no acesso à divisa americana. A ideia é embaratecer a ampliar as linhas de liquidez em dólares entre aqueles bancos centrais que foram estendidas até 1 de fevereiro de 2013. Já em setembro tinha havido uma operação coordenada similar para dar liquidez em dólares ao sistema bancário europeu. Como medida de precaução, os bancos centrais decidiram, também, que a liquidez possa oferecer-se em cada um dos países em qualquer das divisas, o que significa que, em caso de necessidade, as linhas de swap estendem-se a outras moedas para além do dólar.
As principais intervenções coordenadas entre bancos centrais ocorreram em dezembro de 2007, em março, setembro e outubro de 2008, e em agosto e setembro de 2011.



